A filha primitiva — Vanessa Passos

Título: A filha primitiva 
Autora: Vanessa Passos 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 97 
Ano: 2021

Há cerca de um ano, conheci a obra Desesterro, da Sheyla Smanioto. Agora, uma vez mais, me deparo com uma história forte, densa — apesar da linguagem relativamente fácil de ler — intensa e, em certa medida, brutal.

“Que alegria tem botar criança no mundo pra sofrer?”

E por que mencionar Desesterro aqui, ao invés de ir diretamente para a resenha de A filha primitiva? Porque ao iniciar a leitura desta obra, deparei-me com uma epígrafe que trazia, justamente, um trecho de Desesterro. E se de início isso foi uma surpresa, ao final da obra eu conseguia entender que a escolha talvez não pudesse ter sido melhor.

“Se tem os rastros, é porque a vida não é mais a mesma”

Em uma ficção que é a verdade de tantas pessoas, Vanessa Passos nos transporta em uma imensidão de sentimentos. E assim, uma obra curta transforma-se numa leitura que pede pausas, uma tomada de fôlego para seguirmos com os acontecimentos e pensamentos.

“Vou me descobrindo enquanto escrevo, quando puxo de dentro uma palavra depois da outra, sem sentido lógico as palavras continuam vindo”

A narrativa se passa em Fortaleza e retrata uma mulher — a protagonista — que tenta (re)construir sua história, mas que sem ter peças muito importantes para tal empreitada, desespera-se, revolta-se, amargura-se.

“Um dia eu engoli o orgulho e fui procurar a vizinha, perguntar sobre o meu pai”

Sobre isso, a própria autora traz uma reflexão muito importante na introdução do livro: às vezes, ter uma história também é um privilégio de classe e gênero. Forte, não? Pois lendo o livro, a gente sente com ainda mais força essas palavras.

A mãe dessa protagonista recusa-se a dar qualquer informação sobre o pai, mesmo diante de todo tipo de insistência da filha. E é evidente os embates que elas vivem diariamente, numa relação um tanto quanto complicada e dolorosa.

“Fui levando para frente as escolhas que eram mais delas do que minhas”

Não bastasse a complexidade da vida entre essas duas mulheres, soma-se uma terceira à história: a filha. E, ainda que ela não tenha muita consciência do que se passa ao seu redor (apesar de provavelmente sentir), é uma personagem igualmente sofrida. Afinal, é como a autora também diz na introdução: como uma mãe que não se sente pertencente ao mundo pode transmitir esse sentimento à filha?

“A menina sugando de dentro de mim a mãe que eu não era”

Nenhuma dessas três figuras femininas têm nome. E apesar deste não ser um recurso original, ele ainda causa um efeito muito forte, principalmente em uma história como essa.

“Um personagem só ganha vida, só se materializa com o nome”

O fato das personagens não terem nome é ainda mais relevante quando compreendemos que a protagonista é uma pessoa que conhece, aprecia e participa da literatura.

“Dói parir palavras. Dói mais ainda viver com elas dentro”

Mas não é como se nenhum personagem tivesse nome ao longo do livro. Os homens tem. O que também é bem significativo diante da narrativa que se desenrola, permeada de violências, dores, desamores.

“Naquele dia eu descobri que a palavra rasga mais que faca no corpo”

Ao olharmos para A filha primitiva, talvez não possamos imaginar o que nos aguarda. A riqueza dessa narrativa certamente surpreende. Não à toa, a obra foi vencedora da 6º Edição do Prêmio Kindle de Literatura. Então, se quiser conhecê-la, não deixe de clicar aí embaixo:

Malditos morangos — Tatiane Lucheis

Título: Malditos morangos 
Autora: Tatiane Lucheis 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 56 
Ano: 2021

Sabe aquela história para ler em uma sentada só e que, disfarçada de narrativa leve, vem recheada de mistérios e acontecimentos que fazem nosso coração saltar? Pois Malditos Morangos, da Tatiane Lucheis, é uma dessas histórias!

Narrado em terceira pessoa, logo somos apresentados a alguns elementos chave da história, como os personagens (Bruna — a protagonista —, seu pai e sua madrasta Janaína) e os locais (Atibaia — cidade em que Bruna cresceu —, São Paulo e o Festival do Morango, tradicional na cidade interiorana).

