A teoria de tudo – Jane Hawking

Título: A teoria de tudo
Original: Travelling to infinity: my life with Stephen
Autor: Jane Hawking
Editora: Gente
Páginas: 447
Ano: 2014
Tradução: Sandra Martha Dolinsky e Júlio de Andrade Filho

Dizer que eu adorei esse livro certamente seria mentira, mas não consegui deixar de ler até o fim para entender a visão de Jane Hawking sobre seu relacionamento com Stephen Hawking.

Assisti ao filme homônimo em 2015 e me lembro de ter gostado da história e ter ficado com vontade de ler o livro. 3 anos depois, eu já não me lembrava bem como era descrito o final desse romance — o que me prendeu até a última página — mas o livro me pareceu um pouco mais maçante do que eu esperava.

“Nem três dias, nem três meses e nem mesmo três anos poderiam ter me preparado, ou qualquer outra pessoa, para o que ainda estava por vir”

A teoria de tudo (p.350)

Uma coisa, no entanto, é bem clara e não podemos deixar de mencionar: a vida de Jane Hawking, ao lado de Stephen, não foi nada fácil, e não somente pelo fato da ELA, doença que, aos poucos, foi dominando o corpo de Stephen, mas também por conta de toda a genialidade desse cientista, bem como de seu ceticismo e as difíceis relações interpessoais dele e de sua família.

“A culpa, disse ele, é o risco que se corre esforçando-se sempre para o mais e o melhor; o amor é a única resposta para a culpa”

A teoria de tudo (p.374)

Hoje em dia temos muito mais informações sobre a ELA — Esclerose Lateral Amiotrófica — do que a que existia na época em que Stephen Hawking foi diagnosticado, recebendo uma previsão de poucos anos de vida (que ele superou e muito!). A ELA é uma doença que degenera progressivamente os neurônios motores do cérebro e da medula espinhal, gerando uma fraqueza muscular que, aos poucos, vai paralisando o portador dessa doença. Ainda não há cura para a ELA.

“As expressões no rosto de Stephen eram sempre uma medida muito mais poderosa de suas emoções do que suas palavras, e nessas ocasiões era o sorriso em seu rosto que transmitia sua alegria inconfundível por seus filhos”

A teoria de tudo (p.154)

O livro está dividido em 4 partes e o que me fez não gostar tanto dele é que a escrita, por vezes, é um pouco confusa. Apesar das mais de 400 páginas, parece que algumas coisas acontecem do nada. Mal fica claro que Jane e Stephen estão namorando e, de repente, eles se casam. O segundo filho do casal também, é mencionado de maneira confusa em um primeiro momento. Mas também não podemos nos esquecer que esse livro foi uma espécie de libertação de Jane. Ela precisava escrever o que escreveu, da forma como fez, para entender tudo o que viveu.

“Como eu amava Stephen, eu queria me dar bem com sua família, gostar deles e ser amada por eles, e não conseguia perceber o motivo de esse relacionamento em particular ser tão difícil”

A teoria de tudo (p.93)

Quando eu defendo a Jane aqui e digo que ela não teve uma vida fácil após casar-se com Stephen, estou me apegando a inúmeros momentos do livro em que eu mesma fiquei angustiada com tamanha pressão em cima dela, tamanha falta de reconhecimento de todos os seus esforços, tamanha repressão.

“O simples fato de ser capaz de racionalizar o medo não me fez lidar com isso com mais facilidade, porque eu tinha vergonha de admitir essa fraqueza, em especial quando nossa vida era estritamente governada por aquela corajosa máxima de Stephen — que, se houvesse uma doença física em casa, não havia espaço para problemas psicológicos também”

A teoria de tudo (p.124)

Uma mente brilhante nem sempre revela um ser humano brilhante. E claro que a doença também teve um papel de grande influência na vida desse jovem casal, que apesar de toda a adversidade, no entanto, conseguiu constituir uma linda família, com 3 filhos, ter uma casa, inúmeros amigos. E todos esses fatores, sem dúvidas foram essenciais para Jane.

“Por medo de machucá-lo, tentei intuir seus sentimentos, sem forçá-lo a expressá-los, estabelecendo assim, inconscientemente, uma tradição de não comunicação que se tornaria intolerável com o passar do tempo”

A teoria de tudo (p.41)

A partir da terceira parte do livro a insustentabilidade do relacionamento entre Stephen e Jane fica ainda mais evidente. Chega a ser angustiante ler essas páginas.

