Desmistificando o mestrado [12] — Bolsa de pesquisa

Receber uma bolsa para realizar sua pesquisa é um sonho para muitos pesquisadores: poder dedicar-se exclusivamente aos estudos, sem o medo das contas no final do mês. Sabemos, porém, como este é um assunto cada vez mais delicado no Brasil. Principalmente para os cursos das áreas de humanas.

Eu tive a sorte/privilégio de ter uma bolsa durante o meu mestrado. Três meses após o início da contagem de tempo da minha pesquisa, fui contemplada com uma bolsa CAPES-DS (Demanda Social).

Por que trago o nome da bolsa que recebi? Porque sim, existem bolsas diversas. As da CAPES, por exemplo, são geridas pelo governo, isto é, são eles que determinam quantas serão concedidas, como devem ser distribuídas. Mas, na Universidade em que estudei, também haviam bolsas da própria instituição (isto é, a instituição destinava parte de seus recursos para pesquisa). Existem, ainda, as bolsas da FAPESP. E, com certeza, muitas outras. Essas são as que me lembro no momento (e talvez as mais conhecidas).

Destaco aqui essas diversas possibilidades, porque sei, também, que cada uma funciona de uma maneira e eu não tenho como falar sobre cada uma delas, apenas sobre a que tive durante a minha jornada.

Quando fui informada que havia sido contemplada com uma bolsa de pesquisa, tive cerca de 48 horas para confirmar o meu interesse na mesma e, principalmente, preencher, assinar e reconhecer firma dos documentos! E sim, infelizmente tudo tem de ser rápido, caso contrário perde-se a mesma. E não é por maldade, mas é que no caso de uma bolsa CAPES entende-se que se ela não tem “dono” é porque o Programa de Pós-Graduação não precisa dela. E que Programa não precisa de bolsas para seus estudantes?

Depois, com tudo certo, eu não poderia ter nenhum outro vínculo empregatício enquanto tivesse a bolsa e, semestralmente, deveria enviar um relatório com o andamento da pesquisa.

Tal relatório não precisava ser muito extenso, mas deveria conter: disciplinas cursadas no semestre (com toda a bibliografia da mesma, carga horária, nota obtida, quantidade de créditos, forma de avaliação e importância da mesma para a pesquisa desenvolvida); atividades (participação em eventos, artigos submetidos ou publicados e outras atividades relacionadas ao âmbito acadêmico e pertinentes à pesquisa); andamento da pesquisa (um breve comentário sobre o que foi desenvolvido ao longo do semestre, se o cronograma está sendo seguido, quais as previsões para o semestre seguinte); conclusão (um resumo unindo tudo o que foi apresentado antes. É sempre bom destacar aqui a importância da bolsa para a continuidade da pesquisa).

Como bolsista de um curso de humanas, minhas obrigações eram basicamente essas e a participação no programa PAE. Destaco o fator “área de humanas”, porque acredito que outras áreas, principalmente as que lidam com laboratórios, funcionam de maneira diferente.

Porém havia algumas outras obrigações não tão claras, mas importantes para a manutenção do todo: participar das reuniões do programa de pesquisa, participar de eventos para divulgar a sua pesquisa e apoiar os seus colegas, ajudar no funcionamento do programa. No meu próximo post eu pretendo falar sobre o Relatório CAPES, algo que, acredito eu, poucas pessoas saibam o que é, mas que é extremamente importante e trabalhoso.

Como conseguir uma bolsa de mestrado? Como sempre, informando-se! Antes de ingressar no mestrado eu já sabia que era importante ficar atenta ao email e também logo procurei o grupo dos alunos, no Facebook. Você também pode ter a sorte de ter um(a) orientador(a) preocupado(a), que fará questão de te informar sobre isso (mas nem sempre podemos contar com essa opção, até porque isso nem é obrigação deles!). Conversar com o orientador também é válido, pois ele/ela pode conhecer opções que você não conhece e te dar outras possibilidades de conseguir uma bolsa.