Bruna está de férias e vai representar seu pai na competição do melhor morango do ano. Com os investimentos e estudos dele, as chances de vitória são grandes e, como logo sabemos, se concretizam.

“O pai não precisava que ninguém lhe tirasse o doce sabor da vitória”

O problema é o que começa a acontecer após esse episódio: uma série de infortúnios se abate sobre a produção dos saborosos morangos Atibruna (sim, o pai não pôde deixar de brincar com o nome da filha, o que garantiu a ela anos de zoação).

Ao mesmo tempo que acompanhamos o desenrolar desses fatos, também vamos conhecendo mais da protagonista, seja sobre o seu passado, seja sobre sua vida em São Paulo, onde faz faculdade.

“Em São Paulo, às vezes se sentia muito solitária e assustada”

Um dos pontos fortes da narrativa é que ela, além de propiciar uma fácil leitura, também é uma história crível, seja nos bons ou nos maus momentos. Nada é exagerado ou demasiadamente inventivo a ponto de não podermos imaginar acontecendo com alguém — inclusive nós mesmos.

“As leituras da faculdade se acumulavam tão rapidamente que ela passava o semestre todo tentando colocar a matéria em dia”

Que tal conhecer Bruna, sua família e como eles resolvem (ou não) os problemas que surgem um após o outro?

Citações #47 — Os sete maridos de Evelyn Hugo

Os sete maridos de Evelyn Hugo, da Taylor Jenkins Reid é aquele livro que a gente vê todo mundo comentando, mas que só lendo podemos entender o quanto é realmente bom.

Já postei minha resenha por aqui e agora trago mais alguns trechinhos dessa obra realmente surpreendente. Serão poucos, mas foram passagens que eu gostei e não queria perdê-las de vista.

Como comentei anteriormente, a obra nos apresenta a uma lendária estrela Hollywoodiana e, com isso, nos dá uma visão muito interessante do “por trás das telas“.

“É impossível ter intimidade sem confiança. E seria uma idiotice da nossa parte confiar umas nas outras”

Porém, o que surpreende é que a história consegue ir muito além disso, abordando questões como a homossexualidade (em tempos ainda mais complicados que hoje).

“Ele se revelou para mim, ainda que de forma vaga. E eu reagi com aceitação, ainda que de forma indireta”

O livro também fala sobre violência doméstica e relacionamentos abusivos.

“Com dois meses de casamento, ele começou a me bater”

“Desconfie de homens que precisam muito provar alguma coisa”

E, como não poderia deixar de ser, visto que a protagonista se casou sete vezes, fala sobre o amor, as relações humanas, os laços afetivos (elementos que também permeiam, de certa forma, muitas das passagens já trazidas até aqui).

“As pessoas acham que intimidade tem a ver com sexo. Mas intimidade tem a ver mesmo é com a verdade”

“A decepção amorosa é uma perda. O divórcio é um documento”

A longa noite de Bê — Fernando Ferrone

Título: A longa noite de Bê 
Autor: Fernando Ferrone 
Editora: Publicação independente
Páginas: 348 
Ano: 2021

Muito mais que uma linda capa, A longa noite de Bê me conquistou pela sinopse, fazendo com que a obra descaradamente furasse a fila de livros por aqui.

“Acho muito legal isso de não falar sobre algo e esse algo não existir”

Devo dizer que a diagramação da obra (que li em formato físico) logo me conquistou também: é bem limpa e confortável de ler.

A narrativa realmente se passa durante uma única longa noite, mas boa parte do livro é composta de flashbacks que nos deixam a cada página mais curiosos para saber o que vem a seguir.

“Enfim, a gente é feliz quando é inocente”

Como não há um bem e um mal estabelecidos, eu fui lendo sem saber onde essa história poderia dar. E, definitivamente, não seria possível prever o fim, porque mesmo não esperando por algo em específico, há um plot twist (isso talvez soe estranho, mas lendo você provavelmente há de concordar comigo).

A história, aos nossos olhos, se constrói através de algumas vozes, que vão trazendo seus pontos de vista e suas informações. Parece haver mais pluralidade conforme nos aproximamos do final e isso também tem relação com o desfecho surpreendente.

