Um namorado para minha mãe — Rafa Alves

Título: Um namorado para minha mãe
Autora: Rafa Alves
Editora: Publicação Independente
Páginas: 85
Ano: 2020

Este conto começa com um clichê clássico: uma mulher que descobre que está sendo traída e volta aos prantos para casa. Mas a mulher em questão tem algo diferente de tantos clichês: uma filha.

Esta variável acrescenta algumas questões interessantes à narrativa, como o fato de Bianca — a protagonista — demonstrar uma preocupação e um apego enormes à menina, uma vez que fora abandonada grávida (sim, isso mesmo, ela foi abandonada grávida, depois entrou em outro relacionamento e se descobriu traída).

Só com isso, já levantamos três pontos importantes: o abandono que muitas mulheres sofrem ao se descobrirem grávidas e as consequências psicológicas que isto traz não apenas para a mãe, mas também para o filho. Além, claro, do medo de se viver a própria vida e de se permitir sentir e amar novamente. Cada passo que Bianca dá, ela pensa no que isso influenciaria Vivi, sua filha. Nas consequências que isso poderia trazer para a pequena.

Mas Vivi é uma menina doce, carinhosa e que quer, a todo custo, juntar sua mãe com o “tio preferido” que é ninguém menos que o melhor amigo de Bianca. Amigo, este, que esteve ao lado dela em todos os momento, inclusive da gravidez e que, querendo ou não, sempre foi quase um pai para Vivi.

Claro que o fato de uma criança arquitetar planos para juntar a mãe com alguém já diz muita coisa sobre o que ela vive e como ela se tornou uma mini adulta. Mas confesso que, enquanto lia Um namorado para minha mãe não pensava muito em todos esses aspectos.

Com uma narrativa doce e envolvente, a história simplesmente vai fluindo diante de nós e é difícil não se apaixonar pelas mulheres da narrativa e não torcer por um final feliz, principalmente depois de todo esse passado conturbado de Bianca.

Além disso, este conto é uma boa e rápida forma de conhecer a escrita da autora Rafa Alves, visto que ele não está relacionado à série Escolhas, que também é super gostosa de ler.

Se quiser saber mais, clique aqui.

Pequenos (e médios) negócios para 2021

Final de ano é aquela loucura, mas confesso que eu começo a me preparar para o natal bem antes de dezembro. Não, não sou aquelas doidas apaixonadas por natal, mas eu tenho uma família muito grande e uma vontade de presentear maior ainda. Aí, já viu tudo, né?

Só que… Para que facilitar quando podemos complicar?

Em 2020, vendo toda a situação na qual nos encontrávamos, eu pensei: “bom, tentarei dar, de natal, apenas livros de autores nacionais ou produtos feitos por pequenos negócios brasileiros”. E quando decidi isso, comecei a caça ao tesouro.

Eu não tinha como gastar muito, mas se fosse para gastar, que eu desse dinheiro para pessoas que provavelmente estavam batalhando para se manter em meio a uma pandemia, né?

Claro que não consegui ser 100% fiel ao que pensei, mas acredito que eu tenha chegado bem próximo disso, principalmente porque a maior parte dos presentes realmente foi livro (obrigada, Festa do Livro da USP).

Mas o post de hoje não é para falar sobre livros (milagre!) e sim sobre pequenos e médios negócios que conheci em 2020 (ok, alguns foram antes disso) e que gostaria de compartilhar com outras pessoas. Não são locais que comprei apenas os presentes de natal, mas que, em algum momento conheci e hoje recomendo.

Artesanato

Papelaria

Produtos naturais

Roupas

Línguas estrangeiras

Bônus para quem é do Rio de Janeiro (capital)

Bônus para quem é de São Paulo (capital)

E você, já teve boas experiências com pequenos comerciantes? Não esquece do comentar aqui e divulgar pessoas que merecem esse incentivo!

24h adolescente e às vezes apaixonada — Cláudia Zambrana

Título: 24h adolescente e às vezes apaixonada
Autora: Cláudia Zambrana
Editora: Chiado
Páginas: 322
Ano: 2021

A resenha de hoje tem sabor especial porque eu tive a honra e o prazer de revisar este livro que, agora, encontra-se em pré-venda (ao final do post colocarei os links de onde é possível encontrá-lo).

24h adolescente e às vezes apaixonada tem uma narrativa envolvente — na qual acompanhamos muitos momentos de Bia — e também misteriosa, porque é difícil prever qual será o desfecho da obra.

