Título: A estrela do Cerrado
Autora: Renata De Luca
Editora: Publicação independente
Páginas: 354
Ano: 2021
Já que pode existir carnaval fora de época, também pode ter resenha de história que se passa nessa época mesmo depois do segundo carnaval do ano, certo? Assim, já ficamos com o tão sonhado carnaval o ano inteiro.
A verdade é que, mesmo se passando nesse período de festança, A Estrela do Cerrado é uma história policial que nos apresenta um crime daqueles difíceis de acreditar e de solucionar.
“É como sempre digo, se um roteirista descrevesse um assalto desse, iam dizer que ele estava exagerando!”
Aproveitando que a maioria das pessoas estaria ocupada demais comemorando o carnaval, uma quadrilha realiza um arquitetado assalto a um banco localizado na Avenida Paulista, umas das principais avenidas da cidade de São Paulo.
No roubo, são levados documentos, dinheiro e joias, dentre elas a famosa Estrela do Cerrado. Mas algo que chama a atenção de todos que, por algum motivo, conhecem um pouco a mais dos detalhes do assalto, é que por mais que diversos cofres tenham sido roubados, parecia que eles haviam sido escolhidos a dedo.
“A Estrela do Cerrado! Ele vira o estojo em direção a cada um dos comparsas. – Um primor da joalheria, execução e design perfeitos para realçar uma das esmeraldas mais cobiçadas do mundo!”
Com o desenrolar da história — e das investigações — vamos percebendo que realmente há muito mais por trás deste enorme assalto.
“Eles trocam amabilidades e desligam, certos de que juntar esforços é sempre mais difícil do que prender bandidos…”
Devo dizer, aliás, que há muito por trás da história de cada personagem e, extrapolando ainda mais a interpretação, por trás de cada um de nós.
“Talvez tenha chegado a hora de falarem o que não foi dito ao longo de cinco anos”
E é com essa trama bem construída e escrita numa linguagem clara — quase jornalística, para combinar com a profissão da autora — que Renata de Luca consegue abordar algumas temáticas importantes, como o abuso do uso de álcool.
“Quando Pati chega, abatida, com olheiras, Luli está pronta para acolher a irmã. Decidiu não falar nada sobre a bebida, ela precisa encarar a doença, mas não hoje, não com tudo o que está acontecendo”
A narrativa também nos faz refletir sobre relações familiares, construções sociais e a (des)organização de nossos cotidianos e crenças.
“Quem vive na periferia sabe que a regra é nunca encarar marginal ou polícia”
Outra coisa que pesa na história é o fato de surgirem sentimentos onde estes não deveriam surgir, e também toda a manipulação que há por trás deles.
“Michel não precisa reler para entender que está levando o fora. Pelo celular, como essa geração costuma fazer”
São muitos os personagens que compõem está trama e a história deles está mais interligada do que parece. Cada um tem a sua importância e o seu papel na construção da narrativa, mas temos de prestar atenção à história para não nos perdermos entre eles e os cenários que percorrem.
Se você gosta de uma boa narrativa policial e de ler sobre crimes complexos, mas não gosta de cenas com muito sangue, A Estrela do Cerrado é o livro perfeito para você. Clique abaixo para conhecer esta obra e não deixe de seguir a autora nas redes sociais (Instagram).
A antologia Cartola é uma obra recheada de contos encantadores, como apresentei ao longo desta resenha. Muitos trechos bonitos, porém, ficaram de fora e hoje trarei mais alguns deles (deixando, ainda, outros tantos sem a sua vez, porque tem realmente muita coisa boa ali).
