Il passato prossimo

Chegou a hora de fazer AQUELE post que eu achei que já tivesse feito (aliás, que vergonha, este ano, até agora, fiz apenas UM post sobre ensino de italiano aqui). Sim, senhoras e senhores, é hora de falarmos sobre o passato prossimo (ou o nosso pretérito perfeito).

E por que toda essa introdução? 

Porque este tempo verbal italiano tem algumas especificidades que, para nós, brasileiros, o torna um pouco complicado. Mas vou tentar mostrar aqui como não tem segredo (só estudo mesmo).

A primeira coisa que devemos saber é: o passato prossimo é SEMPRE formado pois dois verbos. Então o que você fala usando apenas um verbo em português (vi) em italiano você vai falar usando dois verbos (ho visto).

E que verbos são esses? 

Muito simples: um auxiliar e o verbo principal.

O auxiliar será sempre essere ou avere (se você não lembra dele ou não os conhece, volte neste post) conjugados no presente do indicativo e o verbo principal é o que vai indicar realmente a ação que você quer usar.

Se o tal verbo principal for regular, maravilha! Você simplesmente irá trocar a terminação de acordo com a seguinte regra:

Verbos em -ARE vão virar -ATO (parlare = parlato)

Verbos em -ERE vão virar -UTO (cadere = caduto)

Verbos em –IRE vão virar -ITO (dormire = dormito)

Se fosse só isso seria fácil, né? Mas temos dois poréns aqui:

1. Existem verbos que são irregulares, principalmente os verbos em -ERE.

2. Se o auxiliar for essere, temos de fazer a concordância do particípio passado (isto é, das terminações que mostrei ali em cima) em gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural). Isso significa que o -O final pode ainda virar -A (singular feminino), -I (plural masculino) ou -E (plural feminino).

Se quiser praticar um pouco das terminações do particípio passado, clique aqui. E se quiser conhecer o particípio passado de alguns verbos irregulares, clique aqui.

A grande questão é: como eu sei que auxiliar usar? Isto é, quando uso essere e quando uso avere? Sim, porque você não pode usar qualquer um deles a qualquer momento!

Bom, vamos lá, na maioria dos casos você vai usar avere como auxiliar (o que é ótimo, né, porque aí não tem que fazer a concordância!). 

A regrinha é que usamos avere com verbos transitivos, ou seja, aqueles que, se usados sozinhos, serão seguidos da pergunta “o quê”/quem, indicando que eles precisam de um complemento. 

Para ser sincera, porém, essa regrinha ajuda muito, mas ela não é totalmente satisfatória. Acho que o que facilita um pouco mais é conhecer “la casa di essere“: todos os verbos da imagem abaixo serão precedidos de auxiliar essere. Isso inclui TODOS os verbos reflexivos, representados na imagem por lavarsi. E, claro, se o verbo que você quer usar não está na imagem abaixo, então é muito provável que o auxiliar dele seja avere.

Imagem retirada de: https://italiabenetti.blogspot.com/2021/01/la-casa-di-essere-verbi-con-ausiliare.html. Acesso: 03 de agosto de 2022.

Que praticar um pouco a escolha do auxiliar? Então vem aqui.

Para conjugar verbos no passato prossimo, em italiano, portanto, precisamos:

  • De dois verbos;
  • Que o primeiro desses verbos seja o auxiliar (essere o avere) conjugado no presente do indicativo;
  • Que o segundo seja o particípio passado do verbo principal (isto é, o verbo principal com aquelas terminaçõezinhas que vimos anteriormente).

O passato prossimo não é o único passado que existe no italiano (assim como o pretérito perfeito não é o único do português), mas ele é, dentre os mais usado, o que traz maiores dificuldades, por ser composto.

Veja, na imagem abaixo, alguns exemplos de conjugação:

Ficou um pouco mais claro agora? Então vamos concluir com um pouco de prática: basta clicar nos títulos abaixo e você irá acessar jogos para treinar as conjugações e usos do passato prossimo):

Ficou alguma dúvida? É só comentar aqui que terei o maior prazer em ajudar!

100 canções para salvar sua vida — Camila Dornas

Título: 100 canções para salvar sua vida 
Autora: Camila Dornas 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 379 
Ano: 2019

Começo esta resenha com uma frase que pode ser um pouco óbvia, mas que fica ainda mais clara quando concluímos a leitura de 100 canções para salvar a sua vida: a música une as pessoas.

