Formalidade e informalidade na língua italiana

Confesso que estive te preparando nos últimos tempos. E também estive me preparando, claro.

Fiz um post sobre como aprender novas línguas; outro sobre o mito do professor nativo. Também escrevi sobre métodos de ensino e, por fim, dei dicas (gratuitas) de materiais de italiano.

Mas agora chegou a hora de colocar a mão na massa (com o perdão do trocadilho em relação a um dos principais pratos da culinária italiana).

Hoje eu dou início a uma série de posts com uma parte do conteúdo que apresento em minhas aulas de italiano. E uma das primeiras coisas sobre a qual eu falo é sobre a questão da formalidade e da informalidade na língua italiana.

Nós, brasileiros, costumamos ser mais informais. Tem gente inclusive que se ofende em ser chamado de “senhor” ou “senhora”, respondendo coisas do tipo “senhor está no céu” ou “senhora é mãe”. Em outros países, porém, esse tipo de tratamento é um indicativo de educação e respeito.

Como ser formal na língua italiana?

A verdade é que existe mais de um elemento na frase que indica essa tal formalidade na língua italiana.

Para entender isso, porém, precisamos começar pelos pronomes pessoais (i pronomi personali).

Calma, sei que essas nomenclaturas são um pouco chatas, mas isso nada mais é do que:

PORTUGUÊSITALIANO
euio
tutu
ele/elalui/lei/Lei
nósnoi
vósvoi
eles/elasloro

Você notou que “ele” e “ela”, em italiano, vira “lui”, “lei” e “Lei”? Por que isso acontece?

“Lui” é o nosso “ele” e “lei” é o nosso “ela”. Mas “Lei” (sim, escrito sempre com L maiúsculo) é o tal do tratamento formal. E o tratamento informal é caracterizado pelo “tu”, que ao contrário do que acontece com grande parte do português brasileiro, é utilizado na língua italiana (o “tu” seria o nosso “você”).

Então basta eu usar sempre “Lei” com as pessoas que estarei sendo formal?

Infelizmente, não é tão simples assim.

Como eu disse ali em cima, o “tu” caracteriza um tratamento informal e o “Lei” um tratamento formal. Ao escolher entre um e outro, você também deverá construir toda a frase baseada em sua escolha. Ou seja: você vai ter de usar os demais pronomes e verbos de acordo com a sua escolha.

Difícil? Um pouco, talvez. Mas nada que a prática não resolva, não é mesmo? Vamos ver isso com dois exemplos, para tentar entender um pouco melhor.

Imagina que você está na Itália e acaba de conhecer uma pessoa. Se ela tiver mais ou menos a sua idade ou for muito mais nova, você pode até arriscar um tratamento informal. Caso contrário, opte sempre pelo tratamento formal. A primeira pergunta provavelmente será “Qual é o seu nome?” que, em italiano, pode ser:

  • Come (Lei) si chiama? (formal).
  • Come (tu) ti chiami? (informal).

Você notou que, de uma frase para outra, eu tive de mudar duas coisas? Primeiro foi o pronome “si”, que virou “ti” e depois o verbo “chiama”, que virou “chiami”.

Outro exemplo (com uma pergunta não tão recomendada assim, mas que faz sentido em alguns contextos): “Quantos anos você tem?”, em italiano, pode ser:

  • Quanti anni (Lei) ha? (formal)
  • Quanti anni (tu) hai? (informal)

Neste caso, a única coisa que muda é o verbo: ha (formal) ou hai (informal).

E você viu que, como o verbo e outros elementos da frase mudam, você não precisa ficar usando “Lei” e “tu” em tudo. O próprio verbo usado (na conjugação certa, claro), já vai indicar para a pessoa que você está adotando um tratamento formal ou informal.

Possiamo dare del tu?

Por fim, apenas a título de curiosidade: pode acontecer de você optar por usar um tratamento formal (repito: comece sempre por essa opção) e a pessoa te perguntar “possiamo dare del tu?“. Isso significa que ela prefere ser tratada de maneira informal, isto é, usando o “tu”. E, claro, não há problema algum nisso, apenas demonstra que ela está dispensando as formalidades que você inicialmente usou.

Alameda do Carvalho — Ninna Vicari

Título: Alameda do carvalho
Autora: Ninna Vicari
Editora: Publicação independente
Páginas: 388
Ano: 2020

Você já ficou encarando a capa de um livro, tentando entender os elementos que a compõem e o título que grita nela?

