La Sposa giovane — Alessandro Baricco

Título: La Sposa giovane
Autor: Alessandro Baricco
Editora: Universale Economica Feltrinelli
Páginas: 184
Ano: 2016 (1º edição)
Título em português: A Noiva jovem

Comecei a leitura desse livro achando-o um pouco confuso. Imaginei que o principal motivo disso fosse o fato de ser em outra língua, até que eu finalmente percebi que uma das coisas que estava gerando tal confusão era algo que fazia parte da história:

“Devo explicar, meu amigo, que enquanto escrevia sobre a Noiva jovem, acontecia, às vezes, de eu trocar com ela, mais ou menos bruscamente, a voz que narrava, por razões que, na verdade, são totalmente técnicas”.

La sposa giovane (p.52)

Em outras palavras: o narrador, onisciente, por vezes começava a contar a história como se fosse a personagem principal, narrando, portanto, em primeira pessoa. DO NADA. Cogitei até que o livro fosse uma tradução mal feita, até que essa explicação aí de cima apareceu. Além disso, o autor faz algumas digressões ao longo da história e também, em alguns momentos, conversa com o leitor.

O único personagem que realmente tem nome é Modesto, o mordomo da casa onde vive o Pai, a Mãe, o Filho, a Filha e o Tio. E é nesta casa, também, em que chega a Noiva. Anos antes ela fora prometida em casamento ao Filho, quando ela estava às vésperas de se mudar para a Argentina com sua família. O Filho, por sua vez, foi trabalhar na Inglaterra, e quando sua Noiva retornou ele ainda encontrava-se lá. A família, porém, recebeu muito bem a jovem, acolhendo-a até que o Filho retornasse.

A Noiva, então, enquanto espera que seu noivo volte para casa, tem de se adaptar à rotina da família, que é um tanto quanto excêntrica. E é assim que vamos conhecendo um pouco melhor cada um dos personagens e suas respectivas histórias. A Filha, por exemplo, é uma linda moça e jovem como a Noiva. Há, porém, uma passagem que a descreve que me lembrou muito Machado de Assis (“Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”):

“Mas a verdade torna-se evidente quando saio da minha elegante imobilidade e me movo, demonstrando uma enorme infelicidade, pelo fato de ser manca”

La sposa giovane (p.23)

O Tio, por sua vez, é um personagem que traz coisas interessantes para a construção da história, um personagem totalmente diferente e que passava boa parte de seu tempo dormindo. Ainda assim, era alguém que sempre tinha a resposta certa para dar.

“A imagem do Tio era uma imagem querida na família, e insubstituível”

La sposa giovane (p.21)

O fato do Tio passar o tempo todo dormindo é ainda mais estranho porque os demais personagens, na realidade, não dormem nunca, pois têm medo da noite, que matara todos os seus parentes.

“Eu não me sentia desconfortável – eu gostava, justamente porque era absurdo”

La sposa giovane (p.161)

A atmosfera do livro é muito onírica e, por vezes, sensual e recheada de seduções, além dos inúmeros mistérios que envolvem a família e seus costumes. E tudo isso nos vai sendo revelado conforme a Noiva vai vivendo naquela casa. Também temos as pausas do narrador, que vai nos contando um pouco de sua vida.

“Como acontece às vezes na vida, percebeu que sabia muito bem o que fazer, ainda que ignorasse o que estava fazendo”

La sposa giovane (p.45)

Este livro foi, para mim, totalmente inesperado. Bem diferente do que estou acostumada a ler e, ao mesmo tempo, muito interessante. Um pouco maluco, é verdade, mas interessante. A história não me prendeu desde as primeiras páginas, mas logo fiquei bem curiosa para entender tudo o que se passava naquela casa italiana.

Trago seu amor em 3 dias — Mel Geve

Título: Trago seu amor em 3 dias
Autor: Mel Geve
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 368
Ano: 2018 (1º edição)

Acho que não importa quantos anos eu tenha, eu sempre vou gostar de ler um belo de um romance. Ainda mais desses que podem parecer improváveis, que a gente acha que só existe nos livros ou nos filmes.