“Música era a conexão entre meu pai e eu”

Mas não se deixe enganar por essa capa fofa e colorida e por essa frase capaz de conquistar qualquer um que, assim como eu, ama músicas e histórias. Este livro traz uma narrativa forte e aborda muitos assuntos que podem ser grandes gatilhos (como consumo excessivo de álcool, suicídio, violência sexual, relacionamentos familiares). 

“Tentei fazer suas palavras fazerem sentido, tentei entender, ao menos superficialmente, o que ele sentia. Mas não pude, é claro que não pude”

O livro já começa intenso, o que só nos faz querer saber como tudo aquilo pode acabar. Será que tem como acabar “bem”?

“Tudo é a mais pura e vibrante energia. E energia nunca desaparece. Apenas se transforma em algo diferente”

Nesta história conhecemos Alícia e Natasha que, um ano depois, ainda estão tentando entender e superar a morte de Valentina, que completava o inseparável trio. Uma garota que só podemos conhecer através das palavras de suas melhores amigas.

“Alguns dias eram piores que os outros. Alguns dias, sua ausência era tão forte que parecia tangível”

Neste ponto já podemos ver como cada uma lida com essa dor e é bonito perceber que sim, cada um de nós vive o luto ao seu modo.

“Às vezes tudo que precisamos é uma oportunidade de dizer adeus”

Mas esse panorama é apenas o começo. E a verdadeira história se desenrola a partir do momento em que Ali e Tasha resgatam a cápsula do tempo delas — uma tradição criada alguns anos antes — e, como de certa forma já esperavam, encontram algo deixado por Valentina. Elas só não imaginavam que esse algo seriam seis cartas, um iPod rosa com 100 canções e um mapa. 

“Não saber o que acontece em seguida é a melhor parte”

É a partir dessa descoberta que Ali e Tasha se jogam na estrada à bordo da Kombi grafitada de Alícia, que está ao volante, mas sendo conduzida por Valentina. Numa espécie de caça ao tesouro do além, as amigas iniciam assim a sua jornada.

“Ir embora só é difícil quando você tem algo pra deixar pra trás”

As duas amigas saem, portanto, em busca das respostas não dadas enquanto Valentina era viva e descobrem coisas dolorosas, que jamais esperaram descobrir (mas que, a partir de um certo ponto passamos a desconfiar, mesmo não querendo).

“Alguns segredos são terríveis demais, devastadores demais. Algumas verdades, quando desenterradas, destroem tudo”

Mas nem tudo é lágrima e dor nesta narrativa. Enquanto rodam o Brasil, as duas amigas vivem aventuras únicas e, principalmente, conhecem pessoas que serão igualmente capazes de transformar suas vidas.

“As pessoas que eu encontrei e suas histórias eram os tesouros mais preciosos pelo quais eu podia pedir, eram um lembrete de que nem todos eram ruins”

Confesso que me espantei com a facilidade que esse povo tem de cair na estrada. Mas é muito difícil não se deixar levar pelo espírito de liberdade deles. Ah, e aqui não estou mais falando somente de Ali e Tasha, mas dos amigos que elas conheceram pelo caminho também.

“Eu gosto de escapar de vez em quando, mas sou um paulista assumido. Gosto do barulho, da variedade de estilos, da vida cultural sempre pulsando, do ar pesado, até das pessoas rabugentas”

100 canções para salvar sua vida é um livro intenso, que vai te fazer pensar sobre a vida (e a morte), sobre amizades e valores, sobre força, coragem e sorrisos.

“Valentina era uma das pessoas mais corajosas que eu já conheci, e mesmo assim, ela nunca contou pra ninguém”

Uma história que vai te fazer sentir muitas coisas ao mesmo tempo e que, provavelmente, irá te marcar de alguma forma.

“Apesar do sorriso sempre presente, ela se escondia em suas aventuras por que tinha medo do nada, medo do que aconteceria se ficasse sozinha tempo demais consigo mesma”

Este foi meu primeiro contato com a escrita da Camila Dornas e sinto que, inicialmente, fui com muita expectativa para a leitura. Depois, porém, realmente me conectei à história e agora, além de tudo, percebo que destaquei alguns trechos bem fortes e significativos e que fiquei bem mexida com o que li.

“Um minuto é a diferença entre nada e alguma coisa. Alguns minutos podem mudar tudo”

Se você também quer conhecer está história, clique aqui embaixo. E se quiser saber mais sobre o trabalho da Camila, não deixe de segui-la nas redes sociais (Site | Instagram | Twitter).

Tatianices recomenda [18] — Instituto Artium

Faz um bom tempo que não trago alguma indicação por aqui, principalmente de lugares e eventos culturais, e estou feliz de voltar com uma recém incrível descoberta para quem mora ou está visitando São Paulo (capital).

