Clichês em rosa, roxo e azul — Maria Freitas

Título: Clichês em Rosa, Roxo e Azul: coleção de contos com protagonismo bissexual 
Autora: Maria Freitas 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 685 
Ano: 2021

Introdução

Durante a pandemia que se iniciou em 2020 e, aqui no Brasil, se prolongou com um cenário tão terrível quanto em 2021, inúmeros autores e editoras deixaram, em algum momento, suas obras liberadas para download gratuito

“Acho que o mundo não vai acabar. Ele só vai ser diferente daqui em diante”

(Conto: Amor de janela)

Muitos artistas — ao menos aqueles que conseguiram manter um pouco de sanidade em meio ao caos — também aproveitaram esse período para produzir e publicar. 

“Via na expressão artística a chance de escapar um pouquinho, de atingir o outro, de mudar o mundo”

(Conto: As razões de Henrique)

Foi justamente nessa época que surgiram os contos da Maria Freitas, reunidos, posteriormente no livro Clichês em rosa, roxo e azul: coleção de contos com protagonismo bissexual

“Estou muito longe de ser aquilo que esperam que eu seja e de amar o tipo de pessoa que eles esperam que eu ame”

(Conto: Mas… e se?)

Foram inúmeras as vezes que essas histórias apareceram para mim, mas foi somente agora que realmente parei para entrar em contato com elas. E, como sempre, acredito que foi no momento certo.

“É difícil não se sentir um incômodo quando você passou a vida inteira se sentindo exatamente desse jeito”

(Conto: um corpo de verão)

O livro me tocou bastante e os contos, cada um à sua maneira, ao seu estilo, me fizeram refletir sobre inúmeros assuntos (para além, claro, do protagonismo bissexual). Assim sendo, achei que seria justo comentar um a um, então esse post talvez fique um pouco longo, mas é por uma ótima causa.

“Eu entendo, Cecília. Mas é preciso estar vivo pra militar”

(Conto: Azeitonas)

Sobre o livro

Antes, porém, alguns apontamentos sobre a obra como um todo: apesar da grande quantidade de páginas (são mais de 600), a leitura flui muito rapidamente, afinal são diversos contos reunidos e todos eles conseguem nos fazer mergulhar na história.

“Não preciso nem abrir os olhos para saber que estou no lugar certo”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Além disso, é muito interessante ver que diversas narrativas, de alguma forma, se conectam, assim como há elementos que se repetem, como, por exemplo, a presença de pesadelos. Também dei altas risadas a cada título ou nome de autor real que vi levemente modificado ao longo dessas páginas. Sem contar o quentinho no coração de ver a literatura nacional sendo valorizada dentro da literatura nacional. 

“Se ela gosta dos livros do Mariano, é porque tem bom caráter, não é?”

(Conto: Bregafunk do amor)

Gostei muito das descrições dos personagens, sempre inseridas de maneira natural e nos possibilitando uma visualização melhor deles. Outro ponto positivo é que a maioria dos personagens é “fora do padrão“, trazendo uma diversidade muito maior e natural à obra.

“Quando eu era criança, confiava demais em todo mundo. Mas aí me tornei um adolescente solitário, com tantas questões internas, tantas coisas guardadas dentro de mim, flutuando entre mil “eus”, que me fechei”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Sem mais delongas, vamos a cada uma das histórias, na ordem em que aparecem no livro que as reúne. Ao clicar sobre o título, você irá acessar a página da Amazon do conto em si. Ao final do post, deixarei o link para a obra completa, caso você, assim como eu, não queira perder nenhuma dessas maravilhosas histórias.

Mas… e se?

Depois de uma (longa) temporada de shows, o cantor sertanejo Henrique finalmente volta para casa. 

“Cansei de dormir no banco de passageiro, cansei de chorar de saudade com a cabeça encostada no vidro frio da janela”

(Conto: Mas… e se?)

Mas, além de ter que se readaptar à calmaria da vida numa cidade do interior de Minas, ele também tem de se acostumar com o novo (não tão novo assim) namorado de sua esposa

“Preciso beber algo quente, preciso da cafeína para me situar, para entender todas as mudanças que aconteceram na minha vida, quando eu não estava vivendo”

(Conto: Mas… e se?)

Confuso? Bem, esse conto já começa nos mostrando que o amor é algo realmente complexo e que, por vezes, há espaço para mais de um amor verdadeiro dentro de nossos corações.

“Quem nos bagunça são os outros”

(Conto: Mas… e se?)

E bota amor verdadeiro nisso, viu? Nem as traições do passado foram capazes de diminuí-lo (e claro que não darei mais detalhes, porque se eu estava muito curiosa para entender o passado desses personagens, também quero deixar a curiosidade te dominar).

“Porque o amor muda tudo”

(Conto: Mas… e se?)

Um corpo de verão

Acho que o título desse conto já deixa bem claro um dos pontos principais dessa narrativa: a insegurança que temos com relação aos nossos corpos, principalmente diante de tantas pressões estéticas impostas pela mídia e pela sociedade.

“As pessoas sempre vão encontrar algo para dizer. Sempre. Não importa o que você faça, elas sempre vão estar lá para te julgar”

(Conto: um corpo de verão)

Mas Vanessa também tem muitas outras coisas com as quais lidar, como as dificuldades pelas quais a mãe passou e tudo o que teve de abrir mão para que a protagonista tivesse uma vida razoável.

“Nunca achei justo o sacrifício que ela teve que fazer. Nunca achei justo não termos escolha”

(Conto: um corpo de verão)

Não bastasse isso, Vanessa ainda queria poder beijar a amiga de infância. Amiga da qual havia se afastado quando tudo ficou confuso dentro dela.

“Parecia que a gente tinha se perdido uma da outra, se desconhecido”

(Conto: um corpo de verão)

E nessa busca uma pela outra e por si mesmas, vamos enxergando o quanto Vanessa guarda dentro de si, e vamos aprendendo a amá-la como ela mesma, aos poucos, também vai aprendendo.

“Algo se revirou no meu estômago. Uma sensação ruim de quem está sentindo coisas demais, coisas que não sabe como decifrar”

(Conto: um corpo de verão)

Espero que não perca

Acho que esse é um dos contos mais diferentes deste livro, numa pegada mais romance de época. Sim, com protagonismo bi, por que não?

“Ninguém se importa com o que sentimos”

(Conto: Espero que não perca)

Mas essa não era a única dificuldade das protagonistas dessa história: Mercedes pertencia à burguesia, enquanto Alzira era uma mulher negra. Já imaginou o tamanho do problema para uma história que começa por volta dos anos 30?

A história das duas se cruza pela primeira vez no velório da avó de Mercedes, uma mulher que, segundo as descrições, parece ter sido incrível.

“Há uma linha tênue que separa a vida da morte. Um suspiro. Um último sorriso. Mas nem sempre a morte é o fim de uma história. Às vezes, ela é o começo”

(Conto: Espero que não perca)

Dali para frente elas têm de lidar com os sentimentos do coração e os preconceitos que a cercam, fazendo nascer uma história cujo final emociona até o mais duro dos corações.

“As partes quebradas dos dois se encaixavam”

(Conto: Espero que não perca)

Amor de janela

Amor de janela era um conto que eu tinha curiosidade em ler, porque o título já deixa bem explícito o período em que se passa a narrativa: a pandemia.

“— Ficar em casa é mais difícil pra algumas pessoas que pra outras, né?”

(Conto: Amor de janela)

Apesar de estar acostumada à paz do seu quarto, a pandemia também mexe muito com Camila, que tem de aprender (e tentar) a conviver com sua família.

“Já estava acostumada a ficar em casa o dia inteiro, mas a impossibilidade de sair deixa as coisas muito piores. É essa falta de escolha que me incomoda, não a limitação de opções de lazer”

(Conto: Amor de janela)

Um belo dia, porém, algo (alguém) quebra a monotonia dessa vida reclusa: Erick, o vizinho de Camila.

“Ando sentindo tão pouco, que sentir algo, mesmo que bobo, faz meu coração saltar”

(Conto: Amor de janela)

E enquanto os dois vão se conhecendo, nós vamos nos apaixonando por cada um e torcendo por aquele quentinho no coração necessário. 

“Para você que está em casa, sonhando com abraços e lidando com a solidão. Nós vamos vencer isso!”

(Conto: Amor de janela)

Outra dimensão para nós dois

Já imaginou se ver vivendo cenários futuros que dependem das escolhas que você faz hoje?