“Quando uma estrela escolhe você, não existe caminho de volta, seu coração começa a precisar daquele brilho para viver”
Corra e olhe o céu (Ana Farias Ferrari)
Como mencionado na resenha, essa obra nos traz sentimentos e temáticas como a tristeza:
“Não ligava mais para queimaduras. Tinha vivido coisas piores”
Alvorada (Bruny Guedes)
“Pouco a pouco, a magia da música foi se perdendo”
Cordas de aço (Thais Rocha)
“Todos estavam tristes, mas não queriam lidar com isso”
Corra e olhe o céu (Ana Farias Ferrari)
A angústia:
“Eu acho que esse foi o instante que ela, Cilene, percebeu que havia mais felicidade no mundo do que ela tinha naquela ocasião”
Amor proibido (Nilsa M. Souza)
“As pessoas dizem que desistir é covardia, contudo, esse talvez seja o meu maior ato de coragem”
As rosas não falam (Lili Dantas)
“Temi que seu eu tivesse que passar pelo ritual de despedida, talvez não conseguisse virar as costas e seguir meu plano adiante”
Meu drama (Ana Paula Del Padre)
A amizade:
“Não se quebra uma amizade”
Amor proibido (Nilsa M. Souza)
A memória e o esquecimento:
“É curioso como cheiros nos imprimem memórias como se fossem tatuagens”
As rosas não falam (Lili Dantas)
“Dizem que as viagens favorecem o esquecimento”
Peito vazio (Simone Aubin)
Ou o distanciamento:
“Às vezes, a pior atitude é não querer se envolver”
O mundo é um moinho (Alessandra Solletti)
“Frio não é só sobre o clima, é também um estado de espírito”
O sol nascerá (Meg Mendes)
A vida e a morte (assim mesmo, juntas e misturadas):
“Em meio ao meu tormento, não mais particular, ele me abraça como se jamais fosse deixar-me ir. E eu não quero”
As rosas não falam (Lili Dantas)
“Você nunca pensa que vai morrer até estar diante da iminência da morte”
Autonomia (C. B. Kaihatsu)
E, claro, o amor, sentimento sempre tão presente e tão intenso:
“Há tempos eu não sentia as emoções juvenis de quando nos sentimos doentiamente atraídos por alguém”
As rosas não falam (Lili Dantas)
“Me pergunto, como ainda é possível eu amar o comportamento odioso nela, a resposta vem fácil logo em seguida, só é possível amar a luz de uma pessoa se também amarmos a sua escuridão, um não existe sem o outro”
As rosas não falam (Lili Dantas)
“O tema do meu trabalho, Amor: efêmero ou eterno?, era minha última esperança em acreditar que as relações duradouras e verdadeiras existiam de verdade. De que ainda valia a pena amar, ou então, me conformar que tudo é mesmo uma mentira e que o amor é apenas uma ilusão dolorosa”
Disfarça e chora (Juliana Kaori)
“Amor, amor de verdade mesmo, não olha a quem, não tem regra, dura o que tem que durar”
Disfarça e chora (Juliana Kaori)
Se tiver gostado desses trechinhos, não deixe de conhecer a obra completa. Como eu disse na resenha, a leitura me surpreendeu bastante (positivamente)!
Título: Mônica e Enzo e todos os dias
Autora: Denise Flaibam
Editora: Mundo Uno Editora
Páginas: 259
Ano: 2021
Mônica e Enzo e todos os dias é uma história para quem busca um amor manso, que vai aos poucos e que, mesmo assim, pode nos levar às lágrimas.
A protagonista, Mônica, é uma garota peculiar: excelente fotógrafa, ela é metódica, extremamente tímida e um bocado ansiosa.
“A vida é uma coisa esquisita, Lílian, mas você aprende a lidar com ela”
A ansiedade, aliás, é provavelmente o único vilão dessa história que retrata um amor que não encontra grandes empecilhos.
“Se ele soubesse que meu silêncio representa todo um aglomerado de palavras que não sei expressar, não haveria receio em sua expressão”
Enzo, por sua vez, é o grande goleiro e capitão do time de futebol, adorado por todos e… lindo, claro.
“O Enzo é tão incrível que eu poderia aprender a escrever poemas só para dedicar um a ele”
Já deu para imaginar que esses dois não teriam nada para acabar juntos, exceto pelo fato de terem o principal: interesse um no outro.
E é assim que vamos acompanhando as peripécias deles, as idas e vindas e a vontade de dar um chacoalhão em cada um em certos momentos.
“Enzo sorri e o mundo se quebra em mil pedacinhos por causa disso”
Mônica e Enzo e todos os dias é uma história que pode parecer bobinha para algumas pessoas, mas que nos faz enxergar o amor com olhos mais doces, leves e cuidadosos.
“Acho que essa é a graça da coisa. Lidar com o desconhecido. Eu sei que você não gosta, mas a vida é assim. Relacionamentos são bem mais do que só sorrir e amar o sorriso de uma pessoa. Você precisa saber que em alguns momentos vai ser confuso, e em outros momentos, vai ser claro como água”
E a história não é só sobre isso, isto é, não fala apenas de um amor adolescente improvável. A narrativa também fala sobre relações familiares. Mônica tem quatro irmãos e seus pais têm uma relação um tanto quanto complicada.