O bairro de Higienópolis, conhecido (e polêmico) por ser um bairro de alto padrão, guarda algumas pérolas culturais que certamente valem a visita, como é o caso do Instituto Artium de Cultura, que desde janeiro 2021 funciona no Palacete Stahl, localizado na Rua Piauí, 874.

Em meio aos prédios do bairro, e estando de frente para a Praça Buenos Aires, o palacete chama a atenção de quem passa pela rua somente com o seu exterior. 

Mas o melhor está lá dentro: logo na primeira sala, temos uma linha do tempo da casa e descobrimos, assim, o tanto de história que essa construção abriga, tendo sido consulado da Suécia e, posteriormente, do Japão. Não à toa, o edifício foi tombado em 2005.

Também não passa desapercebida a imponência do local, que tem sido pouco a pouco restaurado. Lustres de cristal, entalhes em madeira, colunas, afrescos: tudo enche nossas vistas e deslumbra.

O Instituto Artium de Cultura, hoje localizado neste palacete, abre para visitação de quarta a domingo, das 12hrs às 18hrs (de quarta a sexta) e das 10 hrs às 18hrs (aos finais de semana).

A entrada é gratuita, mas é preciso pegar seu ingresso no site, mesmo que alguns minutos antes da visitação.

Estive lá em um domingo a tarde e a visitação foi super tranquila, sem grandes aglomerados e com ótimas explicações dadas pelos funcionários da casa. Impossível não se apaixonar.

É bem fácil de chegar ao Instituto, que está localizado próximo ao metrô Higienópolis Mackenzie (linha amarela do metrô). Vale aproveitar e já passear pela região, que também tem muitos outros lugares incríveis para visitar. 

No momento, o palacete abriga uma exposição com fotos de peças teatrais chamada “Jairo e João: o teatro na fotografia de Jairo Goldflus e João Caldas”. As imagens são lindas e trazem muitas belas surpresas, com alguns rostos muito conhecidos e outros nem tanto.

Instituto Artium de Cultura
Aberto de quarta a domingo 
Rua Piauí, 874 - Higienópolis
Entrada gratuita
Fone: +55 (11) 3660-0130
Email: contato@institutoartium.org.br
Site | Instagram

Resto qui — Marco Balzano

Título: Resto qui 
Autor: Marco Balzano 
Editora: Einaudi 
Páginas: 192 
Ano: 2020 
Título em português: Daqui não saio

Sabe aquele livro que a gente se pergunta por que nunca leu antes? Pois bem, Resto qui é um desses.

Não digo isso pela sua escrita, que não é tão especial assim, sendo direta e até um pouco dura. Mas, puderas: seus temas não dão muita escolha. E são justamente eles que, para mim, dão tanto destaque a esta história.

“Pelo contrário, vou te contar sobre a nossa vida, sobre sermos sobreviventes. Vou te contar sobre aquilo que aconteceu aqui em Curon. No vilarejo que não existe mais”

O texto começa com uma mãe falando com sua filha, numa espécie de carta, e, neste primeiro momento, podemos perceber uma dor que ainda não compreendemos muito bem a origem, o que nos faz querer seguir adiante, mesmo com medo do que pode vir (e que já sentimos que não tem como ser bom).

“Você não sabe nada sobre mim e, no entanto, sabe muito porque é minha filha”

Logo, então, chegamos ao primeiro assunto que me faz gostar desse livro: Curon

Talvez você já tenha ouvido falar desta pequena cidade italiana, conhecida pela torre de um campanário que desponta do meio de um lago. Há inclusive uma série da Netflix com este nome.

O que poucos sabem é a verdadeira história de Curon, e é justamente isso que encontraremos em Resto qui. Uma história que tem muita relação com o nazismo e a guerra, dois temas que me são caros e que contribuíram para o meu encantamento com esta narrativa, porque aqui aparecem de uma perspectiva diferente da que costumamos encontrar.

“O nazismo era a maior vergonha e cedo ou tarde o mundo perceberia isso”

Apesar de estar na Itália, Curon é uma cidade que faz fronteira com a Suíça e a Áustria, tendo mais características alemãs que italianas propriamente ditas. Seus habitantes, por exemplo, falavam alemão, o que foi um grande problema à época de Mussolini, que obrigou toda a Itália a falar o italiano.

“Contudo o italiano e o alemão eram muros que continuavam a ser levantados. As línguas tinham se tornado marcas de raça. Os ditadores as tinham transformado em armas e declarações de guerra”

Tina, a narradora de Resto qui — assim como praticamente toda a população de Curon —, era uma pessoa de origem e hábitos humildes. Mas havia algo que unia esse povo: o sentimento de lar que a cidade gerava neles. E, por isso, eles lutaram até o fim contra a construção da represa que deixou toda a cidade submersa, restando apenas o campanário da igreja.

