A playlist da minha vida – Leila Sales

Título: A playlist da minha vida 
Original: This song will save your life 
Autor: Leila Sales
Editora: Globo Livros 
Páginas: 310 
Ano: 2014 (1º edição) 
Tradução: Amanda Orlando

Narrado por Elise Dembowski, A playlist da minha vida é um livro que nos traz os dramas e as aventuras de uma jovem excluída. Aos quinze anos de idade, Elise não tem amigos e sofre bullying na escola. Em sua visão, as pessoas se afastam dela por sua inteligência admirável, seus gostos peculiares, seu jeito de ser e sua opinião formada.

“Dar duro no que quer que seja, por definição, não é nada descolado”

A playlist da minha vida (p.13)

Cansada de ser sozinha e “a esquisita da escola”, Elise decide tomar providências: ela passa as férias inteiras tentando aprender a ser uma adolescente normal e “descolada”. No primeiro dia de aula, porém, percebe que todo seu esforço foi em vão e, então, decide agir mais drasticamente, pensando em se matar. Antes, porém, ela faz um “teste” cortando apenas um pouquinho  dos pulsos.

“Eu queria ferir a mim mesma”

A playlist da minha vida (p.41)

Ao se recuperar, Elise percebe que o suicídio não era exatamente o que ela buscava para si. Ela queria dar uma lição naqueles que a maltratavam, mas ao se matar, ela só deixaria para eles um gostinho de vitória, sem conseguir provar que seria capaz de dar a volta por cima.

“Há coisas que você não pode mudar”

A playlist da minha vida (p.190)

Alguns meses depois desse acontecimento, Elise adquire o hábito de andar pelas ruas da cidade durante a noite, saindo às escondidas, depois que todos em sua casa vão se deitar. É justamente em uma dessas andanças que ela descobre a Start, uma balada underground. Ali ela faz amizades, principalmente com Vicky e Pippa, apaixona-se pelo DJ Char e ainda descobre mais um talento: discotecar.

Conhecer a Start, fazer amizades, apaixonar-se… Tudo parece um sonho para Elise, mas sua vida ainda está cheia de problemas e altos e baixos. Nossa protagonista nunca deixa de se meter em algumas enrascadas.

“Às vezes, temos aqueles dias em que tudo dá errado. Mas, às vezes, alguma coisa pode dar certo da maneira mais inesperada possível”

A playlist da minha vida (p.102)

Não dá para dizer que este seja um livro de drama adolescente, uma vez que nem todos  nesta fase são tão isolados ou sofrem tanto bullying quanto Elise. No entanto, é, sem dúvidas, uma excelente recomendação de leitura para jovens, tanto “excluídos” quanto “populares”, uma vez que, para os primeiros pode trazer alento, enquanto para os demais pode trazer alguns bons ensinamentos.

“Às vezes, as pessoas acham que sabem quem você é. Elas sabem de algumas poucas coisas a seu respeito e juntam as peças de uma forma que faça sentido para elas”

A playlist da minha vida (p.270)

Cada capítulo começa com o trecho de uma música, construindo, assim, a playlist de Elise.

E por falar nisso, uma coisa que achei interessante neste livro é o fato dele falar sobre discotecagem, afinal, quando um livro como este trata de música, geralmente são as canções e não um outro lado desse universo. Eu nunca havia pensado em como um DJ tem de tomar cuidado ao passar as músicas, não apenas combinando uma com a outra, mas também acertando a maneira de fazer esta transição. Além disso, como o próprio Char diz, o DJ deve saber ler seu público, perceber o que agrada e o que faz todo mundo sair um pouco da pista.

A música do silêncio – Andrea Bocelli

Título: A música do silêncio
Original: La musica del silenzio 
Autor: Andrea Bocelli
Editora: Generale
Páginas: 320
Ano: 2013
Tradução: Claudia Zavaglia

(Leia ao som de Con te partirò)

Antes de escrever qualquer coisa sobre este livro preciso confessar uma coisa: eu não sabia que Andrea Bocelli é cego!