Para concluir, uma coisa que quase ninguém fala sobre ser bolsista: é ótimo receber para fazer pesquisa, mas isso também pode ser angustiante. Lembre-se, estamos falando de dinheiro público e sempre fica aquele peso de “se eu fizer algo de errado, terei de devolver o dinheiro”. E veja, não estou falando sobre fazer algo de errado por querer, mas, como muitas vezes as informações não são claras, podemos errar sem sequer saber disso! Por isso a importância de sempre se informar o máximo possível.

Ah, e claro, bate um super medo de fracassar também! Então, se você é bolsista e sente isso ou se você sonha em ter uma bolsa, saiba: vai dar tudo certo. Confie em si, confie em sua pesquisa e dedique-se. O resto virá.

Para pensar sobre outras culturas — Diário de leitura (12)

Como eu comentei em meu último diário de leitura, agora não há mais a interrupção da narrativa a cada noite, e também já não é mais possível acompanhar em que noite da história nos encontramos.

Ainda assim, a história que venho comentar hoje, “A história de Beder, príncipe da Pérsia, e de Sahara, princesa do reino de Samandal”, era relativamente longa e, por isso, foi dividida em duas partes. Em minha opinião, achei a divisão desnecessária. Continuou sendo um longo “capítulo” que, por diversas vezes, interrompi no meio da leitura.

A história em sim, porém, foi mais uma narrativa capaz de prender o leitor. Era difícil escolher o momento de interromper a leitura, pois eu sempre queria saber o que viria a seguir. E olha que há muitos elementos já presentes em outras narrativas desta obra, como um casal que passa por mil desventuras até chegar ao final feliz, humanos transformados em animais, lutas entre reinos.

Logo no início, contudo, uma questão me deixou pensativa e é daí que vem o título do diário de hoje. Não quero fazer qualquer julgamento aqui, pois sei que estou me referindo a uma cultura muito diferente da minha (e sobre a qual continuo não sendo grande conhecedora), mas chamou-me a atenção que, de início, esta era uma narrativa sobre um rei que “apesar das mil mulheres”, não teve um filho para dar continuidade a seu reinado.

“Só num ponto se julgava infeliz: estar muito idoso e de todas as suas mulheres não haver uma só que lhe tivesse dado um príncipe que lhe sucedesse após a sua morte. No entanto, possuía mais de cem, todas acomodadas magnífica e separadamente, com escravas para servi-las e eunucos para guardá-las”

E bem, pensando aqui comigo, se de 100 mulheres, nenhuma lhe deu filhos, talvez o problema não fossem as mulheres… Mas não pude deixar de achar “engraçado” esse pensamento de que nem mesmo com tudo do bom e do melhor, o rei pode ter um filho. A prepotência dele, por assim dizer, também fica clara em outra passagem, um pouco mais adiante:

“Por que ficas tão silenciosa? De onde vem essa frieza, essa tristeza que te aflige? Lastimas teus pais, teus amigos? Mas então um rei da Pérsia, que te ama, que te adora, não é capaz de fazer-te esquecer tudo no mundo?”

O mais curioso de tudo isso, porém, é que a história flui. Eu tive certa estranheza com esses pontos, apenas de início, mas tudo segue tão naturalmente que acabamos não sentido nada de negativo com relação a esse rei. Muito pelo contrário, aliás, pois ressalta-se a sua bondade e lealdade que qualquer outra coisa. Para ser sincera, eu até mesmo havia me esquecido desse início… E aí, relendo agora, fico pensando como ele havia dito que era velho, mas, no final das contas, teve o filho que tanto desejava e ainda foi capaz de vê-lo crescer.

Mas faz sentido que a história seja assim e, principalmente, que o modo de se comportar deste rei não nos cause repulsa. É uma outra cultura e eram também, outros tempos. E é por isso que tem sido tão interessante fazer esse mergulho pelas “Mil e uma noites”.

Serial Killer: a verdadeira face do mal (Antologia)

Título: Serial Killer: a verdadeira face do mal
Organização: Larissa Oliveira
Editora: Lettre
Páginas: 135
Ano: 2020

Recém saída do forno, a antologia Serial Killer: a verdadeira face do mal veio para abalar as estruturas. Bom, pode ser exagero meu, mas é que realmente me surpreendi com essa obra e não acho que seja simplesmente pelo fato desse ser um gênero com o qual não tenho tanto contato.

