Filhos que não leem: instruções de uso [tradução 8]

Escrever para papais e mamães nunca me passou pela cabeça, mas a verdade é que as dicas que encontrei no post Figli che non leggono: istruzioni per l’uso (e que traduzirei aqui embaixo), podem ser úteis não apenas para pais, mas também para professores ou mesmo para qualquer pessoa que tenha contato com jovens (e, por que não? Adultos) que não gostam de ler.

O post original encontra-se no site Cultura18, e foi publicado em maio de 2019, por Erica Regalin. Confira aqui.


A maioria dos pais reclama que os filhos não leem o suficiente; mas é difícil competir com tablet e smartphone: o display iluminado parece ter a capacidade de aprisionar o usuário em um vórtice que não deixa espaço para dar atenção a outras atividades! As novas gerações estão habituadas a receber milhares de estímulos simultaneamente e as mídias sociais fossilizam as mentes para a leitura de textos breves e velozes; faz-se, portanto, necessário treinar novamente os jovens a encarar um bom número de páginas (inclusive de uma certa complexidade). Não todos, porém, aproximam-se dos livros espontaneamente, sendo, portanto, necessário utilizar táticas estratégicas para colocar um exemplar nas mãos dos próprios filhos!

O QUE NÃO É PRECISO FAZER

Obrigá-los a ler: insistir não te levará a lugar nenhum; o único efeito obtido será o de fazê-los odiar os livros, o que é bem diferente de não amá-los.

Criticar as demais atividades: cada uma delas sempre agrega valor, o que contribui para o crescimento e o estabelecimento da personalidade deles.

Gritar com eles ou diminuí-los diante dos outros porque não leem: desmerecer um jovem em fase de crescimento e fazê-lo sentir-se um erro pode causar insegurança.

Impor os próprios gostos: você não é o seu filho, portanto é necessário tratá-lo como uma pessoa única e aceitar que ele pode apreciar inclusive as leituras que você mais detesta!

O QUE É PRECISO FAZER

Dar o bom exemplo! Se os pais não transformam a leitura em uma prioridade, optando por ativamente dedicar um tempo a ela, não podem esperar que o filho o faça. Ninguém gosta de hipocrisia!

Proibir alguns livros em casa: a curiosidade é a característica dos jovens que mais facilmente pode ser desfrutada. O objeto proibido sobre o qual criar esse misticismo pode ser um exemplar com ilustrações peculiares ou um projeto gráfico interessante.

Responder às perguntas deles com um livro! Demonstrar a utilidade dos textos os encoraja a utilizá-los. Pode também ser divertido planejar uma “caça” às informações com os livros de casa, colocando-os como base útil para qualquer tipo de pesquisa e premiando o vencedor com um bom lanche.

Criar um espaço para os livros deles. Por que devemos considerar algo importante se nem mesmo temos um espaço para isso? Construir e personalizar uma prateleira ou uma biblioteca com os próprios pais relaciona simbolicamente aos livros uma ótima recordação!

Perguntar a opinião sobre o que leram ou estão lendo (independentemente do tipo de livro). O diálogo é um enriquecimento contínuo, principalmente se a sua opinião interessa a alguém.

Presentear com livros que correspondem aos gostos pessoais dos filhos: não é preciso limitar-se às narrativas, mas explorar também álbuns ilustrados e graphic novel; o conteúdo poderá ser aprofundado através de livros cada vez mais precisos e complexos.

Estimule-os a acabar com os livros: é muito bom avaliar criticamente uma obra, principalmente aquelas que não gostamos. Encoraje-os a falar de cada elemento que não gostaram e, se possível… Esteja ao lado deles!

Tablet e smartphone nem sempre são inimigos: existem diversas plataformas que permitem a leitura de ebook e fan-fiction. Talvez o fascínio da tela luminosa desta vez possa ser positiva aos olhos ali “colados”.

Encorajar as novas gerações a ler talvez não seja assim tão difícil: são múltiplas as ações possíveis de realizar. Cada pessoa, porém, é diferente, portanto a criatividade, a imaginação e a vontade de fazer continuam a ser o melhor instrumento para usar para encontrar novas soluções e metodologias. O importante é reinventar-se sempre!

Abre-te, Sésamo — Diário de leitura (18)

Você provavelmente já ouviu falar de Ali Babá. Creio que essa seja uma das histórias mais conhecidas de As mil e uma noites (após, claro, a de Aladim). E se você já a conhece, ao menos por alto, provavelmente identificou logo de cara o título deste post, no qual, claro, falarei sobre A história de Ali Babá e dos quarenta ladrões exterminados por uma escrava.