Amélia é uma jovem paulistana como tantas outras: cursa Design em uma faculdade particular, tem seus dilemas e suas batalhas particulares, está procurando um estágio, tem duas ótimas amigas – Pipa e Amanda – que estão sempre com ela, adora uma boa balada.

E é justamente numa balada – a preferida dela, aliás – que toda a história começa. Amélia está no Sobradinho, um pouco entediada – uma vez que Pipa está ficando com alguém, deixando-a sozinha – quando Theo aparece para mudar sua noite. E talvez a sua vida.

“Ele parecia um ator contratado por uma equipe de roteiristas especializados em Amélia, pronto para me seduzir. Ele era simpático, sorridente, inteligente, intrigante e mantinha meu interesse sem qualquer dificuldade”

Trago seu amor em 3 dias – p.30

Theo e Amélia estão se dando super bem, até que ele resolve ir ao banheiro e é aí que começa o problema: Amélia tem de ir embora às pressas, pois o tio Joca, pai de Pipa, havia chegado para buscá-las. Amélia não tem opção, senão ir embora, sem ao menos poder se despedir e, pior ainda, sem pegar qualquer contato de Theo. Mas, persistente que só, Amélia se utiliza de todos os recursos possíveis para reencontrar Theo. E sim, está explicado o nome do livro: até à Madame Zumba nossa protagonista recorre.

“As pessoas passam a vida inteira em busca de momentos como esse, sabe? O brilho nos olhos, a conversa fluída, o riso solto, os beijos intermináveis e a atração física magnética… Eu não podia deixar uma coisa assim escapar”

Trago seu amor em 3 dias – p.73

Contudo, antes que vocês achem que o livro se resume a uma Amélia desesperada em reencontrar o amor da sua vida e, mais ainda, que eles vivem felizes para sempre, preciso dizer que há muito mais nessas 368 páginas. A história também consegue abordar questões como feminismo, homofobia, saúde mental e preconceito religioso.

Algumas frases feministas me pareceram um pouco forçadas na história, como se fossem uma tentativa de inserir o assunto em trechos que não precisaria. Por outro lado, o trecho do Theô (sim, com acento… Longa história e só lendo para saber) ficou maravilhoso e foi totalmente necessário, além de ter sido uma ótima saída.

A homofobia também aparece de forma bem breve na história, inserida por um personagem – tio de Amélia – que é gay. Gostei da inserção desse personagem na narrativa, ainda mais pelo fato de que é aquele tipo de pessoa que dá vontade de conhecer.

E por falar em coisas gostosas desse livro, toda a história é contada pela própria Amélia, que intercala sua escrita com diálogos e conversas de Whatsapp. Quem mais aparece nesses momentos são suas amigas – Pipa e Amanda – e, claro, Theo. Também não posso deixar de mencionar o fato de adorei todas as zuações feitas sobre o Direito, ainda mais por saber que a autora é formada nesse curso!

“Essas pessoas do Direito eram muito pouco criativas e todos os nomes soavam iguais”

Trago seu amor em 3 dias – p.77

Mas voltando às temáticas do livro, a questão do preconceito religioso aparece quando Theo apresenta a Umbanda para Amélia. Esses trechos são muito incríveis! Para quem, assim como eu, não sabe nada sobre essa religião, é muito bacana aprender um pouquinho.

Já os trechos sobre saúde mental, aparecem mais para o final da história, em conversas entre Amélia, Amanda e Pipa, uma vez que a última, desde o começo do livro, sente-se infeliz com seu trabalho. Aliás, isso, em si, já uma temática bem interessante também e corrobora para o senso de realidade que o livro traz.