Em A música do silêncio, Andrea Bocelli dá vida a Amós Bardi, que é ninguém menos que o próprio autor transformado em personagem para preservar a identidade de outras pessoas que aparecem na história. Mas basta prestar atenção às iniciais do personagem e do escritor e você começará a perceber as semelhanças…

A escrita deste grande tenor italiano é leve, quase como uma conversa, fluida. Além disso, o autor se dirige ao leitor em alguns momentos, nos tirando da ficção e nos lembrando que trata-se de uma história real. Como não poderia deixar de ser, o único personagem que conhecemos a fundo é Amós, o que não nos impede de compreender bem as relações deste com as demais pessoas que o cercam.

Através de Amós conhecemos, então, toda a vida de Andrea Bocelli, desde sua feliz infância, apesar de todas as dificuldades, passando por sua adolescência até a vida adulta e, por fim, o sucesso. Entramos em contato com suas dúvidas, seus medos, seus amores, suas conquistas.

“Ó amarga adolescência, ó verdes anos nos quais a felicidade e a serenidade inconscientes podem, inexplicavelmente, causar desconforto, solidão, tristeza…”

A música do silêncio (pg.76)

No quarto capítulo do livro o autor resolve dar um sobrenome a seu personagem, que passa a ser Amós Bardi. Neste mesmo capítulo somos apresentados à sua família e seus costumes.

Mesmo com os percalços da vida, Andrea Bocelli conseguiu manter-se, na maioria das vezes, positivo e sua narrativa é, muitas vezes, otimista. Nascido cego, o cantor italiano enxergava luzes e cores com o olho direito. Após um triste episódio – cuja narração no livro chega a ser angustiante – ele perde inclusive esta capacidade. Ainda assim, o jovem encontra forças para seguir adiante: forma-se em Direito, bate de porta em porta atrás de uma gravadora que acredite em seu trabalho, continua sempre a estudar, busca melhorar sua performance musical. Um dia, finalmente, a vida lhe sorri. E tudo muda, tornando Andrea Bocelli o nome que conhecemos hoje.

“Conclusão: cada um de nós nada mais é do que a soma de todas as próprias experiências e conhecimentos”

A música do silêncio (pg.99)

A música do silêncio é, portanto, um livro encantador. Uma história que prende e que nos ensina. Uma narrativa suave, mas ao mesmo tempo real e até mesmo doída. Andrea Bocelli não é apenas um grande tenor, é também uma pessoa cheia de sentimento e lirismo, algo que fica evidente ao longo das páginas deste livro, principalmente quando ele fala de seus sentimentos e de seus amores.

A lógica inexplicável da minha vida — Benjamin Alire Sáenz

Título: A lógica inexplicável da minha vida
Original: The Inexplicable Logic of my Life 
Autor: Benjamin Alire Sáenz
Editora: Seguinte
Páginas: 442
Ano: 2017 (1º edição)
Tradução: Flávia Souto Maior

(Para ler ao som de Paciência – Lenine)

A lógica inexplicável da minha vida é narrada por Salvador, ou então Sally, apelido criado por sua melhor amiga. Ele é um jovem que está no último ano do Ensino Médio e o livro nos mostra como sua vida vai de certezas a incertezas em apenas um instante. Por  Sally ser o narrador da história, conhecemos mais os  seus sentimentos, o que não significa que temos uma visão superficial dos demais personagens, uma vez que ele é extremamente empático.

Justamente pelo fato dos demais personagens terem um papel importante nesta trama, não podemos falar do livro sem falar deles também. A começar por Vicente, o pai adotivo de Salvador. Ele é um adulto maduro, bonito… e gay. Para Salvador isso não é um problema. Para o próprio Vicente isso não é um problema. Mas, para a sociedade em que vivemos… Bem, isso às vezes é um problema.

“As pessoas podem ser muito cruéis. Elas odeiam o que não conseguem entender”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 20)

Outro personagem importante é Mima, a avó de Salvador. Ela é uma figura doce, forte  (e ao mesmo tempo frágil) e cheia de histórias. A relação entre avó e neto é muito bonita e eles têm sempre conversas recheadas de lições e afetos.

“Se viver é uma arte, Mima é Picasso”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 53)

Temos ainda Sam a melhor amiga de Salvador. Os dois se conhecem desde muito pequenos, moram perto um do outro e compartilham de tudo. Uma amizade de irmãos. E há também Fito, que estuda no mesmo colégio que eles e enfrenta grandes batalhas: ele é filho de uma mãe viciada em drogas e é um jovem gay.