A Ninna entrou em contato comigo, perguntando se eu queria ler Alameda do carvalho. Claro que ela usou as palavras mágicas “é um romance” (bom, na verdade ela explicou que “é uma história de amor entre dois personagens adultos”). Aceitei na hora, ainda que pensasse que havia algo de futurista nessa história que talvez não fosse me encantar tanto assim.

“Era tarde demais para voltar atrás. Não havia outra direção a seguirem, a não ser adiante”

Só depois de muito avançar na leitura é que comecei a entender alguns detalhes (da capa, no caso, a história está bem escrita, não tive dificuldades para acompanhar) e entender que eu não precisava me preocupar, tratava-se do exato tipo de narrativa que eu tanto adoro.

“As pessoas sempre se sentem culpadas depois de uma tragédia, mas nunca se sentem responsáveis durante os eventos que precedem a tragédia”‘

O livro é dividido em três partes, todas elas narradas em terceira pessoa. A terceira parte é a mais curta, mas não a menos intensa.

“Será que ele choraria? Ou guardaria suas lágrimas em segredo?”

A história começa com Tom e sua filha, Lily. Logo percebemos que ele está se reerguendo e que tem de cuidar da pequena sozinho, uma vez que sua esposa morrera. Uma morte, porém, que o persegue por muito tempo e que somente aos poucos vamos entendendo o que há por trás deste episódio.

Decidido a tentar retomar as rédeas de sua vida, Tom se muda para Londres e, portanto, acaba tendo de contratar uma babá para cuidar de Lily. E é assim que ele conhece Mia.

“Mia tinha tendência a abraçar problemas que não eram seus e sentia a necessidade de resolvê-los”

Mia é estudante de direito e trabalha como babá para poder se sustentar. Apesar de ter sempre um sorriso gentil a oferecer, ela também tem um passado complicado, que certamente moldou seu caráter compreensível e empático.

“Ouvir a história de Mia fez Thomas colocar sua própria vida em perspectiva”

Como a primeira parte do livro é dedica a Tom, ainda que Mia tenha um papel essencial e uma presença marcante, ficamos propensos a querer saber tudo sobre esse homem misterioso e fechado.

A segunda parte, porém, é dedicada a Mia, e só então percebemos como há tanto a ser descoberto sobre ela também. Uma mulher inspiradora, sem dúvidas.

É claro que a combinação Tom e Mia não poderia ser mais explosiva que a apresentada em Alameda do Carvalho. Fica evidente, ao longos das páginas desta obra, que jamais poderemos controlar nosso coração, escolher por quem iremos nos apaixonar.

“Não bastasse ter que superar as adversidades que a vida lhe jogara, também teria que lidar com preconceitos que nunca havia experienciado antes”

Sim, eu chorei em alguns trechos. Também fiquei com o coração na mão em outros. E tive medo de ser surpreendida por um final totalmente inesperado. Mas tive a sorte de terminar a leitura com o coração quentinho.

“Ela estava ali naquele momento, mas ele temia que não estaria ali para sempre”

Como eu disse antes, a terceira parte do livro é a mais curta, mas também a mais reveladora. Dedicada a Lily, é o momento em que cada peça desse quebra-cabeça finalmente se encaixa. Não há ponto sem nó na história.

“Lily não entendia, ainda era inocente demais para compreender as nuances que relacionamentos humanos possuíam”

Com uma narrativa envolvente, indico Alameda do carvalho para quem busca um romance mais maduro (sem ser maçante), recheado de temas como amizade, superação, alcoolismo, preconceitos… Uma história que aborda tudo isso e muito mais de maneira natural e responsável.

Se você se interessou por Alameda do carvalho, clique aqui. E não esquece de seguir a Ninna nas redes sociais: Twitter / Instagram

Ler em voz alta: eis porque é útil não apenas para as crianças [tradução 9]

Para a tradução de hoje, escolhi falar sobre a importância de ler em voz alta. E, confesso, vou descobrir com vocês quais são as vantagens desta prática, uma vez que sempre realizo minhas leituras apenas para mim mesma, em silêncio.

O post original pode ser encontrado aqui e foi escrito por Alessandra Graziottin, em janeiro de 2017.