“A verdade é que me sinto diferente de qualquer pessoa que existe na face da Terra”

Esta não é uma história que nos faz torcer por um “felizes para sempre”, porque Bia ainda é muito jovem e mais que isso: ela é muito real. Uma adolescente que pode facilmente retratar alguma conhecida nossa, mesmo com todas as confusões nas quais ela entra.

“— Não podemos amar aquilo que não conhecemos, minha filha. Conheça e depois fale se ama”

A narrativa é em primeira pessoa — o que talvez contribua para tornar Bia tão palpável — e a história é intercalada por algumas páginas do diário da jovem. Além disso, toda a narrativa é construída de forma bem visual, mas sem descrições em demasia. Ao contrário, aliás, a história é muito dinâmica, cheia de vida.

Na verdade, acredito que não poderia ser diferente, uma vez que se trata da história de uma adolescente e geralmente eles são assim: cheios de vida e de sonhos. Bia é uma personagem que passa por uma grande evolução ao longo da narrativa, indo de uma menina quieta, meio nerd, tímida, para uma garota que vive algumas situações que não desejamos a ninguém, mas que também desfruta intensamente essa fase tão única e tão recheada de descobertas.

“É assim na vida, muitas vezes vamos apenas entulhando todas as situações que nos acontecem e não tomamos nenhuma decisão, ou outras vezes, mesmo não gostando da situação, não nos permitimos começar algo novo, assim como mantemos velhos hábitos só para nos dar uma certa segurança”

Além de Bia, 24h adolescente tem outros personagens muito marcantes: sua família, principalmente sua mãe, que é bem próxima da protagonista e traz o equilíbrio das palavras certas nos momentos certos; os amigos de Bia — a Tetê, a Jô, a Lara e o Dani — e, claro, os garotos que são a causa de toda a confusão sentimental que Bia vive: o Rafa (que também é seu amigo de infância), o Igor (um gatinho que ela conhece no clube e, mais tarde, descobre ser o primo da sua melhor amiga) e o Diego (que ela conhece em uma festa, em outra cidade, mas que o destino teima em aproximar a cada dia).

“Será que é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?”

Todo o livro se passa em cerca de um semestre. Começa no final das férias de verão — quando, além de tudo, Bia tem a chance de viajar com seus amigos para a casa de praia da família de Lara — e termina praticamente nas férias seguintes (praticamente porque, na verdade, Bia antecipa um pouco o início de suas férias e só lendo para descobrir o porquê).

Um aspecto interessante (e positivo) da obra é a forma como ela trata certos aspectos tão importantes para os jovens, mas que ainda precisam de tanto debate. Cláudia conseguiu inserir na narrativa passagens sobre feminismo, sexo, sexualidade, bullying, autoconhecimento, empatia… Enfim, muitos temas realmente importantes. E a inserção desses momentos é muito coerente com a história narrada.

“Acho que isso acaba acontecendo com o tempo, por mais que as pessoas falem que os amigos são para sempre, a vida acaba separando em algum momento”

24h adolescente e às vezes apaixonada tem tudo para fazer sucesso entre adolescentes, mas também entre pais de adolescentes que já esqueceram de tudo o que essa fase carrega e estão precisando daquela ajudinha para entender seus filhos.

E você pode encontrar o livro (em pré-venda) nas seguintes livrarias:

Livraria travessa | Livraria Martins Fontes | Amazon | Fnac Portugal | Bertrand Livreiros

As pessoas ainda leem blogs?

Em um mundo com tantas opções de entretenimento (filmes, séries, jogos, podcasts, redes sociais…) é muito comum ouvir a seguinte pergunta quando as pessoas sabem que tenho um blog: “tá, mas as pessoas ainda leem blogs?”.

Eu compreendo essa pergunta. Ainda mais se pensarmos no contexto brasileiro (no qual — dizem — as pessoas não leem). E também se pensarmos que eu escrevo majoritariamente sobre… Livros!

Em primeiro lugar, porém, gostaria de contestar uma informação: não é verdade que o brasileiro não lê. Não absolutamente, ao menos. O brasileiro não lê livros (sendo bem generalista, claro), mas lê posts nas redes sociais, lê notícias… E ouso dizer: lê blogs.

Eu poderia trazer dados estatísticos sobre o assunto, poderia falar sobre como blogs são uma aposta de marketing de diversas empresas. Mas a verdade é que, hoje, eu gostaria de compartilhar a minha experiência com esse universo.

