Quem aí já ouviu falar do projeto Purpurinar? Trata-se de um projeto sem fins lucrativos que oferece áudios e palestras a pessoas com deficiência (principalmente visual).
Eis a descrição presente no site do projeto:
O projeto Purpurinar é uma iniciativa sem fins lucrativos que visa difundir o conhecimento literário a pessoas com deficiência a partir de arquivos de áudios gravados por voluntários ou “ledores virtuais”, disponibilizados online. Quer participar? Você pode fazer isso agora mesmo, no conforto de sua casa, no seu computador ou no celular.
Em seguida, há um passo a passo, nos ensinando a gravar o texto escolhido para enviar para o projeto.
O projeto foi criado em 2009 e, segundo informações do próprio site, busca facilitar a vida de quem quer ajudar, mas não dispõe de tempo fixo para isso durante a semana.
O site, aliás, é bem fácil de navegar, e é possível acessar cada página por meio do menu lateral. Podemos entrar em contanto com a idealizadora do projeto, ver as playlists, áudios em outras línguas, audiolivros, baixar softwares de gravação de voz e muito mais!
Soube desse projeto por meio de um amigo e logo enviei uma colaboração. Foi realmente bem fácil e a pessoa responsável por esse trabalho foi super atenciosa e logo me deu um retorno.
Você conhece algum projeto super legal e que sempre teve vontade de divulgar?? Conte-me aqui nos comentários, quem sabe eu também não me encante e traga aqui.
Título: Pirandello em cinco atos
Autor: Maurício Santanda Dias (tradução e organização)
Editora: Carambaia
Páginas: 184
Ano: 2017
Um título que diz muito sobre o livro: Pirandello em cinco atos nos apresenta a tradução de cinco peças deste grande autor italiano. São peças breves, de ato único, mas repletas de conteúdo. O livro está organizado, segundo explica o próprio tradutor e organizador do livro, em ordem cronológica da encenação das peças.
O primeiro texto com o qual entramos em contato é O torniquete, que se passa em uma cidade do interior (da Itália), na “atualidade” (essa peça foi escrita entre 1889 e 1900). Tal peça conta com apenas 4 personagens: Andrea Fabbri e sua esposa Giulia; Antonio Serra, um amigo do casal; Anna, a empregada do casal.
Uma das acepções possíveis para “torniquete” é “instrumento destinado a apertar ou a cingir apertando”. Nesta peça, ao descobrir que Giulia o trai com seu amigo Antonio Serra, Andrea começa a contar uma história para fazer com que sua esposa confesse seu próprio crime. Ele faz isso como se “apertasse” sua esposa.
“Nesse estado, as palavras mais inofensivas parecem alusões: cada olhar, um gesto; cada tom de voz, um…”
Pirandello em cinco atos (p.13)
Uma história bem interessante, dramática e que prende nossa atenção.
Depois, entramos em contato com Limões da Sicília, que se passa no norte da Itália também “nos dias de hoje” (esta peça foi encenada pela primeira vez em 1910). Afora os figurantes, nesta peça aparecem Ferdinando, Dorina e mais alguns criados de Sina Marnis — uma grande cantora — e de sua mãe, Marta Marnis. Por fim, temos a presença de Micuccio Bonavino, que viaja horas e horas para reencontrar sua amada cantora.
O final dessa história é bem interessante e a encenação, creio eu, pode até ser engraçada.
A peça seguinte chama-se A Patente, e não tem uma localidade precisa, como nos textos anteriores. Somos apresentados a 7 personagens: Marranca, um oficial de justiça; três juízes; D’Andrea, também este um juiz (mas o único com nome); Rosario Chiàrchiaro, personagem central desta narrativa; Rosinella, filha de Rosario.
Essa foi uma das peças que mais gostei: Rosario é chamado à presença do juiz D’Andrea, por estar movendo uma ação que certamente perderá. No entanto, nosso protagonista faz isso para provar a todos que morrem de medo dele que sua fama de mau agouro pode lhe render muito dinheiro.