“Porque viver é experimentar sensações diferentes. Viver é não se restringir àquilo que acham que é o melhor pra ti. Viver é descobrir do que você é capaz”

Uma das coisas que mais gostei enquanto lia foi ver o ambiente universitário ali retratado: sem glamour — assim como os próprios personagens não são nem um pouco glamourizados — nos deparamos com um ambiente cotidiano, palpável que, para quem conhece, quase se materializa diante dos olhos ao longo da leitura.

“Um cachorro sem dono entrou na sala de aula”

E olha que estou falando de uma realidade universitária bem distante da que eu vivi. Em A longa noite de Bê, os protagonistas — se é que podemos chamá-los, e somente a eles, assim — Bê, Rasta e Lila montam um laboratório amador para produzir e vender cocaína nas festas estudantis.

“O mundo da pesquisa científica também vivia de gambiarra”

Essa ação, que apesar dos pesares, apenas tinha como função ajudar financeiramente Bê, acaba desencadeado uma série de acontecimentos que nos levam à narrativa apresentada no livro, na qual também conhecemos alguns outros personagens para além desses três, que estão sempre no centro da narrativa (em especial Lila e Bê, sendo que este último já era de se esperar, pelo título da história).

“Mesmo que quem mais precisasse de ajuda naquele momento fosse ela”

Uma narrativa feita para ser saboreada e descoberta a cada linha, composta por personagens complexos, como o próprio Bê que, aos poucos, vai nos revelando traços que nos permitem compreender sua condição.

“Você não foi feito pra esse mundo mesmo, Bê”

É até difícil falar muito sobre essa história, para não correr o risco de estragar o prazer do leitor em descobrir cada reviravolta.

Contudo, também não posso deixar de mencionar como o autor conseguiu mesclar elementos de uma narrativa densa, misteriosa, com alusões e menções a elementos da cultura que nos circunda e abraça.

“Sabe aquela música? Ela era de leão e ele tinha dezesseis. Era bem isso mesmo. Só que a Lila não era de leão e você tinha já seus vinte”

Se você quer conhecer Bê, Rasta e Lila e descobrir como seus destinos se cruzam, descruzam e encontram-se de novo, não deixe de clicar aí embaixo ou garantir sua edição física nas tantas livrarias que o autor conseguiu disponibilizar sua obra. Para saber mais, não deixe de acompanhá-lo em suas redes sociais.

Uma noite inesquecível — Adrielli Almeida

Título: Uma noite inesquecível 
Autora: Adrielli Almeida 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 70 
Ano: 2021

Um começo inusitado, que esconde uma história que poderia ser como tantas outras, mas que tem muitos detalhes que a tornam única. É assim que adentramos Uma noite inesquecível, cujo honesto título já nos adianta que os acontecimentos têm uma breve duração.

Passadas as primeiras páginas, somos apresentados a Darin Moon.

“Darin era o tipo de garoto feito na medida certa. Bonito, mas não a ponto de ser obsceno. Inteligente, mas não a ponto de ser uma enciclopédia irritante. Gostava da namorada, mas não a ponto de ser apaixonado por ela”

O jovem, acostumado a ter do bom e do melhor, não esperava que tudo pudesse desandar justamente no dia do seu baile de formatura: o término de seu namoro, intrusos na festa que fora planejada por tanto tempo e com tanto cuidado, uma briga… E daí para pior (sim, sempre pode piorar!).

“Darin pensou que tudo estava fadado a dar terrivelmente errado. Sua noite, sua vida, a droga da sua experiência como colegial”

Em paralelo a esse caos, também vamos conhecendo Camilo Dantas, um garoto bem diferente de Darin.

“Camilo Dantas gostava de acreditar em milagres”

A vida deles talvez nunca tivesse se cruzado, se não fossem justamente os infortúnios que tiram a paz de Darin. Às vezes, no olho do furacão, a gente não consegue perceber que as coisas precisam dar errado antes de darem certo (ou não).