Ao sentar para escrever, porém, fiquei refletindo sobre esse título. “Uma escrava”. Ora, a tal escrava tem nome e é graças a ela que Ali Babá sobrevive. E ele, por sua vez, o que faz de tão excepcional além de descobrir uma caverna cheia de tesouros?

Morjana — a escrava — salva a vida de seu amo não uma, mas duas vezes. E, com muita sagacidade, ela consegue, sozinha, derrotar, em um primeiro momento, 37 ladrões e, mais tarde, o chefe deles. Os outros dois, de certa forma, ela também foi a responsável pela morte, mas de maneira indireta.

Outra coisa que não posso deixar de mencionar é que, mais uma vez, fui surpreendida, pois não sabia dos desdobramentos desta narrativa. No meu imaginário, aliás, eu podia jurar que Ali Babá era uma espécie de chefe dos 40 ladrões. Nada a ver!

Agora me pergunto se essa minha confusão deve-se realmente a um desconhecimento da história, uma falta de memória ou se ela realmente chegou a mim desta maneira, quando eu era mais nova, tendo sido, portanto, transformada com a transmissão boca a boca ao longo dos anos. Que versão você conhece de Ali Babá e os quarenta ladrões?

Ali Babá era um homem relativamente pobre, lenhador e que, um dia, descobre uma caravana com os tais 40 ladrões. Mas, mais que isso, descobre uma caverna, na qual eles escondem os frutos de seus roubos. E essa descoberta, claro, muda a vida de Ali Babá, mas não apenas de um jeito óbvio.

Para abrir a tal caverna, como já é de se imaginar, deve-se usar uma “senha”, que é a célebre frase “Abre-te, Sésamo”. Você sabe o que significa Sésamo? Eu só vim a pesquisar agora e, para variar, me arrependi (de não ter pesquisado antes, no caso).

O sésamo é um grão comestível, como o gergelim. E saber disso dá uma nova dimensão a uma passagem da história: o irmão de Ali Babá também vai até a tal caverna — mais interessado que o primeiro em tornar-se ainda mais rico — porém, na hora de sair de lá, apavorado por ouvir a aproximação dos ladrões, ele esquece-se da palavra “sésamo” e diz “abre-te, cevada”. Um erro que pode parecer sem sentido, mas que não é quando descobrimos que a cevada e o sésamo são grãos semelhantes.

E, mencionando essa passagem, percebo como, uma vez mais, fica a sutil lição de que a ganância só nos traz infortúnios. Enquanto Ali Babá pretendia usar da sua descoberta de maneira cautelosa e comedida, seu irmão quis logo apoderar-se de tudo quanto possível, esquecendo-se, porém, de tomar cuidado e, consequentemente, sofrendo um terrível destino.

Irresistível Doutor — Ingrid Sousa

Título: Irresistível Doutor
Autora: Ingrid Sousa
Editora: Lettre
Páginas: 240
Ano: 2020

Muitas pessoas torcem o nariz para romances hot e, geralmente, a capa já deixa bem claro o estilo do livro. Mas é aquela velha história: não podemos julgar um livro pela capa, não é mesmo?

“Nunca haverá um nós enquanto eu for dona de mim”

Irresistível Doutor é o primeiro romance hot da autora Ingrid Sousa e, ainda que ela tenha usado um ou outro elemento comum a esse tipo de história, percebemos que, em diversos momentos, há inovações muito interessantes e que tornam a leitura extremamente prazerosa. E engraçada! Mas também há cenas de partir o coração.

“Sou ótima cuidando do coração das pessoas, mas uma negação para cuidar do meu”

A história já começa com um soco no estômago: Mark termina seu noivado com April, nossa protagonista, por mensagem de texto! E se isso não fosse o suficiente para odiar um homem desses, a cada página, só piora (mas vou deixar que você tire suas próprias conclusões…)

“O que realmente me quebrava era o fato de não poder confiar, de ter sido feita de boba”

Mas se engana quem pensa que passaremos o resto do livro vendo uma mulher despedaçada ou então que se entrega ao primeiro que aparece. April sofre, é claro, mas Melissa, sua irmã gêmea, dá uma ajudinha para que ela dê a volta por cima.

