A teoria de tudo – Jane Hawking

Título: A teoria de tudo
Original: Travelling to infinity: my life with Stephen
Autor: Jane Hawking
Editora: Gente
Páginas: 447
Ano: 2014
Tradução: Sandra Martha Dolinsky e Júlio de Andrade Filho

Dizer que eu adorei esse livro certamente seria mentira, mas não consegui deixar de ler até o fim para entender a visão de Jane Hawking sobre seu relacionamento com Stephen Hawking.

Assisti ao filme homônimo em 2015 e me lembro de ter gostado da história e ter ficado com vontade de ler o livro. 3 anos depois, eu já não me lembrava bem como era descrito o final desse romance — o que me prendeu até a última página — mas o livro me pareceu um pouco mais maçante do que eu esperava.

“Nem três dias, nem três meses e nem mesmo três anos poderiam ter me preparado, ou qualquer outra pessoa, para o que ainda estava por vir”

A teoria de tudo (p.350)

Uma coisa, no entanto, é bem clara e não podemos deixar de mencionar: a vida de Jane Hawking, ao lado de Stephen, não foi nada fácil, e não somente pelo fato da ELA, doença que, aos poucos, foi dominando o corpo de Stephen, mas também por conta de toda a genialidade desse cientista, bem como de seu ceticismo e as difíceis relações interpessoais dele e de sua família.

“A culpa, disse ele, é o risco que se corre esforçando-se sempre para o mais e o melhor; o amor é a única resposta para a culpa”

A teoria de tudo (p.374)

Hoje em dia temos muito mais informações sobre a ELA — Esclerose Lateral Amiotrófica — do que a que existia na época em que Stephen Hawking foi diagnosticado, recebendo uma previsão de poucos anos de vida (que ele superou e muito!). A ELA é uma doença que degenera progressivamente os neurônios motores do cérebro e da medula espinhal, gerando uma fraqueza muscular que, aos poucos, vai paralisando o portador dessa doença. Ainda não há cura para a ELA.

“As expressões no rosto de Stephen eram sempre uma medida muito mais poderosa de suas emoções do que suas palavras, e nessas ocasiões era o sorriso em seu rosto que transmitia sua alegria inconfundível por seus filhos”

A teoria de tudo (p.154)

O livro está dividido em 4 partes e o que me fez não gostar tanto dele é que a escrita, por vezes, é um pouco confusa. Apesar das mais de 400 páginas, parece que algumas coisas acontecem do nada. Mal fica claro que Jane e Stephen estão namorando e, de repente, eles se casam. O segundo filho do casal também, é mencionado de maneira confusa em um primeiro momento. Mas também não podemos nos esquecer que esse livro foi uma espécie de libertação de Jane. Ela precisava escrever o que escreveu, da forma como fez, para entender tudo o que viveu.

“Como eu amava Stephen, eu queria me dar bem com sua família, gostar deles e ser amada por eles, e não conseguia perceber o motivo de esse relacionamento em particular ser tão difícil”

A teoria de tudo (p.93)

Quando eu defendo a Jane aqui e digo que ela não teve uma vida fácil após casar-se com Stephen, estou me apegando a inúmeros momentos do livro em que eu mesma fiquei angustiada com tamanha pressão em cima dela, tamanha falta de reconhecimento de todos os seus esforços, tamanha repressão.

“O simples fato de ser capaz de racionalizar o medo não me fez lidar com isso com mais facilidade, porque eu tinha vergonha de admitir essa fraqueza, em especial quando nossa vida era estritamente governada por aquela corajosa máxima de Stephen — que, se houvesse uma doença física em casa, não havia espaço para problemas psicológicos também”

A teoria de tudo (p.124)

Uma mente brilhante nem sempre revela um ser humano brilhante. E claro que a doença também teve um papel de grande influência na vida desse jovem casal, que apesar de toda a adversidade, no entanto, conseguiu constituir uma linda família, com 3 filhos, ter uma casa, inúmeros amigos. E todos esses fatores, sem dúvidas foram essenciais para Jane.

“Por medo de machucá-lo, tentei intuir seus sentimentos, sem forçá-lo a expressá-los, estabelecendo assim, inconscientemente, uma tradição de não comunicação que se tornaria intolerável com o passar do tempo”

A teoria de tudo (p.41)

A partir da terceira parte do livro a insustentabilidade do relacionamento entre Stephen e Jane fica ainda mais evidente. Chega a ser angustiante ler essas páginas.