“Quero mostrar para ela que os monstros vivem na superfície, que o bem e o mal estão dentro de todos e que nós escolhemos qual lado queremos vivenciar”

(Conto: Na superfície)

As histórias que encontrei ao longo das páginas dessa antologia me surpreenderam pela variedade. Os seriais killers são muito diversos entre si: homens, mulheres, crianças (!), jovens, adultos, ricos, pobres… Isso sem contar, claro, aqueles contos que deixam certa dúvida no ar.

Nós somos o verdadeiro mal. Somos um mal que está oculto nas sombras, esperando o momento certo de rasgar sua garganta.

(Conto: Lady Jack)

Outra coisa que chamou a minha atenção é que há tanto homens quanto mulheres escrevendo. E há homens que fizeram protagonistas femininas e mulheres que fizeram protagonistas masculinos e assim por diante. Realmente bem mesclado e bem fora do padrão.

“A festa estava lotada de pessoas superficiais”

(Conto: Antes que o leite acabe)

E não, caro leitor, não se deixe enganar: muitas reviravoltas também nos aguardam nas páginas de Serial Killer. É claro que, num livro como esse, nem tudo é o que parece ser!

“Miguel se achava muito inteligente, e isso o tornava alguém altamente manipulável, pois bastava dar um sorriso meigo, se fingir de atrapalhada e dizer que acreditava em alguma besteira, para que ele confiasse ter alguém ingênuo à sua frente”

(Conto: Lady Jack)

Agora, uma coisa que me surpreendeu ainda mais que tudo o que já mencionei até aqui foi o fato de que, em mais de um conto, os seriais killers se apresentam a nós com uma falsa capa de moralidade, isto é, buscam justificar as mortes que cometem como uma espécie de justiça ou “limpeza da sociedade”.

“As palavras do dono do estabelecimento só comprovam o que eu sempre digo: as pessoas só se importam com os problemas das outras quando eles não causam problemas para si mesmas”

(Conto: Jingle Bells – Jungle Hells)

Isso me surpreende pela forma como os autores usaram desse elemento para construir suas histórias. Elemento este que, infelizmente, faz realmente parte de nossa sociedade. Afinal, quantas pessoas não fazem coisas ruins acreditando ou alegando estar fazendo algo de bom para o mundo?

É, essa antologia talvez tenha me deixado reflexiva. E tanto me deixou reflexiva que, olhando aqui a sinopse dela, me pergunto se eu não deveria ficar com certo medo dos autores. Isto porque na sinopse diz-se que “buscamos, nesta antologia, fazer com que cada autor mostrasse o seu monstro interior. Isso mesmo, todos temos um monstro adormecido dentro de nós”.

Ora, se a ideia era que cada autor mostrasse seu monstro interior e disso nasceram contos tão bem escritos… O que será feito desses monstros que agora estão entre nós?

Brincadeiras a parte, essa é uma antologia que vale a pena ser lida. Eu já solicitei a minha versão física (que está em pré-venda no site da Editora), porque vi que está com uma diagramação incrível, melhor que a de muita editora grande. Mas, por enquanto, li na versão digital (disponível na Amazon), que tem uma diagramação mais simples, mas que não muda em nada a qualidade das histórias lidas.

Se você é amante do gênero, a leitura desta antologia te permitirá conhecer novos autores. Se, por outro lado, você é como eu e não tem o hábito de ler coisas nessa área, aventure-se. Não me arrependo nem um pouco de ter me jogado de cabeça nessa.

O mito do professor nativo

Como professora de idiomas, mais de uma vez me deparei com vagas que buscavam somente falantes nativos para dar aula. Confesso que sempre fiquei bem confusa com isso e este post é justamente para mostrar como não faz sentido exigir (somente) que a pessoa seja nativa.

Para começo de conversa, ensinar uma língua requer muito mais que meros conhecimentos linguísticos. Caso contrário, bastaria que eu nascesse no Brasil para poder sair dando aulas de português por aí, certo? Você sente que é capaz de dar aulas de português para um estrangeiro? Pois é, a tarefa já começa bem mais complicada do que parece.

