Os quase completos – Felippe Barbosa

Título: Os quase completos
Autor: Felippe Barbosa
Editora: Arqueiro
Páginas: 384
Ano: 2018

(Para ler ao som de: Por você – Frejat)

Estava eu na internet dia desses quando me deparo com esse livro. Autor que eu não conhecia, livro nunca visto. Mas a capa chamou a minha atenção. Decidi ler a sinopse do livro e acabei comprando-o. Foi uma ótima escolha! Devorei o livro todo, destaquei várias passagens. Mas, sem mais delongas, vamos à resenha!

Em os quase completos temos três histórias que, de alguma forma, se cruzam e se completam. É difícil, por isso, falar muito sobre esse livro sem dar spoilers. E, para dificultar ainda mais, Felippe Barbosa escreve de um jeito muito interessante, dando as informações aos poucos. Há mistérios por toda a parte e o tempo todo ficamos com aquela sensação de “o que vai acontecer agora?”.

“- Ora, nossa vida é feita de mudanças repentinas”

Os quase completos (p.187)

O livro vai se alternando entre as histórias do “Quase doutor”, do “Quase repórter” e da “Quase viúva”. O “quase doutor” e a “quase viúva” narram suas partes, enquanto o “quase repórter” tem sua história narrada. Não sei se compreendi muito bem porque foi feito assim, mas talvez seja porque a história do “quase doutor” e da “quase viúva” sejam centrais. E bem, tem o plot twist do final também…

“Falar de nós mesmos, afinal, é como contar uma história”

Os quase completos (p.361)

O “quase repórter” chama-se Victor. Por mais que ele não apareça tanto ao longo do livro, suas aparições são bem importantes (e gostosas de ler, apesar da melancolia).

“É interessante indagar se a rotina pertence a um indivíduo ou se é o indivíduo que pertence à sua rotina”

Os quase completos (p.12)

A “quase viúva”, por outro lado, chama-se Verônica. Seu marido está internado e, como se isso já não fosse drama suficiente na vida de alguém, ela começa a ter algumas crises existenciais, agravadas pelas falas do paciente que está dividindo o quarto com seu marido.

“É nos momentos mais frágeis que nos mostramos mais corajosos”

Os quase completos (p.99)

Por fim, o “quase doutor” passa boa parte do livro, digamos… Em outro plano.

“Jamais saímos de um ônibus do mesmo modo que entramos”

Os quase completos (p.336)

Há ainda outros personagens importantes nessa história, como Mira, o dr. Carlos, Celina e a família do “quase doutor”, mas se eu começar a falar de cada um deles, talvez você só termine de ler essa resenha amanhã…

O que os três personagens têm em comum é o fato de estarem insatisfeitos com suas vidas. O “quase doutor”, por exemplo, vai aos poucos descobrindo que vive a vida que sonharam para ele, e não a vida que ele sempre sonhou para si. Verônica, por sua vez, passa por descobertas bem parecidas, enquanto Victor tem consciência de que seu emprego não lhe agrada, mas não parece fazer muito para mudar de vida.

“- A gente nunca para para pensar sobre a gente, não é?”

Os quase completos (p.215)

Os quase completos é um livro que fala sobre buscarmos nossos sonhos e nossa felicidade. Acreditar que aquilo que nos faz feliz é possível. E a maneira como tudo isso é mostrado na história é bem interessante.

“Quando somos amados, é de esperar que a pessoa também ame os nossos sonhos”

Os quase completos (p.182)

E por mais que não seja exatamente uma história de amor, esse sentimento aparece em abundância no livro, sem soar clichê. Muito pelo contrário, aliás: aparecem muitas dúvidas, medos, brigas, perdas, escolhas…

“Isso não é bobo. Todo mundo quer ser amado. Isso é humano”

Os quase completos (p.350)

A linguagem de Os quase completos não é de difícil compreensão e por mais que a história narrada possa ser a história de qualquer um de nós (e, realmente, há muitos elementos com os quais podemos nos identificar, muitas situações que já vivemos ou poderemos viver) é preciso ler com a mente aberta e enxergar para além das metáforas que estão ali presentes. E se assim for, é possível aprender e compreender muito sobre a vida e sobre nós mesmos.

Que tal conferir com seus próprios olhos?

I pesci non chiudono gli occhi – Erri de Luca

Título: I pesci non chiudono gli occhi
Autor: Erri de Luca
Editora: Feltrinelli
Páginas: 115 
Ano: 2015 (5º edição)

Voltando no tempo e na memória, Erri de Luca nos conta, em I pesci non chiudono gli occhi, sobre um verão vivido aos 10 anos de idade. No livro não há capítulos, apenas um espaçamento maior entre um trecho e outro, nos dando ainda mais a sensação de uma história contínua, de uma recordação. O narrador é um garoto de 10 anos, que possui um linguajar um tanto quanto adulto, mas totalmente aceitável para aqueles que entram em contato com essa história, pois trata-se de um jovem que adora ler, fazer palavras-cruzadas e que desenvolve um pensamento crítico e filosófico desde cedo.