Se eu considerar as estatísticas do meu blog, não posso dizer que as pessoas não leem blogs. Como você pode ver abaixo, de 2018 para cá, houve um aumento considerável no número de visualizações (e visitantes) nesta página.

E, veja bem, como eu disse acima, este é um blog que fala majoritariamente sobre livros, um assunto que realmente pode não interessar a muitas pessoas. Mas isso não significa que elas não leem blogs, porque é possível encontrar páginas sobre os mais diversos temas.

Eu poderia considerar, porém, que esse número de visitas não significa que as pessoas leem o meu blog. Elas poderiam, não sei, ter caído sem querer nessa página? Ter dado uma olhadinha e pronto?

Sim, com certeza!

Mas há outro dado que me anima bastante: os comentários.

E esse dado me anima porque já tive outro blog antes desse e os comentários eram bem mais raros que aqui. Talvez eu realmente estivesse falando sozinha ali, mas hoje vejo que não estou. Cada novo comentário me traz a certeza de que ao menos uma pessoa leu o que eu escrevi. E se uma pessoa leu, então não estou sozinha nessa.

(E um parênteses necessário: algumas pessoas falam diretamente comigo sobre o Blog. Digo, não deixam um comentário aqui, mas deixam um comentário no meu whatsapp ou numa conversa cara a cara, por exemplo).

Eu costumo ouvir essa pergunta que trouxe à tona hoje, também, por conta do instagram do Blog, um canal que criei para tentar divulgar este espaço, mas jamais para substituí-lo. Até porque, convenhamos, o instagram nos limita bastante no quesito texto, visto que ele é uma rede social de fotos. São propósitos bem diferentes, ainda que as pessoas estejam tentando usar o instagram de outras formas, quase como blogs em alguns casos.

No instagram, o que ouço é algo do tipo: “vale mesmo à pena não colocar o conteúdo todo aqui e convidar a pessoa a visitar o blog? Alguém visita?”.

Vou ser sincera: pouquíssimas pessoas. Mas já são mais que zero pessoas, não?

A verdade é que blogs (ao menos os como este, criados por hobby) não deveriam ser sobre números ou sobre o fato de pessoas visitá-los ou não, mas sim um espaço de livre criação e compartilhamento de gostos e coisas que nos fazem bem.

E se você lê este blog (ou está lendo este artigo), eu agradeço imensamente! É muito gratificante saber que há pessoas que se interessam pelo que me interesso e que estão dispostas a trocar ideias sobre o assunto.

Enquanto houver sol — Titãs

Músicas conversam conosco. E não há nada melhor que estar despretensiosamente ouvindo uma e, de repente, perceber como aquela letra tem um significado. E como ele pode mudar de acordo com a situação.

Enquanto houver sol é uma música que conheço há anos. Mas nas duas últimas vezes que a ouvi (ambas este mês) percebi que eu não podia terminar 2020 sem falar sobre ela que, agora mais do que nunca, tem tanto significado.

Lançada em 2003, pelos Titãs, no álbum Como vocês estão?, Enquanto houver sol ganha ainda mais força em um ano como este. E o próprio título já nos dá indícios, afinal ainda falta tempo para o nosso planeta deixar de ser iluminado pelo essencial astro rei e, portanto, enquanto houver sol, ainda haverá… Bom, ainda haverá vida, mas também, como dito na música, esperança, caminhos e desejos.

Mais que isso, logo na primeira estrofe há outra mensagem essencial em tempos tão sombrios: nenhuma ideia vale uma vida. Sim, nenhuma ideia (ou ideal, ou ideologia) vale uma vida. Somos todos iguais e temos os mesmos direitos. E, para além disso, o egoísmo mata. Acho que já vimos e sentimos bem isso, não?

Na segunda estrofe, o que pode parecer mera rima, também é algo que nos diz muito mais: crianças são seres cheios de esperança, porque ainda não enxergam todas as mazelas do mundo, mas também porque são capazes de usar a sua criatividade e a sua pureza sem medo algum.

Enquanto houver sol nos lembra, ainda, que não estamos sozinhos, mesmo quando parece. E também ressalta que precisamos seguir em frente. Parados não chegaremos a lugar algum. Em 2020 muitas pessoas se reinventaram, buscaram formas de sobreviver a mudanças inesperadas. Infelizmente, porém, muitas apenas se perderam em um mar de dificuldades que parece não ter fim.