Além disso, não se trata apenas de saber bem determinada língua, trata-se, também, de ter didática. Você pode até se sentir apto a ensinar uma língua a outra pessoa, mas você saberá fazer isso didaticamente, ou seja, de maneira clara e coerente? Aqui a coisa começa a ficar ainda mais complicada!

Para unir os elementos que apresentei até aqui o ideal é que, em primeiro lugar, o professor tenha formação na área de ensino de línguas, isto é, que tenha feito um curso superior (Licenciatura em Letras). Claro que, o curso por si só não costuma ser suficiente, então esse professor terá de se dedicar horas e horas à língua, para chegar a um patamar mais elevado de conhecimento (na verdade, professores estão constantemente aprendendo).

Isso significa, portanto, que se o professor for formado em Letras e for nativo, ele será o professor perfeito? Também não necessariamente! Já tive aulas com professores nativos, formados em Letras e que, ainda assim, não se deram bem com o público brasileiro. É que aqui entra um terceiro fator: choques culturais. Isto é, um professor, se for nativo, além de realmente ter um bom conhecimento da língua e didática para ensiná-la, precisará, também, estar aberto à outra cultura e à forma como as pessoas daquela cultura lidam com o aprendizado (e com todo o resto que nos cerca).

Outro mito que circunda o professor nativo é a questão do sotaque: “ah, mas se eu tiver aulas com um professor nativo, eu vou falar a língua dele sem sotaque algum”. Gente, que país no mundo não tem sotaque? Em que país toda a população fala igualzinho? Eu não conheço nenhum…

Agora, uma coisa que realmente pode ser uma vantagem nas aulas com um professor nativo é poder ter um contato mais próximo com uma cultura diversa, isto é, ter alguém a quem perguntar diretamente “como funciona” algo em determinado país. Ainda assim, temos de ter em mente que teremos a visão de uma pessoa e que ela não necessariamente representa toda uma cultura local.

Aliás, aprender línguas nos abre portas para conhecer novos mundos, novas formas de pensar. E essa experiência pode ser ainda melhor se aprendermos com alguém realmente qualificado para tanto, não é mesmo?

Então, ao procurar um professor de línguas, mais do que perguntar se a pessoa é nativa, pergunte quais as qualificações dela e, muito importante, como ela trabalha (eu até poderia usar o termo “método” aqui, mas essa também é uma discussão para outro post…).

E antes de concluir, gostaria de indicar esse texto que encontrei enquanto pensava no que escreveria aqui e que achei bem interessante (e bem pertinente com o que eu trouxe): O mito do “professor nativo” no ensino de línguas estrangeiras.

Ainda bem que encontrei você — Marie Pessoa

Título: Ainda bem que encontrei você
Autora: Marie Pessoa
Editora: Publicação independente
Páginas: 23
Ano: 2020

(Leia ao som de Ainda bem — Marisa Monte)

Ainda bem que encontrei você é um conto de verdade, isto é, tem poucos personagens, tempo e espaço bem delimitados e um único conflito. Tudo isso, porém, de forma instigante e muito bonita.

“Dame, em poucos minutos, me fizera chorar mais do que anos de luto pela perda de Marina”

Logo de cara conhecemos Kariya, nossa narradora personagem. E vamos, com ela, pela primeira vez ao Museu Submerso. Mas não se trata apenas de uma visita ao museu! Ela está indo lá para a estreia de um documentário no qual trabalhou, ajudando na produção do mesmo.

Se uma visita por longo tempo adiada ao Museu Submerso, além do fato deste ser um documentário extremamente importante para Kari, já são motivos suficientes para dar um gostoso frio na barriga de nossa protagonista, imagine a reação dela ao chegar ao local e se deparar com Lana, sua crush.

“Nada nesse mundo era mais sexy do que o sorriso de uma mulher”

Mas as coisas começam a realmente chegar perto do ápice quando uma assistente vem avisar Kariya que Dame — a diretora do documentário — quer vê-la. No mesmo instante, Lana se aproxima, dizendo que ela e Kary haviam ido juntas ao evento. Claro que esta era apenas uma desculpa de Lana para conhecer a sua tão admirada Dame. Mas bem, ninguém poderia imaginar onde tudo isso daria, não é mesmo?