“Nunca poderia ficar com raiva da Mel por me amar tanto quanto eu a amava”

April é norte-americana, mas é no Brasil que a história se passa, pois é aqui que ela recomeça sua vida. E, logo de cara, nos deparamos com a cena do “vizinho peladão”, que nos arranca boas risadas.

“Eu a deixei dentro do táxi e parti com destino ao Brasil”

April tem as suas feridas recentes, mas ela logo conhece Guto, um rapaz lindo e gentil que derrete o coração dela. Contudo, ele não parece querer se entregar ao que também sente por April. E é aí que percebemos que ela não é a única personagem a carregar feridas.

“Era horrível vê-lo daquela forma, seu coração estava partido, assim como o meu, mas as feridas pareciam ainda mais profundas e dolorosas. Era como se ele já tivesse vivido tudo aquilo antes”

Irresistível Doutor é aquele tipo de leitura que te prende, porque sempre acontece algo novo e que te faz querer saber como aquela situação irá se resolver e quais serão os próximos passos. Uma leitura prazerosa e intensa, que vai fazer as horas voarem.

“Eu gostava dele, mais talvez do que conseguia explicar”

Os personagens são cativantes. Exceto Mark, claro. E Guto, em alguns momentos. Mas este a gente perdoa, o primeiro não. O time feminino da obra é excepcional: April, Melissa, Camila. Mulheres independentes, fortes, inteligentes.

“Ser cirurgiã era a única constante em minha vida e eu me orgulhava de ser excepcional no que fazia”

Quer saber mais sobre Irresistível Doutor? Então clique aqui (versão física) ou aqui (ebook).

Desmistificando o mestrado [14] — Minha pesquisa

Este é, muito provavelmente, meu último post desta série sobre o mestrado. Isto porque, acredito eu, já consegui abordar todos os pontos que gostaria. Mas, se eu estiver enganada, será um prazer continuar escrevendo sobre outros tópicos, basta me avisar nos comentários.

Porém, não posso negar, é bem simbólico para mim concluir esta série em novembro, pois foi neste mês que, há um ano, defendi minha dissertação de mestrado. E é por isso que também aproveito este momento para, depois de tudo o que expliquei aqui, finalmente falar um pouco sobre a minha pesquisa.

E claro, vamos partir do título dela: “A música no imaginário ítalo-pedrinhense: o pós-método no ensino e na revitalização da língua de herança”. Muito complexo? Apenas aparentemente.

Música todos nós sabemos o que é. O que você talvez não saiba é que sou apaixonada por essa arte quase tanto quanto sou pela literatura. E na introdução da minha dissertação eu falo um pouco sobre isso e sobre meu percurso em aulas de música (piano, coral…).

O imaginário ítalo-pedrinhense já começa a complicar um pouco as coisas, mas explico: Pedrinhas Paulista é uma pequena cidade do interior paulista e, mais que isso, uma ex-colônia italiana (uma das mais recentes, por sinal). E é daí que vem a junção desses termos assombrosos, isto é, em minha pesquisa eu trabalhei a questão da música em Pedrinhas Paulista e, principalmente, como esta arte aparece para as pessoas que vivem nesta cidade, o que a música significa para elas.

Sobre o pós-método, já expliquei um pouco no meu post sobre métodos didáticos, mas, claro, em minha pesquisa eu apresento de maneira um pouco mais aprofundada e também pensando na questão de como aplicá-lo no ensino de uma língua. Mas não uma língua qualquer, e sim uma língua de herança.

E aqui chegamos ao último ponto do título que eu provavelmente preciso explicar. Você se lembra que, ali em cima, eu falei que Pedrinhas Paulista foi uma recente colônia italiana, correto? Isso significa que os primeiros habitantes desta cidade falavam italiano, e foram aprendendo português com a convivência em terras brasileiras.

Alguns desses fundadores (cada vez menos) ainda estão vivos e morando ali, mas seus filhos e netos, tendo estudado em escolas brasileiras, foram cada vez mais se afastando da língua e da cultura italiana. Porém, ainda que filhos e netos tenham se afastado, eles ouviam seus pais (e até avós) falando italiano e dialeto e é por isso que se fala em revitalização da língua de herança.

Uma língua de herança, portanto, é muito diferente de uma língua estrangeira, que muitas vezes não traz nenhum vínculo emocional para a pessoa e pode ser totalmente desconhecida.

