A casa de vidro — Anna Fagundes Martino

Título: A casa de vidro
Autora: Anna Fagundes Martino
Editora: Dame Blanche
Páginas: 87
Ano: 2016

Sabe aquele livro que você termina de ler e se pergunta se realmente entendeu algo? Pois então, essa foi minha sensação com A casa de vidro. Não se trata de um texto muito rebuscado, mas bastante metafórico. Ao menos eu acho!

“Vocês têm uma obsessão por isso de normal”

A história é curta e, neste caso, isso talvez contribua para a dificuldade em entendê-la. É como se tivesse faltado algo para que o leitor pudesse realmente mergulhar no cenário proposto e entender o mundo criado pela autora. Não que seja um mundo totalmente novo também, pois uma parte dele é o nosso mundo: humano, com guerras e etiquetas, por vezes, difíceis de compreender.

“Esse mundo de vocês tem regras demais. Como vocês dão conta de lembrar de tudo?”

A casa de vidro nos apresenta Eleanor, uma jovem que vive com seu pai em uma casa cheia de empregados, e em cujo quintal há uma grande estufa — a tal casa de vidro — fruto de caprichos de seu genitor.

A vida de todos era pacata, até o aparecimento de um novo jardineiro, que passaria a se dedicar à estufa: Sebastian. Ninguém, além de Eleanor, pareceu se importar muito com o fato de que, depois que Sebastian passou a integrar o quadro de funcionários, a estufa ganhara muito mais vida, assim como a natureza ao redor dela. As pessoas só pareciam se importar, porém, com o fato dele ser “estranho”.

Até esse ponto é relativamente fácil acompanhar a narrativa, ainda que, desde o início, ela tenha saltos temporais, indicados já nos títulos dos capítulos. Mas depois de conhecer Sebastian, não é apenas a vida de Eleanor que muda. A nossa compreensão da história acaba sofrendo um pouco.

“Você diz uma coisa e sente outra o tempo todo”

Aos poucos vamos entendendo que Sebastian não é exatamente humano e, se essa é uma das raras coisas que realmente ficam claras ao longo da história, é igualmente evidente o quanto é esse personagem que nos faz refletir sobre a nossa existência neste mundo.

“E quando um humano fica triste, seu coração dói de tal forma… Que é como se fosse sólido como osso e tivesse se rachado. E aí dói”

Por outro lado, a figura de Eleanor também nos faz refletir: vivendo em uma época em que a figura feminina era totalmente dependente e submissa à figura masculina, Eleanor parece ser uma mulher diferente, uma mulher que enxerga todo seu poder e que mostra como, no fundo, as coisas não são exatamente o que parecem.

“Quando o marido morrer, também ela deixará de existir diante dos olhos do mundo”

Creio que há muito mais por trás das páginas deste curto livro do que aquilo que consegui compreender, mas isto é tudo o que tenho a apresentar a vocês.

Citações #31 — Cadeados

Citações #31

Depois de ler Cadeados, da autora brasileira Nuccia de Cicco, foram muitos os sentimentos que ainda ressoaram dentro de mim. Sentimentos, aliás, foi algo que comentei bastante na minha resenha desse livro, publicado pela editora The Books. Mas também foram muitos os trechos incríveis que destaquei durante a minha leitura, que, no entanto, tive de deixar de fora da resenha. Agora, porém, trago-os aqui, em mais um Citações!

“Fiquei tão preocupada em desvendar as sensações do mundo do silêncio que esqueci de todo o resto”

O primeiro sentimento sobre o qual falei em minha resenha foi a aflição, fruto do trágico acidente inicial.

“Chegava a ser incrível a capacidade que um ser humano tem para aguentar tanta porrada da vida”

Depois da aflição veio a agonia. Essa sensação me acompanhou por boa parte do livro, e por motivos diversos. Primeiro, pelo medo de se perder algo que estamos habituados a ter.

“Um dia você tem todos os sons. No seguinte, mais nada”

Agonia também por ver que quem poderia ajudar, precisava igualmente de ajuda.

“Um dia, Íris não aguentaria toda essa carga que sustentava sozinha”

E claro, agonia por ver uma pessoa tão jovem praticamente desistir de viver, mas sem desistir da vida (e, por mais contraditório que isso possa parecer, se você leu o livro, entenderá que faz sentido)

“Íris não me contou o que pretendia fazer, tampouco me perguntou o que eu achava. Confesso que não me importei. Tinha dor demais para lidar”

Essa tal agonia também se misturou com outro sentimento que se fez muito presente ao longo da leitura, a tristeza. Esta se deu, em grande medida, pela dureza de ver alguém se fechar em seu próprio mundo, mesmo tendo pessoas dispostas a mostrar que havia caminhos e soluções.