Ler em voz alta é muito útil, aliás indispensável, com e para as crianças, a fim de melhorar e otimizar a capacidade deles de aprender e se expressar, para superar dificuldades de aprendizagem, para ter mais confiança em si, para superar a timidez, medo da rejeição e outras ânsias “sociais”. Todos os pais e avós de crianças e adolescentes em idade escolar, além dos professores, deveriam encorajar a leitura em voz alta. Mas deveriam fazê-lo também para si, pelas muitas vantagens que este tipo de leitura oferece inclusive aos adultos.

Como fazer para ler bem em voz alta? Para começar, o primeiro objetivo é o de se permitir sentir, e, assim, escutar. A voz deve ser clara e, possivelmente, límpida. A velocidade e o modo de cadenciar as palavras deve variar com a idade dos ouvintes e o nível cultural deles. Um bom leitor escolherá falar de maneira pausada, se falar com crianças, e de aumentar o tom da voz, falando mais forte e claro, se falar com idosos.

Não se fala apenas com a voz, mas com todo o corpo: para falar bem em voz alta é importante visualizar a própria boca, os movimentos que faz e olhar-se no espelho enquanto se fala em voz alta. Em paralelo, é importante olhar o interlocutor, caso ele exista, comunicando também com os olhos.

Para ler bem em voz alta é preciso conhecer o texto e preparar-se bem, como em todas as coisas, lendo-o várias vezes, para captar plenamente o seu significado e nuances: somente assim você poderá transmiti-lo de maneira eficaz. Além disso, as palavras não devem ficar suspensas no ar: devem ser metaforicamente acompanhadas com atenção e gentileza durante sua viagem entre quem lê e quem escuta. Portanto, a voz deve ter uma direção precisa e ser acompanhada de todo o corpo.

Enquanto fala, é indispensável escutar a si mesmo: não apenas com o ouvido, mas com todos os sentidos. Na leitura em voz alta temos três protagonistas: o texto, com o sentido das palavras; o leitor; o público. Neste triângulo mágico, o bom leitor será capaz não apenas de comunicar a percepção do verdadeiro significado do texto, mas de fazê-lo ressoar em seu público, seja ele uma criança, um adulto ou um maior número de pessoas. O resultado máximo é obtido quando, através da leitura, alcança-se o envolvimento emocional do ouvinte; neste caso, a leitura atingiu seu pleno potencial. E alcançou o pico da eficácia se o conteúdo tornou-se inesquecível, graças às emoções que a acompanhou.

Linguagem e comunicação à parte, ler em voz alta é útil para a saúde? Sim, principalmente do cérebro. Para todas as idades, a leitura em voz alta é uma extraordinária ginástica para o cérebro: brain fitness, como eu gosto de chamar. Para as crianças, pelos vários estímulos cerebrais que a leitura em voz alta provoca: estímulos fonéticos, linguísticos, cognitivos, emotivos, motores e também nervosos, pelas emoções que uma boa leitura carrega consigo, para quem lê e quem escuta. Uma fábula lida com participação, ternura e paixão, tem um extraordinário poder calmante e reconfortante para cada criança. É uma carícia musical e sugestiva que jamais se esquece. É um antissolidão por excelência. Para os adultos, pelo papel ativo que a leitura comporta, pelos múltiplos aspectos da performance mental. Nos idosos, porque estimula ainda mais a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de formar novas conexões e reparações celulares, combatendo a deterioração, seja a espontânea, seja a pós-traumática.

Em um eficaz projeto de envelhecimento saudável, a leitura em voz alta também tem o seu papel. Por que não redescobrir os seus muitos usos preventivos e terapêuticos? É agradável, faz companhia e, por fim, não custa nada! Por que não praticá-la, inclusive com grupos de leitura? É um belo modo de estar junto, aprender, comentar e conversar, em uma atmosfera afetuosamente relaxada. Um prazer antigo e sempre novo.


Depois de ler esta tradução, me conta uma coisa: você tem o hábito de ler em voz alta?

Mil e uma noites depois… — Diário de leitura (21)

Sim, mesmo a mais longa das histórias uma hora acaba e com As mil e uma noites não poderia ser diferente. Esta obra me acompanhou por seis meses e eu confesso que, de início, eu tinha medo. Achei que poderia acabar abandonando a leitura, ou que ela seria mais arrastada que prazerosa.

A verdade é que me enganei. E claro, isso é ótimo! Em diversos momentos me vi querendo ler “só mais um pouquinho” para chegar ao final de uma das narrativas (que às vezes tinham o tamanho de uma noveleta) e, como vocês puderam acompanhar em meus diários de leitura, fiquei fascinada com o tanto de coisas que li, refleti e aprendi.