“Eles já quase se divorciaram três vezes desde que nasci. Na última, a reconciliação resultou nos trigêmeos. É a nossa vida”
Além de aprender com isso, é muito gostoso — e também um tanto quanto doloroso — ver a relação de Mônica com Lilian, sua irmã mais velha.
“Lílian é a melhor irmã do mundo, a garota maravilha dos Garcia. Ela estava em todo lugar, toda hora. E agora não está mais”
Se você acha que essa história é para você, clique abaixo e não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (Twitter e Instagram).
Que eu sou apaixonada por livros, isso não é segredo para ninguém. Mas sou muito ruim com datas literárias e, por pouco, não perco o timing desta tradução.
Procurando algo bacana para trazer aqui, encontrei este artigo escrito por Federica Ponza, em 23 de abril de 2019, e publicado no site Solo Libri.
Abaixo você encontra a tradução desse artigo, com 8 motivos pelos quais, de acordo com Federica Ponza, os livros melhoram a nossa vida.
No dia 23 de abril é celebrada o dia mundial do livro e achamos que não há ocasião melhor para elencar os motivos pelos quais os livros tornam a sua vida melhor.
Os leitores sabem que um livro pode fazer a diferença na vida e cada um tem os seus motivos para amá-los, mas existem alguns que mais ou menos acomunam todos aqueles que são apaixonados pela leitura e pelos livros.
O dia mundial do livro e dos direitos autorais é um evento patrocinado pela UNESCO e que nasceu para promover e incentivar a leitura, a publicação dos livros, além da proteção da propriedade intelectual com o copyright.
Agora, mais que nunca, é bom lembrar quais são os motivos para escolher ler ou comprar um livro, mesmo à luz dos últimos dados do ISTAT sobre a leitura, que não deixam um quadro muito encorajador. Por esse motivo, aqui vão alguns motivos pelos quais os livros melhoram a vida.
1. Nunca te deixam sozinho/a
“Os livros, eles nunca te abandonam. Você certamente os abandona vez ou outra, os livros, os traí também; eles, pelo contrário, não te viram jamais as costas: no mais completo silêncio e con imensa humildade, eles te esperam sobre as prateleiras” (Amos Oz)
Um leitor sabe bem: com um livro na bolsa, a solidão desaparece ou assume um significado totalmente diferente.
Os livros, de fato, têm essa maravilhosa capacidade de te manter sempre acompanhado: quem poderia se sentir só e abandonado quando passa suas horas em companhia de belíssimos personagens que a literatura sabe e soube nos presentear?
Um leitor não teme a solidão, mas sabe apreciá-la e desfrutá-la ao máximo para mergulhar nas páginas de um lindo livro e viver uma nova aventura.
2. O cheiro das páginas esconde o segredo da felicidade
“Entre na livraria e aspire aquele cheiro de papel e magia que, inexplicavelmente, ninguém ainda pensou em engarrafar” (Carlos Ruiz Zafón)
Cada leitor verdadeiro sabe que no cheiro das páginas dos livros se esconde o segredo da felicidade: basta abrir um livro e mergulhar o nariz dentro das páginas para sentir uma inexplicável sensação de alegria e paz com o mundo.
Não importa se são livros novos ou usados, quando abrimos um livro, sentimos sempre uma grande e (aparentemente) inexplicável alegria.
Em suma, diante do cheiro das páginas dos livros não existe chateação ou mau humor que resista: o sorriso volta imediatamente aos lábios.
3. Te levam para onde você quiser
“Esta longa viagem imóvel que chamamos de leitura” (Guy Goffette)
Um livro sabe te fazer viajar e ir longe, mesmo estando sempre no mesmo lugar. Uma das maiores qualidades de um livro, de fato, é que eles são capazes de te levar onde for: quer seja na floresta da Malásia, com Sandokan, quer seja entre os corredores de uma escola de magia, com Harry Potter, os lugares nos quais te permite viajar são realmente infinitos.
4. Te ajudam a conhecer melhor a você mesmo/a
“Cada leitor, quando lê, lê a si mesmo. A obra do escritor é apenas uma espécie de instrumento ótico oferecido ao leitor para lhe permitir discernir o que, sem ela, talvez não pudesse ver em si mesmo” (Marcel Proust)
Acontece com frequência de lermos um livro e encontrarmos algo que fala de nós mesmos: você não entende como os personagens e as histórias são parecidas àquelas da sua vida ou mesmo quando completamente diferentes, encontram um modo de te revelar algo a mais sobre aquilo que você é.