“Ele sabia que era uma péssima ideia desde o começo, mas, às vezes, a gente precisa ver tudo dar errado para entender que… daria errado para um caralho”

Darin e Camilo acabam se aproximando e vivendo uma noite inesquecível, regida por um envelope vermelho vindo sabe-se lá de onde (nós talvez saibamos).

“Ele não deveria mesmo estar ali. (Mas agora estava.)”

A escrita desta narrativa é tão marcante que é impossível não ser contaminado por ela e se você leu (ou se resolver ler) a história, perceberá as influências nesta resenha. Isso sem falar no tom poético, que mescla elementos da natureza e sensações, trazendo uma sinestesia muito forte para a leitura.

“Acho que se apaixonar é diferente para cada um. Para mim, é como… É como… Pular em uma cama elástica em um dia de chuva”

E além de falar sobre diferenças, aventuras e descobertas, Uma noite inesquecível também fala sobre relacionamentos, família e vivências.

“Os dois primos trocaram um olhar cheio de significado e de mensagens que só pessoas que crescem juntas conseguem desenvolver com o passar do tempo”

Uma leitura extremamente rápida e prazerosa, que você também pode realizar clicando aí embaixo.

Uma mentira imperfeita — Beatriz Cortes

Título: Uma mentira imperfeita 
Autora: Beatriz Cortes 
Editora: Bendita Editora 
Páginas: 314 
Ano: 2021

Estava com saudades de ler um clichê e, ao mesmo tempo, uma história capaz de me surpreender. Parece impossível que esses dois elementos possam coexistir? Pois Uma mentira imperfeita está aí para provar que isso é possível sim!

“Como podemos ser nós mesmos em um mundo que insiste em nos dizer quem devemos ser?”

Narrado em primeira pessoa, podemos quase dizer que a história não possui uma, mas duas protagonistas: Marina e Nina.

“A Nina era bem mais divertida do que a Marina, com essas roupas sérias e a agenda regrada. A Nina aproveitava a vida de verdade, ela tinha sonhos…”

Marina está prestes a assumir a empresa de seu pai, falecido antes da hora. É uma responsabilidade enorme, afinal não é uma empresa qualquer. E ela, sempre série e tentando entender suas funções, sendo sempre pressionada e criticada pela madrasta, ainda tem de lidar com as nada simples questões do coração.

“Na minha vida, é tanta tempestade que já estou até sem barco. Naufraguei de vez e, a cada vez que saio com alguém, bebo um pouco mais de água salgada”

Nina, por outro lado, é uma pessoa leve, que consegue equilibrar novas e emocionantes aventuras com as suas obrigações. Como diria Otto, seu melhor amigo, ela pega sem se apegar.

“A Nina é uma baita de uma sortuda!”

A verdade, porém, é que Nina e Marina são a mesma pessoa. Nina é, no fundo, uma versão quase perdida de Marina, resgatada por Otto, que está cansado de vê-la levando a vida tão a sério e deixando de lado a oportunidade de aproveitar um pouco o que há de bom.

“Otto pode ter umas ideias meio doidas, mas acho fofa a forma como ele se preocupa comigo”

É aquela velha história: é só quando deixamos de nos preocupar com certas coisas que elas acontecem. E foi assim que Marina (quer dizer, Nina, porque ela sim é despreocupada) conheceu Zac.

“É engraçado olhar para trás e perceber tudo de bom que eu teria perdido se as coisas tivessem acontecido como eu planejava”

Desde o começo da história fica muito claro para nós, leitores, que Marina não está nada confortável com a ocupação que ocupa e, menos ainda, com a que vai ocupar. E logo vamos entendendo quais são as suas verdadeiras paixões.

“— Pensar no que a gente ama sempre faz bem, Nina. Esse é o segredo”

Mas aos poucos também vamos percebendo outro detalhe: Marina carrega uma culpa. E nós passamos boa parte da leitura tentando entender que culpa é essa, coisa que vai sendo revelada bem aos poucos, na medida certa.

“Estou tremendo. A parede que levei anos construindo dentro de mim para isolar essa história do resto do mundo (e de mim mesma) parece se rasgar como uma folha de papel”

Não foi somente a forma como a autora soube usar esse sentimento para construir um mistério na trama, porém, que me prendeu até a última página. Também fiquei bem intrigada com o desenrolar do nó em que Nina se enfiou.