Para fechar as narrativas de As mil e uma noites temos A história das duas irmãs que invejavam a irmã mais nova. E já começo dizendo que essa inveja é muito “interessante”, porque ela é fruto simplesmente da realização dos desejos expressos por cada uma delas!

Numa bela noite, as três irmãs conversavam e uma disse que gostaria de se casar com o padeiro do Califa, para poder comer pães maravilhosos; a outra disse que gostaria de se casar com o cozinheiro do Califa e a mais nova, sonhando para além das duas, disse que preferia mil vezes casar com o próprio Califa.

Acontece que o Califa em pessoa (mas disfarçado) estava passando por ali e ouviu esse diálogo e resolveu atender aos desejos daquelas três mulheres, dando margem para a inveja das duas irmãs mais velhas.

O mais interessante da história é que, apesar desse acontecimento ser muito importante, o foco dela passa para outra coisa: os filhos que a irmã mais nova teve com o Califa. Sim, a história é mais sobre eles e a criação deles que qualquer outra coisa. Por quê?

Bem, porque as tais irmãs invejosas arquitetaram um plano para que pudessem fazer o parto da irmã mais nova e, nos três partos ocorridos, jogaram o recém-nascido num rio que passava perto do palácio e fingiam que irmã havia dado a luz a um animal qualquer.

Essas crianças jogadas no rio, na três vezes em que isso aconteceu, tiveram a sorte de ser resgatadas pelo jardineiro do palácio e foram muito bem educadas por ele. E é essa história que vamos acompanhando, até o surpreendente desfecho da narrativa, que une todas as pontas.

E, para encerrar a obra, há uma breve passagem que nos mostra um último diálogo entre Sherazade e o soberano, cuja fúria já foi completamente amenizada graças às histórias de sua esposa, acabando, assim, com a terrível lei que ele havia criado.

E, o que fica de tudo isso? Contar histórias salva vidas! Por isso, que nunca deixemos de contar nossas histórias e, mais ainda, de valorizar aqueles que se dedicam a isso!

Princesa de Natal — Ingrid Sousa

Título: Princesa de Natal
Autora: Ingrid Sousa
Editora: Lettre
Páginas: 156
Ano: 2020

Agora que definitivamente chegamos a dezembro, muitas pessoas começam a procurar ou indicar filmes e livros com temáticas natalinas. Eu confesso que nunca fui muito de fazer leituras temáticas e, menos ainda, indicá-las (por falta de conhecimento mesmo). Mas tive a oportunidade de ler Princesa de Natal e acredito que não posso deixar essa obra passar em branco.

“E nada melhor que uma boa leitura para tirar nossos pés do chão”

Se não fosse a capa e o título, isto é, se tivessem me entregado este livro sem uma informação sequer sobre ele, eu teria me surpreendido demais com os rumos que a história toma.

“Antes de te conhecer, minha vida estava uma turbulência e você trouxe a paz e a alegria que eu tanto quis e nunca tive”

Isto porque, nas primeiras páginas, somos apresentadas a Heloise, uma escritora que, após seu primeiro grande sucesso literário, encontra-se em um tremendo bloqueio criativo. E sua amiga — Sarah —, com quem ela divide o apartamento, sugere que Heloise deve fazer uma viagem. Mais que isso, a tal amiga inclusive indica o destino para Heloise: Krajina Kvetov. Um país de nome difícil e cujo sistema governamental é uma monarquia.

Quando digo que eu me surpreenderia com os rumos da história, quero dizer que eu não esperaria se tratar de uma história que fala sobre natal e romance, uma vez que, ao que tudo indica nas primeiras páginas, estamos “apenas” falando de uma escritora em busca de inspiração.

E, em um primeiro momento, Heloise não vê muito sentido na sugestão de Sarah. Mas ela resolve pesquisar um pouco sobre tal país e fica hipnotizada com as informações que encontra.

O empurrão final para que tal viagem se concretize, porém, é a ligação de seu ex-noivo, querendo reatar um relacionamento que não tinha mais possibilidade de voltar a existir.

“É insano pensar que ainda existe esse tipo de pensamento machista e preconceituoso e que as pessoas convivem tranquilamente com isso”

E assim, através da narrativa em primeira pessoa, desembarcamos em Krajina Kvetov, na época de natal, e passamos a conhecer esta pequena monarquia sob o olhar de Heloise. Um país extremamente pacífico, mas que esconde grandes problemas em sua família real.