Foi nesse texto, também, que li uma das melhores passagens desse livro:
“Porque o mal, minha querida, pode ser feito a todos e por todos; já o bem, só àqueles que precisam dele”
Pirandello em cinco atos (p.100)
A penúltima história de Pirandello em cinco atos chama-se O Homem da Flor na Boca. Trata-se de uma história com apenas dois personagens: o tal homem do título e um cliente. Esta peça também não tem uma localidade definida e o que achei mais interessante foi a questão da “flor na boca”, que é uma metáfora para um epitelioma que o homem traz em sua boca, um sinal de que a morte se aproxima. Acho que esse é um dos textos mais malucos desse livro, mas que pode trazer reflexões interessantes.
Por fim, temos a peça O outro filho, que se passa na Sicília, nos primeiros anos do século XX, quando muitos jovens saíam da cidadezinha em que se passa a história. Saíam em campanhas militares, em busca de uma vida melhor. Nesse texto aparecem as comadres da vizinhança e Ninfarosa, uma bela jovem; Maragrazia, uma mãe que sofre com a ausência de seus filhos; Tino, que está de partida; Jaco Spina, também da vizinhança; um jovem médico, com um coração cheio de compaixão; Rocco Trupìa, o filho bastardo.
Esse texto traz um desfecho um tanto quanto interessante e reflexivo, sobre o filho não querido por conta da forma como ele foi concebido. Um tema que, vejam só, aparece numa peça escrita há tantos anos, mas que até hoje é considerado um tabu em nossa sociedade.
Mais algumas citações retiradas de As cinco pessoas que você encontra no céu, de Mitch Albom, publicado no Brasil pela editora Sextante, em 2018. Como comentei em minha resenha, trata-se de um livro que nos faz refletir sobre nossas vidas e sobre aquilo que fazemos enquanto vivos. E sobre isso, eis a primeira citação, a mais forte delas:
“A gente costuma pensar que o ódio é uma arma contra a pessoa que nos fez mal. Mas a lâmina do ódio é curva. E o mal que fazemos com ele, fazemos a nós mesmos” (p.135)
É a famosa lei do retorno, o “tudo que vai, volta”. Ao invés de espalharmos ódio, porque não espalhar gentileza? Já não estamos vivendo em um mundo suficientemente conturbado?
E por falar nesse mundo, para aqueles que acreditam que o paraíso só existe após a morte e somente para aqueles que viverem uma vida regrada:
“Mas o céu pode ser encontrado nos recantos mais improváveis” (p.39)
Não quero dizer, com isso, que podemos viver como bem entendermos, porque sempre encontraremos o céu. O que estou tentando mostrar é que podemos encontrar paz onde menos esperamos: numa tarde com um amigo, num abraço apertado de uma pessoa que amamos, num gesto doce e inesperado. Precisamos, porém, estarmos abertos a essas possibilidades.
Por fim, algo que certamente já te fez pensar em algum momento de sua vida e que, se não fez, deixo aqui de reflexão:
“– A justiça – disse ele – não governa a vida e a morte. Se governasse, nenhuma pessoa morreria jovem” (p.51)
Estava eu na internet dia desses quando me deparo com esse livro. Autor que eu não conhecia, livro nunca visto. Mas a capa chamou a minha atenção. Decidi ler a sinopse do livro e acabei comprando-o. Foi uma ótima escolha! Devorei o livro todo, destaquei várias passagens. Mas, sem mais delongas, vamos à resenha!
Em os quase completos temos três histórias que, de alguma forma, se cruzam e se completam. É difícil, por isso, falar muito sobre esse livro sem dar spoilers. E, para dificultar ainda mais, Felippe Barbosa escreve de um jeito muito interessante, dando as informações aos poucos. Há mistérios por toda a parte e o tempo todo ficamos com aquela sensação de “o que vai acontecer agora?”.