Mesmo sendo uma grande apaixonada por histórias de amor, chegou um ponto da história que eu não poderia torcer para ela ter o final feliz dela ao lado de Zac. Não da forma como as coisas estavam acontecendo, porque Marina era apenas Nina para ele, mas ela precisava se encontrar entre uma e outra (ou até em ambas, na medida certa. Ou em nenhuma).

“Eu definitivamente não sei quem sou”

Confesso que tive medo da história simplesmente acabar feliz, mas de maneira absurda. Mas se tem uma coisa que posso dizer, sem dar spoilers, é que a história não decepciona. A autora vai conduzindo tudo de forma a nos fazer ler com atenção até o último ponto final, sedentos por todos os desfechos bem pensados e que nos fazem concluir a leitura com um sorriso no rosto e um quentinho no coração.

“Há muito tempo não me sentia assim, livre, desprendida, animada”

Que tal conhecer Marina, Nina e o que mais puder surgir dessa mulher que tem muito a aprender, mas também a ensinar? É só clicar aqui embaixo!

Presentear quem você ama com um livro [tradução 22]

Já que hoje é um dia especial para mim (meu aniversário) e também dia de tradução por aqui, resolvi falar um pouco sobre o hábito de dar livros de presente.

Confesso que, para muitas pessoas, a primeira coisa que penso em comprar quando chega a hora de presentear é, claro, em livros. Mas também me esforço para não dar sempre livros, mesmo sabendo que cada um é único e é um universo.

No final das contas, o artigo escolhido para hoje fala justamente sobre isso: sobre o poder dos livros e como eles são um presente e tanto.

Então te deixo aqui com a tradução de Regalare un libro a chi si ama, escrito por Valeria Sabater, em 15 de novembro de 2021, no site La mente è meravigliosa.


Quando amamos alguém, dar um livro de presente é o melhor que podemos fazer. Se você tem um amigo com quem se importa, escolha um livro especial para ele. Que seja um romance, um ensaio, um manual de autoajuda, um livro de culinária ou uma antologia, cada livro contém um universo de conhecimentos que nos enriquece e, ao mesmo tempo, nos torna mais livres.

O dia 23 de abril é a jornada mundial do livro. Como bem sabemos, este dia é rico em eventos voltados para a leitura, que nos colocam em contato com os nossos escritores preferidos, nos fazendo refletir sobre o trabalho deles e também nos lembrando da importância das bibliotecas.

Um mundo sem livros não seria um mundo. Estaríamos perdidos em um prédio nu, sem portas para o aprendizado, a aventura, a descoberta. Valorizar o mundo dos livros e da leitura é fundamental. Descobrir novos autores e nos abrir para outros gêneros para tomar consciência da imensidão dessa babel é uma experiência magnífica.

Além disso, como dizia Jorge Luis Borges, de todos os instrumentos inventados pelo homem, o mais surpreendente é o livro, porque é uma maravilhosa extensão da nossa imaginação e memória.

Porque presentear com um livro quem amamos

Existem livros mal escritos e livros inesquecíveis. Existem livros para passar o tempo e outros que deixam uma marca. Alguns nos fazem descobrir novas perspectivas, outros nos envolvem em suas tramas policiais e com outros ainda experimentamos arrepios de terror.

Dizem, também, que não existe nada como as primeiras leituras da infância e da adolescência, momentos nos quais alguns títulos mudaram nossas vidas e conseguiram abrir a nossa mente para novas paixões, conhecimentos e hobbies.

Os primeiros contatos com a leitura podem acontecer com Jules Verne ou Arthur Conan Doyle para depois chegar à maturidade, devorando todos os gêneros e autores. Às vezes precisamos dos clássicos como Cechov, voltar à Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou descobrir as últimas novidades de Joël Dicker ou Ian McEwan. Ou seja, o que conta, depois de tudo, é o prazer em mergulhar em um mar de palavras e se deixar levar.

Em Viagem à Inglaterra, um estudante diz ao personagem, que nos filmes é interpretado por Anthony Hopkins, que as pessoas leem para não se sentirem sozinhas. Talvez seja verdade, talvez não, mas os autores desejam despertar o nosso interesse pela leitura: quanto mais lermos, melhor será.