“- Sua alma não está à venda, Pipa, algumas coisas nessa vida não são negociáveis, sabe? Sua saúde mental é uma delas”

Trago seu amor em 3 dias – p.349

A verdade é que eu devorei Trago seu amor em 3 dias por causa de tudo isso que descrevi aí em cima. Cheguei ao final – que não é nem um pouco previsível – querendo mais. Inclusive, podia ter uma continuação, já que o final é bem aberto!

“Estar ao seu lado nunca era chato e eu só queria mais e mais e mais, porque eu me sentia roubada na hora das despedidas”

Trago seu amor em 3 dias – p.262

Citações #10 — A arte de ler

E hoje trago mais algumas citações de A arte de ler, escrito por Michèle Petit e publicado no Brasil em 2010 (2º edição) pela Editora 34. Em minha resenha eu comentei sobre o fato da autora nos apresentar a importância da leitura sob diversas perspectivas, dentre elas, a de nos ajudar em nosso caos interior:

“Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um espaço em crise” (p.20)

A autora também nos mostra algumas especificidades da leitura:

“A leitura é uma arte que se transmite, mais do que se ensina” (p.22)

É por isso que pais leitores despertam com muito mais facilidade em seus filhos o hábito da leitura. É o famoso “ensinar pelo exemplo”.

Mas ainda sobre as especificidades da leitura:

“Assim a leitura se mostra paradoxal, permitindo ao mesmo tempo uma escapada solitária e encontros” (p.80)

Ler é algo imensamente prazeroso para aqueles que cultivam esse hábito porque querem. Mais que isso, como pudemos notar com esses trechos, é algo que nos ajuda, que nos transforma e que nos salva. Segundo Michèle Petit, ler também faz com que a gente fale. E sou obrigada a concordar com isso, afinal, ter esse blog é uma maneira de falar, de me colocar no mundo e de me apresentar aos outros.

“Ler faz com que as crianças, adolescentes, as pessoas idosas falem por si mesmos, ou uns com os outros” (p.103)

Por fim, deixo uma pergunta feita pela autora. Adoraria ler as respostas de vocês…

“Quais são, com efeito, os textos que ajudam a viver em tempos difíceis?” (p.174)

E então, que livros/textos já te ajudaram em tempos difíceis?

Contos Russos – Tomo I e II (parte 5)

Hoje encerro minha série de posts sobre esses contos russos. Não deixe de conferir também:

Uma coisa muito interessante de ter lido esses contos russos e ter pesquisado mais sobre cada um e seus autores, foi poder perceber o desenvolvimento da literatura desse país. As histórias possuem muitas similaridades, como o fato da maioria delas retratar um jovem casal apaixonado. Ao mesmo tempo, porém, cada uma dessas histórias é única e apresenta um desfecho totalmente surpreendente. Sem contar que é possível ir percebendo as escolhas de cada autor, a forma como eles foram conduzindo suas histórias e o porquê deles pertencerem a determinada “escola literária”.

No post de hoje falarei sobre o conto Lady Macbeth do distrito de Mtsensk escrito por Nikolai Semiônovitch Leskov e publicado em 1865. Trata-se de uma obra que pertence à vertente naturalista da literatura russa e realmente podemos acompanhar, ao longo da história, as transformações da personagem de acordo com as forças que se fazem presente ao redor dela. A narrativa é simples, com um narrador onisciente que conta a história de maneira que o leitor mantém-se entretido e curioso.

O conto começa apresentando a personagem principal, Katerina Lvovna Ismáilova, e, de certa forma, justificando o título dado. Antes de continuar essa resenha, vale lembrar que a Lady Macbeth de Shakespeare é uma mulher forte, que forja o assassinato de seu próprio marido. Em decorrência de suas ações desmedidas a personagem termina por ficar louca…

Katerina Ismáilova, segundo o narrador, não era bonita, mas possuía uma aparência simpática e que estava sempre entediada em sua grande propriedade, onde vivia com o marido, o comerciante Zinóvi Boríssytch e o sogro, Boris Timoféitch. O casamento de Katerina e Zinóvi era totalmente desprovido de amor, realizado apenas por interesse. Além disso, o temperamento seco de Zinóvi só piora a situação, sem contar o fato de que eles nunca conseguiram ter um filho.