Muitos leitores, aliás, se surpreendem pensando em si mesmos ou nos eventos da própria vida de maneira diferente depois da leitura de um belo livro. E, em muitas ocasiões, ler um livro pode concretamente fazer a diferença na vida e nas experiências das pessoas. Experimente para acreditar.
5. Te presenteiam com novos olhos para enxergar o mundo
Os livros têm a grande qualidade de te impulsionar a ver o mundo ao seu redor de modo diferente: cada um deles sabe te presentear com novos olhos para observar, abrindo portas e mundos que você não achava que fossem possíveis.
Uma qualidade não pequena, principalmente para aquelas pessoas que são naturalmente curiosas e amam ver as coisas de todos os pontos de vista possíveis.
Um livro, com efeito, contém o ponto de vista de um outro alguém sobre as coisas: se você parar para pensar, são um dos poucos instrumentos que te permitem realmente se colocar no lugar do outro e olhar através dos seus olhos.
6. Abrem a mente e o coração
“Os livros me enchiam a cabeça e alargavam a testa. Lê-los era como desencalhar o barco: o nariz era a proa; as linha, ondas” (Erri De Luca)
Um livro tem um poder realmente imenso: aquele de abrir seja a mente, seja o coração:
A mente porque te ajuda a conhecer novas coisas e a aprender sempre mais, mantendo o cérebro ativo e fazendo com que a sua cabeça não pare nunca de trabalhar da melhor maneira possível.
O coração porque, através das emoções que as histórias contidas nele sabem desapertar, pode-se experimentar todas as sensações que o ser humano conhece e vive.
Amor, medo, ternura, ansiedade, tristeza, alegria: de página em página, em uma viagem realmente única.
7. Te fazem viver muitas vidas
“Quem não lê, aos 70 anos terá vivido uma só vida: a própria. Quem lê, terá vivido 5000 anos: era vivo quando Caim matou Abel, quando Renzo casou com Lucia, quando Leopardi admirava o infinito… porque a leitura é uma imortalidade de trás para frente” (Umberto Eco)
Nada de mais verdadeiro: ser leitor de livros significa estender a própria existência a infinitas outras, vivendo todas aquelas dos personagens que se encontrarão entre uma página e outra.
Sem exageros, os livros são uma das poucas coisas que te permitem se aproximar à sensação de infinito.
8. São companheiros de vida extraordinários
“Você entende que leu um bom livro quando vira a última página e se sente como se tivesse perdido um amigo” (Paul Sweeney)
Quem ama ler livros não tem dúvidas: estão entre as melhores companhias que se pode ter! Eliminam o tédio, apagam a solidão, te fazer conhecer pessoas extraordinárias (de verdade ou inventadas), fazem você se apaixonar, são os seus melhores amigos, te dão alegria, te fazem refletir, te acompanham em cada viagem ou experiência, te fazem se sentir abraçado.
Essas são algumas das características que tornam os livros companheiros de vida realmente extraordinários, como um verdadeiro amigo que você conhece a vida toda e que está sempre ali por você. Um amor para toda a vida.
Agora que te demos os nossos motivos pelos quais um livro pode melhorar a sua vida, nos conte quais são os seus nos comentários deste artigo.
E aí, qual é a sua opinião? Acha que ficou faltando algo nessa lista? Então não deixe de comentar!
Título: No farol da ponta verde
Autora: Beatriz Lima
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 49
Ano: 2021
Assim como este Blog passou por um momento de “abandono” — sofrendo uma ausência minha que, brevemente, comentei aqui —, o projeto Meu Brasil é assim também tem andado, infelizmente, um pouco esquecido.
De qualquer forma, há um conto que, até este exato momento, não resenhei: No farol da ponta verde, escrito por Beatriz Lima.
A história se passa em Alagoas, Estado que ainda não tive a sorte de conhecer, mas que já me deixou encantada com o que li ao longo da narrativa.
Bárbara está no terceiro ano do Ensino Médio. Uma época que, por si só, já é cheia de emoções, que ganham ainda mais cores com o clima competitivo no Colégio Cabreira, devido à competição anual interclasses.
“O verbo ‘ser’ tem uma carga muito grande para nós, o que esperamos no mundo e o que o mundo espera da gente. Somos uma soma de todos esses anos que passamos estudando, de cada professor, aluno, coordenador e matérias”
A narrativa, portanto, divide-se entre as etapas da tal gincana, ao mesmo tempo que fala sobre muito mais. Além disso, ela é permeada por lugares e gírias alagoanos (o que, por vezes, pode ser um pouco difícil para alguém que assim como eu, não conhece quase nada da cultura local, ao mesmo tempo que isso contribui para despertar a nossa curiosidade).