A narrativa se passa em uma ilha, onde o garoto está passando as férias com a mãe. Seu pai, justamente naquele ano, fora para a América (Estados Unidos) em busca de trabalho e melhores condições de vida. Sua irmã, por outro lado, estava passando as férias com os amigos.

O narrador é um menino tímido, quieto e muito inteligente, e além de passar seus dias na praia, fazendo palavras-cruzadas ou lendo, também aproveitava o mar ou ia ao encontro dos pescadores que ele tanto admirava.

“Eu era um menino viciado no isolamento”

I pesci non chiudono gli occhi (p.87)

O verão apresentado neste livro foi um verão importante para o narrador, que estava crescendo e tomando ainda mais consciência de si e do mundo ao seu redor.

“Crescer comporta uma infinidade de efeitos desconhecidos”

I pesci non chiudono gli occhi (p.90)

Por meio dos livros o jovem aprendia muito. Mas, para além das páginas lidas, é nesse mesmo verão que Erri de Luca conhece o amor verdadeiro, em carne e osso, através de uma menina que não recebe nome algum ao longo da história, pois a lembrança desse sentimento apagara qualquer outra informação da memória do autor.

“Através dos livros de meu pai, aprendi a conhecer os adultos por dentro”

I pesci non chiudono gli occhi (p.14)

A tal jovem, no entanto, era dona de uma beleza que chamava a atenção, o que começou a gerar certa inveja em três garotos um pouco maiores que o narrador. Isso leva a uma perseguição e, para o autor, ao momento marcante de seu crescimento: quando ele apanha desses três garotos.

“A descoberta da inferioridade serve para decidirmos sobre nós mesmos”

I pesci non chiudono gli occhi (p.21)

Não se trata, porém, de uma história de amor, sentimento que o autor não conhecia tão bem e tinha certa dificuldade de acreditar. Como eu disse, é um livro de memórias e a principal temática é a descoberta de si. Mas garota em questão não deixa de roubar um beijo desse menino quieto e isolado. E é então que o título do livro passa a fazer total sentido.

“Fiquei observando-a. ‘Mas você não fecha os olhos quando beija? Os peixes não fecham os olhos'”

I pesci non chiudono gli occhi (p.98)

I pesci non chiudono gli occhi é, portanto, uma belíssima narrativa sobre o autoconhecimento e, principalmente, sobre crescimento. Aos 10 anos de idade, nosso jovem narrador consegue descrever suas dúvidas e seus sentimentos de uma maneira que chega a ser poética. O livro é curto, mas cheio de vida e de lições. Vale a pena conferir com os seus próprios olhos.

“O papel quer retornar vazio, como acontecerá com a terra depois de nós”

I pesci non chiudono gli occhi (p.93)

I racconti di Nené – Andrea Camilleri

Título: I racconti di Nené
Autor: Andrea Camilleri
Editora: Universale Economica Feltrinelli
Páginas: 133
Ano: 2018 (1º edição)

Andrea Camilleri é um nome bem conhecido, não somente na Itália, mas fora dela também: seus livros, principalmente seus romances policiais, fazem muito sucesso. Mas se você, assim como eu, nunca leu nada do autor, recomendo que comece por I racconti di Nené.

Este livro, na realidade, é uma espécie de transcrição de uma longa entrevista concedida por Camilleri a Francesco Anzalone, o que nos permite, portanto, conhecer melhor Andrea Camilleri, de uma maneira leve e instigante.

“Não se esqueçam que esta “entrevista” era originalmente destinada à televisão. Aqui vocês têm somente o áudio e não o vídeo”

I racconti di Nené (p.9)

Os capítulos são curtíssimos e nos trazem alguns causos da vida de Camilleri. É super gostoso e rápido de ler, porque a escrita é realmente leve e, por vezes, carregada de uma ironia bem humorada.

“Quanto eu aprendi naqueles anos de escola elementar. Em primeiro lugar, um repertório de palavrões que carreguei comigo e que frequentemente aparecem nos meus romances e, depois, um modo de conceber a vida totalmente diferente daquele que haviam me ensinado em casa até o momento”

I racconti di Nené (p.20)

Ao longo das páginas deste livro somos surpreendidos pelos mais diversos assuntos: a infância do autor, suas amizades, fatos históricos, sua formação e sua carreira… Sem contar os inúmeros nomes famosos que o autor teve a oportunidade de conhecer de alguma forma, como Gadda, Sciascia, Becket e até Jorge Amado (este, apenas por meio de um de seus livros)!

Como bom Siciliano (Camilleri é de Porto Empedocle), o autor não poderia deixar de falar, também, sobre máfia, tanto nessa sua entrevista, quanto em suas histórias.

“Com os americanos a máfia retornou ao poder”

I racconti di Nené (p.28)

Camilleri já trabalhou como roteirista, diretor de teatro e de televisão e como professor. Também já trabalhou em rádio e hoje dedica-se mais à literatura.