Talvez possa parecer que este é apenas um conto sobre o início de uma relação entre duas jovens mulheres (e isso até já seria bastante coisa). Mas a verdade é que há muito mais por trás das palavras de Marie. Há críticas sutis e um gostinho de “quero mais”, propositalmente deixado no ar, uma vez que está para ser lançado um livro que tem relação com este conto. Estou bem ansiosa!

“Relacionamentos familiares podem ser os mais tóxicos dentre os tipos de relacionamento”

Além disso, o conto também tem certo ar distópico (que será mais trabalhado no livro), nos apresentando uma realidade que, sem dúvidas, não é a que vivemos hoje.

Ainda bem que encontrei você estava em pré-venda e agora encontra-se disponível na Amazon! Se quiser conhecer essa história, clique aqui.

Mudanças na estrutura da obra — Diário de leitura (11)

Depois das narrativas apresentadas em meu último diário de leitura, dei início à História de Nuredin e da Formosa Persa. Logo de cara, porém, um baque: deste ponto em diante não há mais a interrupção a cada noite, isto é, os “capítulos” do livro, agora, são formados por cada uma das narrativas de maneira completa, o que significa que são capítulos mais extensos.

Eu, particularmente, não gostei muito deste novo formato pois, como dito acima, os capítulos ficam mais extensos, mas também porque as interrupções a cada novo amanhecer me instigavam a continuar a leitura. Era aquela coisa de “só mais um capítulo”, porque geralmente isso significava só mais algumas páginas. Agora não, agora sinto que tenho de me dedicar à história inteira de uma vez e isso, por vezes, dá uma certa preguiça…

Esse formato, também, me faz pensar se, daqui para frente, haverá menos narrativas dentro das outras narrativas, como acontecia anteriormente. Na história de agora, por exemplo, foi assim. Havia, ali, apenas a história de Nuredin e da Formosa Persa.

Não que tenha sido uma história sem graça, muito pelo contrário. Trata-se de uma narrativa no estilo de outras que já li nesta obra, com idas e vindas e com passagens que nos fazem pensar “não é possível, isso não pode acontecer”. E, uma vez mais, o amor se faz presente, nos mostrando, também, muitos costumes da época ou da cultura oriental.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção, porém, foi uma passagem sobre a confiança. Sobre como, desde sempre, muitas relações são baseadas no interesse e que, quando não temos mais nada a oferecer ao outro, ele nos dá as costas.

“Reconheceu, então, o erro irreparável de ter confiado tão facilmente nos falsos amigos e nos seus protestos de amizade, enquanto lhes oferecia banquetes suntuosos e os cumulava de benefícios”

Imagino que essa passagem mesmo seja uma crítica a esse comportamento e é uma pena ver que, passam-se anos e anos e algumas coisas não mudam.

O que você gosta nos livros que você curte? [tradução 5]

Vamos de mais uma tradução? Já estamos indo! E mais: sobre um tema que também estou planejando trazer para cá a minha opinião, pois tenho pensado muito sobre e ouvido falar muito também. Isso mesmo, vamos falar sobre avaliações de livros. Para aquecer os motores, porém, trago essa tradução. O post original, em italiano, você encontra aqui, e ele foi publicado em 2011!

Confesso que, “aquecer os motores” foi modo de dizer, porque vamos é começar o assunto com tudo! Depois dele, o que terei a dizer será quase nada. E vamos que vamos!


É inevitável que, de vez em quando, nos perguntemos com quais instrumentos e critérios julgamos os livros que lemos.

Tem quem se pergunte se, por acaso, o hábito de julgar os livros e exprimir-se em termos de “gosto/não gosto” não seja um mero atalho que nos mantém superficiais, fazendo das palavras que dedicamos aos livros que lemos um mero falatório. (Aproveitamos para falar disso, também, devido ao sucesso de participação dos leitores em nossos posts sobre os livros mais lindos e algumas observações que um ou outro leitor fez sobre o excesso de simplicidade que comporta um julgamento seco como esse, baseado em “gosto/não gosto”).

Fica o questionamento: o leitor comum — ou seja, nós — tem uma espécie de “dever” intelectual de aprender a usar algum instrumento crítico? Existe um espaço pleno de sentido entre o mero falatório e a crítica profissional?