No farol da Ponta Verde é uma história gostosa de ler, que nos envolve e que pode despertar sentimentos como saudade e quentinho no coração.
Infelizmente, no momento o conto não está disponível na Amazon, como anteriormente se fazia com as histórias desse projeto. De qualquer forma, não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (twitter e instagram). E se quiser conhecer um pouco dos demais contos da série “Meu Brasil é assim” que já resenhei, é só clicar nos títulos abaixo:
Tenho resenhas para escrever, artigos que quero traduzir, materiais para compartilhar. Mas tem me faltado tempo.
Deixei que alguns dias passassem e tenho pensado em deixar mais outros tantos passarem. Voltarei quando tiver algum material já escrito, para não te deixar à deriva novamente.
Aproveito o infame jogo que fiz, porém, e deixo aqui o meu convite: hoje (25/03/2022), às 19h30, estarei na Livraria Ponta de Lança (R. Aureliano Coutinho, 26 – Vila Buarque, São Paulo – SP) mediando um bate-papo com o autor Fernando Ferrone, que além de A longa noite de Bê, escreveu também À deriva (que está entre as resenhas a serem escritas).
Como você pode ver, ando sumida daqui, mas a vida está seguindo fora das telas. Estou numa correria por ter começado em um novo emprego esse ano, mas sigo lendo sempre que posso e, felizmente, agora estão voltando os eventos literários presenciais.
Inclusive, aproveito para lembrar que tenho uma newsletter (que também sofre de algumas ausências minhas, por vezes), na qual divulgo lançamentos, eventos e cursos relacionados a esse universo que tanto me fascina.
A newsletter é gratuita. Você só precisa se inscrever aqui e confirmar sua inscrição pelo email que chegará (e que talvez vá para o seu spam ou para as promoções).
Título: O segredo de Susan
Autor: Maicon Moura
Editora: Publicação independente
Páginas: 140
Ano: 2022
Acho que dificilmente alguém não se interessa pela palavra segredo no título de um livro, afinal, são muitas as possibilidades narrativas a partir dessa simples junção de letras, não é mesmo?
Uma vez mais, o autor Maicon Moura soube fazer um bom uso dos recursos narrativos à sua disposição, construindo uma história que não apenas gira em torno de um mistério interessante, mas que também nos coloca para refletir sobre alguns elementos que nos rodeiam.
“Se isso fosse um romance, isso tudo pareceria loucura”
Como podemos imaginar, pelo título, Susan é a protagonista desta obra. Aos 12 anos (ou 11, se quisermos ser mais exatos), a pequena Susan Ernesto foi sequestrada e passou os seus 12 anos seguintes em cativeiro.
“Os hematomas em meus braços lembram aquilo que vivi”
Assim, a história se passa em dois momentos: os anos do sequestro e o presente. A obra inclusive começa no momento em que Susan chega à delegacia, após finalmente fugir do cativeiro.
“— Deve ter sido horrível ficar doze anos presa — ele diz. — Imagino como deve ter sido.
Penso em todos que me falaram isso, imagino qual seja a fantasia que querem realizar”
O que chama a atenção, logo de cara, são as críticas que o autor vai inserindo de maneira natural, dando coesão e peso à história.
“Você lê o jornal e percebe como o sujeito que escreveu aquilo sabe como é viver em um cativeiro”
As críticas, porém, não são direcionadas a um único assunto e, se por um lado, isso faz com que o autor não se aprofunde em nenhuma das questões apontadas, por outro lado, isso dá ainda mais sentido à história como um todo.
“No mundo você precisa mudar para sobreviver”
De início, como eu disse, acompanhamos Susan voltando à sociedade e vivendo toda a fama que o cativeiro acabou gerando para ela, que se torna uma influencer conhecidíssima e disputadíssima.
Nas revistas, eles pensam que todo mundo é igual”
Alternadamente, vemos flashes do sequestro muito bem inseridos ali, mesmo quando parecem ser apenas episódio aleatórios e soltos. Isso nos faz entender a história de Susan e nos aproxima da protagonista.
Mas o ponto alto da história é que Susan se perde em seu personagem e com a aparição de Marvin nós também acabamos por nos perder. Mas não de uma maneira ruim!