“Dentre todas as coisas que fiz e que, em certo momento, parei de fazer e que me fazem falta, seguramente o ensino é aquela que me faz mais falta”

I racconti di Nené (p.94)

Com este livro tive também outra agradável surpresa: lendo o capítulo L’Ammiraglio Pirandello tive a sensação de já conhecer aquela história. E eu realmente conhecia: ouvi em aula, ano passado, esse pedaço da entrevista de Camilleri que é transcrita neste livro. E é possível encontrar outros trechos no Youtube, de outros capítulos deste livro!

(disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=v2noC6Zx0ys).

Mas, sem dúvidas, o capítulo que mais gostei foi aquele em que Camilleri fala sobre o amor, afinal de contas, quem vive sem amor/amar?

“Eu sinceramente me espanto com a capacidade de amar que cada um de nós tem, que cada um de nós possui”

I racconti di Nené (p.79)

E, para encerrar esta resenha, deixo algumas palavras que não nos deixam negar o lado escritor de Camilleri:

“Até que o personagem não consiga levantar-se da página e comece a caminhar pela sala, tal personagem, para mim, não está totalmente pronto”

I racconti di Nené (p.53)

Extraordinário – R. J. Palacio

Título: Extraordinário
Original: Wonder
Autor: R. J. Palacio
Editora: Intrínseca
Páginas: 320
Ano: 2013
Tradução: Rachel Agavino

Finalmente, graças à uma pessoa super querida (que ainda escreveu uma dedicatória mega fofa), ganhei e li Extraordinário, de R. J. Palacio. Essa foi uma das poucas vezes que vi o filme antes de ler o livro e, ainda assim, queria ler essa história que tem muitas mensagens para nós e sobre a qual muitas pessoas já teceram seus comentários ou escreveram suas impressões.

Fiquei um pouco em dúvida em como estruturar esta resenha e acabei optando por seguir cada uma das partes que compõem o livro. Para quem não sabe, Extraordinário está dividido em 8 partes e cada uma delas é narrada, em primeira pessoa, por um personagem (mas não são 8 personagens diferentes, como veremos). Como as narrações são em primeira pessoa, parece sempre que estamos lendo o diário de cada um. Além disso, no início de cada uma dessas partes, vem escrito o nome do personagem que está escrevendo e uma citação, que pode ser o trecho de uma música, um poema ou um livro. Todas as citações estão traduzidas e, principalmente no caso das músicas, fica engraçado, porque às vezes demoramos para nos tocar de que a conhecemos. Mas… Chega de enrolação, não é mesmo?

A primeira parte do livro, como não poderia deixar de ser, é narrada por August Pullman, também conhecido por Auggie. Aos 10 anos de idade, Auggie já passou por 27 cirurgias, uma vez que nasceu com a Síndrome de Treacher, que é uma condição genética muito rara e que atinge principalmente os ossos do rosto. Essas cirurgias salvaram a vida dele, mas não tornaram seu rosto menos “incomum”, cheio de cicatrizes.

“Talvez a única pessoa no mundo que percebe o quanto sou comum seja eu”

Extraordinário (p.11)

Até os 10 anos de idade, Auggie estudou em casa. O livro se passa justamente no momento em que ele começa a frequentar a escola. Por isso que essa é uma história muito conhecida por falar sobre bullying, empatia e amizade. Mas acho que é uma história que vai além e que, por isso, os outros personagens também têm sua voz. E mais: o livro reforça bastante a ideia de que ir para a escola pode ser difícil para qualquer criança. Que todos nós temos os nossos fantasmas interiores e problemas e como tudo isso vai muito além do físico.

A segunda parte de Extraordinário é narrada por Olivia (Via), irmã mais velha de Auggie. Como eu queria que essa parte recebesse a atenção que merece! A gente foca tanto na questão do bullying e acaba deixando de lado uma coisa: é muito perceptível o quão difícil a situação é para a Via também.

“Então me acostumei a não reclamar e a não incomodar meus pais com coisas sem importância”

Extraordinário (p.89)

Vocês enxergam o quão problemática é essa situação? O quanto isso pode dar início a problemas psicológicos como a depressão?

É evidente, ao longo da história, o quanto Via ama seu irmão. E o quanto ela quer acreditar que os problemas dele sempre serão maiores que tudo. Acontece que, ao mesmo tempo em que ele está entrando na escola, ela está começando o Ensino Médio em uma escola nova. Nessa mesma época, ela se vê sem amigos. Sua querida avó morrera há pouco. Ela é uma adolescente cheia de sentimentos e emoções… Questões que ninguém enxerga porque a própria Via não quer que as pessoas vejam isso. E mesmo quando ela começa a ter acessos de raiva e crises de choro, seus pais não conseguem compreender o que se passa. Porque nesses momentos, também, sempre acontece algo com Auggie. É angustiante!

Todos nós temos problemas e por mais que sempre vá existir alguém no mundo passando por situações muito piores, nós não podemos comparar. Problemas são problemas e cada um sabe a dor que está passando. Queria que as pessoas lembrassem disso quando estivessem lendo a parte de Via.