“Era óbvio: estávamos vivendo à beira de um precipício. Ainda assim, é possível, mesmo à beira de um precipício, ficar raízes que penetram rochas e pedras, que se insinuam até mesmo nos solos mais pobres para formar uma base suficientemente segura para os galhos acima, por mais atrofiados que sejam para produzir folhagem, flores e frutos”

A teoria de tudo (p.243)

A quarta parte ainda revela muitos momentos de tensão, até que a situação de ambos se resolve, de uma forma que, creio eu, foi a melhor para cada um. E a paz vai aos poucos se instaurando. O bacana é que, ao final, apesar de todo o peso dessa narrativa, terminamos a leitura mais leves, com a sensação de que as coisas se resolveram. De que houve uma espécie de “felizes para sempre”.

Livro disponível na Amazon por R$34,71.

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O paraíso são os outros – Valter Hugo Mãe

Título: O paraíso são os outros 
Autor: Valter Hugo Mãe 
Editora: Biblioteca Azul 
Páginas: 64
Ano: 2018

Que tarefa difícil que é escrever sobre um livro tão pequeno, mas tão cheio de um conteúdo tocante. Narrado por uma menina, O paraíso são os outros fala sobre o amor; fala sobre como uma pequena garota enxerga os casais, tanto de humanos quanto de animais.

“O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares”

O paraíso são os outros (p.9)

O amor não é fácil, bem sabemos, mas ao ser retratado pelos olhos de uma menininha — que não sabemos ao certo a idade — podemos compreender novos âmbitos desse sentimento, aprendendo sobre amor, lealdade, respeito e reciprocidade.

“Há casais que se conhecem num transporte público, numa praça ou no trabalho e ficam. Ficam casais, quero dizer. Dão abraços, trocam números de telefone, assistem a filmes a preto e branco, comem mais doces, reluzem”

O paraíso são os outros (p.23)

A jovem narradora também nos ensina sobre enxergar o mundo com outros olhos:

“Ser feio é complexo e pode ser apenas um problema de quem observa”

O paraíso são os outros (p.13)

Mas claro que não podemos esperar que uma pessoa assim tão jovem saiba tudo sobre o amor. Ninguém sabe, aliás. Com ela, no entanto, vamos descobrindo — ou nos aprofundando — nas maravilhosidades desse sentimento.

“A coisa mais divertida de perceber: os casais não eram família antes. Eram gente desconhecida que se torna família”

O paraíso são os outros (p.26)

A narradora, que espera encontrar seu amor quando “for grande”, para quem sabe entender melhor esse sentimento, nos fala com muito lirismo e, ao mesmo tempo, de maneira simples, como só uma criança seria capaz de falar.

“Estou cada vez mais certa de que o paraíso são os outros. Vi num livro para adultos. Li só isso: o paraíso são os outros. A nossa felicidade depende de alguém. Eu compreendo bem”

O paraíso são os outros (p.34)

O livro também traz ilustrações simples — como pequenos esboços — feitas pelo autor que, ao final, explica o que elas significam.

Se interessou por esse lindo livro (a edição da Biblioteca Azul é capa dura e a borda das páginas é dourada)? Compre o seu por R$30,36.

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Reza a lenda – DNAIPES

Reza a lenda - DNAIPES

Mais uma daquelas músicas que descobri por acaso (dessa vez pelo Spotify), no momento certo: Reza a lenda com seu ritmo gostoso e sua letra que parece uma história logo conquistaram meu coração.

A verdade é que eu sequer conhecia a banda, que surgiu em 2002, sem grandes pretensões. As músicas, que misturam um pouco do swing do funk com o peso do rock, falam sobre o cotidiano. Além disso, a banda sempre procura passar uma mensagem positiva em suas letras.

Reza a lenda faz parte do disco “Um velho espelho”, lançado em 2016 (pois é, e só em 2018 que descobri essa música!). Mas vamos ao que interessa?