É uma pergunta que, por sorte, muita crítica, principalmente anglo-saxônica, se esforça há anos para responder, “divulgando” os instrumentos da própria “ciência”.

A propósito, alguns meses atrás, eu havia indicado James Wood, que publicou um livro dedicado exatamente a isso: Como funciona a ficção (Sesi Editora). Uma obra que já faz um certo tempo que tenho sempre à mão, principalmente porque eu me divirto, de vez em quando, em testá-lo com os livros e contos que leio.

Recentemente, também (cito outro como exemplo, acredito que existem centenas que poderiam ser mencionados aqui) o crítico inglês John Sutherland escreveu um livro similar, pelo menos na questão da aplicação: 50 Literature Ideias you Really Need to Know.

Tento, portanto, quase como um jogo, listar as perguntas que eu deveria/gostaria de fazer enquanto leio um livro, se eu não quisesse ser um leitor comum, mas um “como se deve” (usarei Wood, mas podemos pensar outras dezenas de perguntas, basta tentar):

1) Qual é o tipo de narrador que o escritor incumbiu de contar a história? Para além das questões técnicas (onisciente, narrador personagem, uso do estilo indireto livre, primeira pessoa…), é um narrador que sentimos perto de nós? Quanto e como usa a ironia dramática? O quanto está perto ou longe de seus personagens?

2) Como é o jogo entre os detalhes narrativos mostrados? Por exemplo, entre aqueles importante e aqueles (aparentemente) insignificantes; do contraste entre eles depende muito da eficácia das cenas, por exemplo, na capacidade de desenvolver as tensões. É nos detalhes, que se corre o risco de cair no convencional

3) O que procuramos nos personagens? Como eles devem ser para que possamos senti-los vibrar nas páginas, para que possamos vê-los e apreciá-los com a sutiliza necessária que os faz viver? Somos objetivos com a estética do personagem ou julgamos com base em uma qualidade moral presumida?

4) E a consciência dos personagens? Como entramos no pensamento deles? E mais: entramos realmente ou o autor no engana, nos mostra uma imitação da consciência?

5) O livro que lemos é uma máquina de empatia? Conseguimos ver, sentir e compreender a complexidade do nosso “tecido moral” (“nosso” entendido como “condição humana”).

6) A linguagem contém uma multiplicidade de registros, harmonias e dissonâncias, mudanças e saltos de estilo que trazem a complexidade do mundo retratado? As metáforas sabem nos surpreender ou são óbvias, batidas e previsíveis?

7) A história e a trama nos surpreendem? Ou são óbvias, forçadas? Ou então as narrativas são tão elaboradas e centrais que esmagam todo o resto, nos fazendo esquecer que o livro é muito mais e vai muito além de uma única narrativa.

Vocês têm critérios claros de julgamento? Ou não? Me ajudem a enriquecer a lista (ou a eliminar alguns itens, se preferirem)?

Faz de conta que é amor — Rafa Alves

Título: Faz de conta que é amor — Trilogia escolhas
Autora: Rafa Alves
Editora: Réserver
Páginas: 298
Ano: 2020

Faz de conta que é amor é aquele tipo de livro que eu sempre comento aqui que adoro ler: um romance despretensioso, mas que acaba nos arrancando algumas lágrimas ou algumas risadas. Neste caso, foram mais lágrimas mesmo.

“Às vezes, desejos são somente desejos, mas a esperança que temos sobre eles é o que deixa tudo mais mágico”

No prólogo do livro, nos encontramos cinco anos antes da história que leremos depois. Amanda já namorava há quatro anos com Edu e tinha certeza que, naquela noite, seria pedida em casamento. Muito pelo contrário, porém, ela leva um pé na bunda e descobre que fora traída. E mais: o Edu a traiu com Vanessa, sua amiga! Ah, os clichês maravilhosos que já começam dando um toque de “não pode ser” com “quero ver essa mulher dar a volta por cima”.

“Não preciso dizer como mudei ao saber que minha vida era uma completa mentira”

O primeiro passo que Amanda dá é, como uma boa fujona, mudar de cidade. E recomeçar. Mas, obviamente, cinco anos depois, ou seja, no momento em que se passa a história, ela tem de voltar para sua cidade natal e por dois motivos: estar presente no casamento de sua melhor amiga e também para assumir, temporariamente, um cargo importante na empresa que trabalha.