“- Ora, nossa vida é feita de mudanças repentinas”
Os quase completos (p.187)
O livro vai se alternando entre as histórias do “Quase doutor”, do “Quase repórter” e da “Quase viúva”. O “quase doutor” e a “quase viúva” narram suas partes, enquanto o “quase repórter” tem sua história narrada. Não sei se compreendi muito bem porque foi feito assim, mas talvez seja porque a história do “quase doutor” e da “quase viúva” sejam centrais. E bem, tem o plot twist do final também…
“Falar de nós mesmos, afinal, é como contar uma história”
Os quase completos (p.361)
O “quase repórter” chama-se Victor. Por mais que ele não apareça tanto ao longo do livro, suas aparições são bem importantes (e gostosas de ler, apesar da melancolia).
“É interessante indagar se a rotina pertence a um indivíduo ou se é o indivíduo que pertence à sua rotina”
Os quase completos (p.12)
A “quase viúva”, por outro lado, chama-se Verônica. Seu marido está internado e, como se isso já não fosse drama suficiente na vida de alguém, ela começa a ter algumas crises existenciais, agravadas pelas falas do paciente que está dividindo o quarto com seu marido.
“É nos momentos mais frágeis que nos mostramos mais corajosos”
Os quase completos (p.99)
Por fim, o “quase doutor” passa boa parte do livro, digamos… Em outro plano.
“Jamais saímos de um ônibus do mesmo modo que entramos”
Os quase completos (p.336)
Há ainda outros personagens importantes nessa história, como Mira, o dr. Carlos, Celina e a família do “quase doutor”, mas se eu começar a falar de cada um deles, talvez você só termine de ler essa resenha amanhã…
O que os três personagens têm em comum é o fato de estarem insatisfeitos com suas vidas. O “quase doutor”, por exemplo, vai aos poucos descobrindo que vive a vida que sonharam para ele, e não a vida que ele sempre sonhou para si. Verônica, por sua vez, passa por descobertas bem parecidas, enquanto Victor tem consciência de que seu emprego não lhe agrada, mas não parece fazer muito para mudar de vida.
“- A gente nunca para para pensar sobre a gente, não é?”
Os quase completos (p.215)
Os quase completos é um livro que fala sobre buscarmos nossos sonhos e nossa felicidade. Acreditar que aquilo que nos faz feliz é possível. E a maneira como tudo isso é mostrado na história é bem interessante.
“Quando somos amados, é de esperar que a pessoa também ame os nossos sonhos”
Os quase completos (p.182)
E por mais que não seja exatamente uma história de amor, esse sentimento aparece em abundância no livro, sem soar clichê. Muito pelo contrário, aliás: aparecem muitas dúvidas, medos, brigas, perdas, escolhas…
“Isso não é bobo. Todo mundo quer ser amado. Isso é humano”
Os quase completos (p.350)
A linguagem de Os quase completos não é de difícil compreensão e por mais que a história narrada possa ser a história de qualquer um de nós (e, realmente, há muitos elementos com os quais podemos nos identificar, muitas situações que já vivemos ou poderemos viver) é preciso ler com a mente aberta e enxergar para além das metáforas que estão ali presentes. E se assim for, é possível aprender e compreender muito sobre a vida e sobre nós mesmos.
Título: I pesci non chiudono gli occhi
Autor: Erri de Luca
Editora: Feltrinelli
Páginas: 115
Ano: 2015 (5º edição)
Voltando no tempo e na memória, Erri de Luca nos conta, em I pesci non chiudono gli occhi, sobre um verão vivido aos 10 anos de idade. No livro não há capítulos, apenas um espaçamento maior entre um trecho e outro, nos dando ainda mais a sensação de uma história contínua, de uma recordação. O narrador é um garoto de 10 anos, que possui um linguajar um tanto quanto adulto, mas totalmente aceitável para aqueles que entram em contato com essa história, pois trata-se de um jovem que adora ler, fazer palavras-cruzadas e que desenvolve um pensamento crítico e filosófico desde cedo.