Para falar de tudo isso que mencionei até aqui, escrevi quatro capítulos, além da introdução e da conclusão. Cada uma dessas partes foi nomeada com termos derivados da música, que escolhi a dedo e expliquei a cada vez que eram usados. A introdução, por exemplo, foi chamada de Abertura.

No primeiro capítulo — chamado de Legato — eu falei sobre Pedrinhas Paulista (usando inclusive fotos da cidade), sobre o curso de Italiano como Herança, ministrado na cidade, e sobre língua de herança e histórias de vida.

O segundo capítulo recebeu o nome de Melodia e é nele que falo sobre a música em Pedrinhas Paulista, traçando inclusive um percurso entre as festas locais e a história da rádio da cidade. Antes, porém, também falo um pouco sobre a questão da identidade.

Arranjo — o terceiro capítulo da minha dissertação — foi dedicado ao ensino de línguas. Nele, assim como fiz em meu post (mas claro, de maneira mais aprofundada), falo um pouco sobre os métodos de ensino de línguas e sobre o pós-método, mas também falo sobre a música como recurso didático.

No quarto capítulo — denominado Diapasão — eu mostro o lado mais prático da minha pesquisa, falando sobre como apliquei tudo aquilo que fui apresentando ao longo dela e os resultados que obtive a partir disso.

Inclusive, isto foi um ponto muito importante para mim: minha pesquisa tinha um lado prático. Eu mesma pude ver a aplicabilidade daquilo que estava produzindo, também, de maneira teórica. A parte prática foi a elaboração de uma unidade didática, além da análise dos resultados obtidos a partir do uso dela (infelizmente não fui eu quem aplicou diretamente a unidade didática em sala de aula).

A conclusão recebeu o nome de Finale e, depois dela, ainda temos as referências bibliográficas e os anexos da minha pesquisa.

Se você tem interesse em se aprofundar em algum desses aspectos que mencionei, minha pesquisa está disponível de forma gratuita aqui.

E para quem caiu de paraquedas neste post, vou deixar aqui o link de todos os outros desta série, em ordem:

De volta ao formato — Diário de leitura (17)

Depois de muito tempo, deparei-me novamente com uma história que engloba outras três narrativas em As mil e uma noites. E, neste caso, tudo começa com As aventuras do califa Harun Al-Rashid.

Depois de ter lido tantas histórias desta obra, sei já que o califa é uma pessoa importante para a cultura e a religião em questão. E, nesta narrativa, tudo começa quando tal figura encontra-se em um dia de grande tristeza, mas é lembrado pelo seu grão-vizir de que deve cumprir algumas obrigações e, como muitas vezes pode acontecer, essa distração acaba fazendo com que seu humor mude.

Disfarçado de mercador, o califa sai pela cidade, acompanhado do seu grão-vizir, para verificar como anda o policiamento nas ruas. E é nesta ronda que o califa encontra os três personagens que darão origem às narrativas que estão dentro desta.

O primeiro personagem encontrado é um pedinte cego, mas que só aceita esmolas mediante uma bofetada. E é através de A história do cego Baba-Abdalá que podemos compreender porque se dá tal absurdo.

Depois, conhecemos A história de Sidi Numan, que, em praça pública, açoitava impiedosamente uma égua. Aqui temos uma narrativa como já mencionei algumas vezes: de humanos transformados em animais e, depois, novamente transformados em humanos.

Por fim, chegamos à História de Codja Hassan, um homem muito humilde que pôde enriquecer — graças a uma aposta feita entre dois amigos — a ponto de sua nova moradia atrair a atenção do califa. Mas Codja Hassan apenas enriqueceu por ser homem sério e disposto a multiplicar uma súbita riqueza ao invés de gastá-la de uma vez. Isso, porém, após alguns interessantes percalços que, ouvindo, jamais acreditaríamos.

Estas três narrativas que descrevi, emolduradas pelos questionamentos do califa, compõem uma história capaz de nos apresentar traços culturais muito interessantes, mas não só: elas nos mostram, de forma bem sintética, o formato de tantas outras histórias de As mil e uma noites.

E, para melhorar, sabe o que vem depois? A história de Ali Babá e dos quarenta ladrões exterminados por uma escrava! Mas essa, claro, deixo para meu próximo diário de leitura.

Árvore de espíritos — Michelle Pereira

Título: Árvore de espíritos 
Autora: Michelle Pereira
Editora: Publicação independente 
Ano: 2020

Uma das coisas mais fantásticas sobre fechar parceria com autores (não todos, mas grande parte) é o fato de que podemos conhecê-los melhor, estarmos mais próximos e… sabermos das novidades de antemão!