“Cada um tem um limite de algo que consegue suportar”

Mas voltar nunca é fácil. Menos ainda quando o noivo de sua melhor amiga e Edu são melhores amigos. E, para completar esse tenebroso cenário, Edu está noivo de Vanessa. É muita coisa para uma pessoa só, né?

“Não quero que você se machuque, eu não vou estar aí para juntar os caquinhos”

E é aqui que entra Cadu na história. Amanda decide fingir que está noiva também e Cadu acaba sendo a sua vítima. Mas eles mal se conhecem quando essa loucura toda começa!

“Todos nós queremos alguém que cuide de nós, e que nós também possamos cuidar. Ninguém é diferente nisso”

Talvez você esteja se perguntando quem é Cadu. Bem, ele é um cara meio complicado, meio fechado e… filho do chefe de Amanda. Mas ele acaba topando embarcar nessa loucura dela e… Só lendo para descobrir de verdade onde tudo isso vai dar!

“Eu acabei de beijar de verdade… O meu noivo de mentira!”

Mas se tem uma coisa que eu posso adiantar é que Amanda é aquela mulher com a qual muitas vão se identificar. Alguém que, depois de uma grande desilusão amorosa, prefere ficar sozinha, por medo de se entregar novamente, ainda que reconheça que seu coração continua firma e forte na capacidade de amar.

“Cadu tem razão, eu sempre desisto de lutar quando estou machucada”

Cadu também é um personagem muito interessante. O mistério que o envolve nos atrai. Sabemos que há algo no passado dele que o deixa tão fechado e tão… Com medo de se entregar. Como Amanda.

Agora Edu… Esso só nos faz passar raiva mesmo! Mas a história precisava de um personagem desses, para nos deixar de olhos bem abertos, sempre!

Faz de conta que é amor foi uma leitura tranquila de se fazer, daquelas para passar o tempo. E se você quer saber como termina (ou não) a história de Amanda e Cadu, clique aqui.

Citações #34 — Eu quero mais

Como sempre acontece quando trago um post recheado de citações como esse, eu espero, antes de tudo, que tenha ficado claro na resenha o quanto eu amei o livro. A obra da autora Tayana Alvez é incrível e nos faz pensar sobre tantos assuntos que somente uma resenha não é suficiente para abarcar essa imensidão!

“Não me encaixo aqui porque nunca fiz parte desse mundo”

Elizabeth é uma mulher que tem muito a nos ensinar, e com a qual também podemos nos identificar em diversos aspectos.

“Todas as vezes que me abri para as pessoas, elas me machucaram”

E claro, ela tem os motivos dela para ser assim. Tem a história dela por trás de tudo.

“Ele partiu você em muitos pedaços”

E todos os personagens, na verdade, são assim nesse livro: cheio de histórias.

“Há um ano ele estava feliz, vivendo um sonho, cheio de planos e agora ele estava perdido”

Isso porém, não justifica certos comportamentos, como o relacionamento abusivo no qual Elizabeth se vê no decorrer da história.

“Quero agradecer por esse ano e por todas as vezes que você engoliu sapos e passou por cima de si mesmo para manter o nosso relacionamento intacto”

E apesar disso, esta é uma obra capaz de nos ensinar o verdadeiro significado de amor.

“É amor, Elizabeth, o amor não é egoísta”

Capaz de nos fazer enxergar a necessidade de perdoar o passado para seguir em frente.

“Se o passado ainda atrapalha o seu presente, ele não foi completamente superado”

E, principalmente, que nos mostra como devemos ser nós mesmos e nada mais ou nada menos que isso.

“Não gosto de te ver se podando por causa dos outros”

Para concluir, claro que um livro incrível desses não poderia deixar de falar também sobre o poder da música, não é mesmo?

“O efeito da música nas pessoas é curioso e inebriante, músicas são capazes de fazer coisas que simples frases soltas não são”

Não deixe de ler Eu quero mais. Um livro que vai te fazer refletir sobre tudo isso que eu mencionei aí em cima e muito mais.