O aparecimento do jovem trabalhado Serguiêi muda, no entanto, a rotina de Katerina, que encontrava-se ainda mais entediada na ausência de seu marido, que fora resolver problemas do trabalho longe de casa.

É então que começam a ocorrer traições, trevas e… Assassinatos! Juntos, eles matam o sogro, o marido e até mesmo um sobrinho, que aparece para estragar tudo. Lembremos que este é um conto que pertence ao naturalismo russo e que, portanto, não economiza nem um pouco no horror desses assassinatos e na naturalidade com que os amantes agem durante toda a história.

Por outro lado, trata-se, justamente, de uma narrativa não romântica e que, mais uma vez, não possui um final digno de “e viveram felizes para sempre”. O casal de assassinos acaba sendo descoberto, numa cena que me lembrou muito o filme “Mãe”, quando todos começam a invadir a propriedade dos protagonistas de maneira selvagem. E Katerina, não só pelas atrocidades cometidas, mas também por tudo o que vive após ser descoberta, termina como a verdadeira Lady Macbeth: totalmente entregue à loucura.

“Nem todo caminho, porém, é liso: há, vez por outra, buracos”

Contos Russos – Tomo II (p.136)

Contos Russos – Tomo I e II (parte 4)

Para quem ainda não viu, antes desse post há também o Contos Russos – Tomo I e II parte 1, parte 2 e parte 3. Não deixe de conferir! Nesta parte 4 começarei a falar sobre os contos do tomo II, que traz apenas duas narrativas: O primeiro amor (Ivan Turguênev) e Lady Macbeth do distrito de Mtsensk  (Nikolai Leskov).

Ivan Serguéievitch Turguênev é um romancista e contista russo de renome internacionalO primeiro amor foi publicado em 1860 e pertence ao realismo russo. Trata-se de uma história dentro de outra história: no início, alguns amigos estão conversando e decidem relembrar seu primeiro amor:

“- O meu primeiro amor não pertence, de fato, à categoria de amores banais”

Contos Russos – Tomo II (p.20)

A partir dessa fala, inicia-se a segunda história, que é, na realidade, a maior narrativa do conto. Nos deparamos, então, com as aventuras e desventuras de Vladimir Petróvitch, um garoto de 16 anos, filho único de uma família complicada: sua mãe é uma mulher frustrada e nervosa, que vive descontando suas raivas em Vladimir e seu pai é um homem educado, mas distante do filho e, no geral, frio.

A vida do jovem começa a mudar quando eles vão morar em uma casa de veraneio nos arredores de Moscou e ele conhece Zinaída Alexándrovna, uma linda jovem de 21 anos, filha de uma princesa falida. Mãe e filha moram em uma propriedade vizinha à de Vladimir, em uma casa suja e bagunçada, o que as torna desprezíveis aos olhos da mãe do protagonista.

O garoto, por sua vez, aproxima-se mais e mais dessa família de modos e estilo de vida tão diferentes dos dele. Além disso, ele rende-se totalmente ao amor que sente pela moça, seu primeiro grande amor, entregando-se aos seus próprios sentimentos, em uma história que poderia ser caracterizada como pertencente ao romantismo, não fosse seu realista final, que nada tem de “e viveram felizes para sempre”.

“E toda a história aconteceu porque a gente não sabe recuar na hora certa, romper as redes”

Contos Russos – Tomo II (p.110)

Além disso, é evidente durante toda a narrativa que Zinaída é uma moça que tem total consciência de sua beleza e de seus poderes de conquista, mantendo-se sempre no controle da situação.

Enquanto vive seu amor platônico por Zinaída, Vladimir Petróvitch perde completamente o controle de sua própria vida. É somente quando se afasta dela que ele consegue retomar seus estudos e seu rumo.