“Se nós formos embora, eles terão vencido”

O problema é que os habitantes de Curon não tinham apenas a diga para se preocupar: durante a guerra, tiveram de fazer escolhas nada fáceis.

Enquanto alguns voluntariamente se alistavam aos exércitos nazistas, outros, como o marido de Tina, preferiam desertar e, por isso, tiveram de fugir e viver escondidos.

“Era difícil aceitar, mas tudo havia ficado para trás. Eu deveria apenas não pensar mais nisso”

Resto qui é uma história real e necessária, que vai nos fazer refletir sobre nossas origens, o sentimento de pertencimento, o poder de uma língua, as dores da guerra e do distanciamento dos filhos.

“Era a minha dor secreta, sobre a qual não falavo com ninguém. Nem comigo mesma”

Dentre as tantas críticas que uma história como essa pode fazer, Resto qui ainda se encerra com uma interessante reflexão sobre a banalização turistica da história local.

“A vida era mais uma questão de afetos que de ideias”

O livro foi traduzido para o português, recebendo o título de Daqui não saio. No entanto, li o original, em italiano, e os trechos acima foram traduzidos por mim. Abaixo, deixo, na ordem usada ao longo desta resenha, os trechos tais quais li no livro.

“Ti racconterò invece della vita di noi, del nostro essere sopravvissuti. Ti dirò di quello che è successo qui a Curon. Nel paese che non c’è più”

“Non sai niente di me, eppure sai tanto perché sei mia figlia”

“Il nazismo era la vergogna piú grande e presto o tardi il mondo se ne sarebbe accorto”

“Invece l’italiano e il tedesco erano muri che continuavano ad alzarsi. Le lingue erano diventate marchi di razza. I dittatori le avevano trasformate in armi e dichiarazioni di guerra”

“Se ce ne andremo avranno vinto loro”

“Era difficile da accettare, ma tutto era alle spalle. Dovevo solo non pensarti piú”

“Era il mio dolore segreto, di cui non parlavo con nessuno. Nemmeno con me stessa”

“La vita era una questione di idee prima che di affetti”

É possível ler qualquer uma das versões em formato ebook, basta clicar na que você preferir abaixo:

Em você me (re)conheço. O poder curativo das palavras [tradução 26]

Depois de muito tempo sem trazer uma tradução por aqui, resolvi voltar com uma que, logo de cara, chamou a minha atenção pelo título — forte, não? — e que, depois, mostrou-se um pouco diferente do que costumo trazer nesta seção.

Quer dizer, o artigo ainda fala sobre leitura e literatura, mas, dessa vez, com um pouco de psicologia também. Não à toa, ele foi escrito pela doutora Anna Rossi, uma psicoterapeuta.

Encontrei o texto no site da própria doutora Anna, sem a data de publicação. Caso queira conferir o original, basta clicar aqui. E abaixo você poderá ler a minha tradução.


“Cada leitor, quando lê, lê a si mesmo” (Marcel Proust)

“Essa é a parte mais bonita de toda a literatura: descobrir que os seus desejos são desejos universais, que você não está só ou isolado de ninguém. Você pertence” (Francis Scott Fitzgerald)

Contar sobre si faz bem. Sabem bem disso os psicoterapeutas que descobrem nas narrações de histórias de vida dos pacientes o meio pelo qual alcançar maiores níveis de bem-estar.

Falar sobre si nos torna visíveis, a nós mesmos e ao mundo. Abre um espaço de compartilhamento com o outro, talvez justamente no território tão temido das fragilidades humanas. Dá às histórias vividas a possibilidade de serem escutadas e acolhidas com curiosidade, que vem do latim “cuidado”, com interesse autêntico e sem julgamentos. Contar histórias cria alianças, nos liga intimamente a quem as escuta.

Contar sobre si equivale a percorrer de novo as experiências de vida passadas, na presença de uma testemunha, para atualizá-las e conferir-lhes finalmente um sentido. Um sentido que talvez seja precário, remodelável, não definitivo. Mas que, mesmo assim, é sentido e, como tal, é capaz de oferecer continuidade, coerência e unidade àquilo que somos e sentimos. Falar sobre si na terapia significa escrever e reescrever a própria história. De maneira inédita, pessoal, criativa, que seja fonte de paz com o passado e trampolim para um salto responsável em direção ao possível.