Para concluir, Enquanto houver sol fala sobre o fato de que sempre há desejos dentro de nós. Mesmo nos momentos mais difíceis, lá no fundo, há algo que nos mantém aqui, algo que nos move. Às vezes, só precisamos buscar aquela voz lá no fundo de nossas mentes e corações e entender pelo que queremos lutar e seguir em frente.

Quis escrever sobre essa música, portanto, para desejar que você encontre o sol em 2021. Para lembrar que mesmo nos dias mais nublados, é possível seguir em frente e caminhar. O sol sempre volta.

E veja: coincidentemente ou não, comecei a escrever esse post em um momento cinza e chuvoso. Poucos minutos depois, porém, o sol — que eu não esperava ver tão cedo — resolveu dar as caras, iluminando e reforçando a mensagem desta canção.

Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma ideia vale uma vida

Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança
Em cada um de nós, algo de uma criança

Enquanto houver sol
Enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol
Enquanto houver sol

Quando não houver caminho
Mesmo sem amor, sem direção
A sós ninguém está sozinho
É caminhando que se faz o caminho

Quando não houver desejo
Quando não restar nem mesmo dor
Ainda há de haver desejo
Em cada um de nós, aonde Deus colocou

Enquanto houver sol
Enquanto houver sol
Ainda haverá
Enquanto houver sol

Enseada negra — Brias Ribeiro

Título: Enseada Negra
Autora: Brias Ribeiro
Editora: Publicação independente
Páginas: 85
Ano: 2020

Na reta final deste ano, fui surpreendida com uma leitura muito interessante: Enseada Negra. Uma história narrada em terceira pessoa e, diferente de muitos livros de autores nacionais que já li, que se passa fora do Brasil, começando na Áustria e passando também pela Alemanha (que na verdade é o país natal da protagonista) e França.

Contudo, o fator mais surpreendente não é o cenário, mas a própria história. Logo no primeiro capítulo somos apresentados à rígida educação de Liesel, a protagonista. E, ao mesmo tempo, vamos percebendo o quanto ela é solitária e reprimida, a ponto de reprimir-se totalmente, em um nível realmente assustador.

“É difícil não acreditar que merece toda a dor física e psicológica que o mundo tem a oferecer”

Por outro lado, logo conhecemos, Grete, alguém que também está naquele contexto repressor, mas que tem uma base familiar muito diferente da de Liesel e que, portanto, ao invés de reprimir-se, contesta e luta, principalmente por aquilo que acredita e por aquilo que é.

No início, Grete é uma pessoa totalmente distante de Liesel, mas logo sentimos que isso pode mudar com os rumos da história. O fato é: nós não poderíamos imaginar o quanto mudaria. Tudo bem, sabendo que se trata de um romance LGBT, podemos desconfiar de algumas coisas, mas tudo acontece de forma muito mais surpreendente que o esperado.

“Por que está sempre preocupando a única pessoa que tem algum apreço por ela? Por que não consegue fazer nada direito?”

Algo que, na minha opinião, contribuiu muito para a atmosfera da história, é a presença de arte nela. Explico: em primeiro lugar, Liesel encontra no desenho uma forma de se expressar. E através de suas obras conseguimos mergulhar — mesmo com a narrativa em terceira pessoa — em seus sentimentos. Além disso, a música é um dos fios condutores da história.

Liesel é totalmente reprimida e fechada, mas é apaixonada por um gênero musical que seus pais certamente abominariam e, mais ainda, um gênero musical que lhe permite extravasar e, também, sair um pouco das regras impostas a ela. E, claro, esse gênero musical é o que a une ainda mais a Grete.

Não sei se pelo fato de Liesel desenhar ou se apenas por mero estilo de escrita, a história é recheada de descrições. Nada, porém, que nos faça morrer de sono. Ao contrário, são descrições que tornam ainda mais reais as cenas apresentadas.

Uma história densa, profunda e diferente. E uma leitura rápida! Vale a pena conhecer Enseada Negra.

E se você tiver ficado com vontade de ler esta história, clique aqui.

Resultado do meu desafio pessoal de leituras

Em 6 de janeiro deste ano de 2020 eu fiz um post intitulado “12 livros para 2020“, no qual propunha um “desafio” para mim mesma. Uma coisa boba, que nunca fiz e resolvi experimentar este ano.