Pois é isso que encontramos em Outra dimensão para nós dois, história na qual conhecemos Maycon, apaixonado por Rafael, o melhor amigo com quem divide a casa.

“Em algum ponto desastroso do tempo ou das nossas escolhas”

(Conto: Outra dimensão para nós dois)

E claro que Rafael não facilita em nada a situação. Primeiro porque ele é daqueles que quer pegar todo mundo e não ficar com ninguém (bem diferente de Maycon). E segundo porque ele é muito tranquilo, acha que a vida não precisa ser levada tão a sério.

“A gente faz escolhas erradas todos os dias. Ainda estamos aqui, não estamos?”

(Conto: Outra dimensão para nós dois)

Este é um conto leve, apesar de trazer questões pesadas. Um conto que começa como uma nuvem cinza pairando, deságua e, enfim, faz o sol brilhar sobre nós.

Estrela e a Flor

Aqui temos um conto que está mais no gênero da fantasia, retratando uma região que era de terras pacíficas — Alveiros —, até que um brilho forte surge no céu e muda a história local. 

“As coisas não começam do meio, Estrela…”

(Conto: Estrela e a flor)

Na noite em que começa a história, tudo está ainda mais diferente: o pai de Estrela, única pessoa capaz de acender uma fogueira que resista ao frio da região, já não está mais vivo para desempenhar seu papel.

“Esta noite, em especial, tudo parece grande demais para suportar”

(Conto: Estrela e a flor)

Mas a festa é salva por uma figura que também desperta sentimentos e reflexões dentro de Estrela, que tem muito a aprender sobre sua própria história.

“Eu nem sabia que estava sentindo tantas coisas até todas elas transbordarem”

(Conto: Estrela e a flor)

Azeitonas

Óbvio que eu, que amo azeitonas, fiquei intrigada com o título desse conto. Só não imaginava que essa simples maravilha poderia ser tão significativa para a história de um relacionamento.

“Rótulos são políticos. Você deve usá-los para se reunir com pessoas iguais a você, para reivindicar direitos e debater sobre dores em comum. Não para se diminuir”

(Conto: Azeitonas)

Ao mesmo tempo, a história nada tem a ver com as azeitonas em si, indo muito além disso. Aliás, este é outro conto que retrata muito bem o período da pandemia.

“Passo o mais longe dele que consigo e vou (mais uma vez) tomar um banho. Já estou de saco cheio. Essa pandemia tem que acabar!”

(Conto: Azeitonas)

Cecília está vivendo esse período com o avô, e resolveu se voluntariar para fazer as compras para ele e para outros vizinhos idosos. 

Ela tem todo um esquema para organizar as compras, mas um dia, perdida em pensamentos, acaba misturando as coisas, dando início a uma troca de bilhetes entre seu avô e um dos vizinhos.

“Acho que preciso focar um pouco mais no mundo que está aqui à minha frente”

(Conto: Azeitonas)

A troca de bilhetes, os sentimentos de Cecília e as conversas que ela tem com seu avô fazem com que a jovem acabe entendendo um pouco melhor o término do seu relacionamento, além de compreender as novas relações em sua vida.

“Pra mim é isso o que mais importa, Cecília. Ter alguém que preencha, ao menos um pouquinho, o meu vazio”

(Conto: Azeitonas)

Nós também temos muito a aprender com essa história, que retrata o amor na sua forma mais pura, simples e verdadeira.

“Quero falar sobre sentir dor, sobre estar triste, sobre… amar as pessoas…”

(Conto: Azeitonas)

As razões de Henrique

Henrique mora no interior de Minas com sua mãe, Débora, e suas irmãs, Vanessa, Carol e Alessandra. O pai vive com outra família.

“A separação dos pais é um acontecimento traumático para a maioria das pessoas. Para Henrique não. Sentia-se aliviado” 

(Conto: As razões de Henrique)

O drama na vida de Henrique, porém, são as inúmeras vezes que teve de trocar de escola devido a problemas.

“Ele queria dizer a ela que nunca tinha feito aquilo. Queria dizer que, na verdade, estava fugindo das perseguições dos colegas das outras escolas onde havia estudado”

(Conto: As razões de Henrique)

O que ninguém sabe, porém, é que os “problemas” dele são o bullying sofrido por ser diferente de seus colegas.

“Henrique queria ser hétero, queria muito, mas não era”

(Conto: As razões de Henrique)

Em Santa Maria Madalena, contudo, as coisas parecem ser diferentes.

“Nunca havia sido acolhido em escola nenhuma antes, nem tinha passado por sua cabeça a possibilidade de que ali ele pudesse se sentir bem. Mas ele se sentiu, assim que Malu se sentou na cadeira do lado dele”

(Conto: As razões de Henrique)

E realmente são. É nessa cidade que Henrique passa a viver um amontoado de sentimentos, buscando entender o que se passa em seu coração.

“Em todos os seus quinze anos, Henrique nunca havia sentido o coração bater tão forte no peito”

(Conto: As razões de Henrique)

Mais do que falar sobre a descoberta da bissexualidade (em um lugar onde ainda há muito preconceito com o que “foge à norma”), esse conto também nos faz refletir sobre o tempo, sobre olhar com calma ao nosso redor.

“É que… às vezes, a gente está com tanta pressa, tão preso na nossa própria vida, que esquece de todas as vidas que nos cercam. Elas também são importantes, mas ninguém vê”

(As razões de Henrique)

Um conto que também faz com que nos apaixonemos pelos personagens.

“Pela primeira vez na vida, Henrique quis parar. E permanecer”

(As razões de Henrique)

Emma, Cobra e a criatura na parede

Devo confessar que o título deste conto não despertava muito da minha curiosidade, mas hoje eu leria até mesmo o livro que aprofunda essa história.

Emma e Cobra eram bons amigos. Até deixarem de se falar. E claro que o afastamento deles se deve a um mix de sentimentos que só a adolescência e essa fase de descobertas é capaz de despertar em nós.

Alguns acontecimentos estranhos, porém, juntam esses dois amigos novamente: Emma ouve vozes vindas da sua parede (e não são vizinhos, pois ela mora na última casa da cidade), enquanto Cobra é capaz de ler os pensamentos dos outros.

“E eu penso que está muito além da nossa compreensão entender como aquele meteoro nos transformou na nova geração dos X-Men, só que no interior de Minas Gerais”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Enquanto tentam entender o que está acontecendo, Emma e Cobra se reaproximam, conhecem criaturas vindas de outra dimensão do tempo e espaço e têm a oportunidade de perdoar um ou outro.

“Ela respeitou meu pronome no íntimo de sua mente… E pensar nisso faz com que eu me sinta culpado”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Acho que eu fiz uma música

Ao contrário do último conto, este aqui obviamente já ganhou meu coração só pelo nome, apesar do começo ter sido um pouco mais arrastado do que eu esperava.

Tudo começa com Juan indo assistir a uma apresentação de Lili simplesmente porque ela um dia fora parceira musical de João Vinícius, por quem Juan é apaixonado desde a adolescência.

“Perdi mais uma vez para João Vinícius”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Acontece que Juan não tem ideia do fim desastroso que a parceria e a amizade de Lili e João Vinícius tivera.

Ainda assim (e mesmo que muito a contragosto), Lili aceita a proposta de Juan: ela o ajuda a conhecer João Vinícius e ele a ajuda a melhorar seu marketing. 

“Parte de mim ainda acha que deveria lutar contra isso. Só que tenho lutas demais na vida, não preciso de mais uma”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Juan só não contava em se apaixonar mais uma vez no meio desse caminho. E é difícil não torcer por esse amor.

“Eu não havia reparado tanto nela antes, mas Lili é muito bonita. Do tipo de beleza que parece um tapa na cara, você só percebe quando bate. E te tira do eixo”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Bregafunk do amor

Preciso confessar que eu jamais imaginaria que um conto com esse título poderia falar, também, de uma paixão que me move: livros.

“Há um lugar, porém, onde sempre posso encontrar um refúgio, onde sei que irei me identificar com os personagens vivendo suas vidas de forma extremamente mágica… ou não. E esse lugar são os livros do Mariano Madeira”

(Conto: Bregafunk do amor)

E é justamente isso que une Ana Cecília, Felipe e Mirela, três jovens apaixonados pelos livros de Mariano Madeira

“Então vocês também gostam do Madeira? — Mirela pergunta baixinho. Parece até que estamos planejando derrubar o presidente. O que não seria uma má ideia”

(Conto: Bregafunk do amor)

Felipe e Mirela já se conhecem de longa data e têm um passado que fica pairando no ar a todo momento.