Contar-se através da escrita, para além do espaço terapêutico, é, no fundo, algo muito parecido ao que acabamos de dizer. E talvez já soubessem bem disso aqueles autores do presente e do passado que fizeram da escrita seu antídoto pessoal contra a dor. Que através da criação de mundos e histórias deram espaço ao vivido, aos desejos, ao sofrimento e àquelas insistentes questões existenciais que não encontraram outro lugar no mundo lá fora. Que, assim, deram direito ao próprio ponto de vista de existir no mundo, mesmo que este fosse cheio de zonas sombrias e de contradições não resolvidas. Que puderam finalmente confiar a nomes e personagens aquela pluralidade de vozes guardada em suas almas e um significado àquilo, pouco ou muito, que da vida puderam experimentar. 

Se contar histórias faz bem, e faz, o que acontece quando abrimos as portas às histórias de um outro? Marielle Macé, diretora de pesquisa no CNRS e docente de literatura na EHESS e na Universidade de Nova York, se coloca a pesquisar sobre aquilo que acontece na mente do leitor de uma perspectiva que faz referência à atividade, atualmente já mais conhecida, dos neurônios espelho. Em Façons de lire, manières d’être ela afirma: “a experiência concreta do sentido tem uma verdadeira dimensão motora, e não apenas intelectual. Olhando o fazer ou o pensar dos personagens, nós esboçamos gestou ou pseudo gestos; […] a compreensão não é inerte, consiste precisamente no ativar em nós simulações gestuais […]”. E não podemos não estar de acordo com ela. Ler desempenha uma importante função na compreensão da mente dos outros e na potencialização da empatia. Permite desenvolver uma melhor teoria da mente, como demonstra o estudo de David Comer Kidd e Emanuele Castano da Nova Escola de Pesquisa Social de Nova Iorque, cujos resultados foram publicados na revista Science. “Exatamente como na vida real, a literatura é rica de indivíduos complexos, cujo mundo interior não podemos compreender se não com uma capacidade de investigação psicológica bastante refinada” explica Castanos. Através da escuta de uma história o leitor consegue acessar o mundo emotivo e cognitivo dos personagens, observar as variações e as evoluções dos estados de ânimos deles, visualizar as consequências dos sentimentos e das ações deles. Ler histórias é como ser jogado dentro de um espaço laboratorial onde se pode experimentar as infinitas nuances da emotividade humana e as múltiplas declinações da identidade. Onde poder viver, simulando, inúmeros acontecimentos. E através desta experimentação, aprender a refletir sobre si, a compreender melhor o próprio mundo interno, as suas facetas e a sua complexidade. A se tornar mais consciente dos mecanismos que estão sujeitos ao sofrimento, a entender que essa é uma experiência universal que nos une aos outros e não que nos separa. A perdoar os nossos limites e a ser mais compassivo com as nossas vulnerabilidades. A cultivar a confiança nas mudanças que, afinal, são a lei da vida.

As histórias dos outros nos dão a possibilidade de encontrar e nos aproximar, gradualmente e sem sobressaltos àquelas emoções que nos dizem respeito mas que tendemos a fugir por medo de ter de reconhecê-las em nós e ter de confrontá-las. Vê-las agindo em personagens que não somos nós, nos ajuda a torná-las familiares, menos assustadoras. Nos ensina a tê-las por perto sem medo.

A narrativa é, portanto, para todos os efeitos, um potente instrumento de autoexploração e cuidado. E, durante a terapia, pode ser o lugar pelo qual o paciente e o terapeuta se encontram para depois, juntos, encaminhar-se em direção a outras possibilidades.


E aí, o que achou?

Já li muitos texto que falam sobre como pessoas que leem muito são mais empáticas, mas achei interessante que, nesse texto, há todo um destaque para a importância de não apenas ouvirmos outras histórias, mas também contarmos a nossa.

AmoreZ — Regiane Folter

Título: AmoreZ 
Autora: Regiane Folter 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 47 
Ano: 2020

Existem inúmeras formas de amar e de demonstrar esse amor e é exatamente isso o que encontramos nesta breve obra: um amor para cada letra do alfabeto, como sutilmente sugere o título.

“Já pensou que existem tantos tipos de amor quanto pessoas esperando ser amadas?”

Através de 22 contos curtinhos, a autora faz um lindo passeio pelo alfabeto, nos propiciando as mais diversas leituras e os mais variados sentimentos.

“Enfim, eu leio. Às vezes mais, às vezes menos; mas estou permanentemente em busca de histórias para colecionar em uma biblioteca mental que me ajuda a enxergar o mundo com novos olhos”

Ao longo das páginas deste livro, também somos lembrados que nem toda história de amor é necessariamente alegre, com um “felizes para sempre”.