Uso o adjetivo “boba” porque não foi feito com grandes reflexões. Escolhi 12 categorias de livros para ler. A ideia era que, a cada mês, eu encaixasse, entre outras leituras, um livro de uma das categorias escolhidas.

Antes de contar como foi essa experiência, gostaria de contar um fato engraçado que ocorreu: quando divulguei essa proposta no instagram do blog, recebi um comentário do tipo “Sério, só em 2019 eu li 25 livros”.

Achei esse comentário curioso porque a minha proposta não era exatamente sobre quantidade, mas sobre diversificar (e, no post em questão, eu ainda mencionava que também era para desencalhar livros, apesar de, no final das contas, eu ter lido livros que chegaram a mim esse ano).

Outra coisa que eu ainda gostaria de dizer é: eu definitivamente não sirvo para isso. Ao estabelecer 12 livros para 2020, entendi porque nunca fiz isso antes. Mesmo que fosse uma coisa para mim, senti uma certa pressão, uma certa obrigatoriedade de, a cada mês ler um livro específico. E é curioso, porque eu não determinei que categoria deveria ser cumprida a cada mês, então foi algo bem flexível. E, ainda assim, gerou uma certa preocupação em mim. Vai entender, né?

Então, ao mesmo tempo que foi bacana, é uma experiência que, provavelmente, não vou repetir tão cedo. Além disso, como eu disse antes, foi algo meio “bobo” porque, no final das contas, eu percebi que eu não estava fazendo algo realmente extraordinário. Algumas das categorias que estabeleci, eu facilmente leria de qualquer forma, ainda que esta simplesmente fosse uma proposta de não deixar certas coisas de lado ou de garantir que haveria ao menos uma leitura de determinada coisa.

Em janeiro, por exemplo, escolhi ler uma biografia ou livro de não ficção. Não é como se eu nunca fizesse isso, entende? E a leitura de janeiro não foi a única que se encaixaria neste quesito. De qualquer forma, para esta categoria, escolhi Livre para voar, escrito por Ziauddin Yousafzai, pai da Malala.

Para fevereiro, a escolha foi um livro sobre algum transtorno/doença psicológica. Ainda bem que escolhi esse tema já em fevereiro, né? E, como é o mês do meu aniversário, ganhei um livro que queria muito ler e que se encaixava direitinho nessa categoria, furando, portanto, toda a fila de livros não lidos. A obra em questão foi Céu sem estrelas, da Iris Figueiredo.

Em março escolhi uma categoria que, para mim, era um pouco mais difícil (isto é, algo que eu talvez realmente não fosse ler se não tivesse colocado neste desafio) e que contei com a ajuda do meu namorado para cumprir: ler uma HQ ou um mangá. E a obra que entrou aqui foi uma das minhas melhores leituras de 2020: A diferença invisível, da Madmoiselle Caroline e da Julie Dachez.

Uma das categorias da minha lista incluía um gênero que leio, mas geralmente quando chega às minhas mãos um livro do tipo, isto é, não é algo que, por livre e espontânea vontade eu procure: fantasia. E foi então que, em abril, li Os guardiões dos livros, da Ana Ferrari, outro livro que amei conhecer.

No mês seguinte, segui na categoria de gêneros que leio, mas principalmente quando o livro chega até mim. E, dessa vez, o gênero foi poesia. Em maio, portanto, li A princesa salva a si mesma neste livro, da Amanda Lovelace (e também li A bruxa não vai para a fogueira neste livro).

Junho foi a vez de ler um livro com um protagonista LGBTQ+ e, por isso, escolhi Não inclui manual de instruções, da T. S. Rodriguez. Gostei do fato que este livro também fala sobre autismo (que, aliás, é outro tema sobre o qual amo ler).

Em julho eu escolhi um livro escrito por uma pessoa negra. E o melhor, a escolha incluía uma protagonista negra também. E para melhorar ainda mais: conheci uma autora brasileira que me cativou com sua escrita e que, em breve, vocês verão de novo por aqui. Por enquanto, estou falando de Eu quero mais, da Tayana Alvez.

Em agosto, graças até ao incentivo de uma aluna minha, finalmente cumpri o desafio de ler um livro em italiano, e o escolhido foi outra obra que me encantou bastante neste ano: As pequenas virtudes (Le piccole virtù), da Natalia Ginzburg.