“— Querida, nós não precisamos abrir feridas para descobrir que elas estão infeccionadas”

Princesa de Natal é uma história com o clima que essa época do ano pede: leve e mágico, mas com imprevistos na medida certa. E mais: uma história que traz reflexões necessárias para o momento, como a questão do amor e da empatia, tão mais em alta perto das épocas de final de ano, tão esquecidos nos outros 300 e tantos dias.

“Só queria dar amor e alegria a quem tem tão pouco e, mesmo assim, encontra motivos para sorrir e ser feliz”

Com Heloise, conhecemos os costumes e as celebrações de Krajina Kvetov, principalmente às relativas ao natal, mas também descobrimos o passado e o presente de alguns personagens, além de entender um pouco como funciona esse país tão diferente.

Indico a leitura para quem quer se desligar um pouco dos problemas do mundo e conectar-se a uma história capaz de despertar doces sentimentos.

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Próximo ao fim — Diário de leitura (20)

Estou rapidamente me aproximando do fim de As mil e uma noites e hoje aproveito para comentar sobre duas histórias de uma vez. A primeira delas é A história do cavalo encantado. O título, como sempre, é bem autoexplicativo, ainda que, claro, deixe de fora muitas nuances da história.

Tudo começa com um homem que se apresenta com o tal cavalo encantado, capaz de levar aquele que nele subir para o local desejado, em um período temporal muito pequeno.

O preço por tal objeto, porém, é altíssimo: a mão da princesa. E, com isso, dá-se início a uma série de confusões, como não poderia deixar de ser. Mas uma, em especial, eu gostaria de narrar aqui.

Depois de alguns problemas iniciais, este homem rapta outra princesa — que se casaria com o príncipe daquela corte — como uma forma de vingança por tudo que lhe acontecera.

No meio do caminho, porém, a princesa consegue pedir socorro, e é salva por um homem que parece ser uma ótima pessoa. Mas as aparências enganam, não é mesmo? Tal homem quer, a todo custo, desposá-la. E ela se vê uma profunda agonia por isso. Claro que, depois disso, muitas outras coisas acontecem e tudo se resolve. Mas me chamou a atenção uma passagem em específico:

“Sultão de Cachemira, quando outra vez pretenderes desposar uma princesa que te roga proteção, trata antes de obter-lhe o consentimento!”

Tudo bem que este é um discurso de um quase marido bravo por ver outro homem querendo roubar sua esposa, mas, ainda assim, essa frase me parece um grande passo em relação ao tratamento dispensado às mulheres das histórias que preenchem as páginas de As mil e uma noites.

Veja bem: é um homem dando bronca em outro homem sobre a necessidade do consentimento da mulher. Esse é um discurso que, infelizmente, até hoje, muitos homens ainda não entenderam.

A segunda narrativa que quero comentar aqui é A história do príncipe Ahmed e da fada Pari-Banu. Uma história muito fantástica, com várias reviravoltas e permeada por objetos mágicos.

O que chamou minha atenção nesta narrativa foi que, nela sim, vi aparecer um “tapete voador”, coisa que não me recordo de ter visto na história de Aladin. O que, uma vez mais, me faz pensar na adaptação da Disney… Será que há referências a outras histórias de As mil e uma noites em Aladin? O que vocês acham?

Brilhante — Renato Ritto

Título: Brilhante
Autor: Renato Ritto
Editora: Publicação independente
Páginas: 44
Ano: 2020

Você já enviou um email que não deveria ter enviado e entrou em desespero, sem saber o que fazer? Para a nossa sorte, hoje em dia é possível desfazer o envio, se formos velozes em notar o erro.

Mas por que estou falando sobre emails em uma resenha? Porque Brilhante é um conto totalmente escrito neste formato, isto é, cada detalhe ao qual temos acesso, nesta história, nos chega através de emails trocados entre os personagens.

Tudo começa, conforme nos indica o cabeçalho do primeiro email, numa segunda-feira, dia 6 de abril de 2020. Trata-se de uma mensagem de Frank Lima para Alex Gomes, dois funcionários da Agência Brilho.

Para ser mais exata, Frank é gerente de projetos da agência e está dando um leve puxão de orelha — entremeado por muitos elogios — em Alex, o estagiário. O email é escrito de forma muito interessante, pois não parece exatamente uma bronca. E isso é um ponto, de certa maneira, discutido mais adiante no conto.