A história é narrada em primeira pessoa, pelo próprio Vladímir, mas também apresenta diálogos simples e diretos. A leitura, portanto, não é difícil, ainda mais por se tratar de uma tema conhecido e vivido por todos nós.

Contos Russos – Tomo I e II (parte 3)

Antes de ler este post, leia também: Contos Russos – Tomo I e II (parte 1)Contos Russos – Tomo I e II (parte 2).

Neste terceiro post sobre a coletânea organizada pela editora Martin Claret, chegamos aos dois últimos contos do Tomo I, que, relembrando, apresenta textos da época do Romantismo e do Sentimentalismo russo.

Dessa vez, trarei a vocês os contos Vyi O capote, escritos por Nikolai Gógol, notável por sua prosa fantástica, histórica e satírica, elementos que podemos encontrar nas histórias aqui apresentadas.

Vyi, publicado em 1835, traz no título o nome de uma criação terrível do imaginário popular russo. E quando o conto começa, o leitor não tem nem ideia do tipo de história que o aguarda.

Esse conto nos mostra muitos elementos da cultura e dos costumes russos, a começar pela descrição da escola russa e do retorno dos estudantes às suas casas. O narrador, então, se concentra em três amigos – o teólogo Khaliava, o filósofo Khomá e o retor Tibêri – que buscam um lugar para passar a noite.

Quando encontram tal lugar, porém, o verdadeiro horror começa e Khomá torna-se o personagem “principal”, contracenando com a terrível bruxa, uma velha que transforma-se em uma linda moça durante o dia.

Depois de uma das primeiras cenas assustadoras dessa história, passamos a conhecer melhor a jovem filha de um rico cossaco que, à beira da morte, pede que Khoma leia os salmos durante três noites após sua morte. Quando o tal cossaco procura o jovem e lhe explica o desejo da jovem, este nada entende, mas não tem escapatória. O conto, então, passa a narrar os três dias de Khoma, a rotina dele na casa do cossaco, suas tentativas de fuga e suas três noites de puro terror.

Por outro lado, o conto O capote, publicado em 1842, também tem uma pegada de terror, mas somente mais para o final da história, que, como sempre, é surpreendente. O narrador, em alguns momentos, dialoga com o leitor e os personagens são minuciosamente descritos, pois como aparece no próprio conto:

“O caráter de todo personagem de uma novela deve ser, em regra, plenamente descrito”

Contos Russos – Tomo I (p.160)

O personagem principal dessa história é Akáki Akakievitch, um pobre servidor público que é alvo de chacota de todos no escritório, apesar de trabalhar de maneira excepcional.

Por outro lado, poderíamos dizer que o protagonista desse conto é o “capote”, que dá nome à narrativa. Isso porque quando o velho capote de Akáki já não pode ser mais utilizado, o personagem vê-se obrigado a fazer um novo, que torna-se motivo de admiração de seus colegas. Não é somente por esse motivo que eu diria que o capote poderia ser o protagonista dessa história, mas pelo que acontece ao final dela, após a morte de Akáki.

“Sumiu para sempre a criatura que ninguém defendia, a que ninguém dava valor, por que ninguém se interessava, a qual não atrairia a atenção nem mesmo de um naturalista que não perde a oportunidade de perfurar, com um alfinete, uma simples mosca para examiná-la ao microscópio”

Contos Russos – Tomo I (p.190)

É muito interessante perceber como, de certa forma (sem nos esquecermos da distância temporal entre o período em que ele foi escrito e os dias de hoje), esse conto fala sobre bullying, nos apresentando um personagem ignorado por todos e com uma profunda mágoa guardada dentro de si. Vejo, inclusive, como um conto com certo cunho social e satírico, representando uma parcela da sociedade russa de forma realista.