“Eu simplesmente não entendia o coração humano. O coração de Fito deveria estar partido. Mas não estava”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 74)

Há muitos outros personagens ao longo da narrativa, mas tendo conhecido estes é possível ter uma boa dimensão do que se passa, uma vez que cada um deles carrega uma grande carga de sentimentos e imprevistos que afetam, também, o nosso narrador.

“Lembrei da tempestade da noite anterior. Uma havia terminado; outra estava começando”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 133)

O livro está dividido em seis partes, uma mais supreendente que a outra. No início de cada parte sempre há uma frase ou parágrafo que sintetiza o que ocorrerá a seguir, nos ajudando a ter uma dimensão do que se passa na história sem dar spoillers. Vejamos:

  • Parte um: Talvez eu sempre tenha tido uma ideia errada sobre quem eu realmente era.
  • Parte dois: Tínhamos tanta certeza de nós mesmos, mas agora estávamos perdidos.
  • Parte três: De certo modo, por ela estar com as emoções à flor da pele, aquilo me ajudava a não ir pelo mesmo caminho. Não fazia sentido algum, mas o que eu e Sam compartilhávamos… Bom, tinha uma lógica própria.
  • Parte quatro: Talvez a vida fosse assim. Ir e voltar, depois acordar todas as manhãs e ir e voltar um pouco mais.
  • Parte cinco: Estradas são lisas e asfaltadas, e têm placas que dizem para que lado se deve seguir. A vida não é nada parecida com uma estrada.
  • Parte seis: À distância, é possível ver uma tempestade se formando: as nuvens escuras e os relâmpagos no horizonte vindo na minha direção. Eu espero, espero e espero pela tempestade. Quando ela chega, a água da chuva leva com ela os pesadelos e as lembranças. E eu não tenho medo.

Este livro consegue abordar de maneira simples, leve e deliciosa temas como preconceito, medo, amor, incertezas, amizade, união, perda, crescimento, aceitação… Fala sobre a vida, se quisermos ser sintéticos.

“Há dias em que acontecem coisas ótimas, e tudo é lindo e perfeito, e, do nada, tudo pode ir direto para o inferno”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 331)

Além disso, Salvador nos ensina que mesmo as pessoas que têm uma vida aparentemente perfeita – um pai legal, boas condições financeiras, amigos queridos, uma família bacana – podem viver grandes conflitos internos, afinal o “sentimento” é algo comum a todos os seres humanos. Bem como o amor. E é por amar cada pessoa do bem que o cerca que Salvador sofre tanto.

“Talvez tudo parecesse normal superficialmente. No interior, bem, havia sempre algum tipo de furacão”

A lógica inexplicável da minha vida (pg.267)

Eu perdi a conta de quantas vezes usei a palavra “sentimento” nesta resenha, mas é que A lógica inexplicável da minha vida definitivamente fala direto com nossos corações. Vem conferir com seus próprios olhos:

Enclausurado – Ian McEwan

Título: Enclausurado
Original: Nutshell
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 199
Ano: 2016 (1º edição)
Tradução: Jorio Dauster

Leia as primeiras linhas de Enclausurado e você talvez pense “Machado de Assis!”. Isso porque o narrador desta história é um feto. Sim, o extremo oposto de um defunto-autor, mas ainda assim, algo bem Machadiano. E mais: trata-se de um narrador irônico, esperto, observador do mundo à sua volta. Ian McEwan, no entanto, não foi tão longe para se inspirar, fazendo referências mais claras à Hamlet, de seu conterrâneo Willian Shakespeare.

“Deus disse: que seja feita a dor. E depois se fez a poesia”

Enclausurado (pg. 53)

Os três primeiros capítulos trazem uma apresentação  dos personagens centrais desta trama: no primeiro conhecemos Truddy, a mãe do narrador, depois somos apresentados a John Cairncross, que é o pai e, por fim, a Claude, uma figura não muito querida aos olhos do feto. Além disso, o próprio narrador vai se apresentando ao longos destes capítulos iniciais.