Se fosse só essa primeira “bronca”, tudo bem. O problema é que o tal gerente decide mandar um email coletivo e Alex resolve escrever uma resposta bem sincera… Que não deveria ser enviada! O que era para ser apenas um desabafo, vira uma grande confusão.

Ao perceber a burrada, Alex envia outro email, desesperado, mas para sua colega, Thais Rosa, também estagiária da agência. E daí para frente, são muitas reviravoltas! A gente fica com o coração na mão, querendo saber como Alex irá se safar dessa situação.

Ao mesmo tempo que Brilhante é uma leitura extremamente leve e divertida — sim, daquelas que você dá risadas enquanto lê — tem um certo quê de crítica, seja à desvalorização que estagiários e artistas sofrem, seja à forma como as coisas podem ser conduzidas em agências (este é um tipo de ambiente totalmente desconhecido para mim e foi muito interessante vê-lo retratado em uma história como esta).

No momento que cheguei à última página, soltei um sonoro “quê???”. Um excelente final aberto, que nos deixa ansiando por muito mais. Dá vontade de ler de novo, para absorver cada detalhezinho desta história.

E se você se interessou, clique aqui e saiba mais!

Eu sou escritora?

A verdade é que este é um assunto sobre o qual penso bastante. Muitas pessoas diriam (e dizem) que sim, sou escritora. Eu, por outro lado, tenho dificuldade em concordar com elas. Mas por quê?

Tive a sorte e o privilégio de crescer em uma família de leitores e acredito que já comentei muitas vezes sobre isso aqui no Blog. Não sei qual foi o primeiro livro que li ou que livro despertou minha paixão pela leitura, só sei que, desde que me entendo por gente, sou apaixonada pelas palavras e estou sempre lendo um livro atrás do outro.

Isso significa que, desde pequena, sou fascinada pelo universo literário. Sempre achei o máximo a capacidade de completos desconhecidos me apresentarem novos mundos e novas possibilidades. Conhecer um um autor (pessoalmente, digo) era algo bem raro e surreal para mim. Então eu sempre vi essas pessoas como seres realmente fantásticos, de outro mundo, inalcançáveis, mas capazes de fazer maravilhas com as palavras.

(Ao mesmo tempo, esse pensamento não faz sentido algum, pois tenho familiares que também publicaram livros, que trabalham com livros… Enfim, a ingenuidade faz isso conosco).

Hoje em dia (ao menos antes dessa pandemia), eu vou a eventos literários e vejo com meus próprios olhos que escritores são seres de carne e osso como eu; ou então eu troco ideias, através das redes sociais e do blog, com autores que me pedem para ler seus livros e divulgá-los. São gente como a gente. E, ainda assim, não consigo me colocar no mesmo nível que eles. Não consigo me ver como escritora.

Mas, Tati, por que você deveria se considerar uma escritora?

Caso você ainda não saiba, tenho alguns contos publicados. Mas sim, por enquanto, é “só” isso. De qualquer forma, contarei um pouco mais sobre cada um deles.

Em 2016, quando eu ainda tinha meu outro Blog (que deletei pouco tempo depois), fiquei sabendo sobre uma seleção de contos natalinos, para uma antologia da Editora Illuminare.

Naquela época, eu não sabia muito bem como funcionavam essas antologias, nem a importância que elas podem ter para autores iniciantes. Ainda assim, como o natal era uma época especial para mim, resolvi escrever sobre o tema e, sem grandes pretensões, enviei meu conto. Eu só queria poder colocar no papel como eram as minhas festas natalinas, pois sei que minha família comemorava de maneira muito especial. E ver esse edital foi o empurrãozinho que eu precisava para isso.

Acontece que… meu conto foi selecionado! Eu sequer havia comentado com pessoas próximas que tinha enviando um conto para uma seleção. E só joguei a informação “no mundo” quando meus exemplares chegaram aqui em casa, porque até então eu não poderia acreditar numa coisa dessas.

Lembro-me, inclusive, que haveria um evento de lançamento da antologia, no Rio de Janeiro, e eu e meus pais até cogitamos participar. Acabou não dando certo, mas às vezes me pergunto como teria sido isso. Talvez as coisas fossem diferentes se eu tivesse ido a esse evento…

De qualquer forma, passava a existir a minha primeira publicação de verdade: o conto “Devaneios de um caloroso natal” na antologia “Natal em verso e prosa“, da Editora Illuminare.