A narrativa se passa em uma ilha, onde o garoto está passando as férias com a mãe. Seu pai, justamente naquele ano, fora para a América (Estados Unidos) em busca de trabalho e melhores condições de vida. Sua irmã, por outro lado, estava passando as férias com os amigos.
O narrador é um menino tímido, quieto e muito inteligente, e além de passar seus dias na praia, fazendo palavras-cruzadas ou lendo, também aproveitava o mar ou ia ao encontro dos pescadores que ele tanto admirava.
“Eu era um menino viciado no isolamento”
I pesci non chiudono gli occhi (p.87)
O verão apresentado neste livro foi um verão importante para o narrador, que estava crescendo e tomando ainda mais consciência de si e do mundo ao seu redor.
“Crescer comporta uma infinidade de efeitos desconhecidos”
I pesci non chiudono gli occhi (p.90)
Por meio dos livros o jovem aprendia muito. Mas, para além das páginas lidas, é nesse mesmo verão que Erri de Luca conhece o amor verdadeiro, em carne e osso, através de uma menina que não recebe nome algum ao longo da história, pois a lembrança desse sentimento apagara qualquer outra informação da memória do autor.
“Através dos livros de meu pai, aprendi a conhecer os adultos por dentro”
I pesci non chiudono gli occhi (p.14)
A tal jovem, no entanto, era dona de uma beleza que chamava a atenção, o que começou a gerar certa inveja em três garotos um pouco maiores que o narrador. Isso leva a uma perseguição e, para o autor, ao momento marcante de seu crescimento: quando ele apanha desses três garotos.
“A descoberta da inferioridade serve para decidirmos sobre nós mesmos”
I pesci non chiudono gli occhi (p.21)
Não se trata, porém, de uma história de amor, sentimento que o autor não conhecia tão bem e tinha certa dificuldade de acreditar. Como eu disse, é um livro de memórias e a principal temática é a descoberta de si. Mas garota em questão não deixa de roubar um beijo desse menino quieto e isolado. E é então que o título do livro passa a fazer total sentido.
“Fiquei observando-a. ‘Mas você não fecha os olhos quando beija? Os peixes não fecham os olhos'”
I pesci non chiudono gli occhi (p.98)
I pesci non chiudono gli occhi é, portanto, uma belíssima narrativa sobre o autoconhecimento e, principalmente, sobre crescimento. Aos 10 anos de idade, nosso jovem narrador consegue descrever suas dúvidas e seus sentimentos de uma maneira que chega a ser poética. O livro é curto, mas cheio de vida e de lições. Vale a pena conferir com os seus próprios olhos.
“O papel quer retornar vazio, como acontecerá com a terra depois de nós”
Quem quer ler mais algumas citações incríveis de Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo, de Benjamin Alire Saénz? Trata-se de um livro publicado no Brasil pela editora Seguinte, em 2014. A história aborda os mais variados temas, como alguns dos mistérios da vida (algo que já fica um pouco claro pelo título do livro, não?):
“O riso era outro mistério da vida” (p.27)
“Aposto que às vezes é possível desvendar todos os mistérios do Universo na mão de uma pessoa” (p.156)
Esse trecho aí de cima é lindo, não?
Para além dos segredos da vida, esse livro fala, como pudemos perceber, sobre o amor, o maior sentimento que podemos ter. Mas também fala sobre outro sentimentos que pode ser comum a muitos de nós: a solidão:
“A solidão dos homens é maior que a das crianças” (p.95)
Sobre isso, podemos pensar muitas coisas, afinal, por que a solidão dos adultos é maior? Provavelmente porque as crianças não têm tanto medo de viver, de se machucar, de se decepcionar. E, com isso, aceitam todos aqueles que queiram estabelecer alguma relação com elas. Definitivamente, temos muito a aprender com as crianças!