“Éramos capazes de perdoar todas as pessoas que conhecíamos. Nosso amor era pelo bem do mundo”

Enclausurado (pg. 76)

Parece uma história fácil de ler: o livo é pequeno, a leitura flui bem. Mas não nos enganemos: Enclausurado nos apresenta um grande domínio narrativo do autor, que mescla temas relativamente atuais com questões filosóficas e existenciais. O próprio narrador, por exemplo, antes mesmo de nascer, vive o dilema da vida e da morte.

“Por que o mundo se organiza de forma tão cruel?”

Enclausurado (pg. 41)

Além disso, por estar ainda na barriga de sua mãe, o narrador não tem como conhecer por inteiro os personagens de sua história, construindo-os com o leitor.

“Por mais perto que estejamos das pessoas, nunca se pode penetrar nelas, mesmo quando se está dentro de uma”

Enclausurado (pg. 119)

A história em si é praticamente um romance policial: Truddy e John estão separados, mas ele ainda a ama. E muito. Ela, no entanto, já possui um novo amor (ou uma relação por interesse?) e planeja coisas terríveis. As relações todas, aliás, são muito ambíguas e o final não nos ajuda a esclarecê-las, uma vez que é bem aberto.

“Já é claro para mim quanto da vida é esquecido mesmo enquanto acontece”

Enclausurado (pg. 166)

Enclausurado é, portanto, um livro rápido de ler, mas ao mesmo tempo denso. Um livro chocante e, ao mesmo tempo, realista. Um livro para quem busca uma leitura curta, mas que faça refletir.

Notas sobre a experiência e o saber de experiência

Título: Notas sobre a experiência e o saber de experiência
Autor: Jorge Larrosa Bondía
Revista Brasileira de Educação, nº 19
Páginas: 11
Ano: 2002
Tradução: João Wanderley Geraldi
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf

Hoje é dia de trazer para o Blog uma resenha um pouco diferente. Na verdade a resenha em si não é muito diferente das demais, mas traz minhas impressões sobre um artigo que li e não, como de costume, sobre um livro. Seria um erro, no entanto, deixar tal artigo esquecido, uma vez que ele pode gerar inúmeras reflexões. O texto está divido em sete pontos nos quais o autor tenta pensar a educação a partir do par experiência e sentido.

Inicialmente, Larrosa explora a palavra experiência:

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 21)

Dito isso, segundo o autor, a experiência é cada vez mais rara e ele enumera quatro elementos que a impedem de acontecer de forma devida:

  1. o excesso de informação, que não deixa lugar para a experiência: “A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência” (pg.21);
  2. o excesso de opinião: “Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados” (pg.22);
  3. a falta de tempo, uma vez que tudo tem se passado muito depressa, o que impede uma conexão entre os acontecimentos e seus legados: “A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre acontecimentos” (pg.23);
  4. o excesso de trabalho: “E por isso, porque sempre estamos querendo o que não é, porque estamos sempre em atividade, porque estamos sempre mobilizados, não podemos parar. E, por não podermos parar, nada nos acontece” (pg. 24).

No segundo ponto presente no texto, Larrosa fala sobre o sujeito da experiência:

“É incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 25)

Já no item 3 o autor nos mostra o que a palavra experiência carrega consigo, partindo de sua origem latina com o significado de provar, experimentar:

“A experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 25)

No item 4, Larrosa menciona uma definição de experiência encontrada em Heidegger com a qual ele concorda. Esta definição também ajuda a reforçar as características de experiência como travessia e perigo (características estas encontradas também em uma interessante comparação que o autor faz entre o ser da experiência e o pirata).

O quinto item é um dos mais bonitos. Nele o autor postula que a experiência é uma paixão e busca explicar este seu ponto de vista. Para isso, ele também apresenta alguns significados da palavra paixão.

No sexto item o autor fala sobre o saber de experiência:

“O saber de experiência se dá na relação entre o conhecimento e a vida humana”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 26)

E mais:

“Se a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não fazem a mesma experiência”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 27)

Este item pode render boas reflexões. Evidentemente estamos chegando ao final do texto e o que vemos aqui é quase uma síntese do que o autor tentou apresentar ao longo de seu artigo.