“Havia novos cadeados me prendendo dentro de mim mesma. Eu estava cercada de gente e totalmente só em um mundo exclusivo meu”

Mas foi triste também ver essa protagonista fechada não apenas em seu mundo, mas em seu quarto.

“Em algum lugar da minha mente, o mundo lá fora era sinônimo de caos, doença e desespero. As cores estavam desbotando em tudo e todos”

Mesmo sabendo que aquela não era a melhor saída.

“Meu quarto era meu refúgio e minha prisão”

Mas esse foi, também, um livro que me fez sentir alegria. Principalmente ao poder ver a protagonista se reerguendo.

“Sem o som, eu passei a ouvir com o tato e meus olhos”

E, depois de tudo o que mencionei, imagino que tenha ficado evidente o quanto pude aprender com essa história!

“Ninguém sabe encarar a própria dor e todos teimam em fazer isso sozinhos”

E o quanto eu imagino que pessoas diversas podem se identificar com ela, de alguma forma.

“De algum jeito, com todos os seus demônios, a vida continuava seguindo o rumo”

E também o quanto ficamos reflexivos depois.

“Não dá para superar algo do qual se sente falta todos os dias”

Em resumo, leiam Cadeados: o amor é a chave e conversem sobre esse livro!

“Para todo mundo, eu perdera apenas a audição. Para mim, perdera toda minha vida”

Ideologia — Cazuza

Ideologia - cazuza

Me lembro que, quando eu era pequena, me perguntava o que era ideologia e como se usava uma dessas para viver. Cheguei até a procurar no dicionário o sentido da palavra, mas fiquei tão confusa quanto antes.

ideologia
i·de·o·lo·gi·a

sf
1 FILOS Ciência que trata da formação das ideias.
2 Tratado das ideias de forma abstrata.
3 Conjunto de sistemas de valores sociais que reconhecem o poder econômico da classe dominante quanto à legitimidade dos ideais que refletem a ânsia por transformações radicais que dignifiquem a classe dominada ou o proletariado, segundo o marxismo e seus seguidores.
4 FILOS Doutrina que considera a sensação como fonte única dos nossos conhecimentos e único princípio das nossas faculdades.
5 Maneira de pensar que caracteriza um indivíduo ou um grupo de pessoas, um governo, um partido etc.
6 PEJ Conjunto de concepções abstratas que constituem mera análise ou discussão sem fundamento de ideias distorcidas da realidade.

Fonte: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/ideologia/

Naquela época, recorrer ao dicionário de nada me adiantou porque, no fundo, eu também não entendia a música que me fizera conhecer tal palavra. E, para ser sincera, esta é a primeira vez que paro para realmente ler a letra e analisá-la… O que me faz ter de contar para vocês uma coisa interessante: descobri que, além de tudo, havia uma parte que eu cantava errada! Eu sempre cantei “Frequenta as festas do candomblé” (isso me parecia fazer muito sentido — e eu não sei porque eu acentuava de maneira fechada a palavra candomblé) e acabo de descobrir que o certo é “Frequenta as festas do Grand Monde” (coisa que eu jamais imaginaria, pois até instantes atrás eu sequer sabia o que era isso).

Ideologia foi composta em 1987 e lançada em 1988. O Brasil acabara de sair da ditadura (já tantas vezes mencionada nesta seção), mas as coisas ainda estavam longe de se tornarem boas. Soma-se a isso o fato de que, justamente em 1987, foi confirmado que Cazuza tinha AIDS. É nesse cenário que nasce essa canção, cheia de críticas, mas, principalmente, de desilusão — coisa que fica extramente clara nos primeiros versos. A música tem apenas três estrofes e consegue transmitir uma mensagem clara e forte.

O tal “Grand Monde” que o eu lírico passa a frequentar, segundo a canção, era uma balada LGBT frequentada pela alta sociedade da época. Isso significa que dizer que “Aquele garoto que ia mudar o mundo / Frequenta agora as festas do Grand Monde” nada mais é do que dizer que mesmo aquelas pessoas cheias de vontade e esperança de fazer a diferença, já não possuem tal força e se entregam ao sistema vigente, aos costumes daqueles que tanto criticavam.