Segundo este livro, poderíamos aprender também com os pássaros, algo que não posso deixar de concordar:
“Se estudássemos os pássaros, poderíamos aprender a ser livres” (p.67)
Para quem nunca leu Aristóteles e Dante, vale dizer que é uma obra que também fala sobre amizade, carinho, medos e bondade:
“Mas o Sr. Quintana era valente. Não lhe importava que o mundo inteiro soubesse de sua bondade” (p.116)
E, como não poderia deixar de ser, mais uma vez Benjamin Alire Sáenz destaca muito o poder da palavra, algo que realmente é importante ressaltar. Uma arma e tanto que temos à nossa disposição 24 horas por dia:
“As palavras ficam diferentes quando passam a morar dentro de você” (p.42)
Título: I racconti di Nené
Autor: Andrea Camilleri
Editora: Universale Economica Feltrinelli
Páginas: 133
Ano: 2018 (1º edição)
Andrea Camilleri é um nome bem conhecido, não somente na Itália, mas fora dela também: seus livros, principalmente seus romances policiais, fazem muito sucesso. Mas se você, assim como eu, nunca leu nada do autor, recomendo que comece por I racconti di Nené.
Este livro, na realidade, é uma espécie de transcrição de uma longa entrevista concedida por Camilleri a Francesco Anzalone, o que nos permite, portanto, conhecer melhor Andrea Camilleri, de uma maneira leve e instigante.
“Não se esqueçam que esta “entrevista” era originalmente destinada à televisão. Aqui vocês têm somente o áudio e não o vídeo”
I racconti di Nené (p.9)
Os capítulos são curtíssimos e nos trazem alguns causos da vida de Camilleri. É super gostoso e rápido de ler, porque a escrita é realmente leve e, por vezes, carregada de uma ironia bem humorada.
“Quanto eu aprendi naqueles anos de escola elementar. Em primeiro lugar, um repertório de palavrões que carreguei comigo e que frequentemente aparecem nos meus romances e, depois, um modo de conceber a vida totalmente diferente daquele que haviam me ensinado em casa até o momento”
I racconti di Nené (p.20)
Ao longo das páginas deste livro somos surpreendidos pelos mais diversos assuntos: a infância do autor, suas amizades, fatos históricos, sua formação e sua carreira… Sem contar os inúmeros nomes famosos que o autor teve a oportunidade de conhecer de alguma forma, como Gadda, Sciascia, Becket e até Jorge Amado (este, apenas por meio de um de seus livros)!
Como bom Siciliano (Camilleri é de Porto Empedocle), o autor não poderia deixar de falar, também, sobre máfia, tanto nessa sua entrevista, quanto em suas histórias.
“Com os americanos a máfia retornou ao poder”
I racconti di Nené (p.28)
Camilleri já trabalhou como roteirista, diretor de teatro e de televisão e como professor. Também já trabalhou em rádio e hoje dedica-se mais à literatura.
“Dentre todas as coisas que fiz e que, em certo momento, parei de fazer e que me fazem falta, seguramente o ensino é aquela que me faz mais falta”
I racconti di Nené (p.94)
Com este livro tive também outra agradável surpresa: lendo o capítulo L’Ammiraglio Pirandello tive a sensação de já conhecer aquela história. E eu realmente conhecia: ouvi em aula, ano passado, esse pedaço da entrevista de Camilleri que é transcrita neste livro. E é possível encontrar outros trechos no Youtube, de outros capítulos deste livro!
Título: ExtraordinárioOriginal: WonderAutor: R. J. PalacioEditora: IntrínsecaPáginas: 320Ano: 2013Tradução: Rachel Agavino
Finalmente, graças à uma pessoa super querida (que ainda escreveu uma dedicatória mega fofa), ganhei e li Extraordinário, de R. J. Palacio. Essa foi uma das poucas vezes que vi o filme antes de ler o livro e, ainda assim, queria ler essa história que tem muitas mensagens para nós e sobre a qual muitas pessoas já teceram seus comentários ou escreveram suas impressões.
