Choque temporal — Diário de leitura (7)

Sim, certamente, apesar de ter arriscado, Sherazade conseguiu se manter viva por mais uma noite e, então, dar início a uma nova narrativa: A história do pequeno corcunda, contada entre as noites 123 e 128.

Eu diria que se trata de uma história tragicômica: devido a um incidente, o tal corcunda vem a falecer na casa de um alfaiate, que busca a qualquer custo se livrar do corpo, por medo de ser acusado de assassinato. O corpo, então, passa de um a outro personagem, todos achando-se culpados pela morte do corcunda, mas dando um jeito de se livrar dele, que, no final das contas, é encontrado perto de um mercador cristão, que acaba levando a culpa (vale lembrar que “As mil e uma noites” vem de uma cultura não cristã e na qual essa rixa se faz presente).

Para completar o quadro, o tal corcunda pertencia ao sultão e, por isso, para fazer justiça à sua morte, o mercador é condenado à forca. Com peso na consciência, porém, os outros personagens começam a se entregar também e, por isso, todos são levados à presença do sultão. E a única forma de salvarem suas vidas é, adivinhem só? Contando uma história que seja melhor que as que o corcunda contava ao sultão.

Assim sendo, dentro deste arco, temos as seguintes histórias:

  • A história contada pelo mercador cristão
  • A história contada pelo fornecedor do sultão de Casgar
  • A história contada pelo médico judeu
  • A história contada pelo alfaiate
  • A história contada pelo barbeiro

E o barbeiro da última história abre um novo arco de narrativas, contando a história de seus irmãos, coisa que ainda estou lendo e, portanto, não sei que fim levarão esses personagens! (Sim, estou curiosa).

Mas, como não poderia deixar de ser, o momento reflexão do diário de hoje: esses dois arcos narrativos, talvez tenham sido, até o momento, os mais difíceis de ler. Isso porque é possível perceber a maldade e o desprezo que há com as deficiências das pessoas. O corcunda, por exemplo, além de ser uma “posse” do sultão, era motivo de chacota. E os irmãos do barbeiro (cujas histórias estou lendo) também possuem alguma deficiência, que os torna motivo de risada e desprezo.

Eu sei que a distância temporal que separa o momento em que essas histórias foram escritas e os dias de hoje é enorme, mas não deixou de me incomodar o fato que autor que selecionou as narrativas que iriam compor a famosa versão de “As mil e uma noites”, deixa claro que tomou cuidado de tirar coisas que desagradariam seu público. Coisas essas que hoje em dia, provavelmente seriam mais bem recebidas que esse tipo de preconceito.

Mudam-se os tempos, muda-se aquilo que a sociedade considera certo ou errado. E os livros nos permitem acessar esses momentos. Doido, não?

6 comentários em “Choque temporal — Diário de leitura (7)

  1. Eu acho fascinante quando lemos algum livro clássico, pois é notável a diferença cultural e como os valores foram se modificando. Basta tomar de exemplo os clássicos brasileiros da época do Império. Acaba se tornando muito mais um registro histórico, e acho interessante manter-se fiel a história original, por mais difícil que a leitura seja. Quantas páginas tem esta versão que você está lendo?

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