Além disso, com seus heróis mortos por overdose — e aqui Cazuza provavelmente se refere a grandes artistas que literalmente morreram de overdose — e seus inimigos no poder, o eu lírico se sente perdido, tendo a necessidade de encontrar uma nova ideologia, uma nova forma de pensar com a qual ele se identifique e que lhe traga novas forças para lutar. Acho que quando eu era mais nova eu me fazia a pergunta errada: não deveria ser “como” mas “por que” se viveria com uma dessas?

A última estrofe da canção começa com um verso interessante. Como mencionei acima, Ideologia foi composta um pouco depois do cantor ter se descoberto soropositivo, mas seus fãs só vieram a saber disso por volta de 1989, ainda que, nesta canção, o autor já tenha falado sobre a doença de maneira sutil… E ao mesmo tempo nem tão sutil assim, porque são versos capazes de escandalizar os mais conservadores.

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito ah
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora as festas do “Grand Monde”

Meus heróis morreram de overdose
Eh, meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu tesão
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock ‘n’ roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste à tudo em cima do muro, em cima do muro

A bruxa não vai para a fogueira neste livro —Amanda Lovelace

Título: A bruxa não vai para a fogueira neste livro
Original: The witch doesn't burn in this one
Autora: Amanda Lovelace
Editora: Leya
Páginas: 208
Ano: 2018
Tradutora: Izabel Aleixo

a bruxa não vai

Depois de ler A princesa salva a si mesma neste livro, foi a vez de ler A bruxa não vai para a fogueira neste livro e não sei muito bem o que dizer sobre ele. Anteriormente, fiz minha ressalva com relação ao formato “poesia”, escolhido pela autora, ainda que os temas realmente fossem muito tocantes.

Neste volume, porém, sinto que o quesito poesia está um pouco melhor, mas as temáticas, ainda que importantes, não foram abordadas de maneira tão forte quanto anteriormente. Ou apenas eu que não consegui me conectar com a obra, não sei.

Me parece que em A bruxa não vai para a fogueira neste livro a autora se preocupou mais em seguir um certo fio narrativo, anunciado deste o título, isto é, a questão da mulher, vista por tantos homens como “bruxa”. Feminismo e empoderamento, portanto, aparecem com força, enquanto os homens, a cada página, são os grandes vilões. Interessante, mas repetitivo. E um pouco exagerado vez ou outra.

Quando digo que a poesia, neste livro, me parece melhor — como formato — estou me referindo ao fato de que a leitura fica mais fluida, com menos quebras estranhas. Além disso, há pedaços em prosa também. Mas neste ponto, a ausência de letras maiúsculas em praticamente tudo no livro salta aos olhos. Provavelmente uma escolha da autora. Mas uma escolha que não vem justificada ou explicada em parte alguma.

O projeto gráfico desta obra é bem interessante. Tudo nele é branco, vermelho ou preto. Logo de cara chama a atenção o fato de que todo o texto foi impresso em vermelho, como o sangue dos inocentes ou as chamas das fogueiras que somos incentivadas, ao longo das páginas, a acender. Os textos também, por vezes, trabalham a questão do uso da página, não estando sempre numa mesma posição. Trata-se, portanto, de uma obra bem atraente aos olhos.

 Por fim, gostaria de destacar uma poesia, provavelmente a que mais gostei dentre todas:

“ser uma

mulher

é estar

pronta para a guerra,

sabendo

que todas as probabilidades

estão

contra você

– e nunca desistir apesar disso

(pg. 49)
Se você se interessou por esse livro, clique aqui.

Quando a escola nos faz odiar os grandes clássicos [tradução 2]

Quando a escola nos faz odiar os grandes clássicos
Aviso:
o texto abaixo é uma tradução. O original pode ser lido aqui.

A escola italiana — e digo isso por experiência própria, uma vez que vivi no exterior — tem grandes méritos, como propor um programa completo e variado, inclusive com relação à literatura. Acontece, porém, de um professor indigesto ou de uma abordagem errada nos fazer odiar uma obra

É exatamente sobre isso — sobre como a escola pode nos fazer odiar um autor ou um livro — que falaremos no encontro de março do Livromania, a coluna dedicada a livros e a tópicos deste tema (para saber do que se trata e como nasceu, vocês podem ler o texto introdutivo).