No entanto, os verdadeiros amantes da leitura não fazem das livrarias a sua segunda casa somente pelo prazer em ler. Os livros oferecem a oportunidade de pensar.

A arte de escolher um título para uma pessoa especial

Quando temos uma pessoa de particular estima, o ideal é presentear com um livro. Um livro não é um objeto de uso, não é somente uma capa ou um amontoado de folhas. O conhecimento é inerente ao seu interior. Em cada página existem dezenas de pensamentos e reflexões. Se se trata de uma romance, passaremos um tempo, muitas vezes inesquecível, com os personagens e as suas emoções.

Geralmente, quando presenteamos alguém com um livro, não o fazemos de maneira casual. Muitas vezes, aliás, tendemos a escolher os títulos que nos fascinaram.

Desejamos que a pessoa que receberá o nosso presente experimente aquilo que nós experimentamos com aquela leitura. Não vemos a hora de compartilhar experiências e viajar em direção aos mesmos mundos descritos na trama.

Companheiro, amigo, colega ou filho… Dê um livro de presente!

Existem livros para entender o mundo. Existem livros que nos ensinam, que nos ajudam. Existem aqueles que nos entretêm e também aqueles que nos marcam para sempre. Se você conhece alguém que, como você, sofre de bibliofilia, dê-lhe um livro, um que te tenha fascinado e que você não consegue esquecer.

Se você tem um amigo, um familiar ou um colega que prefere as séries à leitura, não jogue a toalha: presenteie-o com um livro. O importante é escolhê-lo bem. Sondar os seus gostos e surpreendê-lo com um título ao qual não poderá resistir.

Por outro lado, se você tem filhos, sobrinhos, irmãos ou amigos com crianças, não hesite em dar a eles um livro, não importa quantos anos tenham. Você fará um favor a eles, dando-lhes uma chave para viajar, descobrir, ser livres e voar alto.

Quando descobrimos o prazer de ler durante a infância, não existe remédio. É um veneno sem antídoto, mas com um tratamento paliativo: leituras frequentes, e quanto mais, melhor.

Cedo ou tarde, como dizia Thomas Carlyle, descobriremos que os livros são amigos que não nos decepcionam jamais. Tenhamos eles em mente, nos circundemos deles e não paremos mais de dá-los de presente.


E aí, você costuma dar livros de presente? Tem facilidade em escolhê-los?

Citações #46 — Proibida pra mim

Costumo ter em mente que um dos indicadores de que eu amei um livro é a quantidade de trechos dele com os quais me identifico ou que chamam a minha atenção.

Ainda assim, estou totalmente surpresa com o tanto de quotes de Proibida pra mim, da Tayana Alvez, que tenho para trazer aqui. Provavelmente deixarei alguns de fora, porque é realmente muita coisa. Mas não era para menos: o livro é realmente ótimo, além de relativamente extenso.

“E, pela primeira vez em anos, isso lhe traz esperança em vez de a assustar”

Na resenha, comecei destacando Lavínia, a protagonista desta obra. Mesmo assim, muitas coisas ficaram de fora, então aqui vão alguns trechinhos a mais para conhecê-la melhor, ressaltando o fato dela tentar ser fria e forte, mas, ainda assim, não conseguir lutar e acreditar em coisas boas para si.

“É, você tem um pedacinho de coração em algum lugar aí”

“— Quando a Lavínia precisa de alguém, não é porque ela está machucada, é porque ela quebrou, Mandy”

“Eu gostaria que você lutasse mais pelas coisas, minha filha”

Também mencionei como é difícil não se identificar em alguma medida com esse furacão chamado Lavínia.

“Lavínia traz uma cor diferente à sua vida, e o que mais o surpreende é que, antes dela chegar, ele nem tinha percebido o quão preto e branco era”

“Só alguém que guarda todos os pesos do próprio mundo consegue ler outra pessoa na mesma situação com facilidade”

“Cair, agora, seria mais do que o fim de um amor, seria o fim de todas as pontes que ela construiu, de todas as permissões que ela deu a si mesma, e ela não se sente nem um pouco preparada para isso”

“Os primeiros meses do ano sugaram toda a sua energia vital e, agora, ela precisa de calmaria e solidão para recarregar suas baterias”

Como boa apaixonada por romances que sou, não poderia de ter amado esse livro pela boa dose de sentimentos e reflexões sobre o amor que ele carrega.