“E meu coração acelerou por Felipe por muito, muito tempo. Até o dia em que ele o feriu”

(Conto: Bregafunk do amor)

Ana, por sua vez, também parece ter um passado e tanto, mas é nova na cidade e está tentando recomeçar e se reencontrar ali.

“O olhar de Ana é puro terror. Parece que já viu mais coisas do que deveria ser aceito uma adolescente ver”

(Conto: Bregafunk do amor)

Ao descobrir a paixão em comum, porém, os três jovens se unem em um plano infalível (só que não) para ir à sessão de autógrafos do autor na cidade vizinha.

“Nossa sintonia é tão palpável que eu poderia morar nesse espaço que estamos construindo”

(Conto: Bregafunk do amor)

Narrado em primeira pessoa, cada vez por um desses personagens, este conto nos entrega muitas reflexões e muita profundidade, disfarçadas de uma história totalmente leve e até engraçada.

“Só posso me responsabilizar por aquilo que eu faço. As atitudes, mentiras e silêncios deles, são responsabilidades deles”

(Conto: Bregafunk do amor)

Um papai Noel de outro planeta

É natal, mas a data não está nada celebrativa para Gal, pois sua namorada está desaparecida.

“O vazio que eu sinto ao perceber que minha mãe não me conhece mais — que ela nunca me conheceu — foi até suportável em outros natais, mas não neste”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

O que Gal não imagina é que é justamente um Papai Noel (um pouco diferente talvez) a pessoa que irá ajudar nessa busca.

“É engraçado como naturalizamos o que não deveria ser naturalizado”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Este é o último conto do livro e ele consegue reunir muitas das outras histórias lidas. É muito gostoso passar pelas aventuras de Gal, que por si só já dão muito pano para manga, e, ao mesmo tempo, relembrar um pouco do que foi lido ao longo do livro.

Aqui, novamente, temos viagem pelo tempo e espaço, mistérios a serem resolvidos e muitos sentimentos envolvidos.

“Viajar no tempo é conviver com sua própria inexistência”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

E também temos muita reflexão disfarçada em meio a algo que pode parecer leve.

“Eu me deixei de lado, por muito tempo, tentando ser aquilo que esperavam de mim”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Conclusão

Como eu disse lá no começo dessa resenha, Clichês em rosa, roxo e azul foi uma obra que me tocou bastante. Com ela, pude ter ótimos momentos de lazer, mas também aprendi muito.

“Não é a quantidade nem a frequência das mensagens, é a conversa em si e a atenção que você dá a ela”

(Conto: Azeitonas)

Através dos personagens, passei a enxergar a diversidade com olhos ainda mais amplos, compreendendo, também, que são inúmeras e variadas as formas de amar verdadeiramente. Além de enxergar com mais clareza uma parte de mim também.

“É muito fácil me acostumar com ele aqui, como se sua presença fosse natural”

(Conto: Mas… e se?)

E para quem, assim como eu, não saberia escolher apenas um conto para ler, deixo aqui o link para a obra completa. Aproveite para também conhecer as redes sociais da autora (Site | Instagram | Twitter) e ficar por dentro dos lançamentos dela.

Aos meus heróis — Julinho Marassi e Gutemberg

Para variar, estava eu ouvindo recomendações do Spotify quando a música que hoje trago aqui começou a tocar. 

Não me lembro se algo do início dela chamou a minha atenção, mas quando percebi que havia referências a outras músicas e nomes da MPB, parei seja lá o que eu estava fazendo para ver que música era essa.

Até o momento de sentar e escrever esse post eu nunca tinha ouvido falar em Julinho Marassi e Gutemberg, a “dupla número 1 da região sul fluminense”. Você já ouviu falar deles?

A música que trago aqui foi composta em 2001 e gravada pela primeira vez em 2002, no CD Julinho Marassi & Gutemberg Ao Vivo.

Como eu disse, o que me chamou a atenção na música foram as referências. Ao menos as que entendi, já que, pesquisando um pouco, descobri que elas somam quase  trinta.

Olhando a letra toda, porém, também achei interessante o início, no qual os compositores traçam uma crítica ao excessivo uso da televisão, o gradual abandono do uso da criatividade e o consequente empobrecimento das produções artísticas

Os músicos ainda fazem uma ressalva de que a crítica não é voltada aos jovens, ainda que haja um direcionamento maior desta para o “pancadão” que, conforme a letra, não deveria ser a única opção.

Depois disso, a música se volta para o passado — mais ou menos distante —, fazendo a sua ode aos nossos artistas.

É interessante que a composição cita os nomes dos artistas, de maneira que é bem fácil encontrar os homenageados, mas também há, em diversos casos, menções a músicas ou versos, que demandam um pouco mais de conhecimento das obras desses cantores e compositores.

É o caso de “Se eu quiser falar com Gil”, que faz referência a Se eu quiser falar com Deus (essa era fácil, vai?), ou então ao fato de haver a pergunta “O que será que o nosso Chico tá escrevendo?”, nos lembrando que além de músico, Chico Buarque é também escritor. 

Quem acha estranho o verso “Aquelas rosas já não falam de Cartola” talvez não conheça As rosas não falam, assim como “Nem do Cazuza te pegando na escola”, que é uma referência ao início da música Faz parte do meu show (te pego na escola / e encho tua bola / com todo o meu amor).

Quando falam de Oswaldo Montenegro, Julinho Marassi e Gutemberg usam duas referências: a música Agonia e e Não há segredo nenhum.

Uma das melhores junções de referências, no entanto, acho que aparece mais adiante na música, quando ele junta a Casa no campo com o Dia branco e até com o Chão de giz, quase construindo uma narrativa aqui (com músicas que também são ótimas).

Apesar de ser quase um clássico, não sei se ficou clara, também, o “Quero sem lenço e sem documento, Caetano”, indicando a música Alegria, Alegria. E já que estamos aqui, eu não poderia mencionar a minha alegria em ver Oceano, do Djavan também!

Ao final da música temos, ainda, alguns pedidos dos compositores, que buscam uma música mais original, inteligente e que nos faça pensar.

Deixo, abaixo a letra completa e, ao final, a música, para que você possa ouvi-la. E, claro, não deixe de buscar os demais artistas mencionados na canção. Pelos nomes citados, você já consegue encontrar muita coisa boa.

Faz muito tempo que eu não escrevo nada

Acho que foi porque a TV ficou ligada

Me esqueci que devo achar uma saída

E usar palavras pra mudar a sua vida

Quero fazer uma canção mais delicada

Sem criticar, sem agredir, sem dar pancada

Mas não consigo concordar com esse sistema

E quero abrir sua cabeça pro meu tema

Que fique claro, a juventude não tem culpa

É o eletronic fundindo a sua cuca

Eu também gosto de dançar o pancadão

Mas é saudável te dar outra opção

Os meus heróis estão calados nessa hora

Pois já fizeram e escreveram a sua história

Devagarinho, eu vou achando meu espaço

Mas não me esqueço das riquezas do passado

Eu quero a benção de Vinícius de Morais

O Belchior cantando como nossos pais

E se eu quiser falar com o Gil sobre o Flamengo

O que será que o nosso Chico tá escrevendo?

Aquelas rosas já não falam de Cartola

Nem do Cazuza te pegando na escola

Tô com saudades de Jobim com seu piano

Do Fábio Júnior com seus 20 e poucos anos

Se o Renato teve seu tempo perdido

O rei Roberto, outra vez, o mais querido

A agonia do Oswaldo Montenegro

Ao ver que a porta já não tem mais nem segredos

Ter tido a sorte de escutar o Taiguara

E Madalena de Ivan Lins, beleza rara

Ver a morena tropicana do Alceu

Marisa Monte me dizendo: beija eu

Beija eu, beija eu, deixa que eu seja eu

Beija eu, beija eu, deixa que eu seja eu

O Zé Rodrigues, em sua casa no campo

Levou Geraldo pra cantar no dia branco

No chão de giz do Zé Ramalho, eu escrevi

Eu vi Lulu, Ben Jor, Tim Maia e Rita Lee

Pedir ao Beto um novo sol de primavera

Ver o Toquinho retocando a aquarela

Ouvir o Milton lá no clube da esquina

Cantando ao lado da rainha Elis Regina

Quero sem lenço e documento, Caetano

E o Djavan mostrando a cor do oceano

Vou caminhando e cantando com o Vandré

E a outra vida, Gonzaguinha, o que é? (O que é?)