“Engraçado como amar alguém não é garantia que você vai estar com essa pessoa para sempre”

E assim como várias são as formas de amor, diversas são as maneiras de apreciar este livro: de uma sentada só ou, como acho mais interessante, aos poucos, uma dose de amor diária e necessária.

“Eu leio. Desde que aprendi, nunca mais parei. Em quase tudo que faço, levo um livro comigo”

Claro que, para mim, foi fácil eleger um texto preferido dentre todos os lidos: não resisto a histórias que falam sobre livros e leituras e, assim, o meu escolhido é o Biblioteca.

“Ler para mim é uma droga, eu não posso parar. Não depois de tudo que vivi”

Mas, como se pode imaginar, tem história para todos os gostos neste livro e também acho que ele pode ser uma boa pedida para quem quer sair de uma ressaca literária ou simplesmente começar a ler, já que ele é leve e, de novo, super rapidinho.

“Guardo o momento da leitura com carinho em um compartimento do meu dia. Porém, às vezes, por causa da correria do demandante mundo real, deixo de ler”

Ah, este também é um livro para quem precisa recuperar um pouco dos tantos sentidos do amar.

“Existem coisas que têm mais força que “eu te amo”. Uma frase é só uma frase. Os pedaços de vida que duas pessoas decidem conectar significam muito mais que três palavras entoadas juntas”

AmoreZ reúne, portanto, breves histórias despretensiosas, mas que, ao mesmo tempo, nos fazem pensar. E se você acha que é deste livro que está precisando, não deixe de clicar abaixo para saber mais. Aproveite para seguir a autora no Instagram e conhecer mais do seu trabalho.

“Não é para qualquer um que mostramos o carrinho de compras cheio de quem somos”

Depois da caixa preta — Rafael Weschenfelder

Título: Depois da caixa preta
Autor: Rafael Weschenfelder
Editora: Publicação independente
Páginas: 99
Ano: 2022

Será que os fofoqueiros de plantão já pensaram em unir a paixão por reality shows e literatura? Se sim ou se não, a dica de leitura de hoje é um prato cheio para isso e, sem dúvidas, vai agradar não apenas os fãs desse tipo de programa, mas também aqueles que acreditam numa boa teoria da conspiração.

Em Depois da caixa preta conhecemos Lorenzo, um ator de novelas adolescentes que quer entrar na famosa Casa de Vidro não para ganhar dinheiro ou fama, mas para descobrir o que há de verdade na tal caixa preta, único cômodo da casa que não tem câmeras e paredes transparentes.

Acho que só com a breve descrição acima já dá para ter ideia das referências que permeiam esta história, certo?

“A Casa de Vidro muda a gente — diz, por fim. — Você não entenderia”

Uma vez mais, porém, Rafael Weschenfelder surpreende seus leitores. Por trás de uma história que parece a simples busca de um jovem apaixonado pela verdade que mudou por completo o comportamento de sua (ex)namorada, Lisbela, que três anos antes participara desse mesmo programa, o autor esconde muito mais.

Chips, manipulação, insegurança e depressão são alguns dos assuntos que encontramos nas poucas páginas que compõem esta narrativa cujo vilão não tem uma cara precisa, mas faz-se claramente presente.

“Ninguém é livre para fazer suas próprias escolhas dentro da Casa de Vidro. Somos fantoches, marionetes”

Se esta história despertou sua curiosidade, saiba mais sobre ela clicando abaixo. Uma leitura rápida e que, como sempre acontece com os textos do Rafael, vai te prender e, no final, te deixar de boca aberta, pensando em milhares de possibilidades.

Também te convido a seguir o autor no Instagram e conhecer suas outras obras: as 220 mortes de Laura Lins (nessa tem looping temporal) e O baú do zumbi gelado (para quem curte videogame ou jogos online).

Sobre a Bienal do Livro + carta aberta aos autores

No último domingo (10/07) terminou a 26° Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que ocorreu entre os dias 2 e 10 de julho, no Expo Center Norte, espaço para eventos deste porte, localizado na Zona Norte da cidade.

Apesar desta não ter sido minha primeira vez em uma Bienal, foi uma experiência totalmente nova e gostaria de compartilhar um pouco disso com você.

Para começar, vale dizer que fui em mais de um dia, mas somente porque eu consegui fazer minha credencial como profissional do setor (o que inclui aqueles que trabalham na produção de livros, como autores, revisores, tradutores, diagramadores, editores, mas também professores), tendo, assim, acesso gratuito ao evento.