“Sim, mas vivo uma vida de mentira que vai acabar em pouco mais de um ano”

Desmistificando o mestrado [11] — A defesa

Toda vez que eu vou escrever um post novo para essa sessão eu sinto que estou escrevendo sobre um tema que costuma apavorar as pessoas. Mas bem, uma coisa que chama “defesa” não parece realmente boa, né?

A verdade, porém, é que não é bem assim e eu basicamente poderia acabar esse post aqui, com a melhor dica que já me deram: “você vai falar sobre a sua pesquisa. Ninguém sabe mais do que você sobre ela, porque foi você quem se dedicou esse tempo todo a ler, pesquisar e escrever tudo isso” (créditos à minha orientadora que, despretensiosamente me fez esse lembrete em algum momento da minha trajetória).

O que mais eu poderia dizer depois de tão sábias palavras? Tá, sempre temos algo a acrescentar. Até porque, a defesa começa muitos dias antes dela. Na verdade, desde o início, tudo o que fazemos é pensando nela, não é mesmo?

Mas além de pesquisar e escrever a sua dissertação, você também precisará preencher documentos, definir a banca, agendar a defesa, enviar o material para que os professores possam ler. É complicado falar sobre isso, porque essa etapa envolve questões burocráticas, que podem variar de lugar para lugar. Além disso, agora, mais do que nunca, as pessoas tiveram de encontrar novas formas de lidar com tudo isso.

Por exemplo, quando eu entreguei minha dissertação, os professores da banca tinham a possibilidade de escolher entre receber o material impresso ou apenas o pdf. Agora, creio, eles precisam ler tudo pelo computador mesmo.

Pode parecer que, depois de escrever uma pesquisa inteira, preencher alguns documentos, definir a banca e agendar a defesa não sejam coisas tão trabalhosas assim, mas aqui deixo dois alertas: nunca se esqueça da questão dos prazos! Então, por mais que tudo isso pareça tranquilo, evite deixar para o último minuto do segundo tempo. E, por fim, lembre-se que agendar a sua defesa pode ser tão difícil quanto marcar um encontro com os amigos, porque professores são seres ocupados! Além disso, é comum existirem algumas regrinhas para a composição da banca, então é muito importante que você e quem te orienta estejam bem atentos a isso.

Aí você pensa: “ah, mas quem me orienta conhece bem tudo isso, não terá dificuldade em me ajudar”. E você se engana. Eu, por exemplo, peguei um momento de transição de regimento, isto é, um período em que essas tais regrinhas estavam mudando. E é preciso tomar cuidado com isso, pois seu professor não orienta somente você, mas outros alunos que podem ter se inscrito em outros regimentos, então as regras podem mudar de aluno para aluno! (sim, as coisas nunca pode ser fáceis, impressionante).

Para o dia da defesa, em si, as dicas são praticamente as mesmas de qualquer dia importante: tente estar descansado e bem alimentado, não fique querendo decorar cada palavra de sua pesquisa. Além disso, ouça atentamente os comentários da banca, anote as sugestões feitas e responda às perguntas com calma. Dificilmente você não “saberá” a resposta de algum dos questionamentos feitos pela banca. Você pode expor o raciocínio que seguiu em determinado ponto ou mesmo ser humilde e dizer “não havia pensado nisso” ou “não havia pensado nisso desta forma/sob esta perspectiva”.

Falar sobre o dia da defesa também é um pouco complicado de se fazer de maneira genérica. Eu, por exemplo, tive a sorte de ter uma banca tranquila, com professores que demonstraram realmente ter lido o meu trabalho e que me fizeram apontamentos e questionamentos pertinentes. Mas nem sempre é assim, infelizmente, pois alguns avaliadores gostam de procurar pelo em ovo. Mas depois que tudo termina (e eu não conheço histórias de reprovações — ainda que elas provavelmente existam), com certeza vem uma sensação muito boa de missão cumprida.

Bom, o post de hoje talvez não tenha sido muito esclarecedor, mas, de novo, estou à disposição para bater um papo sobre tudo isso, tentar dar um help para quem precisar. E espero que a dica lá do início tenha valido por todo o resto.