Fiquei um pouco em dúvida em como estruturar esta resenha e acabei optando por seguir cada uma das partes que compõem o livro. Para quem não sabe, Extraordinário está dividido em 8 partes e cada uma delas é narrada, em primeira pessoa, por um personagem (mas não são 8 personagens diferentes, como veremos). Como as narrações são em primeira pessoa, parece sempre que estamos lendo o diário de cada um. Além disso, no início de cada uma dessas partes, vem escrito o nome do personagem que está escrevendo e uma citação, que pode ser o trecho de uma música, um poema ou um livro. Todas as citações estão traduzidas e, principalmente no caso das músicas, fica engraçado, porque às vezes demoramos para nos tocar de que a conhecemos. Mas… Chega de enrolação, não é mesmo?
A primeira parte do livro, como não poderia deixar de ser, é narrada por August Pullman, também conhecido por Auggie. Aos 10 anos de idade, Auggie já passou por 27 cirurgias, uma vez que nasceu com a Síndrome de Treacher, que é uma condição genética muito rara e que atinge principalmente os ossos do rosto. Essas cirurgias salvaram a vida dele, mas não tornaram seu rosto menos “incomum”, cheio de cicatrizes.
“Talvez a única pessoa no mundo que percebe o quanto sou comum seja eu”
Extraordinário (p.11)
Até os 10 anos de idade, Auggie estudou em casa. O livro se passa justamente no momento em que ele começa a frequentar a escola. Por isso que essa é uma história muito conhecida por falar sobre bullying, empatia e amizade. Mas acho que é uma história que vai além e que, por isso, os outros personagens também têm sua voz. E mais: o livro reforça bastante a ideia de que ir para a escola pode ser difícil para qualquer criança. Que todos nós temos os nossos fantasmas interiores e problemas e como tudo isso vai muito além do físico.
A segunda parte de Extraordinário é narrada por Olivia (Via), irmã mais velha de Auggie. Como eu queria que essa parte recebesse a atenção que merece! A gente foca tanto na questão do bullying e acaba deixando de lado uma coisa: é muito perceptível o quão difícil a situação é para a Via também.
“Então me acostumei a não reclamar e a não incomodar meus pais com coisas sem importância”
Extraordinário (p.89)
Vocês enxergam o quão problemática é essa situação? O quanto isso pode dar início a problemas psicológicos como a depressão?
É evidente, ao longo da história, o quanto Via ama seu irmão. E o quanto ela quer acreditar que os problemas dele sempre serão maiores que tudo. Acontece que, ao mesmo tempo em que ele está entrando na escola, ela está começando o Ensino Médio em uma escola nova. Nessa mesma época, ela se vê sem amigos. Sua querida avó morrera há pouco. Ela é uma adolescente cheia de sentimentos e emoções… Questões que ninguém enxerga porque a própria Via não quer que as pessoas vejam isso. E mesmo quando ela começa a ter acessos de raiva e crises de choro, seus pais não conseguem compreender o que se passa. Porque nesses momentos, também, sempre acontece algo com Auggie. É angustiante!
Todos nós temos problemas e por mais que sempre vá existir alguém no mundo passando por situações muito piores, nós não podemos comparar. Problemas são problemas e cada um sabe a dor que está passando. Queria que as pessoas lembrassem disso quando estivessem lendo a parte de Via.
As partes 3 e 4 são narradas, respectivamente, por Summer e Jack, colegas de Auggie. Summer é uma menina muito inteligente e a primeira a se aproximar de Auggie por livre e espontânea vontade, sentando com ele todos os dias na hora do almoço. Jack, por outro lado, não é tão “corajoso” desde o começo, mas logo se mostra um grande amigo.
“-Jack, às vezes magoamos as pessoas sem querer. Entende?”
Extraordinário (p.146)
Jack é aquele tipo de criança que agrada a todos: é engraçadinho, educado, dedicado, bonito. Todas essas qualidades, porém, não impedem que ele sofra bullying quando decide que ser amigo de Auggie é melhor que ser amigo de Julian, o riquinho popular da escola. E acredito que essa seja outra lição muito válida nesse livro: não é apenas o fato de Auggie ser totalmente (fisicamente falando) diferente das outras crianças que faz com que exista bullying na escola. Trata-se de uma violência presente em todas as instituições e que pode ter diversas causas.