“Era óbvio: estávamos vivendo à beira de um precipício. Ainda assim, é possível, mesmo à beira de um precipício, ficar raízes que penetram rochas e pedras, que se insinuam até mesmo nos solos mais pobres para formar uma base suficientemente segura para os galhos acima, por mais atrofiados que sejam para produzir folhagem, flores e frutos”

A teoria de tudo (p.243)

A quarta parte ainda revela muitos momentos de tensão, até que a situação de ambos se resolve, de uma forma que, creio eu, foi a melhor para cada um. E a paz vai aos poucos se instaurando. O bacana é que, ao final, apesar de todo o peso dessa narrativa, terminamos a leitura mais leves, com a sensação de que as coisas se resolveram. De que houve uma espécie de “felizes para sempre”.

Livro disponível na Amazon por R$34,71.

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O paraíso são os outros – Valter Hugo Mãe

Título: O paraíso são os outros 
Autor: Valter Hugo Mãe 
Editora: Biblioteca Azul 
Páginas: 64
Ano: 2018

Que tarefa difícil que é escrever sobre um livro tão pequeno, mas tão cheio de um conteúdo tocante. Narrado por uma menina, O paraíso são os outros fala sobre o amor; fala sobre como uma pequena garota enxerga os casais, tanto de humanos quanto de animais.

“O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares”

O paraíso são os outros (p.9)

O amor não é fácil, bem sabemos, mas ao ser retratado pelos olhos de uma menininha — que não sabemos ao certo a idade — podemos compreender novos âmbitos desse sentimento, aprendendo sobre amor, lealdade, respeito e reciprocidade.

“Há casais que se conhecem num transporte público, numa praça ou no trabalho e ficam. Ficam casais, quero dizer. Dão abraços, trocam números de telefone, assistem a filmes a preto e branco, comem mais doces, reluzem”

O paraíso são os outros (p.23)

A jovem narradora também nos ensina sobre enxergar o mundo com outros olhos:

“Ser feio é complexo e pode ser apenas um problema de quem observa”

O paraíso são os outros (p.13)

Mas claro que não podemos esperar que uma pessoa assim tão jovem saiba tudo sobre o amor. Ninguém sabe, aliás. Com ela, no entanto, vamos descobrindo — ou nos aprofundando — nas maravilhosidades desse sentimento.

“A coisa mais divertida de perceber: os casais não eram família antes. Eram gente desconhecida que se torna família”

O paraíso são os outros (p.26)

A narradora, que espera encontrar seu amor quando “for grande”, para quem sabe entender melhor esse sentimento, nos fala com muito lirismo e, ao mesmo tempo, de maneira simples, como só uma criança seria capaz de falar.

“Estou cada vez mais certa de que o paraíso são os outros. Vi num livro para adultos. Li só isso: o paraíso são os outros. A nossa felicidade depende de alguém. Eu compreendo bem”

O paraíso são os outros (p.34)

O livro também traz ilustrações simples — como pequenos esboços — feitas pelo autor que, ao final, explica o que elas significam.

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A memória do mar – Khaled Hosseini

Título: A memória do mar
Original: Sea Prayer
Autor: Khaled Hosseini
Ilustrador: Dan Williams
Editora: Globo Livros
Páginas: 64
Ano: 2018
Tradução: Pedro Bial

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Passadas as festas de final de ano e tendo iniciado 2019, eu não poderia deixar de começar o ano com uma resenha de A memória do mar, que é uma obra linda: semelhante a um livro infantil, os textos são curtos (aliás, são como versos) e as páginas completamente ilustradas. Mas longe de ser uma história para crianças, A memória do mar foi inspirado em Alan Kurdi.

Para quem (assim como eu) não sabe apenas pelo nome quem é Alan Kurdi, estamos falando do menininho sírio — de apenas 3 anos de idade — que morreu em praias turcas e cuja imagem rodou o mundo. Sua morte deu-se em decorrência do naufrágio do barco em que Alan e sua família navegavam, tentando fugir de uma Síria em guerra.

“mas aquela vida, aquela época, parece um sonho agora, até para mim, um murmúrio que há muito tempo se dissipou”

A memória do mar

A memória do mar é como uma carta, escrita de pai para filho. Entre mostrar o que poderia ter sido e o que realmente foi, este livro nos faz enxergar a dura realidade das crianças que vivem em situações como a de Alan, perdendo logo cedo a infância e vivendo na pele uma cruel realidade.