As partes 3 e 4 são narradas, respectivamente, por Summer e Jack, colegas de Auggie. Summer é uma menina muito inteligente e a primeira a se aproximar de Auggie por livre e espontânea vontade, sentando com ele todos os dias na hora do almoço. Jack, por outro lado, não é tão “corajoso” desde o começo, mas logo se mostra um grande amigo.

“-Jack, às vezes magoamos as pessoas sem querer. Entende?”

Extraordinário (p.146)

Jack é aquele tipo de criança que agrada a todos: é engraçadinho, educado, dedicado, bonito. Todas essas qualidades, porém, não impedem que ele sofra bullying quando decide que ser amigo de Auggie é melhor que ser amigo de Julian, o riquinho popular da escola. E acredito que essa seja outra lição muito válida nesse livro: não é apenas o fato de Auggie ser totalmente (fisicamente falando) diferente das outras crianças que faz com que exista bullying na escola. Trata-se de uma violência presente em todas as instituições e que pode ter diversas causas.

A quinta parte do livro é narrada por Justin, um rapaz que Via conhece em sua nova escola e com quem começa a namorar. Inclusive, ele diz algo sobre ela que, acredito eu, resume muita coisa:

“a olivia é uma garota que vê tudo”

Extraordinário (p.196)

O que achei engraçado é que o Justin escreve sem letras maiúsculas (pois é, não digitei errado ali em cima). Isso reforça a sensação de que, ao longo do livro, estamos lendo diversos diários, mas não compreendi porque a autora lançou mão dessa tática com um dos poucos narradores que já está no Ensino Médio, enquanto as crianças escrevem com vocabulário super trabalhado.

Na sexta parte voltamos a August, porém a um August muito mais maduro. Sem contar que, tendo lido a história pela visão de outros personagens, podemos entender melhor o cenário em que a narrativa se passa.

“É engraçado como às vezes nos preocupamos muito com uma coisa e ela acaba não sendo nem um pouco importante”

Extraordinário (p.222)

Quem narra a parte 7 é Miranda, que era a melhor amiga de infância de Via, até que elas entraram no Ensino Médio e tudo mudar. Bem, quase tudo, porque, no fundo, Miranda continuava gostando muito de Via e de Auggie, que era quase um irmão mais novo para ela.

Não posso deixar de ressaltar, porém, que acho problemática a seguinte passagem:

“Uma das coisas que mais sinto falta com relação à amizade de Via é a família dela”

Extraordinário (p.247)

Solta, essa frase não parece dizer nada demais, visto que, como dito ali em cima, Miranda se dava muito bem com Via e seu irmão. No entanto, é possível sentir, com os rumos da narrativa, que há também certa inveja por parte de Miranda. Outro aspecto, portanto, que o livro trabalha, mas que passa desapercebido.

E por que inveja? Porque apesar de tudo, de todos os problemas de Via (que, lembrando, ela busca esconder) e da situação de August, os Pullman são uma família extremamente amorosa e bem humorada. E uma família que tem amor, tem tudo!

A oitava e última parte também é narrada por August, que sobreviveu bravamente ao seu primeiro ano de escola e ainda fez muitas amizades. As últimas páginas falam muito sobre gentileza e são maravilhosas. Ou eu deveria dizer extraordinárias?

Se você ainda não leu Extraordinário, não deixe de fazer esse favor a si!

La Sposa giovane — Alessandro Baricco

Título: La Sposa giovane
Autor: Alessandro Baricco
Editora: Universale Economica Feltrinelli
Páginas: 184
Ano: 2016 (1º edição)
Título em português: A Noiva jovem

Comecei a leitura desse livro achando-o um pouco confuso. Imaginei que o principal motivo disso fosse o fato de ser em outra língua, até que eu finalmente percebi que uma das coisas que estava gerando tal confusão era algo que fazia parte da história:

“Devo explicar, meu amigo, que enquanto escrevia sobre a Noiva jovem, acontecia, às vezes, de eu trocar com ela, mais ou menos bruscamente, a voz que narrava, por razões que, na verdade, são totalmente técnicas”.

La sposa giovane (p.52)

Em outras palavras: o narrador, onisciente, por vezes começava a contar a história como se fosse a personagem principal, narrando, portanto, em primeira pessoa. DO NADA. Cogitei até que o livro fosse uma tradução mal feita, até que essa explicação aí de cima apareceu. Além disso, o autor faz algumas digressões ao longo da história e também, em alguns momentos, conversa com o leitor.

O único personagem que realmente tem nome é Modesto, o mordomo da casa onde vive o Pai, a Mãe, o Filho, a Filha e o Tio. E é nesta casa, também, em que chega a Noiva. Anos antes ela fora prometida em casamento ao Filho, quando ela estava às vésperas de se mudar para a Argentina com sua família. O Filho, por sua vez, foi trabalhar na Inglaterra, e quando sua Noiva retornou ele ainda encontrava-se lá. A família, porém, recebeu muito bem a jovem, acolhendo-a até que o Filho retornasse.