Reza a lenda que as crianças andavam pelas ruas
E dormiam com historinhas de ninar
Reza a lenda que houveram adolescentes de armadura
E foram contra a ditadura militar

Pensar que era possível brincar pelas ruas (ainda que nas periferias a gente veja isso até hoje), parece lenda mesmo, não? E mesmo as historinhas de ninar, não nos trazem uma sensação de paz e de calmaria há muito perdidas? Vale lembrar que a DNAIPES é uma banda paulistana, com membros acostumados (ou não) ao caos da grande cidade.

Sobre ditaduras… Prometo tentar parar de trazer músicas sobre o tema, mas sabe como é, né, às vezes é bom lembrar do que passou…

Reza a lenda que as pessoas decoravam faroeste
E era chato quem não sabia cantar
Reza a lenda que ouvi de um sonhador
Que o presente esta carente de amor

Adoro livros que falam de outros livros e músicas que falam de outras músicas. Realmente, hoje em dia as pessoas já não conhecem tanto Faroeste Caboclo e muitos não a sabem de cor (eu não sei…). Mas o grande ponto desses versos é: o presente está carente de amor?? Qual é a opinião de vocês sobre isso? Em minha opinião, em alguns aspectos sim, caso contrário não teríamos tanta violência e tanto ódio circulando entre nós.

Reza a lenda que os livros eram a internet
Que as cartas eram nosso celular
Reza a lenda que os homens já sofriam de pensar
Em tirar uma garota pra dançar
Reza a lenda que as pessoas se encontravam mais
E cultivavam o amor
Reza a lenda que ouvi de um sonhador
Que o presente esta carente de amor

O que eu gosto em Reza a lenda não é só esse refrão que fica ecoando em nossas mentes, mas também o fato de que ela fala de passado e presente. E de coisas atemporais. Se nossa sociedade passou por intensas modificações em pouco tempo (com a internet e os celulares), certas coisas não mudam jamais, como a timidez do ser humano, o medo de ser rejeitado, de dar o primeiro passo em direção ao amor.

Todo dia é dia pra lembrar que temos tanto a fazer
Seja a diferença tudo pode estar com você, eu sei

E para fechar a música com chave de ouro, uma mensagem para não nos esquecermos. Como aquela frase que até já virou clichê: seja a mudança que você quer no mundo (Mahatma Gandhi).

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A memória do mar – Khaled Hosseini

Título: A memória do mar
Original: Sea Prayer
Autor: Khaled Hosseini
Ilustrador: Dan Williams
Editora: Globo Livros
Páginas: 64
Ano: 2018
Tradução: Pedro Bial

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Passadas as festas de final de ano e tendo iniciado 2019, eu não poderia deixar de começar o ano com uma resenha de A memória do mar, que é uma obra linda: semelhante a um livro infantil, os textos são curtos (aliás, são como versos) e as páginas completamente ilustradas. Mas longe de ser uma história para crianças, A memória do mar foi inspirado em Alan Kurdi.

Para quem (assim como eu) não sabe apenas pelo nome quem é Alan Kurdi, estamos falando do menininho sírio — de apenas 3 anos de idade — que morreu em praias turcas e cuja imagem rodou o mundo. Sua morte deu-se em decorrência do naufrágio do barco em que Alan e sua família navegavam, tentando fugir de uma Síria em guerra.

“mas aquela vida, aquela época, parece um sonho agora, até para mim, um murmúrio que há muito tempo se dissipou”

A memória do mar

A memória do mar é como uma carta, escrita de pai para filho. Entre mostrar o que poderia ter sido e o que realmente foi, este livro nos faz enxergar a dura realidade das crianças que vivem em situações como a de Alan, perdendo logo cedo a infância e vivendo na pele uma cruel realidade.

“Você sabe que a cratera feita por uma bomba pode virar uma piscininha”

A memória do mar

A combinação entre as palavras de Khaled Hosseini e as ilustrações de Dan Williams trazem ao leitor um livro cheio de lirismo e que transmite muito bem aos leitores os sentimentos nele contidos. As páginas não são numeradas e nem há necessidade disso: para além do livro ser curto, números nada significam perto do que essa história quer nos transmitir.

“Segure minha mão. Nada de mal vai acontecer”

A memória do mar

Ficou curioso com esse lindo livro, que além de tudo é capa dura? Compre por apenas R$20,90. E saibam que parte dos recursos angariados com a venda desse livro é revertida para a Fundação Khaled Hosseini e para a Agência de Refugiados das Nações Unidas (UNHCR).