“Você sabe que a cratera feita por uma bomba pode virar uma piscininha”

A memória do mar

A combinação entre as palavras de Khaled Hosseini e as ilustrações de Dan Williams trazem ao leitor um livro cheio de lirismo e que transmite muito bem aos leitores os sentimentos nele contidos. As páginas não são numeradas e nem há necessidade disso: para além do livro ser curto, números nada significam perto do que essa história quer nos transmitir.

“Segure minha mão. Nada de mal vai acontecer”

A memória do mar

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A Cidade do Sol – Tommaso Campanella

Título: A cidade do Sol
Original: La città del Sole
Autor: Tommaso Campanella
Editora: Vozes de Bolso
Páginas: 57
Ano: 2014
Tradução: Carlo Alberto

O livro A Cidade do Sol é uma obra extremamente curta e, ao mesmo tempo, densa. Se por um lado o fato dele ser construído em forma de diálogo faz com que a leitura pareça leve, por outro lado é preciso estarmos atentos às falas e descrições nelas contidas. O diálogo em questão se dá entre os dois únicos personagens do livro: um Hospitalário (Cavaleiro da Ordem dos Hospitalários de São José de Jerusalém) e um Genovês, que viajara com Colombo.

O cavaleiro, ao encontrar com o Genovês, pede que este lhe conte tudo o que vira durante suas navegações. O Genovês — que é quem mais fala ao longo do livro — começa a contar alguns infortúnios da viagem e logo chega à Cidade do Sol, passando a descreve-la conforme as perguntas do Hospitalário.

Por meio desse diálogo, Campanella consegue idealizar uma cidade metodicamente organizada. Um exemplo dessa organização sistemática é o fato de que todos os habitantes da Cidade do Sol trabalham e fazem isso para um bem comum.

“Entretanto, todos têm o necessário. E entre eles o amigo se conhece nas guerras, nas enfermidades, nas ciências, nas quais se ajudam e ensinam uns aos outros”

A cidade do Sol (p.12)

A primeira pergunta do Hospitalário é “como é construída essa cidade? Como ela é governada?”, ao que se segue uma descrição detalhada da forma física da cidade, bem como de seu complexo governo: o Príncipe Sacerdote — que se chama Sol (ou Metafísico) — é quem governa a cidade, assistido por três príncipes — Pon, Sin e Mor (Poder, Sabedoria e Amor). Só os nomes daqueles que governam a Cidade do Sol já diz muito sobre a mesma.

Além disso, na cidade ainda há os Magistrados:

“A cada virtude que nós temos, correspondem para eles um magistrado: há um que se chama Liberalidade, outro Magnanimidade, outro Castidade, um que se chama Fortaleza, outro Justiça criminal e civil, outro Solércia, outro Verdade, outro Beneficência, outro Gratidão, outro Misericórdia etc.”

A cidade do Sol (p.13)

Esses Magistrados são escolhidos pelos Príncipes, bem como pelos mestres de cada arte. Como todos os cidadãos são igualmente educados em todas as artes, escolhe-se para ser Magistrado aquele que tem maior aptidão.

Um ponto que deve ser destacado sobre a Cidade do Sol é o fato de que até mesmo as relações são controladas. A geração (ou reprodução) segue regras importantíssimas, que visam à manutenção de uma qualidade — ou um equilíbrio —das novas gerações. Bizarro, não? Mas não é só isso! Não são as pessoas que escolhem o próprio parceiro e caso não haja reprodução entre um casal estabelecido, trocam-se os parceiros. E tudo isso controlado pelo tal Príncipe Mor. A tal cidade perfeita certamente desconhecia o que era amor de verdade, mas ainda assim era considerada uma cidade feliz.

Por outro lado, tirando essa questão esquisitíssima, a Cidade do Sol parece viver sob uma espécie de comunismo que deu certo:

“Mas entre eles, distribuindo-se os ofícios, as artes e as labutas entre todos, cada um não trabalha mais do que quatro horas por dia, o tempo que sobra é utilizado para aprender brincando, disputando, lendo, ensinando, caminhando, sempre com alegria.

A cidade do Sol (p.25)

Há ainda muitos outros assuntos que são abordados ao longo do livro, que, no entanto, tem um final abrupto, pois o Genovês deve partir e não tem mais tempo de contar tudo o que vira.

Apesar de ser uma obra um tanto quanto antiga — Tommaso Campanella publicou A cidade do Sol em 1602 — este livro traz muitas críticas que ainda fazemos em nossa sociedade ou que ao menos conseguimos compreender, como a crítica ao ócio (puro e simples) e aos governantes que nada sabem, ou então à riqueza desmedida por parte de alguns, bem como a ostentação.