A Noiva, então, enquanto espera que seu noivo volte para casa, tem de se adaptar à rotina da família, que é um tanto quanto excêntrica. E é assim que vamos conhecendo um pouco melhor cada um dos personagens e suas respectivas histórias. A Filha, por exemplo, é uma linda moça e jovem como a Noiva. Há, porém, uma passagem que a descreve que me lembrou muito Machado de Assis (“Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”):

“Mas a verdade torna-se evidente quando saio da minha elegante imobilidade e me movo, demonstrando uma enorme infelicidade, pelo fato de ser manca”

La sposa giovane (p.23)

O Tio, por sua vez, é um personagem que traz coisas interessantes para a construção da história, um personagem totalmente diferente e que passava boa parte de seu tempo dormindo. Ainda assim, era alguém que sempre tinha a resposta certa para dar.

“A imagem do Tio era uma imagem querida na família, e insubstituível”

La sposa giovane (p.21)

O fato do Tio passar o tempo todo dormindo é ainda mais estranho porque os demais personagens, na realidade, não dormem nunca, pois têm medo da noite, que matara todos os seus parentes.

“Eu não me sentia desconfortável – eu gostava, justamente porque era absurdo”

La sposa giovane (p.161)

A atmosfera do livro é muito onírica e, por vezes, sensual e recheada de seduções, além dos inúmeros mistérios que envolvem a família e seus costumes. E tudo isso nos vai sendo revelado conforme a Noiva vai vivendo naquela casa. Também temos as pausas do narrador, que vai nos contando um pouco de sua vida.

“Como acontece às vezes na vida, percebeu que sabia muito bem o que fazer, ainda que ignorasse o que estava fazendo”

La sposa giovane (p.45)

Este livro foi, para mim, totalmente inesperado. Bem diferente do que estou acostumada a ler e, ao mesmo tempo, muito interessante. Um pouco maluco, é verdade, mas interessante. A história não me prendeu desde as primeiras páginas, mas logo fiquei bem curiosa para entender tudo o que se passava naquela casa italiana.

Trago seu amor em 3 dias — Mel Geve

Título: Trago seu amor em 3 dias
Autor: Mel Geve
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 368
Ano: 2018 (1º edição)

Acho que não importa quantos anos eu tenha, eu sempre vou gostar de ler um belo de um romance. Ainda mais desses que podem parecer improváveis, que a gente acha que só existe nos livros ou nos filmes.

Amélia é uma jovem paulistana como tantas outras: cursa Design em uma faculdade particular, tem seus dilemas e suas batalhas particulares, está procurando um estágio, tem duas ótimas amigas – Pipa e Amanda – que estão sempre com ela, adora uma boa balada.

E é justamente numa balada – a preferida dela, aliás – que toda a história começa. Amélia está no Sobradinho, um pouco entediada – uma vez que Pipa está ficando com alguém, deixando-a sozinha – quando Theo aparece para mudar sua noite. E talvez a sua vida.

“Ele parecia um ator contratado por uma equipe de roteiristas especializados em Amélia, pronto para me seduzir. Ele era simpático, sorridente, inteligente, intrigante e mantinha meu interesse sem qualquer dificuldade”

Trago seu amor em 3 dias – p.30

Theo e Amélia estão se dando super bem, até que ele resolve ir ao banheiro e é aí que começa o problema: Amélia tem de ir embora às pressas, pois o tio Joca, pai de Pipa, havia chegado para buscá-las. Amélia não tem opção, senão ir embora, sem ao menos poder se despedir e, pior ainda, sem pegar qualquer contato de Theo. Mas, persistente que só, Amélia se utiliza de todos os recursos possíveis para reencontrar Theo. E sim, está explicado o nome do livro: até à Madame Zumba nossa protagonista recorre.

“As pessoas passam a vida inteira em busca de momentos como esse, sabe? O brilho nos olhos, a conversa fluída, o riso solto, os beijos intermináveis e a atração física magnética… Eu não podia deixar uma coisa assim escapar”

Trago seu amor em 3 dias – p.73

Contudo, antes que vocês achem que o livro se resume a uma Amélia desesperada em reencontrar o amor da sua vida e, mais ainda, que eles vivem felizes para sempre, preciso dizer que há muito mais nessas 368 páginas. A história também consegue abordar questões como feminismo, homofobia, saúde mental e preconceito religioso.

Algumas frases feministas me pareceram um pouco forçadas na história, como se fossem uma tentativa de inserir o assunto em trechos que não precisaria. Por outro lado, o trecho do Theô (sim, com acento… Longa história e só lendo para saber) ficou maravilhoso e foi totalmente necessário, além de ter sido uma ótima saída.

A homofobia também aparece de forma bem breve na história, inserida por um personagem – tio de Amélia – que é gay. Gostei da inserção desse personagem na narrativa, ainda mais pelo fato de que é aquele tipo de pessoa que dá vontade de conhecer.