Quanto influencia o ensino, o modo como entramos em contato com grandes clássicos da literatura, na opinião que fazemos deles? E é possível, depois, superar o “obstáculo emotivo” e pegar novamente aquela besta escura, relê-la e ainda apreciá-la?

Com professores de italiano/literatura tive bastante sorte, principalmente nos últimos três anos da escola — não é por acaso que eu decidi, exatamente nesse período, estudar Letras na universidade. Nos dois primeiros, nem tanto¹.

É justamente a esse biênio que remontam os meus maiores “ódios literários”: “Os noivos” de Alessandro Manzoni (vencedor indiscutível do prêmio de pior coisa que suportei) e “A eneidade Virgílio.

O que fez “odiá-los” tanto? Provavelmente o fato de que não tive a oportunidade de ler e apreciar essas obras enquanto livros, mas apenas de vê-los e estudá-los como matéria de prova e atividades em sala.

Acho que é muito difícil entrar em sintonia com uma história, um autor e seus personagens — ainda mais os que fazem parte da esfera literária e dos clássicos, pela sua natureza “difícil” — se você não se aproxima deles com a abordagem correta. E, infelizmente, na escola, nem sempre os professores têm tempo, modo e sensibilidade de encontrar essa tal abordagem.

Pessoalmente, ainda me lembro, mesmo com a distância dos anos, a ira da professora porque eu não me lembrava de um detalhe importantíssimo de um episódio d’Os noivos, sinal evidente de que eu não havia lido atentamente as páginas atribuídas pela professora. Vocês devem estar se perguntando: que detalhe é esse? Que as meias de Lucia eram vermelhas.

Vocês também têm livros que odeiam desde os tempos da escola? O que fez com que vocês desenvolvessem essa aversão? E, depois de crescer, vocês foram capazes de superá-la? Escrevam os títulos nos comentários, ou nas redes sociais. Até a próxima!

—–

Nota:
¹. Os ciclos escolares, na Itália, são um pouco diferentes dos nossos. O “ensino médio” deles dura 5 anos (enquanto o que corresponde ao “ensino fundamental” dura um pouco menos que o nosso). Portanto, neste caso, a autora se refere aos dois primeiros anos do ensino médio dela.

Tatianices recomenda [13] — Michelle Pereira

Em tempos de distanciamento social pode acontecer da criatividade aflorar e de sentirmos necessidade de ocupar tempos que antes não eram ociosos. Algumas pessoas, porém, se superam nesse quesito. E hoje, aqui, venho falar especificamente sobre uma delas: a escritora Michelle Pereira.

Eu conheci (infelizmente apenas virtualmente) a autora Michelle Pereira no ano passado, quando demos início a uma parceria. Li todos os livros dela até então publicados e me encantei com a escrita dela, tão plural e criativa.

No dia 9 de abril de 2020, em seu instagram pessoal, a autora pediu para que seus seguidores dessem uma palavra a ela, que, ao longo dos dias, ela escreveria um microconto baseado em cada palavra. Essa é uma forma não apenas de exercitar a criatividade, como também de se aventurar por outros estilos e, claro, praticar a escrita. Uma ótima dica para escritores.

E gente, que presente! A Michelle consegue criar textos muito diversos e completos, mesmo que em poucas palavras. Histórias bem feitas e que, ao mesmo tempo, deixam margens para que nós mesmos nos aprofundemos nelas por caminhos diversos.

Até o momento temos microcontos com as seguinte palavras:

  • Samambaia
  • Horizonte
  • Cobra
  • Pôr do sol
  • Sonoridade
  • Amarelo*
  • Tempo
  • Metálico
  • Delírio

*Amarelo foi uma palavra sugerida por mim e, sabendo que eu gosto de romance, a autora quis escrever algo nesse estilo. Obviamente eu AMEI, mas o que me encantou mais ainda foi o quanto ela conseguiu escrever algo que me remeteu à minha própria história de amor (por si só já intimamente ligada à palavra amarelo), mesmo sem saber tanto sobre ela! É magia atrás de magia que sai das mãos da Michelle.

Mas fala sério, só por essa lista já dá para imaginar o quão desafiadora tem sido essa experiência, não? E a Michelle ainda faz tudo parecer tão natural! Se quiser conferir com seus próprios olhos, você pode ler os textos no instagram ou no Blog dela. Passem lá, leiam os contos e depois voltem aqui para me contar o que acharam. Estou curiosa com a opinião de vocês!