Para terminar, no item 7, Larrosa nos mostra como a experiência é vista pela ciência moderna:

“A experiência já não é o que nos acontece e o modo como lhe atribuímos ou não um sentido, mas o modo como o mundo nos mostra sua cara legível, a série de regularidades a partir das quais podemos conhecer a verdade do que são as coisas e dominá-las”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 28)

Quis falar sobre este artigo, pois ao lê-lo senti-me realmente maravilhada. E sei que preciso retornar a ele quantas vezes forem precisas. Um texto que não se esgota em si e que, como eu disse ali no comecinho, pode gerar inúmeras reflexões.

Gostaria de deixar também um vídeo sobre este mesmo texto, para que vocês possam ver outras opiniões acerca deste artigo: Comentando: Notas sobre a experiência e o saber da experiência.

Noturnos – Kazuo Ishiguro

Título: Noturnos: histórias de música e anoitecer
Original: Nocturnes: five stories of music and nightfall 
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 210
Ano: 2017 (2º edição)
Tradução: Fernanda Abreu

(para ler ao som de Oh, you crazy moon – Chet Baker)

Esteticamente falando, Noturnos é lindo: capa azul, bordas das páginas na mesma cor, pássaros desenhados na capa, com um lindo violino. No entanto (e para a nossa sorte) o livro vai muito além desta beleza exterior, nos trazendo cinco contos protagonizados por instrumentistas e amantes da música e escritos em linguagem coloquial, fácil de ler e de se apaixonar.

Antes de falar sobre os contos, no entanto, vale a pena tentar entender o título do livro: na linguagem musical, um “noturno” é uma música clássica que reproduz estados de espírito únicos e extremamente líricos e que, originalmente, deveriam ser executadas em eventos sociais que ocorriam a noite, ao ar livre. A ambientação dos contos de Ishiguro não são exclusivamente noturnas, uma vez que os músicos tocam em diversos momentos do dia. Mas há o lirismo dos “noturnos” e os estados de espírito únicos.

O primeiro conto do livro chama-se Crooner. Com ele já pude aprender várias coisas sobre o mundo da música que, mesmo sendo uma de minhas paixões, eu desconhecia: crooner, por exemplo, é um cantor ou cantora de música popular que canta com uma orquestra ou conjunto instrumental. Além disso, o crooner que aparece nesta história é real: Tony Gardner (e eu nunca havia escutado nada sobre ele…).

Neste conto conhecemos o jovem músico Jan, cuja mãe era apaixonada por Tony Gardner. Numa bela tarde, enquanto Jan toca em uma praça de Veneza, ele avista Tony Gardner e decide ir conversar com ele. A partir disso Jan descobre muitas coisas: conhece Lindy Gardner, esposa de Tony; ouve um pouco mais da história de ambos; descobre que Tony já não é mais o mesmo sucesso de antes. Um conto sobre fama, amor, fins e recomeços.

Em Chova ou faça sol Raymond, que dá aulas de música na Espanha, decide visitar seus amigos de faculdade, Emily e Charlie, em Londres. Ao chegar lá, porém, vê-se diante de um casal em crise que quer usá-lo para demonstrar que existem outros tipos de fracasso na vida. Um conto cheio de intrigas, rancores, segredos e mágoas.

Malvern Hills começa ambientado em Londres, mas logo passamos para Malvern Hills, no interior da Inglaterra, onde o narrador, um músico iniciante decide se refugiar para compor mais algumas músicas. Para isso, no entanto, ele hospeda-se na casa de sua irmã, Maggie e seu cunhado, Geoff e os ajuda no café que possuem. Ali ele conhece Tilo e Sonja, que lhe causa uma péssima primeira impressão. Mais tarde, porém, este jovem músico encontra novamente Tilo e Sonja e os três conversam de igual para igual: todos ali são músicos. Um conto sobre inspiração, preconceito e, novamente, amor.

Noturno, além de ser um conto com o título muito parecido com o do livro é, também, o conto mais extenso de todos, além de ser o mais cheio de aventuras, altos e baixos, confusões. Aqui um saxofonista acaba se rendendo à ideia de fazer uma plástica facial em Beverly Hills para poder, finalmente, estar entre os melhores da música. Durante o período de recuperação ele conhece ninguém menos que Lindy Gardner (sim, a mesma do primeiro conto!) e então muitas coisas malucas começam a acontecer. Um conto sobre  aceitação, sucesso e aparências.