“Feitas as contas, não podemos penetrar na alma de um homem e descobrir tudo o que ele pensa”

Contos Russos – Tomo I (p.177)

Contos Russos – Tomo I e II (parte 2)

Vamos continuar as resenhas desses maravilhosos contos russos? Para quem não viu a primeira parte, basta acessar Contos Russos – Tomo I e II (parte 1).

Hoje falarei sobre os dois contos escritos por Alexandr Serguéievitch Púchkin, o maior poeta russo de todos os tempos e também aquele que é considerado o criador da língua russa moderna. Estes contos ainda fazem parte do Tomo I, voltado para o Sentimentalismo e o Romantismo russos. A prosa de Púchkin tem, de fato, inspiração romântica, mas inicia, também, certo realismo na literatura russa.

O primeiro conto chama-se O tiro, e está dividido em duas partes, sem torná-lo, no entanto, um conto muito mais extenso que os demais desse primeiro tomo. Nesse conto, o autor narra a história de um personagem chamado, para fins narrativos, de Sílvio. Tal história é contada por um narrador que, por sua vez, não se identifica, mas que sabemos que era um jovem militar.

Sílvio era um homem misterioso, mas muito gentil com os militares que estavam em seu lugarejo. Além disso, ele era um atirador exímio, capaz de acertar uma mosca na parede. O que o soldado que narra a história não consegue entender, porém, é o fato dessa interessante figura esquivar-se dos chamados “duelos”, que seriam nada menos que um “acerto de contas” entre homens, após algum desentendimento.

“A falta de coragem é o que menos se perdoa na mocidade, a qual tem o costume de tomar a bravura pela maior das virtudes humanas e faz dela a desculpa de todos os vícios possíveis”

Contos Russos – Tomo I (p.49)

Apenas anos mais tarde o nosso narrador consegue entender o estranho comportamento de Sílvio. Trata-se de uma história inesperada e muito interessante, que não revelarei aqui, pois vale a pena a leitura. A única coisa que direi, porém, é que uma parte da história é revelada ao narrador através do próprio Sílvio, mas o resto vem por meio de outros personagens…

Pesquisando um pouco mais sobre esse conto, descobri que, na realidade, ele abre a coleção Os contos de Belkin (que seria, portanto, o tal narrador desse conto), publicada em 1832 por Púchkin, ou seja, quarenta anos depois de A pobre Lisa, que apresentei no último post.

O segundo conto de Púchkin que aparece nos Contos Russos – Tomo I é A nevasca, que também faz parte d’Os contos de Belkin. Trata-se de uma história de amor quase à la “Romeu e Julieta” (Púchkin, aliás, era grande leitor de Shakespeare): dois jovens apaixonam-se, mas o relacionamento não é aceito pelos pais da jovem, uma vez que o rapaz é pobre. O amor, no entanto, sempre fala mais alto e os dois resolvem se casar às escondidas.

Mas (sempre tem que ter um mas…), na noite combinada uma forte nevasca acaba atrapalhando um pouco os planos do jovem casal…

“Qualquer que seja, o mistério sempre aflige o coração feminino”

Contos Russos – Tomo I (p.79)

O narrador vai contando a história ora de um, ora de outro. Nessa parte do casamento, quando ele conta o que está acontecendo com o jovem, a história prende o leitor, nos deixando angustiados e, ao mesmo tempo, nos fazendo ler com enorme avidez. Além disso, trata-se de um conto de inúmeros altos e baixos e, mais uma vez, um final um tanto quanto inesperado, que conta com a aparição de um terceiro personagem…

Além desses dois contos, o livro Os contos de Belkin também conta com as seguintes histórias: O chefe da estaçãoO fabricante de caixões, A sinhazinha.