Atenção, DJ, faça a sua parte

Não copie os outros, seja mais smart

Na rádio ou na pista, mude a sequência

Mexa com as pessoas e com a consciência

Se você não toca letra inteligente

Fica dominada, limitada a mente

Faça refletir, DJ, não se esqueça

Mexa o popozão, mas também a cabeça

A cabeça

Cabeça, DJ

A cabeça

A redoma de vidro — Sylvia Plath

Título: A redoma de vidro 
Original: The bell jar 
Autora: Sylvia Plath 
Editora: Biblioteca Azul 
Páginas: 280 
Ano: 2019 
Tradutor: Chico Mattoso

Finalmente pude ler A redoma de vidro. E essa comemoração tem uma explicação, para além do fato de eu sempre querer ler tudo para ontem: em 2019 dei início à leitura desta obra, porém em uma edição que veio com problema, como contei neste post.  

A demora para retomar a leitura, claro, é total culpa minha, mas eu lembro que não tinha sido muito fisgada da primeira vez e acabei adiando pegar o meu exemplar novinho e inteiro. Porém, como eu sempre digo, os livros me chamam no momento certo de serem lidos. E, com certeza, aproveitei bem mais a leitura agora.

“Você nunca se decepciona quando não espera nada de alguém”

O que eu me lembro é que, lá em 2019, estava achando a leitura um pouco arrastada e também estava perdida, achando que a história não ia para lugar algum, mesmo sabendo que, em algum momento, o choque viria. E ele realmente vem, sem que você perceba, porque está tão mergulhada na leitura que não se dá conta da força do baque, coisa que, aliás, me conquistou bastante neste livro.

“Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim”

Costumo entrar em minhas leituras sem saber muito sobre o livro em questão: uma passada de olho na sinopse, algumas vezes; um comentário pescado aqui ou ali. E só. Quando digo que deixo os livros me chamarem, estou falando sério.

Ainda assim, eu sabia que a leitura de A redoma de vidro seria… Densa. Acho que não há palavra melhor para descrever esta obra. E, ainda assim, ela flui, seja pela sua verdade, seja pelo seu humor ácido e inteligente.

Esta é uma narrativa que a gente percebe como, infelizmente, foi escrita com propriedade e com naturalidade. Em Esther Greenwood, Sylvia Plath tem a oportunidade de se retratar e, talvez, compreender algumas das suas próprias dores.

“Na verdade o problema é que eu sempre fora inadequada, só não tinha pensado nisso ainda”

Uma obra que já em 1963, quando foi originalmente publicada, conseguiu retratar muito bem os estigmas sob os quais questões de saúde mental são colocados em nossa sociedade.

“Claro que eu não sabia quem iria querer se casar comigo depois de eu ter passado por onde passei”

A incompreensão e a solidão se fazem quase tão presentes nesta narrativa quanto a própria protagonista, uma jovem que sai do subúrbio de Boston para trabalhar em uma revista de moda em Nova Iorque, vivendo, contudo, com certa indiferença aquele que deveria ser O período da sua vida.

“Quase todo mundo que eu conheci em Nova York estava tentando emagrecer”

O livro, porém, não fala apenas sobre depressão, ainda que este seja o tema que mais salte aos olhos. É preciso ler as entrelinhas para ir além e mergulhar na vida de uma mulher solteira e sozinha, que tem muito a enfrentar em questões de relacionamentos, estudos e amadurecimento. Uma mulher que se olha no espelho e sequer se reconhece.

“Me sentia feito um buraco no chão”

Se ansiedade, depressão e ideação suicida não são gatilhos para você e esta obra te interessou, já clica aí embaixo para garantir o seu exemplar. Eu li a edição da Biblioteca Azul e, para além dessa capa delicada e com um desenho feito pela própria autora, preciso dizer que a diagramação é confortável e o papel de boa qualidade, tornando a leitura ainda mais agradável.

 

Citações #57 — 100 canções para salvar a sua vida

O tanto de quotes que eu tenho desse livro daria para escrever uma nova história. Então senta que lá vem post grande!

“Não acredito na ideia de felizes para sempre. Por que tem que ser eterno pra ser verdadeiro?”

Costumo pensar que se você quer saber se eu realmente gostei de um livro, basta ver quantos trechos destaquei nele (apesar de ter livros tão bons que eu não consigo escolher pequenos trechos, mas páginas inteiras, então acabo não destacando quase nada).

“É engraçado como nunca pensamos nas decisões simples e fugazes que fazemos todos os dias”

Cada trecho significa identificação, compreensão ou apenas o fato de algum pensamento importante ter surgido em mim por causa dele.

“O ser humano pode ser monstruoso. Mas nós também temos algo que ninguém mais tem. Nós podemos amar, de verdade e com todo o coração”

E é gostoso voltar a esses trechos e, às vezes, dar novos significados a eles. Ou novas importâncias.

“Por um tempo, deixamos que a música fizesse o que música faz. Deixamos ela nos curar”

100 canções para salvar a sua vida, da Camila Dornas, foi, sem dúvidas, uma leitura intensa

“Poucos meses mudaram tudo. Duas daquelas pessoas estavam mortas. As que foram deixadas para trás quebradas demais para um dia serem consertadas”

E a história já começou me conquistando ao falar de São Paulo de uma forma que não poderia ser mais verdade.

“São Paulo era um completo caos, mas era meu caos, e eu adorava”

Mas outro tema que me é tão caro e que tanto me fez querer ler este livro foi, claro, a música, tão presente em cada momento da narrativa.

“Gostava do jeito como ele articulava as palavras quando discutia música, como se mal pudesse contê-las”

“Ambos acreditavam que a música certa podia salvá-los”

“Chorei com apenas aquela canção como companhia. E, ao menos por um momento, foi o suficiente”

“Observá-lo era como ouvir uma canção calma depois de um dia frenético”

“Ouvimos a música em silêncio, naquele limbo onde nossos problemas foram temporariamente esquecidos”

“Algo extraordinário acontecia quando ele se conectava com uma canção”

Uma história que fala, também, sobre perdas e finais (com ou sem despedidas).

“Porque você está aqui agora. E talvez você não signifique muito para o resto da eternidade, mas significa o mundo para quem está do seu lado. E isso vale a pena. As coisas não precisam ser pra sempre para merecerem ser vividas”

“Nunca pensamos muito na morte. Em quão súbita e sem sentido é”

“Acho que é o que acontece quando alguém que você ama para de existir. A parte que eles ocupavam simplesmente fica lá, vazia”

“Mais que nunca, quis poder abraçá-la, dizer que ficaria tudo bem. Mas era tarde demais”

E, sem dúvidas, uma história sobre empatia e dores que nem sempre podemos compreender.

“Algo nela se quebrou irremediavelmente naquele dia”

“— Nós não fomos as únicas pessoas que ela machucou ao deixar pra trás, Ali”

“Não é apenas sobre pessoas extraordinárias, mas dores extraordinárias”

Sobre sermos, antes de mais nada, humanos.

“Não tem nada errado em querer alguma ajuda de vez em quando”

“O silêncio costuma incomodar as pessoas, porque tem uma capacidade singular de te deixar completamente exposto a si mesmo”

“Não entendo por que estamos tão desesperados para esconder nossas próprias falhas”

“Mas ninguém nunca vê nada exatamente igual à outra pessoa. Nossa realidade é totalmente afetada por quem nós somos”

“Lágrimas contidas são como veneno. Confie em mim, eu sei”

100 canções para salvar sua vida é, ainda, sobre termos nossos vícios, sejam eles saudáveis ou não.

“— Ele é um bêbado. Começou quando minha mãe morreu e nunca mais parou. A bebida o transformou em uma pessoa completamente diferente. Eu já tentei de tudo pra recuperar o homem que ele foi, mas em algum ponto temos que desistir de quem não quer ser salvo”

“Para ela, a adrenalina era uma droga”

E no meio de tanta coisa, ainda sobre espaço para passagens leves, recheadas de amor e de personagens marcantes a seu modo.