E a Michelle Pereira é uma dessas escritoras que sempre tem algo novo a mostrar aos seus leitores e que gosta de ouvir nossas opiniões sobre tudo. E foi por isso que seus parceiros (eu inclusa!) tiveram a oportunidade de ler Árvore de espíritos antes de todo mundo.

Trata-se de mais um conto desta escritora que consegue nos surpreender a cada lançamento. Desta vez, a atmosfera é mais sombria e por isso o lançamento oficial (com direito a gratuidade do conto na Amazon) será amanhã, dia de halloween.

Trazendo elementos da cultura japonesa, Árvore de espíritos nos conta a história de dois irmãos — Pam e Tae — que, quando mais novos, viam espíritos. E é com isso que Michelle nos apresenta a coruja que colhe espíritos: o youkai.

“Eu e meu irmão víamos espíritos, uma maldição da qual não pude escapar”

Esta é uma história para nos lembrar que nem tudo é o que parece ser e é muito interessante como o ritmo dela vai crescendo ao longo da leitura, aumentando a nossa tensão, até chegarmos ao desfecho de tudo o que se desenrola.

“As pessoas ao nosso redor me olham com estranheza, mas decido ignorar”

O conto é narrado por Pam, que vive no Brasil, onde já não vê tantos espíritos quanto antes. Mas a história se passa quando, após oito anos, ela retorna ao Japão…. E tudo acontece.

“O que você pensa que está fazendo, Tae?”

Se você quer saber o que acontece com Pam e Tae, clique aqui. Lembrando que o conto estará gratuito de 31/10 a 02/11/2020

Giselle — Thais Rocha

Título: Giselle
Autora: Thais Rocha
Editora: Cartola
Páginas: 135
Ano: 2019

Quando eu cursei Letras, tive sérias dificuldades com as matérias da área de clássicos, o que me criou um bloqueio muito grande com qualquer coisa relacionada a isso e, olhando muito por cima os comentários sobre Giselle, eu havia entendido que ali teria algo deste campo, quando, na verdade, o que havia era algo sobre ballet clássico. Por conta dessa pequena confusão, acabei enrolando um pouco para encarar essa obra… Ah, se arrependimento matasse!

“Ela não tinha nenhuma ideia do que aconteceria a seguir, clichês não eram clichês para ela. Será que existia mais alguém no mundo assim?”

Giselle é um livro maravilhoso e devorei cada página querendo — e não querendo — chegar ao fim dessa história. Uma narrativa envolvente, forte e que me apresentou muita coisa interessante.

“Tudo o que ela mais queria era que o tempo parasse um pouco, que ela conseguisse pensar no que fazer, mas ele insensivelmente continuava seu caminho como se nada estivesse acontecendo com ela”

Vamos começar pelo fato que Giselle não é apenas o título da história, mas também o nome de nossa protagonista e de um ballet de repertório. E claro que, aos poucos, vamos vendo que a escolha não foi ao acaso.

Mas o que é um ballet de repertório?

Em linhas bem gerais — pois não sou nada especialista em ballet — um ballet de repertório é um tipo de ballet que contém uma história dentro dele e tal história, claro, é apresentada ao público através da dança.

O lago dos cisnes e Quebra nozes são alguns ballets de repertório bem conhecidos. E, como dito, Giselle também, mas, ao contrário desses dois que mencionei, este último eu não conhecia até ler a obra da Thais.

E conhecer Giselle — o ballet — através de Giselle — o livro — foi muito bom, pois o que a autora fez foi — sendo bem superficial aqui — nos mostrar como seria essa história se ela se passasse nos dias de hoje.

“Seu primeiro beijo foi absolutamente incrível, a cereja do bolo daquele que fora o melhor dia de toda a sua vida”

A protagonista deste livro é uma jovem apaixonada pelo ballet. Dedica-se com afinco à dança e sonha em se tornar bailarina profissional, para tristeza de sua mãe, que se preocupa com o fato da filha não comer muito e também não levar uma vida normal de adolescente.

“Era normal que uma pessoa fosse assim tão radiante? Ou fora ela quem se enterrara tão fundo dentro de si mesma que já nem sabia mais o que era normal?”

Apesar disso, tudo segue muito bem, até que Giselle conhece Clara que, por sua vez, é filha de bailarinos profissionais. Mas Clara dança ballet por obrigação, porque seus pais desejam que ela se torne uma bailarina como eles.