O valor do ingresso para quem não tinha credencial (que também é possível conseguir como blogueiro) era de R$15 (meia) ou R$30 (inteira). Um valor que vale à pena, para quem pode pagar, visitar ao menos uma vez o evento, mas que torna inviável mais de uma ida, ainda mais em dias que eu sabia que não conseguiria ficar muito tempo por lá.

Além disso, depois de muitos anos, nesta edição eu tive companhia para aproveitar o evento. E também aconteceu a coisa mais diferente que me poderia acontecer: estive ao lado de um amigo que é best-seller na Amazon, ajudando-o a tirar fotos com os fãs e distribuindo seus brindes. Foi uma energia muito gostosa e eu, tendo encontrado também outros autores independentes que admiro, entendo bem a emoção da cada um que encontrava o autor para tirar uma foto e trocar algumas palavras.

Estive presente no primeiro final de semana da Bienal e não posso deixar de dizer que, apesar do cansaço (porque cansa ficar andando para lá e para cá e pegando fila para tudo), olhar para trás e pensar que havia um mundaréu de gente (sem brincadeira) em um evento literário é algo grandioso demais para deixarmos passar em branco. As filas no sábado estavam espantosas. Domingo, para entrar, foi um pouco mais tranquilo, mas era difícil andar sem tropeçar (em alguém ou em uma fila).

Durante a semana as coisas estavam um pouco mais tranquilas, principalmente na segunda e na terça (dias que acompanhei somente pelas redes sociais). Mas eu retornei quinta-feira para a Bienal e devo dizer que estava mais cheio do que eu esperava, com bastante escola fazendo visitação (o que é incrível de se ver também).

Na quinta-feira, meu último dia de Bienal, aliás, fui especialmente para ver o bate-papo com autores KDP, no stand da Amazon. Fizeram parte do bate-papo, mediado por Cassia Carrenho, as autoras T. M. Kechichian, Agatha Santos e o autor Rafael Weschenfelder. Dentre os três dias em que estive presente na Bienal, este foi o único em que assisti uma das tantas mesas e palestras, me fazendo refletir sobre o quanto ainda há por trás de um evento como esse.

Mas vale lembrar que a Bienal é uma vitrine para que as editoras possam expor seu trabalho. Não a toa, todos os vendedores, apesar do caos e da lotação, foram sempre muito simpáticos e, não nego, eu mesma caí facilmente na conversa deles e me encantei ainda mais pelos trabalhos ali expostos.

Faço esse adendo, porém, porque sei que nem todos têm condições de participar de uma Bienal. Seja porque elas não acontecem em todas as cidades, seja porque elas realmente não são super acessíveis. E apesar de eu achar que é uma experiência que vale a pena ser vivida ao menos uma vez na vida, acho importante lembrar que não participar não te torna menos leitor, menos autor e menos nada perante os outros.

Confesso, também, que fiquei com vontade de compartilhar essa experiência não só pelas boas lembranças, mas também porque fiquei com uma imensa vontade de falar diretamente aos autores independentes. Para isso, aqui vai uma singela carta aberta:

Aos que escrevem e publicam de maneira independente no Brasil,

Sou apenas uma leitora, mas uma leitora que admira o seu trabalho. Aos meus olhos, não passam desaparecidas as suas histórias e o seu investimento — seja ele físico, emocional ou financeiropara que elas cheguem até mim.

Por isso, com estas breves palavras, gostaria de agradecer a você que dedica o seu tempo (muitas vezes escasso), para dar vida às histórias que publica. Gostaria de te agradecer por acreditar no seu sonho e por compartilhá-lo conosco.

Sei que são mais dias de luta que dias de glória, mas se isso te faz bem, te dá asas, não desista! Tenho certeza que existem milhares de outros leitores como eu, que são eternamente gratos pelas vidas que vocês criam — e por aquelas que vocês salvam — em suas páginas.

Que você possa sempre se lembrar dessas palavras nos dias difíceis e que os livros te tragam muitas lembranças maravilhosas, que te encham de quentinho no coração mesmo nos dias mais cinzas. Porque escrever é ter, ser e fazer muitas vidas.

Conte sempre comigo. Sou apenas uma, mas é um imenso prazer ajudar no que posso para que a nossa literatura cresça cada e melhore vez mais.


Por fim, gostaria de deixar um agradecimento especial ao Rafael Weschenfelder, ao Leblon Carter, à Grazi Ruzzante e à Renata de Luca autores independentes que pude abraçar nesta Bienal e que tanto me inspiraram a compartilhar tudo isso. E também às minhas amigas, que tornaram cada momento ali ainda mais especial: obrigada Nati, Clari e Fer!