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Artigo: O Sagrado e o Profano na Urbanidade

Título: O Sagrado e o Profano na Urbanidade: Borges — Análise do Poema "Carnicería"
Autor: Victor de Lima Torquato de Andrade 
Revista La Junta, v.2, nº 1
Páginas: 6
Ano: 2018
Disponível aqui

Victor

Jorge Luis Borges é, muito provavelmente, um nome que você já ouviu falar em algum momento de sua vida. Sendo sua obra vasta, no entanto, é de se esperar que ainda haja muito a ser explorado. E é justamente isso que encontramos no artigo O Sagrado e o Profano na Urbanidade: Borges — Análise do Poema “Carnicerías” que analisa um poema de Borges pouco conhecido e estudado.

O título do artigo, por si só, já é algo capaz de despertar a atenção do mais variado tipo de leitor, destacando que o artigo trata de temas interessantes como “sagrado”, “profano” e “urbanidade”. E, para além disso, a atenção desse leitor é capturada logo nas primeiras linhas, pois podemos perceber que não se trata de um simples artigo científico, mas de um artigo dotado de certo lirismo, além do fato do autor manter um diálogo com o leitor.

Em O Sagrado e o Profano na Urbanidade: Borges — Análise do Poema “Carnicerías”, Victor analisa — ou, para usar as palavras dele “disseca” — verso a verso o poema de Borges, de maneira nem um pouco monótona. O interessante é que podemos entrar em contato com uma poesia pouco explorada de Borges de maneira profunda, ainda que em poucas páginas. Claro que o fato do poema ser breve nos permite a chegar a uma análise tão detalhada e interessante, mas sem dúvidas a forma com que Victor nos conduz a essa análise é essencial para que possamos obter um bom conhecimento do poema em questão. É interessante que, ao ler o artigo, nos damos conta inclusive da precisão na escolha vocabular de Borges.

Carnicerías  faz parte do primeiro livro de poesias de Borges: Fervor em Buenos Aires. Uma obra realmente esquecida por seus leitores e que foi publicada em 1923. No artigo que aqui apresento, Victor menciona também a relação da intensidade que há no poema e no título do livro ao qual ele pertence.

Este artigo é realmente interessante e — coisa rara no mundo acadêmico — pouco maçante. Chegar a um resultado desses não é tarefa para qualquer um: Victor tem intimidade com a poesia, sendo ele mesmo escritor de belíssimas poesias e, por isso, foi capaz de ir direto ao ponto do poema, de maneira clara e linda. Publicar esse artigo foi outra tarefa árdua, motivo pelo qual faço questão de trazê-lo à tona! Não deixem de conferir e comentar aqui o que acharam!

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Linha Tênue – Alfer Medeiros (org.)

Título: Linha tênue - contos sobrenaturais, de suspense e de terror
Organizador: Alfer Medeiros
Editora: Andross
Páginas: 191
Ano: 2017 (1º edição)

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Se você não se importa de começar a duvidar da própria sanidade e adora contos de arrepiar, recomendo Linha tênue que, além de tudo, traz textos escritos por brasileiros que ainda podem ir muito longe.

Ao todo são 34 contos carregados de tensão, medo, bizarrices, mortes. E é impressionante como as histórias não são nem um pouco repetitivas, cada autor escolhendo um caminho totalmente diferente do outro. Também é interessante perceber como alguns dos elementos de terror são metáforas para sentimentos que podemos ter ao longo de nossas vidas, ou situações difíceis que podemos vivenciar.

Abaixo, trarei o título de todos os contos (em ordem) e comentários sobre alguns deles.

1. As crianças do Pandiá Calógeras

Sobre esse conto eu gostaria de destacar que ele me lembrou um pouco Extraordinário, ao retratar o primeiro dia de uma criança em uma nova escola. Além disso, há uma passagem que é basicamente o que o pai de August diz sobre a ida do filho à escola:

“Nesse momento eu tive a certeza de saber como um boi se sente quando vai para o abatedouro”

Linha tênue – p.12

O final desse conto é bem aberto e chocante. Ainda mais porque é o primeiro conto do livro e ainda estamos nos ambientando ao tipo de narrativa que encontraremos pela frente.

2. Banquete

3. Edward

4. Doce liberdade

Esse conto achei um pouco confuso e, ao mesmo tempo, extremamente assustador. Se bem que praticamente todos tem algo de realmente assustador!