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O bêbado e o equilibrista – João Bosco & Aldir Blanc

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O bêbado e o equilibrista  é mais uma música importante  na História do Brasil e também ficou famosa na voz de Elis Regina (não deixe de conferir Como nossos pais). Esta música foi lançada em 1978 e, apesar do forte teor político, nasceu do desejo de João Bosco em homenagear Charles Chaplin (explicitamente citado na figura de Carlitos), que havia morrido no Natal do ano anterior.

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

Passados 40 anos dessa música, não podemos negar que ela ainda carrega certa atualidade, presente desde sua primeira frase: “caía a tarde feito um viaduto”. Quem mora em São Paulo ou acompanha as notícias daqui sabe que muitas pontes precisam de manutenção urgente e que, recentemente, numa madrugada de novembro, um viaduto cedeu e encontra-se interditado até hoje.

Mas O bêbado e o equilibrista tornou-se hino da anistia por ter uma letra extremamente representativa.

E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil

Na canção, o “mata-borrão” é, na realidade, um “apelido” dado ao DOI-CODI, o órgão máximo da repressão que existiu durante a ditadura militar brasileira. Sua função era combater os “inimigos internos”. Era o DOI-CODI, portanto, que originava as “manchas torturadas”.

Um nacionalismo exacerbado, a ponto de fazer “irreverências mil” só era imaginável na figura de um bêbado, e a figura do chapéu-coco nos remete, novamente, a Charles Chaplin em seu personagem bêbado, Carlitos.

Meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

Esses são, em minha opinião, os versos mais importantes e históricos dessa música, versos em que entram verdadeiras figuras brasileiras que marcaram o período de lutas:  o “irmão do Henfil” era Betinho, ativista brasileiro que lutou pela reforma agrária e ficou muito conhecido pelo projeto “Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida”; as “Marias” poderiam ser tantas mulheres, aqui representadas pela mãe de Manuel Fiel Filho, torturado e morto durante a ditadura militar; o mesmo acontece com as “Clarisses”, mulheres representadas pela figura da esposa do jornalista Vladimir Herzog, também torturado e morto durante a ditadura. As lágrimas, portanto, não precisam ser explicadas.

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Se voltarmos ao título da música veremos que além do bêbado, que já apareceu algumas vezes na canção, temos também a imagem de um equilibrista. Apenas nos versos finais chegamos a essa personagem: o que se equilibra, apesar de tudo, é a esperança. Na tênue linha que existe, a esperança resiste, ainda que o futuro seja imprevisível.

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

Ao trazer a figura de Carlitos e do equilibrista, esta música reúne imagens do campo artístico, que é um dos primeiros a sofrer em tempos de repressão. Mas “o show de todo artista tem que continuar” e eles o fazem com maestria, mesmo diante das situações mais desfavoráveis.

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A Cidade do Sol – Tommaso Campanella

Título: A cidade do Sol
Original: La città del Sole
Autor: Tommaso Campanella
Editora: Vozes de Bolso
Páginas: 57
Ano: 2014
Tradução: Carlo Alberto

O livro A Cidade do Sol é uma obra extremamente curta e, ao mesmo tempo, densa. Se por um lado o fato dele ser construído em forma de diálogo faz com que a leitura pareça leve, por outro lado é preciso estarmos atentos às falas e descrições nelas contidas. O diálogo em questão se dá entre os dois únicos personagens do livro: um Hospitalário (Cavaleiro da Ordem dos Hospitalários de São José de Jerusalém) e um Genovês, que viajara com Colombo.

O cavaleiro, ao encontrar com o Genovês, pede que este lhe conte tudo o que vira durante suas navegações. O Genovês — que é quem mais fala ao longo do livro — começa a contar alguns infortúnios da viagem e logo chega à Cidade do Sol, passando a descreve-la conforme as perguntas do Hospitalário.

Por meio desse diálogo, Campanella consegue idealizar uma cidade metodicamente organizada. Um exemplo dessa organização sistemática é o fato de que todos os habitantes da Cidade do Sol trabalham e fazem isso para um bem comum.