“Quem sou eu? Essa é uma pergunta difícil, considerando a filosofia por trás disso tudo. Estamos presos em pessoas que falaram quem somos”
A verdade é que já vivemos perdidos: em um mundo feito de aparências — e das aparências que queremos mostrar — é difícil saber quem cada um é de verdade. E, ao mesmo tempo, é muito fácil acreditar em qualquer um e se deixar levar pelos discursos de quem tem coragem de se impor.
O final dessa narrativa mostra justamente isso: como as pessoas — nós inclusive — se deixam levar e como isso pode trazer muitas consequências. Como é preciso que tenhamos calma no momento de processar as informações que recebemos e, principalmente, de julgarmos os outros ou darmos voz a qualquer um.
“E terão pessoas que vão duvidar de você. Que não vão acreditar no quão forte você é. Essas pessoas são as que você menos espera”
Geralmente eu tenho dificuldade de relacionar uma leitura com outra que eu já tenha feito, mas ao longo das páginas de O segredo de Susan, por diversas vezes, me lembrei de Luigi Pirandello, um autor clássico italiano que eu gosto muito. Ao final desta obra brasileira, tive ainda mais certeza da proximidade entre os escritos desses autores, mesmo que Maicon nunca tenha lido Pirandello.
Se você já leu Pirandello e duvida do que eu estou falando, leia O segredo de Susan. Se você nunca leu Pirandello, mas entendeu que temos aqui uma obra incrível para ler, baixe O segredo de Susan. E se você ainda está em dúvida… Bom, está esperando o quê para já garantir o seu exemplar e se apaixonar por essa história também?
Imersa no segmento literário das redes sociais, muitas foram as vezes que vi chamadas para leituras coletivas e clubes de leitura. Nunca tive coragem, porém, de me aventurar nesses universos.
Reconheço, contudo, que essas práticas têm muito a agregar e trazem inúmeros benefícios a seus participantes e, por isso, hoje resolvi trazer a tradução de um artigo que fala justamente sobre essa temática.
O texto original foi escrito por Morgan Palmas, em 30/10/2009, no site Sul Romanzo, e você pode conferi-lo aqui. Apesar de publicado há anos, é impressionante como ele continua atual e certeiro.
Na Itália, a prática da leitura está em declínio, como se sabe, mas, por outro lado — ou talvez justamente por isso — percebe-se, por parte de quem lê habitualmente, uma forte necessidade de encontrar-se e dividi-la. Porque essa categoria de pessoa existe e é bem presente, mesmo que rara: cada biblioteca ou livraria tem os seus habitués, talvez apenas um ou dois, mas eles são muito presentes, amam os livros e amam falar de livros.
Na esteira de um hábito difundido principalmente em países anglófanos e hispânicos, estão espalhando-se entre nós, então, aqueles que são chamados Grupos de Leitura.
Moda? Imitação?
Claro, às vezes o pontapé inicial para a criação de um grupo também pode ser esse, mas muitas vezes reunir-se é uma necessidade real dos indivíduos para compartilhar interesses e paixões
Mas o que é um Grupo de Leitura?
É uma ponte entre a leitura individual e aquela coletiva.
No primeiro caso temos um leitor sozinho consigo mesmo e o seu livro em uma leitura silenciosa e íntima. No segundo, uma ou mais pessoas que se alternam lendo em voz alta um texto para os outros.
No Grupo de Leitura, “mais pessoas leem ao mesmo tempo um livro” (para usar uma definição agora consolidada) e depois se reúnem para discutir, juntas, sensações e problemáticas que ele provocou nelas.
O objetivo é justamente aprofundar e enriquecer-se mutuamente em uma análise de leitura não imposta (como pode acabar sendo uma palestra crítica ou mesmo uma leitura coletiva), mas elaborada pelo indivíduo e desenvolvida na pluralidade.
Aquilo que move as pessoas a juntar-se, além disso, é o interesse pela leitura em si, não circunscrita a um único texto ou livro.
Mas ondee quando se reúne um Grupo de Leitura?
Não há a necessidade de sedes especiais: na prática, basta um cômodo tranquilo com um círculo de cadeiras, de modo que todos possam olhar-se cara a cara. Geralmente quem patrocina ou propõe a iniciativa é uma Biblioteca ou uma Livraria, mas também conheço Grupos de Leitura que se encontram em Círculos Culturais ou Associações várias. Não é o lugar que cria o grupo, mas a vontade de se encontrar. No verão, uma solução simpática pode ser um jardim ou um quintal sombreado.