E por falar em coisas gostosas desse livro, toda a história é contada pela própria Amélia, que intercala sua escrita com diálogos e conversas de Whatsapp. Quem mais aparece nesses momentos são suas amigas – Pipa e Amanda – e, claro, Theo. Também não posso deixar de mencionar o fato de adorei todas as zuações feitas sobre o Direito, ainda mais por saber que a autora é formada nesse curso!

“Essas pessoas do Direito eram muito pouco criativas e todos os nomes soavam iguais”

Trago seu amor em 3 dias – p.77

Mas voltando às temáticas do livro, a questão do preconceito religioso aparece quando Theo apresenta a Umbanda para Amélia. Esses trechos são muito incríveis! Para quem, assim como eu, não sabe nada sobre essa religião, é muito bacana aprender um pouquinho.

Já os trechos sobre saúde mental, aparecem mais para o final da história, em conversas entre Amélia, Amanda e Pipa, uma vez que a última, desde o começo do livro, sente-se infeliz com seu trabalho. Aliás, isso, em si, já uma temática bem interessante também e corrobora para o senso de realidade que o livro traz.

“- Sua alma não está à venda, Pipa, algumas coisas nessa vida não são negociáveis, sabe? Sua saúde mental é uma delas”

Trago seu amor em 3 dias – p.349

A verdade é que eu devorei Trago seu amor em 3 dias por causa de tudo isso que descrevi aí em cima. Cheguei ao final – que não é nem um pouco previsível – querendo mais. Inclusive, podia ter uma continuação, já que o final é bem aberto!

“Estar ao seu lado nunca era chato e eu só queria mais e mais e mais, porque eu me sentia roubada na hora das despedidas”

Trago seu amor em 3 dias – p.262

Contos Russos – Tomo I e II (parte 5)

Hoje encerro minha série de posts sobre esses contos russos. Não deixe de conferir também:

Uma coisa muito interessante de ter lido esses contos russos e ter pesquisado mais sobre cada um e seus autores, foi poder perceber o desenvolvimento da literatura desse país. As histórias possuem muitas similaridades, como o fato da maioria delas retratar um jovem casal apaixonado. Ao mesmo tempo, porém, cada uma dessas histórias é única e apresenta um desfecho totalmente surpreendente. Sem contar que é possível ir percebendo as escolhas de cada autor, a forma como eles foram conduzindo suas histórias e o porquê deles pertencerem a determinada “escola literária”.

No post de hoje falarei sobre o conto Lady Macbeth do distrito de Mtsensk escrito por Nikolai Semiônovitch Leskov e publicado em 1865. Trata-se de uma obra que pertence à vertente naturalista da literatura russa e realmente podemos acompanhar, ao longo da história, as transformações da personagem de acordo com as forças que se fazem presente ao redor dela. A narrativa é simples, com um narrador onisciente que conta a história de maneira que o leitor mantém-se entretido e curioso.

O conto começa apresentando a personagem principal, Katerina Lvovna Ismáilova, e, de certa forma, justificando o título dado. Antes de continuar essa resenha, vale lembrar que a Lady Macbeth de Shakespeare é uma mulher forte, que forja o assassinato de seu próprio marido. Em decorrência de suas ações desmedidas a personagem termina por ficar louca…

Katerina Ismáilova, segundo o narrador, não era bonita, mas possuía uma aparência simpática e que estava sempre entediada em sua grande propriedade, onde vivia com o marido, o comerciante Zinóvi Boríssytch e o sogro, Boris Timoféitch. O casamento de Katerina e Zinóvi era totalmente desprovido de amor, realizado apenas por interesse. Além disso, o temperamento seco de Zinóvi só piora a situação, sem contar o fato de que eles nunca conseguiram ter um filho.

O aparecimento do jovem trabalhado Serguiêi muda, no entanto, a rotina de Katerina, que encontrava-se ainda mais entediada na ausência de seu marido, que fora resolver problemas do trabalho longe de casa.

É então que começam a ocorrer traições, trevas e… Assassinatos! Juntos, eles matam o sogro, o marido e até mesmo um sobrinho, que aparece para estragar tudo. Lembremos que este é um conto que pertence ao naturalismo russo e que, portanto, não economiza nem um pouco no horror desses assassinatos e na naturalidade com que os amantes agem durante toda a história.

Por outro lado, trata-se, justamente, de uma narrativa não romântica e que, mais uma vez, não possui um final digno de “e viveram felizes para sempre”. O casal de assassinos acaba sendo descoberto, numa cena que me lembrou muito o filme “Mãe”, quando todos começam a invadir a propriedade dos protagonistas de maneira selvagem. E Katerina, não só pelas atrocidades cometidas, mas também por tudo o que vive após ser descoberta, termina como a verdadeira Lady Macbeth: totalmente entregue à loucura.