E se você não pode estar presente nesta Bienal, fique de olho no Instagram do Blog que quinta-feira vai sair uma coisinha por lá que pode te deixar mais feliz (assim espero)!

Citações #53 — A longa noite de Bê

A longa noite de Bê, obra do autor Fernando Ferrone, foi uma leitura que fiz em janeiro e que, felizmente, se faz presente até hoje em meio a reflexões e lembranças.

Na resenha, alguns trechos que gostei ficaram de fora e agora você pode conferi-los aqui. É o caso, por exemplo, das passagens que falam sobre as energias que gastamos (ou não) com os outros.

“O nosso corpo não é feito pra suportar o ódio. Odiar alguém requer muita energia”

“Eu precisava não me preocupar tanto se quisesse ter energia para me preocupar sempre”

A história também aborda, de diversas formas, a presença, a ausência, o pertencimento, temas que, por si só, já têm muito a despertar em nós.

“Ele nunca te fez falta porque nunca se fez presente. Não tem como sentir saudades do que nunca se conheceu”

“Naquele momento, tive uma sensação que não experimentava há anos: senti um despertencimento”

A longa noite de Bê fala, ainda, sobre o tornar-se mãe (principalmente sem planejamento e sem realmente desejar isso).

“Naquele instante, Lila era uma forma vazia dentro de um espaço vazio”

“Sendo então duas pessoas, Lila sentiu-se nenhuma”

Uma coisa que gostei muito ao longo da leitura foi a forma como o autor trabalhou lugares comuns (não apenas da literatura), nos dando novas perspectivas em relação a eles.

“Esse prazer de rever pela última vez os momentos marcantes da nossa vida antes de não ter mais vida não existe”

Uma obra múltipla, que vale muito a leitura, assim como o primeiro livro do Fernando, À deriva. E se você quiser saber mais sobre eles e conhecer um pouco do autor, não deixe de assistir esse bate-papo que tive a oportunidade de participar (e mediar) lá na Livraria Ponta de Lança.

Cidade das Mandalas — Nayara Van Dike

Título: Cidade das Mandalas 
Autora: Nayara Van Dike 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 204 
ano: 2022

Paris, a cidade luz, geralmente associada a histórias românticas, ganha novas características em Cidade das Mandalas, da autora Nayara Van Dike.

“Por que ir para Paris significa abandonar?”

Nesta história não é (somente) o amor que está no ar, mas também a poluição em níveis exorbitantes, o que confere à narrativa um quê apocalíptico.

“As pessoas estavam em suas casas, respirando seus ares menos poluídos, debatendo-se contra os seus demônios”

Aliás, é difícil não traçar paralelos entre o que acontece ao longo das páginas deste livro e o que vivemos em 2020 e 2021, ainda que os motivos que levem à quarentena forçada (e indesejada) sejam diferentes (mas não por completo). 

Kundalini, a jovem de nome diferente, perde seu emprego justamente quando a situação em Paris começa a tornar-se insustentável e a cidade precisa ser esvaziada.

Mas é também nesse momento que ela reencontra seu amigo de infância, com quem inicia um relacionamento, principalmente por toda a ligação deste com seu falecido pai, cuja morte Kundalini ainda tem muito a digerir dentro de si.

Perdida em pensamentos e sentimentos, porém, Kundalini encontra outra pessoa que irá transformar sua vida: Michel.

“Tinha bons amigos, mas nenhum deles me ajudou, apenas Michel”

Assim, entre tentar entender os sinais de que ela precisa superar seu passado, do que ela deseja para um relacionamento, de quem é ela, Kundalini se perde e se encontra pelas ruas de Paris, tanto as que ela já conhece quanto pelas que ela ainda vai conhecer.

A narrativa mistura realidade e fantasia de maneira muito natural e nos faz mergulhar num universo entre o palpável e o onirico, nos ensinando um pouco sobre outras culturas e, principalmente, sobre como o exterior é um reflexo do nosso interior. 

São muitas metáforas que nos fazem pensar e buscar dentro de nós respostas que não sabíamos que estávamos precisando.

Um livro para ser lido com calma, porque ele tem uma força difícil de explicar. É uma daquelas obras que, cedo ou tarde, cairá nas suas mãos no momento certo. Ou então que você pode fazer chegar a quem mais precisa.

A obra está disponível na Amazon (clique abaixo) e indico fortemente que você conheça mais do trabalho da autora, não apenas através de suas histórias, mas também visitando o seu site recheado de materiais úteis para autores e interessantes para leitores.