“Valentina tinha o tipo de sorriso que mudava o mundo”

“Nós dançamos, e parecia que eu o conhecia, que entendia a energia dele”

“Ele era como um dia de sol logo depois de uma tempestade”

“Acho que nunca me acostumaria à sensação de vê-lo sorrir”

Se você se interessou por essa história e quer saber mais sobre ela, não deixe de ler a resenha e de garantir seu exemplar clicando abaixo.

Profissão Fangirl — Ana Farias Ferrari

Título: Profissão fangirl 
Autora: Ana Farias Ferrari 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 258 
Ano: 2022

Você já teve a sensação de que um livro foi escrito para você ou sobre você?

Pois ao iniciar a leitura de Profissão fangirl eu tive essas duas sensações juntas. 

Logo de cara, um livro que — infelizmente — tocou diretamente no meu coração.

“Amiga, desculpa, mas que idiota! Quem termina por mensagem?”

A sensação de tamanha identificação foi estranha, porque ao pegar Profissão fangirl para ler, eu imaginava uma protagonista muito distante de mim, uma vez que nunca fui uma pessoa com ídolos que admire tanto a ponto de me considerar uma fangirl.

Seguindo a leitura, porém, a impressão de que o livro era sobre mim foi logo substituída pela sensação de um livro escrito para mim. E para tantas pessoas que certamente precisam desta leitura.

“A gente sempre acha que a melhor época da nossa vida ou já passou, ou vai chegar, em vez de tentar aproveitar a época em que estamos vivendo”

Como dito ali no início, essa história começa com o término de um relacionamento de cinco anos entre Alice e Diego, deixando a protagonista completamente sem rumo.

“Durante todo o resto da manhã fui fazendo as tarefas automaticamente enquanto deixava minha mente vagar pelos últimos cinco anos da minha vida, todos aqueles em que o Diego esteve presente”

Conversando sobre o acontecimento com suas inseparáveis amigas, porém, Alice percebe que tem muito mais coisa fora do lugar em sua vida.

“Por quase dois anos eu estava acomodada a um emprego que não era nada daquilo que eu queria, e se eu tinha aprendido alguma coisa com o meu relacionamento é que não dá para continuar em um lugar só porque é confortável, eventualmente você vai receber uma mensagem te dizendo que tudo acabou e o que vai restar é o vazio de saber que você só estava ali por medo de mudar”

Decidida a recomeçar — e talvez um pouco alcoolizada também — Alice resolve acompanhar a turnê dos The Rabbits, sua amada banda que, de repente, ela descobre que estará no Brasil em breve. E claro que, para esse momento, ela também decide reativar o blog que criara, anos antes, com as amigas.

“Eu precisava descobrir de novo o que era ser feliz, e não era me adequando aos padrões dos outros que eu conseguiria isso”

Após pedir demissão do emprego que não a fazia feliz, Alice embarca para Belo Horizonte, onde acompanhará sozinha o primeiro show, e depois para o Rio de Janeiro, onde ficará alguns dias na casa de seu amigo Fred e cidade na qual acompanhará o segundo show da banda.

“A felicidade é feita de momentos, e o responsável por fazer esses momentos existirem somos nós!”

Mas é claro que essas viagens não seriam transformadoras por si só. O que mais mexe com Alice, para além das tantas mudanças com as quais ela tem de lidar ao mesmo tempo, é o fato dela ter conhecido Theo, uma figura misteriosa, distante, mas que tem seus motivos e suas vivências para ser assim.

“— Eu sei o que é estar em um relacionamento ruim e em um emprego que você odeia — ele disse, e agora seu sorriso parecia triste. — Nem todo mundo tem coragem de admitir isso e fazer algo para mudar”

É difícil essa história não mexer em algum nível com você. E eu preciso deixar bem claro aqui que mesmo que você ache que shows e a vida de uma fangirl não têm nada a ver contigo, a narrativa desta obra vai muito além disso: ela fala sobre sentimentos, perdas, inseguranças, felicidade. Fala sobre relacionamentos e amizades e aborda cada tema de maneira leve e madura, nos arrancando suspiros, risadas, lágrimas e muita vontade de viver um final feliz.

“Eu só quero descobrir o que é ser feliz de novo, sabe? Aos quinze anos eu sabia de alguma coisa que hoje eu já não consigo mais lembrar”

A narrativa em primeira pessoa nos permite um mergulho no universo da protagonista, tornando a leitura ainda mais intensa. A construção da narrativa também ajuda a tornar os acontecimentos factíveis, nos aproximando ainda mais de cada linha desta história.

“Droga, como alguém podia ser tão ignorante dos próprios sentimentos?”

Se você acha que essa história é para você, já clica ali embaixo para saber mais. E não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter).

Ah, e se por acaso você prefere ler fantasias, Ana Farias Ferrari também é autora de Os guardiões dos livros. Não deixe de conferir a resenha! 

Não é (só) sobre política

Acho que só existe uma verdade universal nesta vida: a de que não existem verdades universais.

Ok, isso parece ser bem contraditório, mas combina bem com o que quero falar aqui. O assunto do post de hoje é sério (e longo) e quis começar de maneira um pouco descontraída, mas já que você chegou até aqui, que tal ficar mais um pouco e ler até o fim?

Se não existem verdades universais, também não podemos achar que o que é bom para um é, sem sombra de dúvidas, bom para todo mundo (até porque “todo mundo é muita gente”). Assim sendo, eu não pretendo, aqui, dizer que este é melhor que aquele, mas apenas te ajudar (e me ajudar também) na reflexão.

O primeiro turno das eleições de 2022 está à nossa porta. Chamamos estas de eleições presidenciais, mas não é apenas para este cargo que votaremos. E esse é um dos pontos principais daquilo que quero falar aqui.

Antes, porém, quero te contar uma coisa: eu não gostava nem um pouco de política. Não que hoje eu ame, mas entendo melhor o seu papel (e o meu no meio disso tudo). E eu não gostava justamente por isso: eu não entendia nada de nada!

Só ouvia falar de escândalos, de corrupção e, por outro lado, de gente passando necessidade, de escolas sucateadas, de problemas na saúde. A conta não fechava e eu achava que não tinha como melhorar, que o Brasil já não tinha jeito, então eu não “perdia meu tempo” indo atrás. Até porque eu “era uma só”, que diferença poderia fazer?

Bom, eu ainda sou uma só, mas hoje eu entendo que é de um em um que a gente faz mil, dez mil, infinitos.

Tirei meu título de eleitor com 16 anos, não por querer, mas por sugestão dos meus pais, que disseram que tirando com essa idade, eu tinha menos chance de ser chamada para ser mesária. Ao menos funcionou! Mas nas primeiras vezes em que fui votar, eu mal sabia o que estava indo fazer.

Em 2018, porém, as coisas foram diferentes. Ainda perdida entre tantas informações, eu tentei buscar entender um pouco melhor as coisas.

Isso, contudo, é um processo. São muitas informações, vindas de tudo quanto é lado. Algumas verdadeiras, outras falsas. É preciso aprender a separar o joio do trigo e, sendo sincera, isso cansa. Mas (apesar de tudo) sou brasileira e não desisto nunca!

Como eu disse lá no início, não estou aqui para falar sobre candidatos — nem mesmo sobre partidos —, não apenas por entender que cada um deve buscar aquilo que é melhor para si (ainda que não possamos desconsiderar os direitos humanos e outros direitos essenciais), mas porque eu sequer escolhi os meus. E não é por falta de opção, mas porque me falta uma coisa essencial: a pesquisa.

Contudo, não vou fazer como anos atrás. Até domingo eu tenho apenas uma lição de casa: ler, pesquisar, entender. E só então escolher. E pode ter certeza, eu farei isso.

A verdade, porém, é que esse post já é o pontapé da minha pesquisa. Porque, como eu também disse ali no começo, a gente chama essas eleições de “eleições presidenciais”, mas há outros cargos em jogo. E eles são de extrema importância. Será que sabemos realmente disso?

Vou ser bem sincera: eu não sei tão claramente não! E, justamente por isso, resolvi escrever sobre as obrigações de cada um dos cargos para os quais votaremos esse ano, para então, durante a minha tarefa de casa, poder analisar o que eu espero de cada um e quem representa melhor aquilo que eu busco (e o mais legal é que, enquanto esse Blog existir, este post estará aqui e eu poderei voltar a ele sempre que precisar).

Vou escrever aqui na ordem em que teremos de votar no domingo, combinado?

O que faz um Deputado Federal?