E também deixo aqui minhas resenhas, caso vocês ainda não conheçam as demais obras dela:

Cadeados — Nuccia De Cicco

Título: Cadeados — o amor é a chave
Autora: Nuccia De Cicco
Editora: The Books
Páginas: 361
Ano: 2018

cadeados blog

Cadeados foi um livro que me fez sentir muita coisa. A começar pela aflição, pois a história se inicia com um grave acidente de carro e as consequência deste sobre Pam, a protagonista. Ela fica gravemente ferida, passa por cirurgias, convulsiona… E tudo é descrito no livro, sem nos poupar de detalhes.

“Naquele milésimo de segundo, eu voei”

Depois, veio uma agonia imensa, causada pela dor de ver Pam sofrendo por tudo o que perdera (em primeiro lugar, seus pais e um pouco do movimento das pernas — esses ao menos recuperáveis com a fisioterapia) e também escondendo sintomas importantes, o que nos leva à terceira sensação…

“O tempo passava por cima da gente sem piedade. A saudade não diminuía nunca”

Tristeza. Não porque “ah, coitadinha”, mas porque esse é o reflexo dos próprios sentimentos de Pam. Ela se fecha em si mesma, se isola, perde a vontade de viver. É até irônico ler essa parte, porque ela não quer mais sair de casa, enquanto nós daríamos tudo para podermos estar nas ruas novamente.

“Não havia mais motivos para sair da cama, quem dirá do quarto ou da casa”

Depois vem a esperança. A luz no fim do túnel. A vontade de seguir lendo e lendo para ver que as coisas podem melhorar. A esperança de que existam cadeados que podem ser abertos.

“Para cada cadeado, uma chave especial”

E claro que, por fim, há a alegria. Depois de todas essas sensações, nos deparamos com um final leve, porém verídico. Nada de contos de fadas, mas de realidades palpáveis.

“Ele me entendia; às vezes mais do que eu mesma”

Cadeados é narrado por personagens diversos. Apenas os trechos de Pam são em primeira pessoa, os dos outros personagens são em terceira pessoa. Essa dinâmica torna tudo ainda mais interessante, pois ao mesmo tempo que mergulhamos no universo da protagonista, temos a oportunidade de estar próximos dos demais personagens que, mesmo não sendo protagonistas, têm a sua importância.

“Eu podia ser independente, mas nunca estaria sozinha”

Como eu disse mais acima, no acidente, Pam perde os pais, um pouco dos movimentos da perna (coisa que se recupera depois) e… A audição. E essa é a grande temática desse livro, que nos ensina um pouco mais sobre o universo surdo, sobre as dificuldades encontradas nesse mundo, ainda não preparado para lidar com deficiências, mas que também nos mostra que ser ensurdecido (termo apresentado no livro, que designa ouvintes que, por algum motivo, deixam de ouvir) tem as suas dores particulares.

“Ouvi durante vinte três anos, deixar de depender de um sentido não era como um passe de mágica”

Como se já não fosse suficiente apresentar tudo isso que acabei de mencionar, o livro ainda consegue falar sobre relacionamentos abusivos e depressão. E nenhuma dessas temáticas entra de maneira forçada na história, muito pelo contrário.

“Amar não devia ser engolir todas essas porcarias”

Recomendo imensamente esse livro para quem quer aprender mais sobre surdez, mas também para quem tem estômago forte e nem um pouco de medo de permitir que um livro mexa imensamente com seus sentimentos. Uma leitura daquelas que precisam ser feitas com calma, ainda que a gente queira devorar tudo de uma vez, torcendo pelo “final feliz”, que pode vir das mais diferentes maneiras.

“Quando perdemos um sentido e o conquistamos de volta, percebemos o quanto as pequenas coisas são as mais importantes”

Se você se interessou por Cadeados, não deixe de clicar aqui.

Citações #30 — Os guardiões dos livros

Citações #30

Quem leu minha resenha de Os guardiões dos livros deve ter percebido (espero eu) o quanto eu amei essa história escrita pela autora Ana Farias Ferrari e publicada em 2019 pela Editora Cartola. O que vocês provavelmente não sabem é que tive de deixar vários trechos incríveis de fora da resenha. Mas ao menos tenho a oportunidade de trazê-los aqui!