“Clara tinha razão — suas vidas eram opostas. E por incrível que pareça, ela não se importava”

E nesse contraste entre Giselle e Clara, a história se desenvolve. Apesar das diferenças, ambas logo se tornam amigas, porque, no fundo, só uma pode entender a outra. E é nessa linda amizade que elas vão seguindo em frente, crescendo e amadurecendo.

Porém… Nem tudo são flores e, sem dúvidas, um acontecimento trágico vem para abalar a doçura da história. E é após esse acidente que a autora nos apresenta ainda mais a fundo a história que há por trás do ballet Giselle, traçando um paralelo entre a tradição e a história que ela conta.

“Queria ser feliz ao menos uma vez na sua vida. Seria pedir muito?”

É muito interessante como a Thais conseguiu passar de uma história extremamente verídica e palpável para algo que está mais no plano mitológico, sem que essa passagem ficasse sem sentido ou absurda. É aquele tipo de salto que nos faz pensar “e se fosse assim mesmo?”.

Com este livro eu pude ver um pouco mais de perto como é a rotina e a dedicação de bailarinos à essa dança, pude acompanhar os dilemas de Giselle e Clara, pude refletir sobre assuntos diversos, além de conhecer um pouco mais sobre uma ballet de repertório.

“Clara achou ter escutado seu coração se partir em um milhão de pedacinhos”

Mas, não bastasse tudo isso, o fim também vem como um balde de água fria, deixando uma última e importantíssima lição.

Se você se interessou por esse livro e quer saber qual é a última lição que ele nos deixa, clique aqui.

A whole new world — Diário de leitura (16)

Se você chegou neste diário de leitura após ter lido o último e está com expectativas de que eu compare a história presente em As mil e uma noites com a versão da Disney… Sinto te decepcionar, mas eu mal me lembro de ter assistido ao filme (e também não assisti o live action…).

Quebradas as expectativas, vamos ao que interessa, isto é, A história de Aladim, ou a lâmpada maravilhosa.

Trata-se de uma narrativa bem longa e que começa apresentando um jovem relativamente pobre, mas que mesmo sabendo que precisará trabalhar para ter algum sustento, não se interessa por nada.

Um dia, após a morte do pai deste jovem, chega à cidade um senhor, que logo se apresenta como irmão desse falecido pai. Ele é acolhido na casa do jovem rapaz e, aos poucos, lhe promete mundos e fundos.

E aqui temos a primeira lição dessa história: desconfie de quem, do nada, vem te trazer todas as soluções para seus problemas. É o bom e velho “quando a esmola é grande, o santo desconfia”.

O tal senhor era, na verdade, um mágico. E uma pessoa cruel, que apenas queria conseguir a tal lâmpada maravilhosa. Aliás, ele buscara por isso toda a vida e apenas encontrou em Aladin a pessoa capaz de concluir a missão e realizar seus desejos.

Por sorte, claro, o jovem consegue escapar das garras desse mágico cruel e, mais que isso, ainda se vê dono de grandes riquezas. Mas isso ele vai descobrindo aos poucos e, o mais interessante: ele sabe ser muito comedido em seus pedidos.

Um parênteses aqui: não sei se foi na adaptação da Disney ou em outra narrativa do tipo que surgiu aquela velha história de que só podemos fazer três desejos ao gênio da lâmpada. No desenrolar da história aqui narrada, vemos que Aladim faz bem mais que isso. E, diferentemente de outras histórias deste mesmo livro, este gênio não é ruim como outros, mas apresenta-se como escravo daquele que detém a lâmpada.

Mas voltando…

Pode parecer que erguer o mais belo palácio já visto no mundo, da noite para o dia, não seja exatamente um símbolo de comedimento, mas Aladim também poderia simplesmente ter dito, assim que descobriu os poderes da lâmpada: quero ser rico.

Contudo, isso também é uma característica da própria história e, ouso dizer mais: da própria cultura na qual ela se insere. Afinal, mesmo aquilo que parece um grande milagre, tem um quê de esforço por trás.

Apesar da extensão, esta narrativa não é nada cansativa, uma vez que quando as coisas parecem que vão ficar bem, algo acontece para perturbar a paz. Nós realmente sentimos vontade de prosseguir na leitura e ver onde aquilo vai dar, como Aladim irá se safar de mais uma enrascada.