Os Deputados Federais trabalham (ou deveriam trabalhar) lá na Câmara dos Deputados, em Brasília. Digamos que eles são quase tão centrais quanto o próprio Presidente no cenário político.

A função deles é legislar (ou seja, criar leis) e fiscalizar (ou seja, ver se as leis estão sendo cumpridas). Basicamente, colocar o país para funcionar e garantir que ele funcione seguindo as regras. Bem importante, não?

E você sabia que nós temos 513 deputados? É bastante gente! Mas de que adiantaria se esses 513 deputados pensassem da mesma forma e, pior ainda, pensassem apenas em si e esquecessem de todo o resto da população, principalmente daquela (grande) parcela que mais precisa deles?

Por isso, é muito importante que você avalie quais são os seus ideias inegociáveis, ou seja, aquilo que, para você, é essencial para que o país cresça de maneira saudável e próspera. Pode ser saúde, educação, meio ambiente, tecnologia. Com esses itens em mente, busque por candidatos que apresentem propostas relacionadas a eles.

Outra forma bem interessante para encontrar o seu candidato ideal é ver quem são os deputados atuais e o que eles realmente fizeram nos últimos quatro anos. Pode ser um bom começo para acrescentar algumas opções à lista, ou, principalmente, para saber de quem você quer passar longe. Além disso, você aproveita para se interar do que anda acontecendo na Câmara.

Onde você pode encontrar informações confiáveis? No site da própria Câmara dos Deputados, claro!

Vale lembrar que os Deputados Federais possuem 4 dígitos (os dois primeiros representam o partido e os dois últimos o candidato).

O que faz um Deputado Estadual?

Em menor âmbito (isto é, pensando no seu Estado), o Deputado Estadual tem as mesma funções do Deputado Federal, elaborando e aprovando leis que estiverem relacionadas a temas pertinentes à esfera estadual. Eles também são responsáveis por fiscalizar as contas do Estado. Ou seja: se você é contra a corrupção, precisa procurar por candidatos honestos (eles hão de existir).

Novamente, portanto, vale pensar no que você acha que seu Estado pode melhorar, para então buscar candidatos que tenham propostas relacionadas a este ponto.

Os Deputados Estaduais trabalham na Assembleia Legislativa (cada Estado tem a sua) e o site delas também é uma excelente fonte para verificar o trabalho daqueles que estiveram ali nos últimos quatro anos (e não só). Se quiser ter uma ideia, este é o site da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Para votar no Deputado Estadual você precisará de 5 dígitos (novamente os dois primeiros são do partido e os três últimos do candidato).

O sistema proporcional

Antes de continuar falando sobre as funções de cada cargo, um grande parênteses necessário: Deputados (federais e estaduais) são eleitos pelo sistema proporcional. E isso é bem complexo, mas é bom termos uma ideia de como ele funciona, porque também pode influenciar o nosso voto.

De maneira extremamente reduzida e simplista, o sistema proporcional é um sistema no qual os partidos e coligações recebem vagas (na Câmara ou na Assembleia) em quantidade proporcional às suas votações. Ou seja, um candidato não depende apenas de si mesmo parra ser eleito, mas também com os votos que o partido recebe.

Isso significa que, ao votar em um candidato, você pode ajudar outro candidato do mesmo partido a ser eleito. Por isso, neste caso, analisar o partido, e não apenas os candidatos de maneira individual, pode ser importante.

Como eu disse, é um sistema complexo e entendê-lo mais a fundo nos permite, também, buscar algumas estratégias, visando contribuir para uma Câmara (ou uma Assembleia) mais representativa.

O que faz um Senador?

Preciso começar esta parte com uma informação que sempre me esqueço: Senadores não são eleitos por quatro anos, mas por OITO. Ou seja, vamos escolher bem, né?

A cada quatro anos votamos em Senadores porque, mesmo o mandato sendo de oito anos, a renovação acontece a cada quatro anos, na proporção de 2/3 e 1/3. Isso significa que este ano votaremos em apenas um Senador e, nas próximas eleições, em dois.

O Senado, com a Câmara dos Deputados, compõe o Congresso Nacional (sim, aquele de Brasília). Mas enquanto a Câmara representa o povo, o Senado representa os Estados.

Na hora de escolher o seu Senador, há uma coisa que você também precisa levar em consideração: os suplentes (ou os “substitutos” daquele Senador). Cada Senador é eleito com 2 suplentes na chapa.

Uma importante função do Senado é a de julgar crimes de responsabilidade. Por isso é importante que a constituição do Senado também seja diversificada, contando com representantes de diversas frentes e partidos, garantindo que não sejam defendidos os interesses de apenas uma parcela da população e dos políticos.

O Senado ainda aprova (ou não) os nomes indicados ao STF, o Procurador-Geral da República e os Presidentes e Diretores do Banco Central. Nomes que influenciam enormemente a gestão de recursos nacionais e a fiscalização do andamento das leis que nos regem.

Claro que o Senado também tem o seu site, no qual é possível verificar o que anda acontecendo por lá e o que podemos esperar dos próximos Senadores eleitos.

O número dos Senadores possui somente três dígitos (os dois primeiros são o do partido).

O que faz um Governador?

O Brasil é um país imenso e os cargos apresentados até aqui podem parecer distantes demais da nossa realidade.

Dá um sentimento de impotência perceber que há tanto poder nas mãos de pessoas que nem sempre estão realmente preocupadas com a população, mas apenas com a possibilidade de tirar vantagem de tudo. Por isso é importante escolher com consciência e de acordo com os seus ideias.

Mas se pensar no Brasil como um todo pode parecer uma missão impossível, que tal começar prestando mais atenção no seu Estado? Este ano, além dos Deputados Estaduais, também iremos escolher novos Governadores, ou seja, as pessoas responsáveis por administrar e representar o Estado em ações jurídicas, políticas e administrativas. Além disso, uma das principais responsabilidades do Governador é a segurança pública, assunto tão em alta em nosso país.

O Governador também controla as finanças do Estado e é responsável por buscar mais verba no Governo Federal para os investimentos necessários na infraestrutura do Estado (como saúde e educação).

Como sempre, vale dar uma olhada no site do Governo do seu Estado (aqui está o de São Paulo) e, claro, nas propostas de cada candidato, dando maior atenção aos pontos que você considera essenciais.

Para votar em um Governador você precisa de apenas dois dígitos. Ah, é bem importante também analisar não apenas o candidato em si, mas o seu vice! Os dois são eleitos juntos e é bem comum que, em algum momento, o vice assuma o cargo.

O que faz o Presidente da República?

E finalmente chegamos nele, o cargo de maior destaque (mas, como espero que tenha ficado claro, não necessariamente o único de real importância nestas eleições).

Dentre as funções do Presidente, temos: gerir a administração federal; criar e executar políticas públicas e programas governamentais; sugerir, vetar ou sancionar leis; escolher ministros; receber autoridades estrangeiras; representar o país no exterior.

São muitas atividades, é verdade, mas é preciso lembrar que nada disso é feito de maneira solitária. Então, sim, o Presidente deve ser bem escolhido porque ele é o retrato da nossa sociedade, mas ele precisa de toda uma equipe que também seja o retrato da nossa sociedade.

O ideal, portanto, é que, para que você possa realmente escolher aquele candidato que te representa, você leia a proposta de governo de cada um. Este é um documento disponível no site do próprio Tribunal Superior Eleitoral e você pode consultá-los clicando no nome de cada candidato aqui.

Para acompanhar de perto os trabalhos do Presidente da República e os rumos do nosso país, o site essencial é esse aqui.

Uma vez mais, também é muito importante olhar não apenas para o candidato em si, mas também para seu vice. E, nas urnas, você precisará de dois dígitos para votar no candidato escolhido.

Cola eleitoral

Como mostrado ao longo deste post, este ano precisaremos votar para cinco cargo diferentes.

É importante lembrar que na cabine eleitoral não é permitido o uso de celular, então o ideal é pegar o bom e velho papel para fazer a sua colinha eleitoral. Melhor ainda se ela já estiver na ordem certa, porque aí é só digitar, conferir e confirmar.

Então, depois de analisar propostas e escolher (com sabedoria) os seus candidatos, anota aí:

  • Deputado Federal: XXXX (4 dígitos)
  • Deputado Estadual: XXXXX (5 dígitos)
  • Senador: XXX (3 dígitos)
  • Governador: XX (2 dígitos)
  • Presidente: XX (2 dígitos)

Conclusão

Peço desculpas por esse post imenso, mas eu realmente precisava fazer isso, até para ter mais claro o que eu, como cidadã, tenho de fazer nesta (e nas próximas) eleição.