“ela é capaz de se entregar às histórias por inteiro, e não por partes”

O que tanto me encanta nesse livro é o fato dele falar sobre sentimentos diversos e de maneiras diversas, aos poucos, com sensibilidade.

“Ela não precisou falar mais nada, apesar do escuro eu sabia das suas lágrimas e sabia que não tinha muito o que fazer, às vezes as palavras certas eram aquelas não ditas”

Também é uma história que traz muitas descobertas sobre nós mesmos e por meio de personagens tão jovens.

“Mais uma vez eu estava fazendo apenas o que era esperado de mim, mesmo que significasse não me sentir inteiro, e isso precisava mudar”

E, ainda por cima, o livro consegue ser dolorosamente atual.

“é muito difícil se manter apaixonado quando pessoas começam a morrer”

Durante a leitura acompanhamos um crescimento pessoal dos personagens, que vivem coisas que jamais esperariam viver, de maneira muito bonita também.

“era difícil ficar bravo quando a pessoa que te criou fez isso às custas da própria felicidade e não demonstra mágoa nenhuma”

E claro que, de muitas formas, o maior dos sentimentos se faz presente ao longo dessas páginas.

“Quando você ama alguém, ela nunca se torna un fardo”

Eu realmente me encantei com Os guardiões dos livros e espero que um dia vocês possam dar uma chance a esse livro!

Desmistificando o mestrado [8] — Qualificação

qualificação

Hoje eu quero falar para vocês um pouco mais sobre a qualificação no mestrado. O que é? Como funciona? O que você tem de fazer? Calma, vamos lá que vou tentar explicar um pouquinho disso tudo!

O Exame de Qualificação (ou apenas Qualificação) é obrigatório tanto no mestrado quanto no doutorado (ao menos nos programas de pós-graduação da USP) e ocorre na metade do período que você tem para desenvolver sua pesquisa. Para ficar mais claro: no Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Italianas, eu tinha dois anos para realizar meu mestrado. Em até um ano, desde a data da primeira matrícula, eu deveria realizar meu exame de qualificação.

A ideia é que você possa mostrar a uma banca examinadora (composta pelo(a) professor(a) que te orienta e mais duas outras pessoas que tenham ao menos o título de doutoras) em que ponto se encontra a sua pesquisa, como você pretende prosseguir e onde quer chegar.

Muitos alunos têm medo dessa etapa, pois ela é quase uma simulação da defesa. Mas acho que podemos enxergá-la de outra forma: se a banca for bem escolhida, haverão enormes contribuições para o desenvolvimento de sua pesquisa e conselhos realmente úteis. É quase como uma troca de ideias e uma chance de você mostrar sua pesquisa a pessoas que não estão mergulhadas nela como você e, possivelmente, seu orientador(a), mas que possuem conhecimento em assuntos tangentes e que podem te dar uma nova perspectiva para tudo o que você já tem, facilitando sua chegada ao ponto final.

Entendo, porém, o medo de alguns alunos: é possível reprovar no exame de qualificação. Mas isso não significa que seu trabalho foi em vão e que você colocou tudo a perder. Significa apenas que você precisa se esforçar um pouco mais, que você ainda não está no caminho certo. E você tem cerca de dois meses para correr atrás do prejuízo e tentar novamente (ou seja, passar por uma nova banca de qualificação).

Para a qualificação você precisa entregar, com ao menos um mês de antecedência, o relatório de qualificação. Trata-se de um documento dividido (ao menos no meu caso foi assim) em três partes:

  1. Histórico na Pós-Graduação: aqui você vai falar um pouco do seu percursos como aluno(a). Você tem de colocar alguns dados pessoais, sua formação acadêmica, seus conhecimentos em línguas estrangeiras, experiência profissional (sim, isso é quase um currículo), atividades relacionadas ao mestrado, participação em cursos e eventos e outras atividades relevantes.
  2. Projeto de pesquisa: apesar dele já ter sido apresentado lá no início, como eu falo aqui, você deve apresentá-lo de novo nesta parte. Lembrando que o projeto pode ter sofrido algumas alteações, por isso também a importância de mostrá-lo novamente.
  3. Capítulos provisórios da dissertação: essa é, finalmente, a parte em que você mostra o que já tem pronto de sua pesquisa, colocando, na íntegra, os capítulos já escritos (recomenda-se ter a introdução e ao menos um ou dois capítulos prontos), além de um resumo do que você pretende apresentar nos demais capítulos, já deixando a sua dissertação estruturada.