“Beijar Lavínia era como saltar de paraquedas para um viciado em adrenalina, e ele poderia fazer aquilo por horas”

“Ah, pelo que ele fala as coisas não deram certo; mas pelo que ela fala, eles estudavam juntos, se apaixonaram e viveram um grande amor… Até que acabou”

“Uma mulher muito sábia disse um dia que um amor verdadeiro não precisa ser o único. Que um amor verdadeiro significa amar de coração, amar por inteiro”

O amor resiste a muita coisa, minha filha, mas se tem uma coisa que o amor é incapaz de superar é um ego”

“Amar é uma coisa esquisita. Você não controla nada do que sente nem do que pensa. E, por mais que essa sensação ainda incomode Lavínia, não há mais nada que ela possa fazer agora”

“Se o coração de Daniel estivesse inteiro, ele teria se partido com essas palavras”

“Nada nela é apenas dela agora, e isso é desesperador”

“Amar uma pessoa e não poder estar com ela é pior do que não amar ninguém”

Devo admitir, porém, que o que torna esta obra tão sensacional são os tapas na cara (sutis ou não) que ela nos dá.

“E você está se formando aos vinte e quatro, tendo conhecido doze países. Acho que você está em vantagem, embora a vida não seja uma competição”

Quando você opta por ser um pai ausente durante anos, a sensação é de que você vai estar sempre em falta, o que é, além de uma sensação, uma verdade”

“Quero que sejamos honestos um com o outro, sobre tudo, mesmo sobre o que você não consegue sentir”

“Porque nem todos os amores são eternos”

“— Não é porque a sociedade decide que existem idades para fazer as coisas que essas idades são reais, tá bem?”

“Talvez a gente tenha se apegado à pessoa errada e virado as costas para quem estava gritando por socorro. — E assim você acaba de definir a adolescência”

Mas o melhor de tudo é pegar esses quotes e perceber como alguns que já faziam sentido, podem fazer ainda mais com o tempo.

“Contudo, ainda que o coração dissesse o tempo inteiro que ela precisava se manter firme em suas decisões, quando se escolhe priorizar os desejos daqueles que se ama, sofrer ao ver tudo dar errado é uma das possibilidades mais reais”

E, para encerrar, algo para nunca nos esquecermos:

“Todo mundo está passando pelo próprio processo e enfrentando os próprios preconceitos, não dá para a gente exigir que os outros tenham a nossa mesma maturidade”

Algum trecho despertou sua curiosidade? Então não deixe de ler o livro inteiro e encontrar as suas próprias passagens preferidas.

Laços divergentes — Michele Meneses

Título: Laços divergentes
Autora: Michele Meneses
Editora: Publicação independente
Páginas: 171
Ano: 2021

O quanto você sabe sobre islamismo?

Reconheço que sei muito pouco e, por isso, a capa e a sinopse de Laços divergentes logo despertou minha curiosidade.

“Aquela frase foi o ápice. Podia ser apenas um comentário engraçado para elas, mas não pra mim. Desde quando o Islã se tornou sinônimo de terrorismo?”

A história é narrada por Amtullah, uma jovem que vive no Iraque com sua família, mas que tem o grande sonho de fazer um intercâmbio para o Brasil, mesmo que isso seja um absurdo para seu pai.

“Que tipo de amiga eu seria se quisesse te impedir de realizar um dos seus maiores desejos ao invés de te ajudar?”

Amtullah, no entanto, está decidida em seus desejos e consegue realizar esse grande sonho. E eu estava muito empolgada de ver como essa garota se sairia em nossa terra, principalmente pensando nas tantas diferenças que encontraria por aqui.

“Mais uma das experiências singulares que eu jamais teria vivido se não tivesse persistido no meu grande sonho”

Um pouco depois de Amtullah chegar ao Brasil, porém, a história toma um rumo que eu, confesso, não esperava. E, infelizmente, acabei me decepcionando um pouco com essa reviravolta, porque não encontrei o que esperava e ainda fiquei com um certo pé atrás, uma vez que, devido ao meu desconhecimento, não sei o quanto essa narrativa pode ou não gerar algum tipo de desconforto com relação às fés ali envolvidas.