Contos Russos – Tomo I e II (parte 1)

Título: Contos Russos - Tomo I e Tomo II
Original: (não sei, está escrito no alfabeto russo, sos)
Autor: vários
Editora: Martin Claret
Páginas: 203 (Tomo I) e 201 (Tomo II)
Ano: 2014 (Tomo I) e 2015 (Tomo II)
Tradução: Oleg Almeida

A Copa na Rússia já acabou, mas a cultura desse país nunca para de marcar gol! Por isso, aproveitei o clima para ler esses dois volumes de contos russos, publicados pela editora Martin Claret. Aprendi tanta coisa que resolvi dividir essa resenha em 5 posts, para poder falar um pouco melhor sobre cada conto e seus autores. Na publicação de hoje apresentarei cada um dos livros e o primeiro conto que li. Vamos nessa?

Em Contos Russos – Tomo I somos apresentados a contos que remontam à época do Sentimentalismo e do Romantismo russo. São cinco histórias que compõem esse volume, de três autores diferentes: A pobre Lisa (Nikolai Karamzin); O tiro e A nevasca (Alexandr Púchkin), Vyi e O capote (Nikolai Gógol).

Já em Contos Russos – Tomo II temos apenas dois contos (bem mais extensos) de dois autores diversos, representando as vertentes Realista e Naturalista, predominantes na Rússia durante o século XIX: O primeiro amor (Ivan Turguênev) e Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk (Nikolai Leskov).

Descobri que há ainda um Contos Russos – Tomo III. Quem será que está se segurando para não comprar imediatamente??

Eu gostei da edição desses livros (mas descobri que também há ótimas edições da editora 34). As capas têm cores lindas, as notas foram feitas na medida certa e são traduções diretas do russo. Não poderia ter entrado nesse universo literário de forma melhor (sim, nunca havia lido nada de literatura russa…). Ao final de cada edição há, ainda, uma parte sobre os autores dos contos, mas é super breve, então o ideal é pesquisar mais sobre eles.

O primeiro conto que li foi A pobre Lisa, escrito por Nikolai Karamzin, o maior expoente do Sentimentalismo russo. E ele foi, também, um dos historiadores oficiais do Império Russo!

O conto começa com uma extensa descrição da paisagem local. Isso porque o narrador está contextualizando sua história, nos contando algo que ocorrera anos antes.

“Todavia, o que mais me atrai às muralhas do mosteiro de S*** é a recordação do lamentável destino de Lisa, da pobre Lisa. Ah, eu gosto daqueles temas que me enternecem o coração e fazem verter as lágrimas de uma meiga tristeza”

Contos Russos – Tomo I (p.22)

É a partir desse trecho que nossa protagonista aparece, já na quarta página do conto. Vamos, aos poucos conhecendo sua história e seu triste destino. E a natureza, ao longo de toda a narrativa, está intimamente ligada aos sentimentos dos personagens.

Em se tratando de um símbolo do Sentimentalismo russo, essa história não poderia deixar de apresentar uma figura masculina, que chega para abalar a pacata vida de Lisa. Estamos falando de Erast, um jovem que não podemos categorizar exatamente como vilão, ainda que o trágico fim de Lisa seja, de certa forma, culpa dele.

“Parecia-lhe ter achado em Lisa aquilo que seu coração procurava havia tempos”

Contos Russos – Tomo I (p.28)

As descrições ao longo do conto não são cansativas para o leitor. Ao contrário, elas nos ajudam a adentrar ainda mais a história. Há uma passagem, também, em que o narrador consegue fazer com que o leitor entenda que os personagens tiveram uma relação sexual, mas sem ser tão explícito ou direto.

A Rússia pode nos parecer um país muito distante, bem como este conto, publicado, originalmente, em 1792. Mas falar de sentimentos é sempre algo universal e atemporal. Anos e anos depois, ao ler um conto como esse, ainda somos capazes de nos compadecer da protagonista e sentir, na pele, os dilemas que os personagens vivem.

Citações #9 — Diário de escola

O livro da vez é Diário de Escola, escrito por Daniel Pennac. Li a edição em italiano (Diario di scuola) publicada em 2017 (10º edição) pela editora Universale Economica Feltrinelli. Tentarei colocar as citações em português, torcendo para que a minha tradução consiga abarcar o significado de cada trecho que destaquei.