Depois disso, só fui mergulhar novamente neste mundo mais recentemente. Desde o final do ano passado, para ser mais exata, com um edital para uma antologia sobre romance clichê. Quer algo mais a minha cara?

Li a proposta e logo senti um comichão para colocar em palavras uma ideia que foi nascendo, aos poucos, dentro de mim. Foi assim que, em dezembro de 2019, consegui ser selecionada para a antologia “Um clichê para recordar“, da Editora Cervus, com o conto “Pegue a minha mão (e a minha vida inteira)” [alguém aí sacou a referência desse título?].

Por uma série de motivos (como atrasos na publicação, falta de informação, erros), acabei não divulgando essa antologia, que só veio a ser efetivamente publicada em outubro deste ano. Mas ela finalmente existe!

Um pouco depois de ser selecionada para a antologia da Cervus, fui convidada a organizar a antologia “Um amor para chamar de meu“, da Editora Lettre. Mas, além de organizar, eu teria de escrever um conto também… E foi aí que publiquei “A língua do amor”, um dos meus contos mais queridos (por mim, digo). O ebook desta antologia foi publicado em março de 2020 e a versão física saiu em julho deste mesmo ano.

Por fim, ainda em 2020, publiquei o conto “A vida em ondas”, na antologia de halloween da Editora Lettre. “Gostosuras ou travessuras” foi publicada em outubro e pode ser lida gratuitamente!

Sim, eu tenho quatro contos publicados e, mesmo assim, não me considero escritora. Mas não, eu não acho que quem escreve apenas contos seja menos escritor que alguém que publicou um livro solo. Apenas tenho dificuldades em me ver neste papel.

Ainda assim, agradeço aos que discordam de mim e, mais ainda, aos que me apoiam em minhas loucuras literárias. Quem sabe um dia eu mesma mude essa visão que tenho? Mas me resta uma dúvida: o que é essencial para que você considere uma pessoa uma escritora?

Confiança e comedimento — Diário de leitura (19)

Foi só eu sentar de frente para a tela em branco e repassar alguns pontos de A história de Ali Codja, mercador de Bagdá que logo percebi que essa história, ainda que não seja das mais longas em As mil e uma noites tem muitas mensagens a nos passar, inclusive com relação a comportamentos que temos até hoje.

Para começar, esta é uma história que fala sobre confiança. Não gosto de ser aquela pessoa que desconfia de tudo mundo, mas muitas vezes isso é preciso. Às vezes, basta uma simples opinião contrária e uma amizade ou um relacionamento de anos vão por água a baixo.

Na história em questão, Ali Codja decide partir por um tempo, viajar por terras desconhecidas, confiando a seu amigo, antes de partir, um vaso. E olha só a loucura: Ali Codja disse apenas que era um vaso cheio de azeitonas e deixou o mesmo em um depósito do amigo.

Alguns anos depois, Ali Codja não havia ainda retornado e a esposa desse amigo queria azeitonas. Tal amigo lembra-se do vaso e pensa que um punhado de azeitonas não faria falta. Mas logo descobre que ali há muito mais: há moedas de ouro! E bom, uma vez que Ali Codja ainda não retornara, que mal faria pegar aquelas moedas?

O que ele não contava é que logo Ali Codja voltaria e, claro, buscaria o seu vaso que já não continha mais as tais moedas de ouro. E isso gera uma disputa entre os dois amigos, como já é de se imaginar.

Não sendo possível resolver o conflito de maneira amigável — afinal, não há mais amizade entre eles após esse episódio — eles partem em busca de um cádi (juiz muçulmano). Tal cádi, porém, dá razão ao (ex)amigo de Ali Codja e este, nada satisfeito, pede a intervenção do califa.

A esta altura, preciso mencionar a segunda mensagem que esta história traz, e que, ainda que ela seja deixada bem explícita ao final da história, está estritamente relacionada a esse acontecimento: não devemos julgar precipitadamente.

Se algum dia te colocarem em uma posição de juiz de alguma situação, pare, reflita e analise todos os lados da história. E se nunca te colocarem nesta posição, ótimo, então não saia emitindo a sua opinião sem ao menos ter a certeza de saber sobre o que está opinando.

Bem, depois que é solicitada a intervenção do califa neste conflito, o mesmo fica um pouco sem saber o que lhe aguarda. Passeando por suas terras, porém, depara-se com uma cena que logo chama sua atenção: algumas crianças estão brincando e brincadeira é justamente encenar o julgamento de Ali Codja.