“As pessoas mudam. Esse não é o lugar à que meu novo eu pertence”

No geral, porém, gostei de realizar esta leitura. Até leria uma continuação, caso existisse.

A escrita é leve, positiva e aborda não apenas a questão do intercâmbio, das diferenças culturais e religiosas, mas também da amizade, da família e da necessidade de buscarmos aquilo que nos torna felizes.

“Saudade, medo, insegurança… Tudo parecia se misturar dentro de mim”

Para católicos ou para quem tem curiosidade sobre a bíblia, também há diversas passagens desta e algumas opções de interpretação, então pode ser uma forma de iniciar este percurso que, certamente, não é dos mais fáceis.

E se você acha que este livro é para você, não deixe de saber mais sobre ele clicando aqui embaixo!

Antologias para quê?

Janeiro foi um mês que acabei falando mais de uma vez sobre antologias, seja resenhando uma, seja trazendo quotes de outra.

A cada vez que leio uma antologia e falo sobre ela, acabo, de alguma forma, destacando o fato de que eu gosto da pluralidade delas, das possibilidades que elas carregam.

Por isso, finalmente resolvi tirar dos rascunhos (mentais, no caso) um texto que há tempos queria escrever, falando sobre os benefícios de uma antologia para todos aqueles envolvidos em uma, de organizadores e escritores até os leitores.

Como leitora, o que mais gosto nas antologias é a oportunidade de, com uma única obra, conhecer diversos autores. Como aconteceu mais de uma vez ano passado, peguei antologias para ler por ter contos de autoras que eu já admirava e, então, conheci outras que passei a admirar também.

Sem contar que, por vezes, a antologia tem um tema em comum, mas traz histórias de gêneros diversos ou o contrário: é de um gênero específico, mas com temas bem variados. O ponto é: dificilmente a gente não se surpreende lendo uma antologia!

Para autores, as antologias também têm os seus benefícios. Ali em cima, comentei como conheci novos autores graças às antologias que li ano passado, o que significa que elas acabam sendo uma boa vitrine para autores, sejam eles conhecidos ou não.

Mais do que isso, porém, como escritora (não que eu seja uma), vejo as antologias como uma oportunidade de exercitar a escrita. Os editais costumam colocar limitações diversas: tema, gênero, limite de palavras/páginas. Pensar em uma boa história que respeite tantos critérios, te garanto, não é nada simples!

Mas e as editoras, onde entram nisso tudo? Por que muitas (principalmente as editoras menores) investem tanto neste tipo de publicação?

Por um lado, a editora, ao organizar uma antologia, tem a oportunidade de mostrar aos autores um pouco do seu trabalho, do seu cuidado (ou não) com os manuscritos recebidos. Além disso, também é uma excelente oportunidade para conhecer alguns talentos que ainda estão escondidos por aí.

Mas há outro ponto que, certamente, torna as antologias tão vantajosas para as pequenas editoras: geralmente os autores acabam pagando para participar delas.

Quando as antologias vão para financiamento coletivo, também acaba sendo mais fácil bater a meta, porque são vários autores interessados nisso e, consequentemente, divulgando a campanha.

Sem contar que, para muitos deles, essa acaba sendo a primeira publicação, então os autores costumam ficar bem empolgados e fazer o possível para o projeto sair do papel.

Infelizmente, porém, é verdade que muitas (principalmente pequenas) editoras acabam fazendo um trabalho não tão bom com relação às antologias, o que acaba contribuindo para o preconceito de muitos leitores (e, às vezes, até mesmo de escritores) com relação a esse tipo de publicação.

Se você der uma procurada aqui pelo Blog, porém, poderá encontrar resenhas de diversas antologias. E a maioria delas eu super recomendo, por sinal.

Além disso, você também pode saber um pouco mais sobre como foi, para mim, a experiência de organizar uma antologia.

Por fim, não deixe de me contar aqui: você costuma ler antologias? O que acha delas?