Uma pausa aqui para uma pequena reflexão: uma das categorias que eu havia separado para 2020 era um livro escrito por uma mulher. Se você prestar atenção aos títulos que mencionei de janeiro até este momento, só teve um escrito por homem! Ou seja, da mesma forma que não coloquei “ler um livro nacional”, por saber que eu faria isso, talvez eu não precisasse ter colocado “ler um livro escrito por uma mulher”, não é mesmo? De qualquer forma, considerei esta categoria em setembro, com a leitura de Giselle, da Thais Rocha, outro livro que simplesmente amei.

Depois de setembro, porém, tudo virou uma enorme bagunça (ao menos no quesito do meu desafio pessoal). O que acontece é que, em outubro, para cumprir a categoria “um livro sobre ou que se passe no período do Holocausto“, escolhi ler A bibliotecária de Auschwitz. Mas este livro é um pouco grande (e ok, o tema um pouco pesado) e tive de pausar a leitura, que só veio a ser concluída em dezembro (e a resenha vai ficar para janeiro).

Por outro lado, em novembro, concluí a leitura de As mil e uma noites, que comecei a ler pensando, também, que o meu desafio incluía a leitura de um clássico. Quem acompanhou os meus diários de leitura viu que comecei a ler esta obra em junho deste ano e a concluí em novembro e foi uma jornada muito prazerosa, ainda que longa.

Por fim, não consegui cumprir um dos desafios que propus: ler em inglês. A verdade é que acabei empurrando para a frente essa meta, principalmente porque achei que seria pesado demais intercalar com As mil e uma noites e, no final das contas, resolvi abrir mão de uma vez.

Talvez até desse tempo de ler, agora em dezembro, algo em inglês. Mas fiquei com preguiça de encarar o livro que separei para isso e também acabei resolvendo usar o meu teste gratuito do kindle unlimited para ler/baixar alguns livros que queria muito ler e agora preciso realizá-las antes de ativar novamente o wi-fi no meu kindle…

(não sei se você conhece esse truque, mas sabe quando você assina uma daquelas promoções de 3 meses do kindle unlimited — ou como eu fiz aqui, esse teste gratuito — e chega o momento de dar adeus a ele? Separe dez títulos que você quer muito ler, pegue-os emprestado e deixe seu kindle no modo avião. Assim, você conseguirá ler esses títulos mesmo que já tenha se esgotado a sua promoção, porque eles só vão “sair” do seu kindle quando você ativar novamente o wi-fi).

Confesso que eu achei que cumpriria 100% desse meu autodesafio, mas não estou decepcionada com o meu resultado. Aliás, também estou satisfeita com minhas leituras num geral. Li um pouco menos que no ano passado, mas este ano também trabalhei muito com textos variados. E claro, o que importa sempre é a qualidade, não a quantidade.

A única coisa que quero estabelecer para 2021, e agora, de verdade, para ver se diminuo a minha lista de não lidos (apesar de que sempre chegam novos livros) é, a cada mês, ler ao menos um físico e um ebook dentre os que estão parados aqui. E fechar, no máximo, uma leitura em parceria por mês (isso sim é desafio, sou péssima para dizer não…).

E para você, como foi esse ano? Cumpriu algum desafio ou meta literário que havia estabelecido inicialmente? Já tem planos para 2021?

Toda história tem dois lados

Este é um tema sobre o qual estou querendo falar há um tempo. E, apesar da palavra “história” ali no título, eu sabia que poderia parecer, inicialmente, que este texto nada tinha a ver com os assuntos do blog. Mas quanto mais eu refletia sobre ele, mais eu pensava em uma grande conexão literária que me servirá muito bem de exemplo ao que quero falar.

Em nossa literatura temos o grande dilema: Capitu traiu ou não Bentinho?

Há pessoas que dizem que sim e há pessoas que dizem que não, mas sendo a história totalmente narrada em primeira pessoa por Bentinho, fica difícil afirmar qualquer coisa, uma vez que conhecemos apenas o lado dele na história.

Pode parecer bobo reafirmar isso que, antes de mim, tantos estudiosos já disseram, mas a verdade é que há uma força muito grande nesta imagem com relação ao que escrevo aqui. E tem mais, isso tudo conecta-se com outra coisa que foi muito discutida ao longo desse 2020: a cultura do cancelamento.

Há muitas críticas (coerentes) a este comportamento que tem se intensificado e vejo que, em diversos casos, realmente falta um mínimo conhecimento sobre o outro lado da história. Afinal, como eu disse no título, toda história tem dois lados (o que não significa que nunca há um lado errado, claro).