A solução dada pelo juiz mirim, no entanto, agrada tanto ao califa que ele pede que levem o garoto ao palácio no dia seguinte, para participar do verdadeiro julgamento. E essa é a terceira mensagem desta história: a importância de darmos ouvido às crianças e ao seu senso de justiça.

Em uma simples brincadeira de criança, o garoto foi capaz de pensar em uma solução que poderia parecer óbvia, mas que o cádi sequer havia cogitado, fazendo-o julgar de maneira injusta uma situação extremamente séria.

Essa foi uma história que realmente chamou minha atenção durante a leitura e que agora, passados uns dias, admiro ainda mais, por ver o quanto ela carrega dentro de si. Uma história que merecia ser mais contada e divulgada.

Você já conhecia A história de Ali Codja, mercador de Bagdá?

As 220 mortes de Laura Lins — Rafael Weschenfelder

Título: As 220 mortes de Laura Lins
Autor: Rafael Weschenfelder
Editora: Publicação Independente
Páginas: 53
Ano: 2020

Escrever um conto não é uma tarefa tão simples quanto parece, porque não é simplesmente escrever uma histórinha curta e acabou. A “histórinha” precisa ter começo, meio e fim na medida certa. E se tem algo que eu posso dizer é que As 220 mortes de Laura Lins tem exatamente isso. Ok, talvez eu não importasse de ler um pouco mais… Mas isso é pelo que ainda vou apresentar abaixo.

Acho que uma das coisas que surpreende logo de cara neste conto é a linguagem: totalmente acessível. Digo, o conto é escrito numa linguagem adequada aos personagens nele apresentados (dois jovens que estão no ensino médio) e, ao mesmo tempo, é recheado de referências que nos aproximam ainda mais dos acontecimentos e da narrativa. Não é uma história que termina em si mesma, mas que nos abre horizontes.

E aqui pegamos outro ponto crucial: a narrativa. Impossível não ser fisgado por essas páginas. Rafael pegou uma ideia e trabalhou em cima dela de maneira muito criativa, divertida e, apesar de tudo (e vocês já vão entender essa “ressalva”), leve.

Em certo momento da leitura, fiquei pensando se havia uma metáfora por trás daquelas palavras, onde tudo aquilo chegaria. Entendi que não era exatamente uma metáfora, mas havia uma grande mensagem a ser passada e… Uau! Como isso foi muito bem feito.

Mas vamos ao que interessa: antes de começar a leitura da história propriamente dita, somos apresentados a 5 regras. Guarde-as, você logo entenderá cada uma e — provavelmente, ao menos comigo foi assim — achará muito bacana o paralelo ali traçado.

“Nesse jogo, é a mente que fica com as cicatrizes mais profundas”

Os capítulos são nomeados de “ciclos” e isso também logo se explica. Se você olhar o sumário, verá: Ciclo 1, Ciclo 2, Ciclo 3, Ciclo 220, Ciclo 221 e Laura. Não, não é um erro. Lembre-se que estamos falando de um conto e você, ao iniciar a leitura, logo entenderá que não seria possível narrar cada um dos ciclos (eu leria, viu?). Mas por quê?

A cada novo ciclo, Daniel acorda em seu quarto, olha para o celular e vê a mesma data e hora: 17 de maio, 13:23. A cada novo ciclo, Daniel vai se encontrar com Laura no Parque do Ibirapuera. E a cada novo ciclo, Daniel tenta evitar a morte de sua amiga (e falha).

É claro que depois do 3º ciclo, tanto Daniel quanto nós, leitores, já entendemos que ele está preso em um looping temporal. O que não sabemos — e nem ele — é como sair disso.

E apesar disso poder soar repetitivo, não é. Não apenas porque, a cada ciclo, Daniel descobre algo novo, mas também porque somos, aos poucos, apresentados à história dele e de Laura, que é muito mais complexa e instigante do que poderíamos esperar de dois jovens colegiais.

Ok, talvez “instigante” tenha sido um adjetivo exagerado, mas a realidade é retratada ali de maneira tão palpável que não tem como não vermos um filme passando em nossas cabeças.

“Viver a mesma tragédia 219 vezes e não poder conversar com ninguém é demais até para Daniel Trombadinha”

Li esse conto bem rapidamente, torcendo até o último momento por um final feliz. Não posso dizer que cheguei onde esperava, mas o final está realmente muito bem pensando.

E se te deixei com vontade de saber mais sobre essa história, clica aqui.