Esse é o primeiro livro que aparece aqui no Citações e que tem, também, a resenha completa no blog. Em minhas resenhas costumo colocar algumas passagens do livro, mas são diferentes das que trarei aqui.

Como eu comentei na resenha, neste livro, Pennac fala sobre os alunos que são considerados maus alunos, falando com propriedade, por ter sido um deles. É por isso que ele consegue nos transmitir o quão difícil e solitário é para uma criança que é considerada burra ou um fracasso escolar.

“Experimentei cedo o desejo de fugir. Para onde? Não sei bem. Digamos que fugir de mim mesmo e, ao mesmo tempo, dentro de mim” (p.25)

“Quando uma pessoa sente que não pertence a nada, tende a fazer juramentos a si mesma” (p.30)

O autor nos mostra o quanto há de incompreensão por parte dos que ensinam ou não são maus alunos.

“Falar a eles do que está por vir significa pedir que meçam o infinito com uma régua” (p.74)

Por outro lado, ele é a prova viva de que tudo passa e que as coisas tomam seus devidos rumos com o passar dos anos.

“As coisas nunca acontecem como prevemos, mas uma coisa é certa: nós nos tornamos” (p.84)

Daniel Pennac foi de mau aluno a um grande professor e escritor. Destaco ainda  passagens que trazem esse lado dele, o lado adulto que superou as dificuldades da infância:

“Uma boa classe não é regimento que marcha cadentemente, é uma orquestra que experimenta a mesma sinfonia” (p.107)

[Claro que eu não deixaria de lado esse trecho em que o autor faz uma comparação da sala de aula com uma orquestra. É um dos trechos mais lindos do livro (ou talvez eu seja suspeita para falar por adorar colocar música em tudo)].

Mas voltando ao lado professor, Pennac, por ter tido suas dificuldades como estudante, consegue aplicar métodos interessantes em sala de aula. Um deles é saber jogar com a matéria, transformando o aprendizado em diversão, como podemos perceber com esta última passagem que trago a vocês:

“E além do mais, brincar com a matéria é uma maneira, como tantas outras, de se acostumar a dominá-la” (p.131)

Gostou desses trechos? Então não deixe de conhecer a versão brasileira na íntegra!

Citações #8 — Sonhos em Amarelo

Dia de trazer citações do livro Sonhos em Amarelo, escrito por Luiz Antonio Aguiar e publicado pela editora Melhoramentos. Nesta obra, o autor nos apresenta Camille Roulin, um garoto que esteve perto de Vincent van Gogh no período em que este pintou seus quadros mais famosos. E quem já se interessou minimamente por van Gogh sabe que a vida dele não foi nem um pouco fácil. É por isso que esse livro, por menor que seja, tem tanto a nos ensinar. A começar pelo fato de que…

“Tudo na natureza tem seu tempo” (p.14)

Sim, TUDO tem seu tempo. A gente se estressa, se descabela, chora, quer fugir, mas a realidade é que cada coisa tem seu tempo e o que deu errado hoje pode dar certo amanhã. Por isso, precisamos sempre respirar fundo, levantar a cabeça e seguir.

E sobre dificuldades, aliás, quem não as tem? Mas pior que as ter é guardá-las somente para si e nunca pedir ajuda a ninguém quando, tenha certeza, ao menos uma pessoa ao seu redor seria capaz de te estender a mão.

“Não atino como alguém suportaria ficar olhando para dentro de uma dor dessas, sem tentar escapar” (p.112)

E algo que eu sempre acho bom lembrar é que devemos tomar cuidado com nossas palavras e ações. Nós nunca sabemos exatamente pelo que o outro está passando e o quanto podemos afetar (positivamente ou negativamente) uma pessoa. Palavras e ações matam.

“Talvez alguns de nós é que o tenhamos expulsado de vez desse mundo” (p.124)