O único requisito é a vontade e a disponibilidade para ouvir e compartilhar.
A frequência (semanal, mensal ou qual for) é decidida pelo grupo mesmo, conforme os tempos e as exigências dos participantes.
Que regras deve ter um Grupo de Leitura?
No âmbito inglês foi elaborado um regulamento muito rígido, mas, pessoalmente, acho isso um pouco limitante. Acho que para além das regras comuns da boa educação, depende do grupo se autodeterminar as regras adequadas ao próprio caso.
De maneira geral, vale aquela (bem óbvia) de que só quem leu o livro pode pedir a palavra, mas as perguntas ou intervenções mesmo de quem não leu podem ser escutadas, principalmente quando se abordam temas mais gerais retirados da leitura.
Um coordenador pode ser útil, sobretudo no começo, e para fazer e atualizar a lista dos participantes (caso desejem fazê-la para simplificar as eventuais comunicações entre um encontro e outro) e gerenciar as questões práticas relacionadas, por exemplo, ao local. O importante é que a pessoa tenha a capacidade de permanecer no círculo, de ser justo com os outros, sem abuso e sem firmar-se como centro da reunião, caso contrário tudo descamba em uma exposição passiva, não em uma participação coral.
É importante lembrar que cada grupo é um mundo em si, em contínua evolução, depende somente da vontade dos participantes que podem mudar, suceder-se, alterna-se nos vários encontros.
Mas como se escolhe um livro?
O grupo o escolhe. Pela maioria, fazendo uma seleção entre alguns propostos, ao acaso pela internet, seguindo um gênero ou uma temática… Pode-se elaborar um calendário sazonal, por exemplo, ou estabelecer a cada encontro.
O importante é que sejam textos que podem gerar discussões dentro do grupo.
Em geral, para a primeira reunião, aqueles de quem parte a iniciativa escolhem um livro que sabem que podem interessar o maior número de pessoas, não para impor as coisas, mas justamente para dar o pontapé inicial e quebrar o gelo.
Quem participa de um Grupo de Leitura?
Quem ama ler e falar sobre aquilo que leu. Bastam duas pessoas (em tese) para formar um Grupo. Obviamente, quanto mais pessoas participam, mais se sente o enriquecimento, mas também só de poder falar com outra pessoa já é positivo.
Geralmente, a predominância feminina nesses encontros é esmagadora.
Mas, em resumo, por que eu deveria participar de um Grupo de Leitura?
Para além do simples prazer de compartilhar e comunicar para os outros as próprias impressões, pode-se encontrar um enriquecimento pessoal inesperado.
Impelidos pela vontade de participar, podemos encontrar livros ou gêneros que jamais, por preconceito ou outros motivos, teríamos aberto ou que jamais teríamos ido além das primeiras páginas por nossa própria conta. Acontece. Como pode acontecer de descobrirmos que gostamos ou que ao menos valia a pena lê-los.
Quando lemos, colocamos muito de nós na leitura, notamos detalhes, interpretamos fatos. Mas as chaves de leitura são diversas e incontáveis: perceber, através dos comentários sobre o mesmo texto, fatos dos outros, com outros percursos e outros pontos de vista é muito estimulante e ajuda a expandir os horizontes. De repente, sentimos vontade de reler, de perceber coisas que nos fugiram. Ou, por outro lado, destacar aquilo que fugiu aos outros. Ou aprofundar por nossa conta temas não abordados antes.
Um diferencial pode ser, durante a reunião, a leitura de frases ou pequenos trechos que os participantes tenham achado, de alguma maneira, estimulantes para a conversação.
Em geral, discutir junto permite refletir sobre o quanto se leu, não esquecer de imediato, mas elaborar a leitura e focar melhor os conceitos e sensações. Parar, apropriar-se de tempos que muitas vezes perdemos, arrastados pela fúria do fazer.
Enfim, para retomar o início do discurso, reunir-se dá a sensação de não estar sozinho em uma ocupação tão pouco considerada nos dias de hoje, que é a leitura.
Vale reiterar que ler não é inútil.
Na internet, muitos são os sites que se ocupam de Grupos de Leitura ou que os organizam, lembro, dentre estes: http://gruppodilettura.wordpress.com/
Ufa, chegou até aqui? Qual é a sua opinião sobre grupos de leitura? Participa de algum?
Quero aproveitar o tema para deixar uma super dica para você que, além de ler, estuda italiano: conheça o grupo de leitura Leggiamo Tutti e se inscreva! O primeiro encontro será dia 12 de março, não fique de fora.