Esta história, como todas as outras, é muito rica e eu percebi uma coisa bem interessante que provavelmente está relacionada a isso: eu costumo ler a noite, antes de dormir, e quando leio As mil e uma noites tenho uma noite recheada de sonhos mais vívidos que nas demais noites. Curioso, não?

Gostosuras ou travessuras (Antologia)

Título: Gostosuras ou travessuras
Organização: Equipe Lettre
Editora: Lettre
Páginas: 128
Ano: 2020

Gostosuras ou travessuras é a mais nova antologia de distribuição gratuita da Editora Lettre. Este é um formato que a Editora está testando, para incentivar a literatura nacional de maneira verdadeiramente acessível a todos.

A antologia reúne contos que se passam no Halloween, mas com uma proposta um pouco diferente: os protagonistas de cada conto são seres fantásticos. Você já se perguntou como essas criaturas — que geralmente são as que dão origem às nossas fantasias — passam essa data?

“A verdade era que nenhum deles entendia muito bem, mas algo lhes dizia que eles se veriam em breve”

(Conto: O início de uma nova era)

Em Gostosuras e travessuras você pode descobrir as respostas — sim, no plural, porque cada criatura passa a seu modo! — para esta pergunta. São textos que nos apresentam anões, unicórnios, leprechauns, dragões, fadas, bruxas, zumbis, anjos, vampiros, lobos…

Além da temática similar, todos os contos foram escritos para que mesmo os mais novos possam ler. Ou seja, Gostosuras e travessuras é uma antologia de classificação indicativa livre e com histórias que, mesmo no mais assustador dos casos, são leves.

“Eu não chorava só por mim. Chorava toda noite pela vida que se perdera, pela fome, pelos abusos e assassinatos. Eu chorava pelas pessoas que cresceram comigo, que cuidaram de mim, que fizeram aquela vila existir e que agora, assim como eu, estavam perto de suas mortes”

(Conto: A esposa do espírito branco da lua)

Esta antologia foi pensada um pouco às pressas e, por isso, juntamos apenas os autores da própria Editora e alguns convidados para compô-la. A Lettre, porém, tem planos de lançar outras antologias do tipo, contando com uma participação mais ampla. Inclusive, o edital da próxima já está aberto e as inscrições vão só até o dia 06/11 (para saber mais, clique aqui).

Uma coisa que gostei ao longo das páginas de Gostosuras ou travessuras é que a antologia traz diversos textos sobre amizade ou então sobre respeito ao próximo. Foi muito bom encontrar tantos textos que trazem lições tão importantes, mas de maneira leve e gostosa de ler. E mais ainda: em uma antologia de halloween! Ou seja, não é apenas mais do mesmo.

Eu não vou me deter muito, principalmente no elogios aos contos porque também sou uma das autoras e isso seria no mínimo suspeito!

Brincadeiras à parte, foi um desafio para mim a participação nesta antologia. Mesmo lendo fantasia, este não é um gênero com o qual tenho muita afinidade. Por isso, acabei escolhendo como personagem uma sereia, figura fantástica pela qual sempre nutri certo fascínio. Meu conto chama-se “A vida em ondas” e é narrado em primeira pessoa.

Se você ficou com vontade de conhecer essas histórias ou então se está buscando algo relacionado ao halloween para ler nesta época, aproveite que Gostosuras ou travessuras é gratuita! E não, não é por tempo limitado. Basta acessar o site da Editora Lettre e baixar o arquivo. Ou então clique aqui para ir diretamente para a página correta.

E se você decidir ler, depois venha me contar o que achou! Será uma alegria poder trocar figurinhas ou mesmo ouvir sugestões do que poderia ter sido diferente em meu texto!

Brincadeira sem limites— Diário de leitura (15)

Como comentei em meu último diário de leitura, esses dias li A história do adormecido despertado. E confesso que ainda estou tentando entender essa narrativa…

Ao mesmo tempo que aprendi várias coisas interessantes ao longo dessas páginas, também me senti lendo uma história que nos mostrava aquelas brincadeiras de criança de tentar ficar enganando um ao outro. Juro para vocês, metade das páginas dessa narrativa trata-se disso, de um personagem rindo-se às custas do outro.

O personagem central é Abu Hassan, um jovem que, como em outras narrativas que já comentei por aqui, quando se vê dono de grandes riquezas, passa a levar uma vida de festas e gastos desmedidos. Mas, ao contrário de muitos, ele, desde o início, deixou metade do dinheiro guardado, jurando não usá-lo de maneira desmedida. E foi isso que o salvou da miséria total.