5. Marina

Novamente fazendo relações literárias, esse conto me lembrou muito a história de Vitor, de Os quase completos. Acho que com essa passagem dá até para ter uma ideia:

“Várias pessoas já me disseram para seguir com a minha vida, mas não consigo”

Linha tênue – p.33

6. Eu vim conversar

Achei esse conto bem descritivo, mas sem ser chato!

7. O último dia

Esse eu achei muito bacana, pois fala de bullying.

“E ele sentia medo. E o medo crescia em seu peito, como uma erva daninha, dominando-o, e quando a sua mente infantil despertou para a maturidade sofrida e forçada, ele compreendeu do que era feito o mundo: maldade”

Linha tênue – p.50

8. Aqueles que ficam

Esse é bem macabro também e, ao mesmo tempo, bem interessante.

“Às vezes perdemos parte de nós pelos caminhos obscuros que a vida toma, uma parte grande demais para recompor”

Linha tênue – p.53

9. Surto

10. O choro da andorinha

Um conto bem obscuro e triste.

“Qualquer lugar era melhor que aquele lugar”

Linha tênue – p.68

11. O último capítulo

12. Villani

Um daqueles contos que deixam um imenso “o que????” na nossa cabeça.

13. Tumba decrépita

14. O ranger do assoalho

Esse aqui é digno de filme de terror, bem bacana!

15. Não olhe para trás

16. We are programmed to receive

17. O livro das trevas

18. A mochila

Mais um conto sobre bullying, mas bem diferente do anterior. Gostei muito desse aqui.

“Deixava a minha irmã em sua creche, e ia para a minha escola. Chegava lá e me enfrentava com meu maior defeito da juventude: Minha péssima situação econômica”

Linha tênue – p.103

19. Submundo de um ritual

20. Dias obscuros

21. Memórias

22. O último conto

Gostei da forma como esse conto trabalha a questão do bloqueio criativo.

23. O demônio do canto

24. O quarto dos panos negros

25. Julgamento

Esse foi um dos contos mais marcante para mim, pois fala sobre transtornos mentais de maneira inicialmente metafórica, para então nos mostrar do que realmente se trata.

26. Inferno particular

27. Mentes peculiares

Achei esse conto mais poético que os outros e me surpreendi com o fato de ser possível esse lirismo mesmo em histórias macabras.

28. Por amor a você

29. Refém

Gostei do plot twist dessa narrativa. E o final é aberto também.

30. Bárbara dos Prazeres

31. O doce gosto da impiedade

32. A dança das almas

33. O silêncio das respostas

34. O monolito fálico

Para fechar o livro com mais um enorme “que???”.

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Juncos ao vento – Grazia Deledda

Título: Juncos ao vento
Original: Canne al vento
Autor: Grazia Deledda
Editora: Carambaia
Páginas: 224
Ano: 2015 (1º edição)
Tradutor: Maria Augusta Mattos

Antes de mergulhar na leitura de Juncos ao vento propriamente dito, nos deparamos com um esclarecedor ensaio escrito por Maria Teresa Arrigoni. Foi ali que descobri o quão importante na literatura italiana foi Grazia Deledda e como nós, brasileiros, pouco sabemos sobre isso.

Grazia Deledda foi a segunda mulher a receber um Nobel de Literatura e foi justamente com Juncos ao Vento que isso ocorreu, em 1926. Não é a toa, também, que Grazia é um dos principais nomes da literatura italiana do século XX. Me pergunto como não estudamos isso nas aulas de literatura italiana da faculdade (eu fiz Letras português e italiano e, portanto, estudei diversos nomes da literatura italiana, mas jamais Grazia Deledda).

É ainda mais espantoso pensarmos que Juncos ao Vento não figura entre leituras obrigatórias de um curso de italiano quando percebemos a sua riqueza: a obra apresenta uma pequena província Sarda — Nuoro — utilizando muito de suas características físicas e culturais para discutir questões humanas. A natureza, aliás, é de extrema importância ao longo de toda a obra, estando sempre muito ligada aos acontecimentos e sentimentos da narrativa.

Além disso, o personagem principal de Juncos ao Vento é um servo negro — Efix —, que desempenha o papel de um sábio, sendo uma figura muito importante para as mulheres da família Pintor, uma família aristocrática em decadência.

O livro narra muitas crises existenciais e apresenta diversas fragilidades humanas, além de apresentar os costumes e lendas de uma sociedade agropastoril da Itália do século XX. Apesar das inúmeras descrições que aparecem ao longo da história, a linguagem é direta, e permeada por um humor amargo e fatalista.