“Entretanto, todos têm o necessário. E entre eles o amigo se conhece nas guerras, nas enfermidades, nas ciências, nas quais se ajudam e ensinam uns aos outros”

A cidade do Sol (p.12)

A primeira pergunta do Hospitalário é “como é construída essa cidade? Como ela é governada?”, ao que se segue uma descrição detalhada da forma física da cidade, bem como de seu complexo governo: o Príncipe Sacerdote — que se chama Sol (ou Metafísico) — é quem governa a cidade, assistido por três príncipes — Pon, Sin e Mor (Poder, Sabedoria e Amor). Só os nomes daqueles que governam a Cidade do Sol já diz muito sobre a mesma.

Além disso, na cidade ainda há os Magistrados:

“A cada virtude que nós temos, correspondem para eles um magistrado: há um que se chama Liberalidade, outro Magnanimidade, outro Castidade, um que se chama Fortaleza, outro Justiça criminal e civil, outro Solércia, outro Verdade, outro Beneficência, outro Gratidão, outro Misericórdia etc.”

A cidade do Sol (p.13)

Esses Magistrados são escolhidos pelos Príncipes, bem como pelos mestres de cada arte. Como todos os cidadãos são igualmente educados em todas as artes, escolhe-se para ser Magistrado aquele que tem maior aptidão.

Um ponto que deve ser destacado sobre a Cidade do Sol é o fato de que até mesmo as relações são controladas. A geração (ou reprodução) segue regras importantíssimas, que visam à manutenção de uma qualidade — ou um equilíbrio —das novas gerações. Bizarro, não? Mas não é só isso! Não são as pessoas que escolhem o próprio parceiro e caso não haja reprodução entre um casal estabelecido, trocam-se os parceiros. E tudo isso controlado pelo tal Príncipe Mor. A tal cidade perfeita certamente desconhecia o que era amor de verdade, mas ainda assim era considerada uma cidade feliz.

Por outro lado, tirando essa questão esquisitíssima, a Cidade do Sol parece viver sob uma espécie de comunismo que deu certo:

“Mas entre eles, distribuindo-se os ofícios, as artes e as labutas entre todos, cada um não trabalha mais do que quatro horas por dia, o tempo que sobra é utilizado para aprender brincando, disputando, lendo, ensinando, caminhando, sempre com alegria.

A cidade do Sol (p.25)

Há ainda muitos outros assuntos que são abordados ao longo do livro, que, no entanto, tem um final abrupto, pois o Genovês deve partir e não tem mais tempo de contar tudo o que vira.

Apesar de ser uma obra um tanto quanto antiga — Tommaso Campanella publicou A cidade do Sol em 1602 — este livro traz muitas críticas que ainda fazemos em nossa sociedade ou que ao menos conseguimos compreender, como a crítica ao ócio (puro e simples) e aos governantes que nada sabem, ou então à riqueza desmedida por parte de alguns, bem como a ostentação.

Ficou com vontade de ler esse livro? Compre aqui, por apenas RS8,22

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Artigo: O Sagrado e o Profano na Urbanidade

Título: O Sagrado e o Profano na Urbanidade: Borges — Análise do Poema "Carnicería"
Autor: Victor de Lima Torquato de Andrade 
Revista La Junta, v.2, nº 1
Páginas: 6
Ano: 2018
Disponível aqui

Victor

Jorge Luis Borges é, muito provavelmente, um nome que você já ouviu falar em algum momento de sua vida. Sendo sua obra vasta, no entanto, é de se esperar que ainda haja muito a ser explorado. E é justamente isso que encontramos no artigo O Sagrado e o Profano na Urbanidade: Borges — Análise do Poema “Carnicerías” que analisa um poema de Borges pouco conhecido e estudado.

O título do artigo, por si só, já é algo capaz de despertar a atenção do mais variado tipo de leitor, destacando que o artigo trata de temas interessantes como “sagrado”, “profano” e “urbanidade”. E, para além disso, a atenção desse leitor é capturada logo nas primeiras linhas, pois podemos perceber que não se trata de um simples artigo científico, mas de um artigo dotado de certo lirismo, além do fato do autor manter um diálogo com o leitor.