Infelizmente, porém, como sempre acontece nessas histórias, ao se ver sem dinheiro (ao menos paras as grandes festas que dava até então), Abu Hassan viu-se, também, sem amigos.

Mudando totalmente seu estilo de vida, Abu decidiu que, a cada noite, receberia um viajante em sua casa, oferecendo-lhe um jantar e a hospedagem por uma noite. Mas apenas isso. No dia seguinte, o viajante teria de sair da casa e nunca mais voltar e nem mesmo dirigir-se a Abu Hassan.

Acontece que, um belo dia, um dos viajantes era ninguém menos que o Califa, disfarçado de mercador (e até agora não entendi como alguém não teria reconhecido o Califa após este passar a noite em sua casa. Achei que esta fosse uma figura de feições conhecidas pela cidade). E é neste ponto da narrativa que começam as brincadeiras de criança (mas com graves consequências!).

O Califa, disfarçado de mercador, após o delicioso banquete oferecido por Abu, pergunta qual é sonho dele e este responde, sem saber com quem está realmente falando, que gostaria de ser Califa por um dia, para punir alguns de seus vizinho, explicando o motivo da punição e detalhando como isto se daria.

O Califa, então, coloca um pó na bebida de Abu, e este pó faz com que ele durma quase que imediatamente. O Califa, ajudado por seu escravo, carrega Abu, ainda dormindo, até o palácio e instrui a todos para o tratarem, no dia seguinte, como o verdadeiro Califa e acatar todas as ordens dadas por ele.

Claro que Abu, ao acordar, sente-se extremamente confuso. Mas, depois de muita insistência de seus “servos”, acaba aceitando que é o verdadeiro Califa e dá as ordens que gostaria de dar.

E esse “sonho” dura apenas um dia. Na manhã seguinte, Abu acorda novamente em sua verdadeira casa, porém não aceitando que fosse Abu e afirmando que era o Califa. Uma loucura só. Tão louca que ele tem de ser levado ao “hospital dos loucos”, onde é extremamente maltratado diariamente, durante cerca de um mês.

Esse ponto da história me fez refletir um pouco sobre isso — isto é, sobre hospícios —, sobre como, desde sempre e nos mais variados países/culturas, este tipo de hospital se apresenta como um lugar de maus tratos e de tratamento desumano para com seus pacientes.

Uma característica interessante desses acontecimentos é que, quando hospedou o Califa em sua casa, Abu recomendou — mais de uma vez — que caso ele saísse muito cedo, que não esquecesse, em hipótese alguma, de fechar a porta do quarto. E claro, o Califa fez questão, em sua pegadinha, de não fechar a porta.

Depois de “recuperado” de sua loucura, Abu passou a culpar o Califa (ou o mercador) pelo ocorrido, acreditando que o fato deste não ter fechado a porta, permitira a entrada de demônios em seus sonhos, causando tudo o que veio a seguir.

Mas vocês se enganam se acham que a história acaba aí e que essa foi a única brincadeira ocorrida. Ainda tiveram outras duas! E as coisas só pioram. Como eu disse, ainda não sei muito bem o que pensar disso tudo.

Contudo, no início deste texto, eu disse que aprendi coisas interessantes. Além dessa questão da porta do quarto, que acabei de mencionar, também recebi, ao longo dessas linhas, uma explicação bem interessante sobre a bebida consumida durante as refeições:

“Nos três primeiros salões Abu Hassan só havia bebido água, segundo o costume observado em Bagdá tanto entre o povo e as camadas superiores como na corte do califa, onde só se bebe vinho à noite. Todos que procedem diversamente são tidos por devassos e não ousam mostrar-se durante o dia”

(pág. 236 — volume 2)

Outra costume que aprendi com essa narrativa foi o de sempre colocar o corpo de um morto a ser velado com os pés voltados para Meca. Este, aliás, foi um dos poucos momentos que vi uma referência bem clara e direta a Meca. Não foi a primeira vez, claro, mas levando em consideração a extensão da obra, são relativamente poucas as vezes que este local tão importante é mencionado.

No meu post anterior, comentei sobre a extensão desta história. Ela é realmente longa, mas a que vem a seguir é ainda mais. Trata-se, porém, de uma história mais “conhecida” e muito aguardada: A história de Aladim, ou a lâmpada maravilhosa.