Com certeza faltou muita informação aqui, mas o nosso sistema político é realmente muito complexo e, faltando tão pouco tempo, não seria possível destrinchar todo o necessário.

A verdade é que deveríamos aprender isso aos poucos, na escola, mas a que político interessa que possamos votar com sabedoria, não é mesmo?

E se me permite um pedido (para além do pedido de desculpas), vote com consciência. Vá as urnas sabendo o que está fazendo e, mais ainda, sabendo que está escolhendo por você, de acordo com o que há de verdade em seu coração. Não acredito que o Brasil seja um país de ódio e preconceito, mesmo depois de ter visto de tudo um pouco nos últimos tempos.

Lembre-se que o voto é secreto e que você não deve satisfação para ninguém sobre as suas escolhas, então não aceite coerções e vote de consciência limpa.

No dia das eleições, você não tem obrigação alguma de vestir qualquer coisa que indique o seu voto e se alguém te perguntar, você também não tem obrigação de responder.

Por mais clichê que seja, a mudança começa com cada um de nós. E a política não acaba nas urnas, mas também no acompanhamento daquilo que vem sendo feito e na nossa manifestação de (in)satisfação com os rumos das coisas.

Por isso, também deixo aqui um convite que fiz, em meu Facebook, lá em 2018: ao longo dos próximos quatro anos (e dos subsequentes), independentemente de quem estiver no poder, procure acompanhar os sites que eu trouxe ao longo deste post (ou aqueles dos governos de seu Estado) e não se cale diante daquilo que não está de acordo com o prometido durante as campanhas eleitorais ou que não está de acordo com os nossos direitos.

Antes eu do que nós — Grazi Ruzzante

Título: Antes eu do que nós 
Autora: Grazi Ruzzante 
Editora: Rocket Editorial 
Páginas: 328 
Ano: 2022

Acho que a resenha desse livro que mexeu tanto comigo tem de ser lida ao som da música que tanto mexe comigo. Então aperta o play aqui e vem descobrir mais sobre Antes eu do que nós.

“— Amiga… — Ela respira fundo antes de continuar. — A vida não é uma comédia romântica. Vai doer e não vai fazer sentido de vez em quando”

É engraçado como a (Be)Tina, protagonista desta história, poderia ser (e talvez seja) qualquer uma de nós: uma mulher incrível que não consegue enxergar isso, principalmente depois de tantas desilusões (amorosas, mas não só). 

E o melhor: ela é professora (de artes). Muito gente como a gente (ou ao menos como eu). E claro que isso contribuiu para ainda mais identificações ao longo da leitura.

“Professor nem é gente, até porque fazer planejamento em pleno domingo tá mais próximo de bicho do que de ser humano”

Em mais uma fossa, porém, Tina topa sair com Beca, sua melhor amiga, para uma balada LGBTQIA+. E o que deveria ser só diversão, sem pretensão alguma, vira mais uma história para Tina.

“Eu voltaria os ponteiros de todos os relógios da cidade só para nos dar mais alguns minutos juntos”

Sim, porque é nessa balada que ela conhece Caio, que também é protagonista nesta obra. 

“Ele me faz querer derrubar todos os muros”

Ler a história desses dois, juntos ou separados, é como ver uma sessão de terapia se desenrolando diante dos nossos olhos, pois há muito amadurecimento e muitas lições.

“Todos deveriam saber que têm essa escolha. Todos deveriam ter a chance de escolher de novo”

Aliás, ao longo da narrativa, que é em primeira pessoa, há pequenas “notas” deixadas pelos personagens. E aquelas deixadas por Tina chama-se justamente lições

“Lição de Tina: cabe mais contradição no nosso coração do que a nossa mente entende”

As notas de Caio chamam-se nota mental e, ao final da obra, Beca e João — personagem que se torna muito amigo de Caio logo no início do livro — também ganham voz e suas notas chamam-se, respectivamente, veredito da Beca e babado do João. O mais interessante, como talvez já tenha dado para perceber, é como o nome dado a esse espaço diz tanto sobre a personalidade de cada um.

“Hoje eu entendo que somos feitos das nossas histórias”

A escrita da Grazi vicia e a leitura dessa obra é extremamente leve e rápida. Mas não se engane: há muita profundidade, muitos pontos que podem doer de alguma forma e, como eu já mencionei, muitas reflexões que podem surgir ao longo dessas páginas.

“Você nunca conhece direito quem uma pessoa é de verdade até descobrir que tipo de coisa ela chama de mi-mi-mi”

Além disso, não são apenas os protagonistas que são muito bem construídos aqui, mas os personagens secundários também. Ficamos querendo saber mais e mais sobre cada um e é evidente como nenhum ali é supérfluo. É por meio também da história deles que Grazi insere temas como aceitação, preconceito, abuso, abandono…

“Eu sou um livro fechado e criptografado, mas altamente previsível. O João é um livro aberto e explícito — às vezes muito mais do que eu gostaria —, mas com uma aventura diferente a cada capítulo”

E se você está lendo essa resenha e pensando que esse é só mais um daqueles romances água com açúcar que eu amo ler e resenhar por aqui, preciso te dizer uma coisa: não, não é nada disso.

“O meu mar e o rio dela se encontram. Água doce e salgada, misturando cores, gostos e dores num só oceano”

Tem romance sim. Inclusive eu me apaixonei pelo Caio no começo do livro, mas eu sabia que alguma bomba estava por vir, afinal, era apenas o início da história. Dito e feito: a bomba veio e eu mudei de opinião.

“Como tanta coisa cabe em duas pessoas? Como tantos momentos cabem em tão pouco tempo?”

Mas não é só por isso que essa história é diferente de tantas outras. Há um plot que torna o final realmente inesperado. Necessário (ainda que a gente não queira ele dessa forma), mas inesperado.

“Alguns segredos só clareavam de verdade na escuridão do quarto”

Antes eu do que nós me fez abrir um sorrisão, me deu um leve aperto no coração, me fez querer abraçar o mundo (e os personagens). Uma leitura que acho que todo mundo deveria fazer

E se você pretende ouvir o meu conselho, adquira seu exemplar diretamente com a Grazi, ou então através do site da Rocket Editorial. Você também pode ler em ebook, basta clicar no link que deixarei abaixo.

Ah, aproveita e já segue a autora nas redes sociais (Instagram | Twitter) e, claro, vem conferir a resenha de Querida quarentena, obra em formato digital, disponibilizada gratuitamente pela Grazi.

Atualidade em Romeu e Julieta [tradução 27]

Leia este post ao som de E daí (Gal Gosta)

Outro dia, movida por uma curiosidade repentina, resolvi preparar uma aula sobre Romeu e Julieta.

A pergunta que havia surgido em mim era sobre o porquê da história se passar na Itália, tendo sido escrita por Shakespeare. 

Em minhas pesquisas para a preparação da aula em questão, encontrei textos interessantes e um, especificamente, acabei separando para trazer para este espaço.

Por isso, a tradução de hoje, que você pode ler abaixo, é do artigo Attualità di Romeo e Giulietta, escrito por Goffredo Fofi e publicado em 20 de outubro de 2016 no Messaggero Santo Antonio, tendo sido atualizado, ainda, em junho de 2017.


Uma amiga que trabalha em uma escola de italiano para jovens imigrantes me conta sobre os preconceitos étnicos contra os quais tem que lutar, entre alunos asiáticos, africanos, norte africanos, latino americanos, europeus do leste e do sul, mas também, por sorte, sobre as histórias de amor que aconteceram entre alguns deles e terminaram bem.

Isso provavelmente também se deva ao grande esforço que ela e seus colegas empregam para quebrar aquelas barreiras. Ela me conta com satisfação de alguns casais que souberam resistir aos preconceitos, mesmo àqueles, os mais duros de combater, das próprias famílias. De vez em quando o amor vence o preconceito e qualquer outro conflito entre “famílias” e a história de Romeu e Julieta tem um final feliz. Viva.

Aquela de Romeu e Julieta, na versão que nos deu William Shakespeare, é certamente uma das histórias mais contadas no mundo, talvez, quem sabe, a mais contada de todas. Pelo simples motivo de que continua a ser uma história verdadeira, um daqueles tropeços destinados a se reproduzir na vida das sociedades e das comunidades, sempre e onde for. Existem centenas de versões dessa narrativa na história da literatura (e da fábula), a inglesa vem de fontes italianas, de Massiccio Salernitano, de Luigi da Porto, de Matteo Bandello.