Trata-se, sem dúvidas, de uma narrativa amarga e triste, e a única esperança — à qual nos apegamos devido a Efix — é de que a vidas das senhoras Pintor melhore com a chegada de Giacinto, sobrinho delas, filho da irmã que fugira e que também já morrera. Essa esperança, porém, dura pouco.

Falar desse livro sem falar da edição brasileira dele seria um desperdício, uma vez que a Carambaia preocupou-se com todo o projeto gráfico do mesmo: todo em preto e branco e com um papel leve e uma capa bem maleável, o livro permite uma flexibilidade semelhante à dos juncos que dão nome à história. Além disso, a tiragem dessa edição foi limitada — contando com apenas 1000 exemplares, todos numerados à mão.

Juncos ao Vento não é uma leitura fácil, mas para quem gosta de saborear a verdadeira literatura italiana, aprendendo um pouco mais sobre seus costumes, paisagens e cultura e ainda gosta de leituras que trazem boas reflexões, certamente esta é uma excelente recomendação!

[Nota: não trouxe nenhuma passagem desse livro, porque, infelizmente, fui assaltada no exato dia em que terminei a leitura do mesmo e como levaram minha mochila, fiquei sem meu livro e sem as passagens que eu traria aqui…]

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Allegro em hip-hop – Babi Dewet

Título: Allegro em hip-hop
Autor: Babi Dewet
Editora: Gutenberg
Páginas: 334
Ano: 2018

(Leia ao som de: As quatro estações – Vivaldi)

A série Cidade da Música se passa no Conservatório Margareth Vilela, mas como cada volume conta a história de um personagem diferente, podemos ler os livros na ordem que quisermos. Eu gostei muito de Sonata em punk rock e estava bem ansiosa para Allegro em hip-hop. Ansiedade, aliás, é um elemento muito importante nessa história.

Camila Takahashi — mais conhecida por Mila — é uma jovem bailarina descendente de asiáticos e que sempre deu duro, seja pela cobrança familiar, seja pelo fato de que o ballet era sua maior paixão. Por seu esforço e seu talento, consegue uma bolsa para estudar na Margareth Vilela, um renomado conservatório de música que abriu também um curso de ballet, para que os músicos pudessem tocar para os bailarinos.

“Mila tinha nascido para ser a melhor e não seria nada menos que isso”

Allegro em hip-hop (p.12)

Apesar de se exercitar diariamente e se alimentar de maneira relativamente balanceada, Mila não levava uma vida realmente saudável: ela treinava noite e dia, até não aguentar mais, e mesmo exausta treinava mais um pouco. Ela se cobrava de maneira assustadora e não tirava nenhum tempinho para conhecer um pouco mais sobre si mesma. Ao menos não até que tanta coisa começasse a acontecer em sua vida que ela se viu obrigada a refletir um pouquinho sobre seus sentimentos. E é lindo ver como essa personagem amadurece ao longo do livro.

“Ela não fazia ideia de por que discussões e gritaria sempre a deixavam com a sensação de que estava fazendo algo errado, mesmo que o problema não fosse com ela”

Allegro em hip-hop (p.21)

Ao longo da história vamos acompanhado a progressão dos sintomas da ansiedade de Mila, que passa a ter de compreender o que acontece consigo mesma para poder superar seus próprios obstáculos. O mais interessante deste livro, porém, não é somente o fato de termos uma protagonista com ansiedade (e descendente de asiáticos, ainda por cima), mas também o fato de que ele nos mostra o quanto há pessoas ao nosso redor que estão dispostas a nos ajudar.

Mila, por exemplo, tem uma melhor amiga no Conservatório, chamada Clara. Elas são muito diferentes entre si, em inúmeros aspectos, inclusive na questão familiar: enquanto a família de Camila é extremamente conservadora e tradicional, Clara tem duas mães que, segundo as personagens, são incríveis.

“Sorriu pensando no quanto ela e Clara eram diferentes e como se gostavam mesmo assim”

Allegro em hip-hop (p.50)

É nos corredores da Margareth Vilela que Mila conhece, também, Vitor, um violinista ruivo extremamente paciente, simpático, atrapalhado e compreensível.

“Alguma coisa nele trazia uma sensação reconfortante, como o sentimento de voltar para casa”

Allegro em hip-hop (p.34)

Apesar do romance que se instala entre eles, fazendo Mila repensar diversos aspectos de sua vida, percebemos que esse não é o foco dessa história e que Vitor poderia até aparecer como um simples amigo. A presença dele, no entanto é indispensável, pois é ele quem faz o elo entre o ballet de Mila e o hip-hop de seus amigos músicos.