A quinta parte do livro é narrada por Justin, um rapaz que Via conhece em sua nova escola e com quem começa a namorar. Inclusive, ele diz algo sobre ela que, acredito eu, resume muita coisa:
“a olivia é uma garota que vê tudo”
Extraordinário (p.196)
O que achei engraçado é que o Justin escreve sem letras maiúsculas (pois é, não digitei errado ali em cima). Isso reforça a sensação de que, ao longo do livro, estamos lendo diversos diários, mas não compreendi porque a autora lançou mão dessa tática com um dos poucos narradores que já está no Ensino Médio, enquanto as crianças escrevem com vocabulário super trabalhado.
Na sexta parte voltamos a August, porém a um August muito mais maduro. Sem contar que, tendo lido a história pela visão de outros personagens, podemos entender melhor o cenário em que a narrativa se passa.
“É engraçado como às vezes nos preocupamos muito com uma coisa e ela acaba não sendo nem um pouco importante”
Extraordinário (p.222)
Quem narra a parte 7 é Miranda, que era a melhor amiga de infância de Via, até que elas entraram no Ensino Médio e tudo mudar. Bem, quase tudo, porque, no fundo, Miranda continuava gostando muito de Via e de Auggie, que era quase um irmão mais novo para ela.
Não posso deixar de ressaltar, porém, que acho problemática a seguinte passagem:
“Uma das coisas que mais sinto falta com relação à amizade de Via é a família dela”
Extraordinário (p.247)
Solta, essa frase não parece dizer nada demais, visto que, como dito ali em cima, Miranda se dava muito bem com Via e seu irmão. No entanto, é possível sentir, com os rumos da narrativa, que há também certa inveja por parte de Miranda. Outro aspecto, portanto, que o livro trabalha, mas que passa desapercebido.
E por que inveja? Porque apesar de tudo, de todos os problemas de Via (que, lembrando, ela busca esconder) e da situação de August, os Pullman são uma família extremamente amorosa e bem humorada. E uma família que tem amor, tem tudo!
A oitava e última parte também é narrada por August, que sobreviveu bravamente ao seu primeiro ano de escola e ainda fez muitas amizades. As últimas páginas falam muito sobre gentileza e são maravilhosas. Ou eu deveria dizer extraordinárias?
Se você ainda não leu Extraordinário, não deixe de fazer esse favor a si!
As citações de hoje são do livro A playlist da minha vida, escrito por Leila Sales e publicado no Brasil, em 2014, pela editora Globo Alt. Trago somente três passagens, mas há muitas outras na resenha que escrevi.
“Tem dias que, sabe como é, desde a hora em que acordamos até a que vamos dormir, tudo em que a gente toca se parte em mil pedacinhos” (p.85)
Quem nunca sentiu que em alguns dias tudo pareceu dar errado? São dias difíceis, tristes, solitários. Mesmo quando há alguém ao nosso lado. Alguém que está realmente fazendo de tudo para que possamos ver que não é bem assim. E mesmo nesses casos, sentimos que só estamos partindo também a pessoa em mil pedacinhos.
Às vezes o remédio é respirar fundo, ouvir uma música, dormir. É se desligar e tomar distância do problemas. É saber que tudo passa!
A próxima passagem eu destaquei simplesmente porque achei muito bonita:
“As palavras se agitavam no meu cérebro como beija-flores, renovando o ar dentro de mim” (p.173)
Gostei dessa imagem das palavras como beija-flores e como algo que renova o ar, que traz vida.
Por fim, uma passagem que também é muito bonita:
“Algumas pessoas te tratam bem só porque gostam de você” (p.196)
Não é gostoso saber quem existem pessoas que nos tratam bem sem segundas intenções, pelos simples fato de que gostam realmente de nós? Para Elise, a protagonista do livro de onde saíram essas citações, isso parecia impensável, afinal, ela era uma jovem que a vida inteira sofrera bullying e que finalmente estava descobrindo que poderia ter amigos também.