Em O Sagrado e o Profano na Urbanidade: Borges — Análise do Poema “Carnicerías”, Victor analisa — ou, para usar as palavras dele “disseca” — verso a verso o poema de Borges, de maneira nem um pouco monótona. O interessante é que podemos entrar em contato com uma poesia pouco explorada de Borges de maneira profunda, ainda que em poucas páginas. Claro que o fato do poema ser breve nos permite a chegar a uma análise tão detalhada e interessante, mas sem dúvidas a forma com que Victor nos conduz a essa análise é essencial para que possamos obter um bom conhecimento do poema em questão. É interessante que, ao ler o artigo, nos damos conta inclusive da precisão na escolha vocabular de Borges.

Carnicerías  faz parte do primeiro livro de poesias de Borges: Fervor em Buenos Aires. Uma obra realmente esquecida por seus leitores e que foi publicada em 1923. No artigo que aqui apresento, Victor menciona também a relação da intensidade que há no poema e no título do livro ao qual ele pertence.

Este artigo é realmente interessante e — coisa rara no mundo acadêmico — pouco maçante. Chegar a um resultado desses não é tarefa para qualquer um: Victor tem intimidade com a poesia, sendo ele mesmo escritor de belíssimas poesias e, por isso, foi capaz de ir direto ao ponto do poema, de maneira clara e linda. Publicar esse artigo foi outra tarefa árdua, motivo pelo qual faço questão de trazê-lo à tona! Não deixem de conferir e comentar aqui o que acharam!

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Trem-bala – Ana Vilela

just wanted to say

Me lembro até hoje de estar distraída no carro enquanto as músicas iam tocando no rádio, uma após a outra, até que algo chamou a minha atenção: foi a letra de Trem-bala, a música que, desde então, tornou-se uma das minhas preferidas (ao menos em português).

Fui tentando memorizar alguns trechos da música, para mais tarde poder ouvi-la e ver se era tudo aquilo que me parecera ser. Era muito mais: Trem-bala fala sobre as pessoas que amamos; sobre viver a vida de maneira leve, aproveitando os pequenos momentos que ela nos propicia; sobre saber que as coisas dão certo e dão errado, mas que é o todo que nos faz chegar onde queremos… Enfim, é uma música sobre viver, mas de maneira a aproveitar o que a vida tem para nos oferecer.

Não é uma letra difícil de entender e não é a toa que Trem-bala fez muito sucesso. Você certamente já ouviu essa música em algum momento:

Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós
É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar
Então fazer valer a pena
Cada verso daquele poema sobre acreditar
Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo
E também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo em todas as situações
A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe pra perto de mim
Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar
E sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar
Também não é sobre
Correr contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera a vida já ficou pra trás
Segura teu filho no colo
Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

E não bastasse essa música incrível por si só, meu amigo ainda me mandou uma versão dela em Libras e é de arrepiar:

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Linha Tênue – Alfer Medeiros (org.)

Título: Linha tênue - contos sobrenaturais, de suspense e de terror
Organizador: Alfer Medeiros
Editora: Andross
Páginas: 191
Ano: 2017 (1º edição)

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Se você não se importa de começar a duvidar da própria sanidade e adora contos de arrepiar, recomendo Linha tênue que, além de tudo, traz textos escritos por brasileiros que ainda podem ir muito longe.

Ao todo são 34 contos carregados de tensão, medo, bizarrices, mortes. E é impressionante como as histórias não são nem um pouco repetitivas, cada autor escolhendo um caminho totalmente diferente do outro. Também é interessante perceber como alguns dos elementos de terror são metáforas para sentimentos que podemos ter ao longo de nossas vidas, ou situações difíceis que podemos vivenciar.

Abaixo, trarei o título de todos os contos (em ordem) e comentários sobre alguns deles.

1. As crianças do Pandiá Calógeras

Sobre esse conto eu gostaria de destacar que ele me lembrou um pouco Extraordinário, ao retratar o primeiro dia de uma criança em uma nova escola. Além disso, há uma passagem que é basicamente o que o pai de August diz sobre a ida do filho à escola:

“Nesse momento eu tive a certeza de saber como um boi se sente quando vai para o abatedouro”

Linha tênue – p.12

O final desse conto é bem aberto e chocante. Ainda mais porque é o primeiro conto do livro e ainda estamos nos ambientando ao tipo de narrativa que encontraremos pela frente.

2. Banquete

3. Edward

4. Doce liberdade

Esse conto achei um pouco confuso e, ao mesmo tempo, extremamente assustador. Se bem que praticamente todos tem algo de realmente assustador!