“O compasso era em Allegro, um andamento musical leve, ligeiro e animado, que normalmente é interpretado com movimentos coreográficos mais rápidos e agitados”

Allegro em hip-hop (p.203)

Mila ainda conta, ao longo do livro, com o apoio do Clube da Diversidade, que faz com que ela enxergue a importância de lutar pelo respeito às minorias e combater os preconceitos cotidianos. Muitos outros personagens também lhe estendem a mão, assim como ela busca sempre fazer o bem aos que estão perto dela. Allegro em hip-hop, portanto, também nos fala muito sobre empatia, como não poderia deixar de ser.

“Era engraçado como a força podia vir de pessoas que nem conhecia ou de pequenos momentos ou detalhes”

Allegro em hip hop (p.116)

Outro ponto interessante da história de Allegro em hip-hop é que apesar de se passar numa escola fictícia, em que convivem apenas músicos e bailarinos, trata-se de uma realidade que podemos encontrar facilmente fora das páginas desse livro. Todos os personagens ali são extremamente palpáveis, cheio de sonhos, sentimentos, medos, vontades. Mas ao colocar tudo isso em um Conservatório, Babi Dewet nos permite conhecer mais a fundo, também, as dificuldades que bailarinos e músicos encontram em sua formação e carreira.

“Aquela velha história de que bailarinas eram pessoas boazinhas e altruístas não era totalmente verdade. Elas eram guerreiras e batalhadoras, que buscavam seu lugar ao sol e deixavam sua marca em uma comunidade disputada por ótimos artistas”

Allegro em hip-hop (p.59)

A única coisa que não me pareceu muito real ou que não entendi muito bem ao longo da história foi o fato dos personagens mostrarem a língua um pro outro o tempo todo! A gente faz isso na vida real em todos aqueles contextos???

A narrativa de Allegro em hip-hop é em terceira pessoa e a maioria dos capítulos, claro, são centrados em Mila, mas há alguns mais voltados para Vitor também. Além disso, podemos encontrar, também, diversos diálogos e mensagens de texto trocados entre os personagens. E claro, não poderia deixar de mencionar que cada capítulo traz como “título” uma música diferente.

Eu poderia passar horas e horas falando sobre esse livro, que realmente me fisgou, mas vou parar por aqui com o pedido de que leiam essa belezura. Quando terminei de ler eu não sabia como reagir. O final da história deixa um enorme gosto de quero/preciso de mais. É um final bem aberto, mas ao mesmo tempo, perfeito para o caminhar da narrativa.

Recomendo muito para quem ama ballet e música; para quem quer compreender melhor aqueles que sofrem de ansiedade; para quem quer um livro que apresenta e representa com responsabilidade minorias; para quem, em resumo, quer ler uma boa história, leve e, ao mesmo tempo, profunda.

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O andar do bêbado – Leonard Mlodinow

Título: O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas
Original: The Drunkard's Walk (How Randomness Rules Our Lives) 
Autor: Leonard Mlodinow 
Editora: Zahar
Páginas: 322
Ano: 2011 
Tradução: Diego Alfaro

O andar do bêbado, como definido por Stephen Hawking, é “um guia maravilhoso e acessível sobre como o aleatório afeta nossas vidas”. Ao longo de 283 páginas, Leonard Mlodinow nos apresenta de maneira clara e com exemplos palpáveis noções de probabilidade e ele faz isso para conseguir explicar como não estamos no controle do nosso futuro e como pequenos acontecimentos podem nos afetar.

O escritor esclarece ainda:

“O título O andar do bêbado vem de uma analogia que descreve o movimento aleatório, como os trajetos seguidos por moléculas ao flutuarem pelo espaço, chocando-se incessantemente com suas moléculas irmãs”

O andar do bêbado (pg. 10)

O livro está dividido em dez capítulos: o primeiro é uma introdução à obra; do segundo ao sétimo capítulo temos as noções de probabilidade e estatística, entrecortadas por exemplos e causos contados pelo autor; por fim, nos capítulos oito a dez são apresentadas as aplicações e implicações reais destes conceitos em nossas vidas.

“Neste livro examinamos muitos dos conceitos que nos ajudam a compreender os fenômenos aleatórios. Ao longo do caminho, adquirimos percepções sobre diversas situações específicas que se apresentam em nossas vidas”

O andar do bêbado (pg. 249)

Ainda que as explicações sejam acessíveis, é preciso ter interesse no assunto para realmente se deliciar com este livro. Recomendo, portanto, principalmente para aqueles que não sabem muito bem por onde começar a ler sobre probabilidade. Mas, para além dessas noções, o livro apresenta também vários fatos históricos e curiosidades do mundo.