Título: Bahia de todos os sonhos
Autora: Bárbara Sá
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 51
Ano: 2021
O projeto Meu Brasil é assim, infelizmente, deu uma bela derrapada, mas há dois contos que ainda não resenhei por aqui e hoje é a vez de um deles: o que se passa na Bahia.
Nele encontramos a história de Tatiana, nascida em São Tomé, na Bahia, mas que há sete anos mora em Londres, como sempre sonhara e batalhara.
“Essa é Tatiana, nascida e criada em São Tomé, mora em Londres há o quê, cinco anos?”
Fiquei extremamente surpresa em me deparar com uma protagonista de nome Tatiana. Se já li alguma obra com uma personagem com esse nome, foi há muito tempo!
Aproveitando as férias, a protagonista foge do frio e do cinza londrino e vem passar uma temporada no calor baiano, ao lado de suas maiores saudades: sua família.
“Existiam coisas incríveis na vida, mas nada se comparava a voltar para casa”
Durante a estadia de Tatiana aqui no Brasil, conhecemos sua irmã, sua mãe e sua avó e logo captamos a amizade e a leveza que a relação delas transmite. Além disso, também passeamos pelos lugares preferidos dela, conhecendo um pouco mais da cultura e da culinária baiana, de maneira leve e engraçada.
“No entanto estar aqui, colocando-me num lugar de turista do meu próprio lar, me fez perceber que eu sentia mais falta da minha terra do que eu pensava”
Mas sabe quem também passeia conosco ao longo dessas páginas? O primeiro amor de Tatiana, aquele que ela reencontra ao voltar para sua terra natal: Marcos. E, ao contrário de tudo o que ela imaginava, o amor ainda está ali e ele faz questão de passar o tempo com ela, mesmo que o futuro seja uma incógnita para ambos.
“Tudo tem um fim e para tudo existe um recomeço”
É difícil torcer por eles, pois percebemos que cada um acabou construindo sua vida, mas também é difícil não torcer por eles, porque vemos que poderia haver uma forma deles se acertarem. Ainda são jovens, estão num momento em que as certezas da vida são poucas e sempre podem mudar.
“Ficar questionando tudo o tempo todo nos fazia perder momentos importantes da vida”
Depois de muitos suspiros e de uma maravilhosa viagem pelas terras baianas, o final deste conto nos deixa de coração quentinho, sem dúvidas.
No momento, a obra não está disponível em lugar algum, mas vamos torcer para que ele volte para a Amazon ou outra plataforma, para que quem não pode assinar o projeto possa ler essa obra deliciosa!
Algumas autoras são figurinhas carimbadas por aqui, porque adoro ler e resenhar suas histórias. É o que acontece com a Marie Pessoa, que não deixo passar um lançamento que seja (mesmo que às vezes eu demore um pouco para pegar e ler).
Quem é o mascarado? não é o obra mais incrível da Marie, mas ainda assim é uma narrativa que conquista e, ao mesmo tempo que tem um quê de leveza, também aborda algumas questões fortes e importantes. Uma daquelas histórias para ler em uma sentada só e, ainda assim, guardar consigo e refletir sobre alguns pontos.
“Mulher nenhuma nasceu pra ser saco de pancada”
A jovem protagonista Cris sonha em participar de um grande festival musical de nome Good Music. E apesar do incentivo de sua mãe e de sua melhor amiga, o namorado sempre a desencorajou a isso e ela acaba acreditando que não tem talento e capacidade para tanto.
“Se não quisermos machucar quem amamos, é muito simples: tomamos cuidado com nossas palavras, nossas ações”
Ao enviar, sem querer, um super desabafo em um grupo relacionado ao festival, porém, Cris acaba conhecendoAngel, uma pessoa misteriosa que demora a se revelar, mas que passa a ser um porto seguro para a protagonista.
“Angel conseguiu o que eu achava ser impossível: fez com que eu acreditasse no poder das minhas próprias canções”
No meio desses acontecimentos — que por si só já dariam uma interessante narrativa —, a autora ainda consegue abordar questões como relacionamentos abusivos, maternidade solo, relacionamentos entre mulheres, além de homofobia e transfobia.
Para os apaixonados por O fantasma da ópera, aqui está uma chance de, em poucas páginas, dar um novo significado à história. Mas se você não conhece nadinha do musical, não se preocupe, essa narrativa também é para você. Não deixe de conferir!