O último conto, Celistas, nos conta sobre quando Tibor, um músico em início de carreira, conhece uma americana que se considera uma virtuose. Pois bem, fui (novamente) pesquisar e, na música, a virtuose está relacionada ao excepcional domínio técnico desta arte. A tal moça americana, no entanto, possuia muito deste talento técnico, mas pouco tocava de verdade. Ainda assim, ela conseguiu ajudar Tibor. Um conto sobre amizade, influências e talento.

Apesar de histórias independentes, os contos carregam algumas semelhanças ou proximidades entre si: os finais, por exemplo, são bem abertos, deixando muito espaço para que nossa imaginação complete a história; a música que aparece nas histórias muitas vezes é o jazz (tanto é que o nome de Chet Baker aparece em todas elas) ou algum outro tipo de música considerado mais clássico; as narrativas não são exatamente felizes, ainda que consigam ter um toque de leveza e graça.

Noturnos foi um livro que, apesar da rápida leitura, me fez pensar sobre as histórias e me fez pesquisar e conhecer muitas coisas sobre o mundo da música. Para quem ama ler e ama música é, sem dúvidas, um prato cheio. Mas também não é um livro restrito somente a este público, graças à sua linguagem e narrativas que prendem. Ficou com vontade de ler? Então clica aqui:

O som do amor – Jojo Moyes

Título: O som do amor
Original: Night music
Autora: Jojo Moyes
Editora: Intríseca
Páginas: 304
Ano: 2016 (1º edição)
Tradução: Adalgisa Campos da Silva

Se a capa do livro e o título nos fazem pensar que O som do amor é apenas mais um romance “água-com-açúcar” devemos nos lembrar de “não julgar um livro pela capa”. Dito isso, meu primeiro “choque” com esta obra foi a quantidade de personagens. Evidentemente, Isabel Delancey é a protagonista, porém há muitos outros personagens essenciais nesta narrativa e a quantidade de nomes pode, em um primeiro momento, nos confundir. Além disso, a narrativa é, em boa parte do livro, lenta, demorando a chegar naquele ponto da história que não queremos mais largar o livro. Mas não larguei e não me arrependo!

O som do amor apresenta diversas histórias interligadas pela Casa Espanhola, uma construção em ruínas localizada no interior da Inglaterra, no condado de Norfolk. Através dela conhecemos seu velho proprietário, o Sr. Pottisworth; seus vizinhos gananciosos Laura e Matt, pais de Anthony; a já mencionada Isabel Delancey, mãe de Kitty e Thierry e viúva de Laurent; o misterioso Byron; o velho e simpático casal Henry e Asad; o imobiliário romântico Nicholas… E muitas outras pessoas que vivem em Londres ou Norfolk.

A narrativa é em terceira pessoa e a cada instante o narrador focaliza um personagem diferente, o que nos permite conhecê-los mais a fundo. Isto é importante para a história, por retratar dificuldades humanas, dores, medos e até mesmo recomeços.

“A tristeza nunca passaria, tinham lhe dito, mas ficaria mais fácil suportar”

O som do amor (pg. 67)

De maneira bem resumida: Isabel Delancey, primeiro violino na Orquestra Sinfônica Municipal e uma mulher totalmente dedicada à música, mesmo sendo casada e tendo dois filhos, vê sua vida mudar completamente com a morte do marido, Laurent, que deixa para trás enormes dívidas. Por sorte, um velho tio de Isabel, vem a falecer também, deixando a ela, como herança, uma bela casa. A tal casa, porém, estava caindo aos pedaços e ainda era objeto de cobiça de muitas pessoas, o que causa tantas confusões ao longo do livro.

O som do amor apresenta temas que podem ser muito comuns em romances, mas faz isto de maneira interessante, trazendo em doses homeopáticas os segredos de cada personagem e deixando pontas soltas para que possam ser amarradas mais adiante. Ao longo das páginas nos deparamos com o luto, o amor, intrigas (muitas!), recomeços, amizade, inveja, traições, vitórias, derrotas, sonhos, concessões. Uma história que fala do ser humano, em suma, com todos os seus desejos, contradições e projetos.