Com certeza não é um leitura fácil ou fluída. Mas ler com calma poderá te abrir novos horizontes. Como livro, portanto, O andar do bêbado cumpre muito bem o seu papel.

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Pirandello em cinco atos – Maurício Santana Dias

Título: Pirandello em cinco atos
Autor: Maurício Santanda Dias (tradução e organização)
Editora: Carambaia
Páginas: 184
Ano: 2017

Um título que diz muito sobre o livro: Pirandello em cinco atos nos apresenta a tradução de cinco peças deste grande autor italiano. São peças breves, de ato único, mas repletas de conteúdo. O livro está organizado, segundo explica o próprio tradutor e organizador do livro, em ordem cronológica da encenação das peças.

O primeiro texto com o qual entramos em contato é O torniquete, que se passa em uma cidade do interior (da Itália), na “atualidade” (essa peça foi escrita entre 1889 e 1900). Tal peça conta com apenas 4 personagens: Andrea Fabbri e sua esposa Giulia; Antonio Serra, um amigo do casal; Anna, a empregada do casal.

Uma das acepções possíveis para “torniquete” é “instrumento destinado a apertar ou a cingir apertando”. Nesta peça, ao descobrir que Giulia o trai com seu amigo Antonio Serra, Andrea começa a contar uma história para fazer com que sua esposa confesse seu próprio crime. Ele faz isso como se “apertasse” sua esposa.

“Nesse estado, as palavras mais inofensivas parecem alusões: cada olhar, um gesto; cada tom de voz, um…”

Pirandello em cinco atos (p.13)

Uma história bem interessante, dramática e que prende nossa atenção.

Depois, entramos em contato com Limões da Sicília, que se passa no norte da Itália também “nos dias de hoje” (esta peça foi encenada pela primeira vez em 1910). Afora os figurantes, nesta peça aparecem Ferdinando, Dorina e mais alguns criados de Sina Marnis — uma grande cantora — e de sua mãe, Marta Marnis. Por fim, temos a presença de Micuccio Bonavino, que viaja horas e horas para reencontrar sua amada cantora.

O final dessa história é bem interessante e a encenação, creio eu, pode até ser engraçada.

A peça seguinte chama-se A Patente, e não tem uma localidade precisa, como nos textos anteriores. Somos apresentados a 7 personagens: Marranca, um oficial de justiça; três juízes; D’Andrea, também este um juiz (mas o único com nome); Rosario Chiàrchiaro, personagem central desta narrativa; Rosinella, filha de Rosario.

Essa foi uma das peças que mais gostei: Rosario é chamado à presença do juiz D’Andrea, por estar movendo uma ação que certamente perderá. No entanto, nosso protagonista faz isso para provar a todos que morrem de medo dele que sua fama de mau agouro pode lhe render muito dinheiro.

Foi nesse texto, também, que li uma das melhores passagens desse livro:

“Porque o mal, minha querida, pode ser feito a todos e por todos; já o bem, só àqueles que precisam dele”

Pirandello em cinco atos (p.100)

A penúltima história de Pirandello em cinco atos chama-se O Homem da Flor na Boca. Trata-se de uma história com apenas dois personagens: o tal homem do título e um cliente. Esta peça também não tem uma localidade definida e o que achei mais interessante foi a questão da “flor na boca”, que é uma metáfora para um epitelioma que o homem traz em sua boca, um sinal de que a morte se aproxima. Acho que esse é um dos textos mais malucos desse livro, mas que pode trazer reflexões interessantes.

Por fim, temos a peça O outro filho, que se passa na Sicília, nos primeiros anos do século XX, quando muitos jovens saíam da cidadezinha em que se passa a história. Saíam em campanhas militares, em busca de uma vida melhor. Nesse texto aparecem as comadres da vizinhança e Ninfarosa, uma bela jovem; Maragrazia, uma mãe que sofre com a ausência de seus filhos; Tino, que está de partida; Jaco Spina, também da vizinhança; um jovem médico, com um coração cheio de compaixão; Rocco Trupìa, o filho bastardo.

Esse texto traz um desfecho um tanto quanto interessante e reflexivo, sobre o filho não querido por conta da forma como ele foi concebido. Um tema que, vejam só, aparece numa peça escrita há tantos anos, mas que até hoje é considerado um tabu em nossa sociedade.