“Nem todo caminho, porém, é liso: há, vez por outra, buracos”

Contos Russos – Tomo II (p.136)

Contos Russos – Tomo I e II (parte 4)

Para quem ainda não viu, antes desse post há também o Contos Russos – Tomo I e II parte 1, parte 2 e parte 3. Não deixe de conferir! Nesta parte 4 começarei a falar sobre os contos do tomo II, que traz apenas duas narrativas: O primeiro amor (Ivan Turguênev) e Lady Macbeth do distrito de Mtsensk  (Nikolai Leskov).

Ivan Serguéievitch Turguênev é um romancista e contista russo de renome internacionalO primeiro amor foi publicado em 1860 e pertence ao realismo russo. Trata-se de uma história dentro de outra história: no início, alguns amigos estão conversando e decidem relembrar seu primeiro amor:

“- O meu primeiro amor não pertence, de fato, à categoria de amores banais”

Contos Russos – Tomo II (p.20)

A partir dessa fala, inicia-se a segunda história, que é, na realidade, a maior narrativa do conto. Nos deparamos, então, com as aventuras e desventuras de Vladimir Petróvitch, um garoto de 16 anos, filho único de uma família complicada: sua mãe é uma mulher frustrada e nervosa, que vive descontando suas raivas em Vladimir e seu pai é um homem educado, mas distante do filho e, no geral, frio.

A vida do jovem começa a mudar quando eles vão morar em uma casa de veraneio nos arredores de Moscou e ele conhece Zinaída Alexándrovna, uma linda jovem de 21 anos, filha de uma princesa falida. Mãe e filha moram em uma propriedade vizinha à de Vladimir, em uma casa suja e bagunçada, o que as torna desprezíveis aos olhos da mãe do protagonista.

O garoto, por sua vez, aproxima-se mais e mais dessa família de modos e estilo de vida tão diferentes dos dele. Além disso, ele rende-se totalmente ao amor que sente pela moça, seu primeiro grande amor, entregando-se aos seus próprios sentimentos, em uma história que poderia ser caracterizada como pertencente ao romantismo, não fosse seu realista final, que nada tem de “e viveram felizes para sempre”.

“E toda a história aconteceu porque a gente não sabe recuar na hora certa, romper as redes”

Contos Russos – Tomo II (p.110)

Além disso, é evidente durante toda a narrativa que Zinaída é uma moça que tem total consciência de sua beleza e de seus poderes de conquista, mantendo-se sempre no controle da situação.

Enquanto vive seu amor platônico por Zinaída, Vladimir Petróvitch perde completamente o controle de sua própria vida. É somente quando se afasta dela que ele consegue retomar seus estudos e seu rumo.

A história é narrada em primeira pessoa, pelo próprio Vladímir, mas também apresenta diálogos simples e diretos. A leitura, portanto, não é difícil, ainda mais por se tratar de uma tema conhecido e vivido por todos nós.

Contos Russos – Tomo I e II (parte 3)

Antes de ler este post, leia também: Contos Russos – Tomo I e II (parte 1)Contos Russos – Tomo I e II (parte 2).

Neste terceiro post sobre a coletânea organizada pela editora Martin Claret, chegamos aos dois últimos contos do Tomo I, que, relembrando, apresenta textos da época do Romantismo e do Sentimentalismo russo.

Dessa vez, trarei a vocês os contos Vyi O capote, escritos por Nikolai Gógol, notável por sua prosa fantástica, histórica e satírica, elementos que podemos encontrar nas histórias aqui apresentadas.

Vyi, publicado em 1835, traz no título o nome de uma criação terrível do imaginário popular russo. E quando o conto começa, o leitor não tem nem ideia do tipo de história que o aguarda.

Esse conto nos mostra muitos elementos da cultura e dos costumes russos, a começar pela descrição da escola russa e do retorno dos estudantes às suas casas. O narrador, então, se concentra em três amigos – o teólogo Khaliava, o filósofo Khomá e o retor Tibêri – que buscam um lugar para passar a noite.

Quando encontram tal lugar, porém, o verdadeiro horror começa e Khomá torna-se o personagem “principal”, contracenando com a terrível bruxa, uma velha que transforma-se em uma linda moça durante o dia.

Depois de uma das primeiras cenas assustadoras dessa história, passamos a conhecer melhor a jovem filha de um rico cossaco que, à beira da morte, pede que Khoma leia os salmos durante três noites após sua morte. Quando o tal cossaco procura o jovem e lhe explica o desejo da jovem, este nada entende, mas não tem escapatória. O conto, então, passa a narrar os três dias de Khoma, a rotina dele na casa do cossaco, suas tentativas de fuga e suas três noites de puro terror.

Por outro lado, o conto O capote, publicado em 1842, também tem uma pegada de terror, mas somente mais para o final da história, que, como sempre, é surpreendente. O narrador, em alguns momentos, dialoga com o leitor e os personagens são minuciosamente descritos, pois como aparece no próprio conto:

“O caráter de todo personagem de uma novela deve ser, em regra, plenamente descrito”

Contos Russos – Tomo I (p.160)

O personagem principal dessa história é Akáki Akakievitch, um pobre servidor público que é alvo de chacota de todos no escritório, apesar de trabalhar de maneira excepcional.