Caro professor – Ana Maria Machado

Título: Caro professor
Autora: Ana Maria Machado
Editora: Global
Páginas: 191
Ano: 2017 (1º edição)

Como explicado na apresentação deste livro, Caro professor reúne textos escritos por Ana Maria Machado para uma revista de educação que tinha como público alvo professores do ensino fundamental. Os textos eram publicados mensalmente e eram apresentados como uma espécie de carta. O “diálogo” mantém-se nítido mesmo com as cartas reunidas em livro.

“Gente que lê (e fala com entusiasmo do que leu) desperta nos outros a curiosidade para seguir seu exemplo e procurar ler também”

Caro professor  (pg. 20)

O livro é curto (ou talvez seja o fato dele ser composto por cartas que nos dá essa impressão) e possui uma linguagem simples e direta, sem termos técnicos relacionados à educação ou áreas afins, o que torna a leitura possível para todos aqueles que gostam de textos sobre projetos sociais, leis, acontecimentos históricos, causos cotidianos, educação (em sentido amplo), viagens. Um livro, portanto, eclético e divertido.

“E ler literatura é incomparável. Uma oportunidade de vivenciar algo único: a alteridade. Quer dizer, ser outro, continuando a ser o mesmo”

Caro professor (pg. 136)

Caro professor traz 60 cartas escritas entre 2008 e 2014. A organização dele é cronológica e, por vezes, podemos perceber como certas temáticas são recorrentes para a autora (ou talvez para seus leitores, uma vez que ela escrevia seus textos com base em cartas que recebia).

É difícil escolher um texto preferido, mas fiquei positivamente surpresa e feliz ao ler duas cartas sobre projetos de leitura. Eu acabara de ler A arte de ler e este assunto ainda ecoava em minha mente. Em Ler juntos a autora fala do projeto homônimo, que ocorre em Ballobar, na Espanha. Já em Um olhar cheio de esperança, Ana Maria Machado apresenta alguns projetos de estímulo à leitura que ocorrem no Brasil.

Também gostei muito de Palavrinhas mágicas, em que a autora narra uma história interessante de alunos que se surpreenderam com o simples “Boa tarde!” que uma funcionária distribuía a todos na entrada da escola. Este fato fez com que tal funcionária se desse conta de como palavras de cortesia estavam sendo subestimadas e subutilizadas.

“Hoje sabemos que somos nada. Que a vida é o lampejo do cisco. Que o que amamos é infinitamente precioso”

Caro professor (pgs. 54 e 55)

Fiquei encantada ainda com Todos podem fazer, que fala do projeto Candoco. Conhecem? Pois é, eu também não, mas após o convite da autora, entrei no site deles e adorei! E do mesmo modo que Ana Maria Machado nos convidou a conhecer este projeto, convido vocês a conhecer o livro dela.

Diário de Escola – Daniel Pennac

Título: Diario di scuola
Original: Chagrin d’école
Autor: Daniel Pennac
Editora: Universale Economica Feltrinelli
Páginas: 243
Ano: 2017 (10º edição)
Tradução (para o italiano): Yasmina Melaouah

Diário de escola não é o primeiro livro que leio de Daniel Pennac e, espero, não será o último. O autor tem uma escrita leve e fluída e trata de assuntos que muito me interessam. Neste livro, por exemplo, ele fala sobre alunos com baixo rendimento escolar e faz isso com propriedade por conhecer os dois pontos de vista: como aluno, Pennac era considerado um fracasso; como professor, ele tem de lidar diariamente com estudantes que não possuem um desempenho satisfatório.

“Basta um professor – apenas um! – para nos salvar de nós e nos fazer esquecer de todos os outros”

Diário de escola (pg. 209)

É muito interessante o modo como o autor nos mostra que o “mau aluno” muitas vezes (quase sempre, na verdade) é fruto da forma como os outros o tratam: considera-se o “mau aluno” um aluno perdido e não é dada a chance para que ele prove o contrário. Mais que isso: o próprio estudante deixa de acreditar em si mesmo.

“E é esse o destino do ignorante: ninguém acredita nele”

Diário de escola (pg. 73)

O livro é dividido em 6 grandes capítulos (que chamarei de seções), cada um deles subdividido em 12 capítulos menores. Apenas as seções possuem título e são acompanhadas de uma epígrafe, como mostrarei abaixo:

I- O aterro de Djibuti

Estatisticamente tudo se explica; pessoalmente tudo se complica.