A história de dois adolescentes que se amam mas pertencem a duas famílias ou classes sociais ou etnias ou vilas ou partidos ou países em guerra ou simplesmente a bairros de uma mesma cidade, a grupos que entre eles se odeiam, rivalizam, conflituam, reproduziu-se e se reproduz nas situações mais dispares e nas mais diferentes épocas.

Hoje, entre italianos e estrangeiros ou entre estrangeiros de diversas proveniências, de diversos países, de diversas cores de pele, de diversos hábitos culturais e, principalmente, aliás, de diversos credos religiosos, a vitória do amor sobre o preconceito é possível, mas geralmente, muito geralmente, esse amor tem um fim trágico ou, em alguns casos, infeliz, e deixa sozinhos dois jovens que poderiam ter se tornado um casal, um exemplo de uma convivência feliz e possível. Nas artes — no cinema, no teatro, nos quadrinhos, nos romances — raramente acontece dessas histórias acabarem bem: ele pobre, ela rica; ele branco, ela negra; ele chinês, ela latina; ele protestante, ela católica; ele sueco, ela siciliana; etc. Sobretudo, hoje, ele cristão, ela muçulmana. Algumas vezes acaba bem e se trata, nesse caso, de uma comédia e não de uma tragédia.

Li ou vi histórias, romances, filmes nos quais essas histórias acabam mal. Mas também ouvi músicas de bêbados sobre jovens comunistas e garotas cristãs democráticas, e li ficções nova iorquinas do final do século XIX sobre o amor entre um jovem imigrante hebreu e uma irlandesa, no qual os bate-boca eram explosivos, mas nos quais, graças ao amor, tudo acabava bem.

Hoje a diferença mais grave é aquela entre cristãos e mulçumanos. Mas mesmo aqui algumas histórias acabam bem, e os Capuleto e os Montecchio se reconciliam não no funeral dos filhos, mas no casamento deles. 


E então, qual é a sua opinião sobre isso? Ainda temos muito a melhorar como pessoas e sociedade, não?

Proibida de amar — Tayana Alvez

Título: Proibida de amar — a namorada de mentirinha do CEO 
Autora: Tayana Alvez 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 351 
Ano: 2021

Tem coisa melhor que pegar um livro com altas expectativas, estar tranquila com isso por saber que não vai se decepcionar e definitivamente não se decepcionar?

“Tem coisas na vida pelas quais a gente espera o tempo necessário, não importa quão longo ele seja”

A escrita da Tayana Alvez nos envolve facilmente e eu sempre me surpreendo com a naturalidade que ela insere temas importantes e boas reflexões ao longo de uma história que encanta e desperta, no final das contas, muitos quentinhos no coração.

“Para alguém que passou a vida dando conta de tudo, descansar no amor de outra pessoa foi um desafio”

Em Proibida de amar conhecemos melhor a história da Duda (Eduarda), uma das melhores amigas de Lavínia, de Proibida pra mim.

“O quarteto já passou por muitas fases, boas e sombrias, grudadas e distantes, mas, nos últimos meses, ele me salvou mais vezes do que eu conseguiria contar”

Quem leu Proibida pra mim (leitura não obrigatória para ler esta obra) sabe que Duda é mãe (e que se tornou mãe muito cedo) e que a relação dela com o pai da criança não é nada fácil.

“A Duda já passou por tanta coisa que eu sinto, sinto que preciso estar lá por ela, sabe? Porque ninguém mais vai estar…”

Mas é só neste livro que entendemos o que acontece com ela: o relacionamento de Duda não era nada saudável e isso nos vai sendo revelado enquanto a própria personagem vai se dando conta do quanto isso a afeta, ainda mais quando o filho acaba sendo uma arma nas mãos do desequilibrado pai.

“A gente fica num relacionamento ruim por causa dos momentos bons, né”

A narrativa, em primeira pessoa, é alternada entre Duda e Oliver, um jovem CEO que ainda está lidando com as dores do fim de seu casamento, enquanto se adapta a uma nova cidade, na qual não conhece muitas pessoas.

“Desapaixonar não é uma coisa fácil, muito menos rápida”

Claro que o caminho dessas duas pessoas, quebradas ao seu modo, tinha de se cruzar. Primeiro em um Uber — dirigido pela própria Duda —; depois, graças à Lavínia e ao Daniel.

E é assim que Duda acaba indo à festa que Oliver deu em sua casa, para os funcionários da empresa. E ali surge, como forma de proteção, um namoro de mentirinha entre eles. E também uma amizade. Sentimentos misturados que vão se desenvolvendo de maneira viciante ao longo da narrativa.

“Mesmo que seja uma mentira, ainda é uma delícia”

Os dois protagonistas desta obra são encantadores. A Duda tem a sua força e a sua mania de achar que dá (e que tem de dar) conta de tudo e mais um pouco, enquanto o Oliver é doce, carinhoso e aquele ponto de paz que quem não gostaria de ter, não é mesmo? É, difícil não se apaixonar!

“Não posso prender um homem tão maravilhoso quanto ele numa zona como a minha vida”

Proibida de amar, portanto, consegue falar sobre abandono paternal, gravidez na adolescência, relacionamentos abusivos, sobrecarga feminina, manipulação, cuidado, amizade e tantas outras coisas que somente lendo para se absorver adequadamente. Ah, e tudo isso com um pouco de hot também.

“Estou dizendo adeus, mas não tenho coragem de pronunciar as palavras ainda”

Se é esse tipo de leitura que você está procurando (e, garanto, em algum momento será exatamente o livro que você precisará ler), já clica ali embaixo para garantir seu exemplar. E não deixe de acompanhar o maravilhoso trabalho da Tayana Alvez, seguindo a autora em suas redes sociais (Site | Instagram). 

Outras obras da autora que já resenhei por aqui:

Citações #56 — Resto qui

Gosto de livros que ecoam e ainda me deixam pensando sobre eles mesmo tempo depois de terminar sua leitura.

Resto qui (Marco Balzano), já resenhado neste post, é um desses livros e, felizmente, hoje tenho a oportunidade de revisitá-lo, trazendo para o Blog mais alguns trechos desta obra.

“Credevo che mi potessero salvare, le parole” 

(Eu acreditava que as palavras pudessem me salvar)

A história fala muito — e acredito que deixei isso claro na resenha — sobre (des)pertencimento.

“Ci eravamo abituati a non essere più noi stessi”

(Nós nos acostumamos a não sermos mais nós mesmos)

“– Mamma io voglio andarmene da questo posto. Qui non posso nemmeno più andare a scuola”

(— Mamãe, quero ir embora deste lugar. Aqui não posso sequer ir à escola).

O livro também trata da questão de como a língua que falamos (ou não) é importante no processo acima mencionado.

“In pochi a Curon sapevano leggere, ma nessuno capiva quella lingua che era solo la lingua dell’odio”

(Poucos em Curon sabiam ler, mas ninguém entendia aquela língua que era só a língua do ódio)

“Di fargli imparare una poesia pensai che se non me l’avessero fatto odiare dal profondo delle viscere era una bella lingua, l’italiano. A leggerla mi sembrava di cantare”

(De fazê-los aprender poesia, pensei que se não me tivessem feito odiá-la das profundezas das minhas vísceras, seria uma bela língua, o italiano. Enquanto o lia, parecia que eu cantava)

Como já era de se esperar e imaginar, a obra fala, ainda, sobre as dificuldades do viver.

“Perché vivere vuol dire per forza andare avanti?”

(Por que viver significa, necessariamente, seguir em frente?)

“Nulla è più impietoso della neve che ti cade addosso”

(Nada è mais impiedoso que a neve que cai sobre você)

Uma narrativa, por fim, que nos lembra da pureza das crianças, mesmo em um mudo tão machucado e dolorido.

“Vedrai, ti farà bene stare coi bambini, sono molto meglio degli adulti”

(Você vera que te fará bem estar com as crianças, são muito melhores que os adultos)

Resto qui me apresentou uma Itália que, mesmo estudando tanto sobre o país, eu não conhecia e que, apesar de retratar algo tão triste, era preciso conhecer. Se você quiser saber do que estou falando, não deixe de ler a resenha e, claro, a obra completa.