Eu mesma já, infelizmente, ouvi gente falando “mas eu conheço fulano, se ele está dizendo isso, eu acredito, não me importa o que o outro lado tem a dizer”. E é com discursos assim que pessoas são “canceladas” até mesmo por coisas que não fizeram ou que não são bem como os outros estão dizendo.

Reforço: não estou dizendo que as pessoas não erram, que não ocorrem coisas absurdas neste planeta. Com certeza há muita coisa ruim e muito crime que precisa ser julgado. Mas, em tese, um juiz de verdade deve analisar todos os fatos tanto de um quanto de outro lado.

Ouvimos falar sobre “cultura do cancelamento” e pensamos que isso nunca vai acontecer conosco, mas, de uma forma ou de outra, estamos sempre sujeitos a mentiras ditas sobre nós, sobre o nosso trabalho, sobre nossas vidas.

A vontade de escrever sobre tudo isso surgiu, em mim, quando vi de perto que as pessoas são capazes de fazer qualquer coisa para estar “por cima”, para se dar bem. Criam-se fatos inexistentes, manipulam-se palavras. E, por vezes, você não tem como se defender porque, para isso, precisaria dizer verdades (o que, muitas vezes significa mostrar que o outro lado não é o que parece ser também) que é melhor guardar para dizer diante da justiça, a única que deveria realmente julgar fatos.

O problema é que nem sempre as pessoas têm a oportunidade de provar que não fizeram nada daquilo sobre as quais são acusadas. Aqui, refiro-me até a situações mais “simples” que aquelas de grandes casos midiáticos. Refiro-me a situações mais “cotidianas”, entre pessoas que se conhecem e estão em um mesmo (pequeno) círculo social.

É muito triste perceber que, infelizmente, em casos assim, a pessoa que inventa fatos acaba realmente se dando bem. Não sei até quando, porque talvez uma hora as máscaras venham a cair. A gente acaba torcendo por isso. Mas, e se a máscara nunca cair?

Não temos como afirmar com 100% de certeza se Capitu traiu ou não Bentinho, pois, em realidade, nunca ouvimos um “a” que tenha vindo diretamente dela. Então também não acredite em outras histórias que tenham vindo de apenas um lado, principalmente se isso calunia ou diminui a parte que você não conhece ou não deu espaço para se explicar.

Não quero patos elétricos — Maicon Moura

Título: Não quero patos elétricos
Autor: Maicon Moura
Editora: Lettre
Páginas: 227
Ano: 2020

É comum termos medo de sair da nossa zona de conforto, inclusive (ou principalmente?) quando se trata de gosto literário. Não quero patos elétricos é uma obra que tinha tudo para me manter longe, principalmente pelo gênero, mas é difícil não sentir certa curiosidade com esse título, principalmente em combinação com a capa. Ainda assim, o medo estava ali comigo quando peguei este livro para ler.

“— Ele é um humano, seu corpo foi feito pra responder apenas com medo a tudo que ele não entender”

A verdade, porém, é que fui fisgada logo de início. Talvez tenha contribuído imensamente para isso o fato de que, logo de cara, compreendemos tanto o título quanto a capa. Aliás, a cada virar de página vemos que nada foi colocado no livro em vão. Mas também não posso deixar de mencionar o carisma dos personagens desta história.

“A ideia singela de vida foi questionada, ironicamente, por toda a vida”

O humano Adam Igan e seu amigo robô, Craig, vivem viajando pelo espaço em uma nave chamada Gandan, cujo sistema operacional — de nome Moe — age quase como uma mãe para eles. Juntos, eles vivem altas aventuras — autodenominando-se cowboys espaciais — e nós, ao longo da leitura de Não quero patos elétricos passamos a conhecer apenas uma mínima parte delas, compreendo, no entanto, um pouco do passado e do presente deles.

“Após ser ativado dentro de uma pequena fábrica, em algum lugar que você ainda não conhece, espera que sua vida seja simples. Por que te deram a noção de vida?”

Confesso que não sei o que eu deveria esperar de um livro que tem uma pegada mais para a ficção científica, mas dei boas risadas com Não quero patos elétricos. Achei a leitura super leve, mas, ao mesmo tempo, instigante, porque esse é o tipo de história em que nada é o que parece ser e, a cada momento, todo o rumo da narrativa muda, mas sem ficar confuso ou sem nexo.