II- Tornar-se

Tenho doze anos e meio e não concluí nada

III- Nós ou o presente da encarnação

Nunca conseguirei

IV- Mas então você faz isso de propósito

Não fiz de propósito

V- Maximilien ou o culpado ideal

Os professores nos tiram do sério

VI- O que significa amar

Neste mundo é preciso ser um pouco bom demais para ser o suficiente (Marivaux, Il gioco dell’amore del caso).

Diário de escola foi um livro que tive vontade de falar para o mundo sobre. Ele é uma importante ferramenta para professores, uma ótima leitura para curiosos e uma excelente ajuda para “maus alunos”. Um livro, portanto, para muitos gostos.

“Nada sai como o previsto, é a única coisa que o futuro nos ensina quando se torna passado”

Diário de escola (pg. 43)

A minha vontade é citar quase metade do livro aqui, mas não quero estragar o prazer da leitura daqueles que se interessaram por ele. Deixo, então, apenas mais uma citação e aproveito para dizer que li o livro em italiano e todas as citações que aqui aparecem foram traduzidas por mim do italiano para o português.

“Reduzidos a nós mesmos, somos reduzidos a nada. Tanto que, por vezes, nos suicidamos”

Diário de escola (pg.58)

A Arte de Ler – Michèle Petit

Título: A arte de ler ou como resistir à adversidade
Original: L'Art de lire ou comment résister à l'adversité 
Autora: Michèle Petit
Editora: 34
Páginas: 304
Ano: 2010 (2º edição)
Tradução: Arthur Bueno e Camila Boldrini

Este foi O livro que me deu a certeza de que eu precisava e gostaria de voltar a ter um blog sobre minhas leituras. E, claro, eu não poderia tê-lo ganhado de outra pessoa que não aquela que me deu a coragem e a vontade de retornar a este mundo online.

“Nossas vidas são completamente tecidas por relatos, unindo entre eles os elementos descontínuos”

A arte de ler (pg. 122)

Aliás, estas minhas palavras, percebo agora, ficaram um pouco parecidas com as do depoimento de um jovem colombiano, depoimento este que se encontra na capa final do livro:

“Aquele livro me deu a força necessária para enfrentar a virada decisiva de minha vida, aceitar que eu não era mais o mesmo, suportar sê-lo entre meus amigos, que não compartilhavam o que eu pensava e que tive de enfrentar para defender minha nova maneira de ver a vida…”

A arte de ler

São relatos como este que tornam este livro encantador. E não só: a autora nos apresenta, sob diversas perspectivas, a importância da leitura não apenas na educação mas, principalmente, como ferramenta de resistência ao nosso caos interior. A capacidade de “construir sentido” proporcionada pela leitura permeia as páginas desta obra.

“Os livros lidos ajudam algumas vezes a manter a dor ou o medo à distância, transformar a agonia em ideia e a reencontrar a alegria: nesses contextos difíceis, encontrei leitores felizes”

A arte de ler (pgs. 33 e 34)

O livro nos mostra a vivência de leitores, mediadores de leitura, bibliotecários, professores, psicanalistas, escritores e animadores culturais, além de apresentar alguns projetos interessantes de leitura compartilhada, principalmente na América do Sul. No Brasil, por exemplo, são citados o projeto Vaga Lume e o Instituto A Cor da Letra.

Lendo este livro pude redimensionar a importância da leitura. Para muitos, ela pode ser uma importante forma de resgate cultural e de sentido; para mim, ela tornou-se algo ainda mais mágico e poderoso.

“Os livros eram, naquele lugar, moradias provisórias, a maneira de recriar um pouco a casa perdida”

A arte de ler (pg. 90)

Como disse no início, esta obra me deu a certeza de que eu gostaria de voltar a escrever sobre os livros que leio pelo simples fato de que, me lembro bem, o grande desejo que eu tinha quando criei meu primeiro blog era justamente esse: falar sobre livros e despertar, no outro, a vontade de lê-los. Falar sobre livros e espalhar pelo mundo essa sensação incrível que a leitura nos propicia.

“Abramos então as janelas, abramos os livros”

A arte de ler (pg. 266)

E se alguém conhece projetos de mediação de leitura ou similares por este Brasil afora, por favor, compartilhe aqui!