Por outro lado, poderíamos dizer que o protagonista desse conto é o “capote”, que dá nome à narrativa. Isso porque quando o velho capote de Akáki já não pode ser mais utilizado, o personagem vê-se obrigado a fazer um novo, que torna-se motivo de admiração de seus colegas. Não é somente por esse motivo que eu diria que o capote poderia ser o protagonista dessa história, mas pelo que acontece ao final dela, após a morte de Akáki.

“Sumiu para sempre a criatura que ninguém defendia, a que ninguém dava valor, por que ninguém se interessava, a qual não atrairia a atenção nem mesmo de um naturalista que não perde a oportunidade de perfurar, com um alfinete, uma simples mosca para examiná-la ao microscópio”

Contos Russos – Tomo I (p.190)

É muito interessante perceber como, de certa forma (sem nos esquecermos da distância temporal entre o período em que ele foi escrito e os dias de hoje), esse conto fala sobre bullying, nos apresentando um personagem ignorado por todos e com uma profunda mágoa guardada dentro de si. Vejo, inclusive, como um conto com certo cunho social e satírico, representando uma parcela da sociedade russa de forma realista.

“Feitas as contas, não podemos penetrar na alma de um homem e descobrir tudo o que ele pensa”

Contos Russos – Tomo I (p.177)

Contos Russos – Tomo I e II (parte 2)

Vamos continuar as resenhas desses maravilhosos contos russos? Para quem não viu a primeira parte, basta acessar Contos Russos – Tomo I e II (parte 1).

Hoje falarei sobre os dois contos escritos por Alexandr Serguéievitch Púchkin, o maior poeta russo de todos os tempos e também aquele que é considerado o criador da língua russa moderna. Estes contos ainda fazem parte do Tomo I, voltado para o Sentimentalismo e o Romantismo russos. A prosa de Púchkin tem, de fato, inspiração romântica, mas inicia, também, certo realismo na literatura russa.

O primeiro conto chama-se O tiro, e está dividido em duas partes, sem torná-lo, no entanto, um conto muito mais extenso que os demais desse primeiro tomo. Nesse conto, o autor narra a história de um personagem chamado, para fins narrativos, de Sílvio. Tal história é contada por um narrador que, por sua vez, não se identifica, mas que sabemos que era um jovem militar.

Sílvio era um homem misterioso, mas muito gentil com os militares que estavam em seu lugarejo. Além disso, ele era um atirador exímio, capaz de acertar uma mosca na parede. O que o soldado que narra a história não consegue entender, porém, é o fato dessa interessante figura esquivar-se dos chamados “duelos”, que seriam nada menos que um “acerto de contas” entre homens, após algum desentendimento.

“A falta de coragem é o que menos se perdoa na mocidade, a qual tem o costume de tomar a bravura pela maior das virtudes humanas e faz dela a desculpa de todos os vícios possíveis”

Contos Russos – Tomo I (p.49)

Apenas anos mais tarde o nosso narrador consegue entender o estranho comportamento de Sílvio. Trata-se de uma história inesperada e muito interessante, que não revelarei aqui, pois vale a pena a leitura. A única coisa que direi, porém, é que uma parte da história é revelada ao narrador através do próprio Sílvio, mas o resto vem por meio de outros personagens…

Pesquisando um pouco mais sobre esse conto, descobri que, na realidade, ele abre a coleção Os contos de Belkin (que seria, portanto, o tal narrador desse conto), publicada em 1832 por Púchkin, ou seja, quarenta anos depois de A pobre Lisa, que apresentei no último post.

O segundo conto de Púchkin que aparece nos Contos Russos – Tomo I é A nevasca, que também faz parte d’Os contos de Belkin. Trata-se de uma história de amor quase à la “Romeu e Julieta” (Púchkin, aliás, era grande leitor de Shakespeare): dois jovens apaixonam-se, mas o relacionamento não é aceito pelos pais da jovem, uma vez que o rapaz é pobre. O amor, no entanto, sempre fala mais alto e os dois resolvem se casar às escondidas.

Mas (sempre tem que ter um mas…), na noite combinada uma forte nevasca acaba atrapalhando um pouco os planos do jovem casal…

“Qualquer que seja, o mistério sempre aflige o coração feminino”

Contos Russos – Tomo I (p.79)

O narrador vai contando a história ora de um, ora de outro. Nessa parte do casamento, quando ele conta o que está acontecendo com o jovem, a história prende o leitor, nos deixando angustiados e, ao mesmo tempo, nos fazendo ler com enorme avidez. Além disso, trata-se de um conto de inúmeros altos e baixos e, mais uma vez, um final um tanto quanto inesperado, que conta com a aparição de um terceiro personagem…

Além desses dois contos, o livro Os contos de Belkin também conta com as seguintes histórias: O chefe da estaçãoO fabricante de caixões, A sinhazinha.