Ao mesmo tempo em que me diverti ao longo das páginas deste livro, porém, também encontrei algumas críticas sutis, mas muito bem colocadas. Críticas que cabem muito bem em histórias como essa, que se passam em um futuro que, na realidade, apenas podemos imaginar.

“Mas para um grupinho de 10 bilhões de pessoas, a raça humana — que se dividia em partes por conta de papel com valor, ou por conta da cor, ou por causa de uma coisa que eles chamavam de gênero —, mudanças climáticas não faziam sentido nenhum e aquecimento global era algo inventado para arrecadar dinheiro. Era o que eles diziam”

A questão do tempo, na história, é outra coisa a se levar em consideração. Apesar do tanto de ação e aventura com a qual nos deparamos, me parece que a história se passa em um curto intervalo de tempo. E este é um tema que inclusive gera um plot na narrativa.

“Em uma semana me amarraram mais que em toda minha vida”

E por falar em plot… Como eu disse antes, a leitura deste livro é instigante e uma das coisas que contribui para isso é o fato de que sempre há algo novo que queremos descobrir através, principalmente, do olhar de Adam. São vários plots muito bem pensados e encaixados.

Não quero patos elétricos é muito mais que uma busca por patos de verdade, é uma história que irá te fazer se desligar do mundo real, ao mesmo tempo que vai te propiciar alguma reflexões interessantes. Então, se você busca algo leve, diferente e surpreendente, recomendo que leia este livro.

Onde encontrá-lo? Aqui (físico) ou aqui (ebook).

Tatianices recomenda [14] — Literatura Errante

Antes de mais nada, preciso assumir que essa seção ficou um pouco abandonada neste ano de 2020, mas nunca é tarde para retomar as coisas, né? E, melhor ainda, retomar com uma super indicação para leitores e escritores.

Você já ouviu falar no Literatura Errante?

Trata-se de um projeto literário, com um espaço próprio, pensado para que você possa divulgar ou publicar seus trabalhos e textos sem custo algum. Um projeto que está crescendo e sempre agregando mais literatura e coisa boa ao nosso dia-a-dia.

Acho que seria legal, em primeiro lugar, conhecer a história do Literatura Errante, porque, através dela, podemos ter uma pequena ideia do que encontraremos pela frente. Mas, antes de vocês irem para lá, vou contar como eu conheci o Literatura Errante.

Bem, eu estava no Instagram, quando vi um post que dizia algo do tipo “você trabalha com literatura? Anuncie seu trabalho”. Resolvi fuçar um pouco o perfil que havia postado isso e descobri o Literatura Errante.

Fiquei interessada no projeto e enviei as informações para anunciar meus serviços de revisão e tradução. Por algum erro no formulário, porém, o Pablo, fundador de tudo isso, entendeu que eu estava enviando meu currículo em busca de uma vaga e, gentilmente me explicou que não tinha como contratar ninguém.

Depois de resolvida a falha na comunicação, porém, me coloquei à disposição para colaborar com o projeto e, desde então, tenho revisado alguns dos textos que, semanalmente vão ao ar. É possível encontrar todos eles aqui.

É difícil não se encantar. Imagine, toda semana ver que várias pessoas estão doando parte de seu tempo para propiciar novas leituras (gratuitas) a quem quiser acessar!

Para além disso, como eu disse antes, há sempre novos projetos no horizonte e, um deles, também acabou de se concretizar: a revista do Literatura Errante! Outro super trabalho pensado e realizado com carinho e disponível para quem quiser ler. E essa é só a primeira edição, viu?

O Literatura Errante também tem uma vitrine literária, para que autores divulguem suas obras já publicadas em qualquer plataforma (amazon, wattpad, clube do leitor) e uma página de serviços, para aqueles que trabalham com literatura (como dizia o post que eu vi).

Também é possível tornar-se membro do Literatura Errante, de maneira gratuita, ou então, se você puder colaborar financeiramente com o projeto, existem diversas opções (para todos os bolsos). Saiba sobre tudo isso aqui.

Encerro este post convidando você, leitor, a dar uma passadinha no Literatura Errante, e também nas redes sociais do projeto (Instagram, Facebook e Twitter). E depois, claro, me conte o que achou! Ah, e se você escreve, não deixe de enviar seu texto! Todos são muito bem tratados por toda a equipe errante.