O relatório deve ser entregue com pelo menos um mês de antecedência em relação à data do exame de qualificação porque é este documento que sua banca lerá para poder fazer os apontamentos necessários.

Para o dia da qualificação recomendo, antes de mais nada, muita calma. Também é bom ter uma cópia de sua pesquisa à mão (seja em papel, seja em um notebook ou similar) e, se a banca concordar, um gravador, para que você não deixe passar nenhuma dica dada pela banca em relação à sua pesquisa.

E aqui vai um pequeno causo antes dos meus últimos avisos: eu tentei ser o mais cautelosa possível com meu relatório de qualificação. Pedi modelos para meus colegas, escrevi com calma, numerei tudo, revisei mais de uma vez a formatação e o sumário. Imprimi as cópias necessárias e, quando fui ver, a numeração das páginas havia sido cortada na impressão! E eu só percebi isso depois de entregar as cópias aos professores. Que vergonha! Mas tudo bem, acontece, né? O lado bom desse pequeno fato é que eu já sabia que, na hora de imprimir a dissertação, esse era mais um cuidado que eu deveria tomar.

Por fim, como sempre, gostaria de alertar sobre a importância de se prestar atenção aos prazos (sempre!!!) e às normas, sejam elas de formatação ou burocráticas (que documentos você precisa entregar para agendar a qualificação, em que período, para quem). Se tiver dúvidas, pergunte, tanto para seu orientador quanto para colegas ou mesmo na secretaria de seu programa de pós-graduação.

A princesa salva a si mesma neste livro — Amanda Lovelace

Título: A princesa salva a si mesma neste livro
Original: The princess saver herself in this one
Autora: Amanda Lovelace
Editora: Leya
Páginas: 207
Ano: 2017
Tradutora: Izabel Aleixo

a princesa salva

A princesa salva a si mesma neste livro é aquele tipo de obra que eu sempre via em todas as livrarias por onde passava; também é um daqueles títulos que sempre me chamavam a atenção; por fim, já vi muitos elogios ao livro e à autora.

Depois de ler esta obra, consigo entender porque ela é tão aclamada: Amanda Lovelace aborda temáticas muito importantes e sérias, como depressão, estupro, bullying, perdas, amizade, amor e relações familiares. Tudo isso em poucas palavras, mas de maneira precisa.

Não posso, contudo, deixar de dizer que há algo que me incomoda: a autora se apresenta como poeta e, portanto, se propõe a fazer poesia. Ao ler esse livro, porém, o que encontrei foram frases quebradas, na tentativa de se fazer versos. E, muitas vezes, essas quebras mais atrapalham a fluidez da leitura do que ajudam. E se atrapalham a fluidez da leitura, como chamar de poesia?

Claro que também é preciso levar em consideração que este livro é uma tradução e que traduzir poesia não é tarefa para qualquer um. Mas tenho certeza que a tradutora deu o seu melhor e tentou se manter o mais fiel possível ao original que, creio eu, realmente foge um pouco de algo que eu chamaria de poesia.

Ainda assim, não posso negar que há textos realmente tocantes e muitas frases que ficam ressoando em nossas mentes, além de um outro tapa na cara bem dado. E existem duas poesias que faço questão de destacar aqui (com todas as ressalvas já feitas acima, mas que também ficarão de exemplo para que vocês tirem suas próprias conclusões):

Não há
água da chuva
suficiente
no céu
todo
para lavar
o
sangue
inocente
das suas mãos.

— a vida deles importará sempre

(pg. 174)

Bem atual, não?

Nós somos a geração
a quem você deu um
troféu de participante.

nós somos a geração
que você fez usar capacetes,
cotoveleiras e joelheiras.

nós somos a geração
a quem você deu cds censurados
& filmes com classificação indicativa.

nós somos a geração
a quem você passou anos superprotegendo
e depois jogou aos lobos.

agora nós somos a geração
que segue em frente com nada a não ser
café
& três horas de sono.

nós somos a geração
trabalhando por um salário mínimo
com diploma universitário.

nós somos a geração
ganhando só o suficiente
para sobreviver.

nós somos a geração
que você não queria ver fracassando
então se assegurou de que fracassássemos.

— millennials.

(pg. 178)

Essa foi uma das que considerei um tapa bem dado, um soco no estômago ou como você preferir chamar a reação de dor após ler essas palavras.

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