5. Marina

Novamente fazendo relações literárias, esse conto me lembrou muito a história de Vitor, de Os quase completos. Acho que com essa passagem dá até para ter uma ideia:

“Várias pessoas já me disseram para seguir com a minha vida, mas não consigo”

Linha tênue – p.33

6. Eu vim conversar

Achei esse conto bem descritivo, mas sem ser chato!

7. O último dia

Esse eu achei muito bacana, pois fala de bullying.

“E ele sentia medo. E o medo crescia em seu peito, como uma erva daninha, dominando-o, e quando a sua mente infantil despertou para a maturidade sofrida e forçada, ele compreendeu do que era feito o mundo: maldade”

Linha tênue – p.50

8. Aqueles que ficam

Esse é bem macabro também e, ao mesmo tempo, bem interessante.

“Às vezes perdemos parte de nós pelos caminhos obscuros que a vida toma, uma parte grande demais para recompor”

Linha tênue – p.53

9. Surto

10. O choro da andorinha

Um conto bem obscuro e triste.

“Qualquer lugar era melhor que aquele lugar”

Linha tênue – p.68

11. O último capítulo

12. Villani

Um daqueles contos que deixam um imenso “o que????” na nossa cabeça.

13. Tumba decrépita

14. O ranger do assoalho

Esse aqui é digno de filme de terror, bem bacana!

15. Não olhe para trás

16. We are programmed to receive

17. O livro das trevas

18. A mochila

Mais um conto sobre bullying, mas bem diferente do anterior. Gostei muito desse aqui.

“Deixava a minha irmã em sua creche, e ia para a minha escola. Chegava lá e me enfrentava com meu maior defeito da juventude: Minha péssima situação econômica”

Linha tênue – p.103

19. Submundo de um ritual

20. Dias obscuros

21. Memórias

22. O último conto

Gostei da forma como esse conto trabalha a questão do bloqueio criativo.

23. O demônio do canto

24. O quarto dos panos negros

25. Julgamento

Esse foi um dos contos mais marcante para mim, pois fala sobre transtornos mentais de maneira inicialmente metafórica, para então nos mostrar do que realmente se trata.

26. Inferno particular

27. Mentes peculiares

Achei esse conto mais poético que os outros e me surpreendi com o fato de ser possível esse lirismo mesmo em histórias macabras.

28. Por amor a você

29. Refém

Gostei do plot twist dessa narrativa. E o final é aberto também.

30. Bárbara dos Prazeres

31. O doce gosto da impiedade

32. A dança das almas

33. O silêncio das respostas

34. O monolito fálico

Para fechar o livro com mais um enorme “que???”.

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Como nossos pais – Belchior

Como nossos pais

Hoje dou início a mais um tipo de post por aqui: comentários e/ou um pouco da história por trás das músicas que eu mais gosto. Começo com “Como nossos pais”, porque essa música  — não à toa — ecoou dias e dias em minha cabeça.

A música que ficou famosa na voz de Elis Regina, foi composta e lançada por Belchior, no álbum “Alucinação”, de 1976. Elis Regina a gravou no mesmo ano, em seu álbum “Falso Brilhante”.

Não quero lhe falar, 
Meu grande amor, 
Das coisas que aprendi 
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi 
E tudo o que aconteceu comigo

1976, o ano que não terminou. O ano em que “misteriosamente” dois populares ex-presidentes morreram em menos de 4 meses: Juscelino Kubitschek em 23 de agosto e João Goulart em 6 de dezembro.

Viver é melhor que sonhar 
Eu sei que o amor 
É uma coisa boa 
Mas também sei 
Que qualquer canto 
É menor do que a vida 
De qualquer pessoa

1976, o ano que antecedeu golpes ainda maiores à democracia brasileira (em 1977 Geisel chegou a fechar o Congresso Nacional), que já sofria desde 1964, quando os anos de chumbo começaram. E foi em 1976 que Castello Branco tornou as eleições para governador indiretas e os prefeitos passaram a ser escolhidos pelos governadores (já imaginaram a beleza disso, não?).

Como nossos pais retrata a desilusão que boa parte da juventude brasileira sentia naqueles anos tão sombrios. E olha que a música foi lançada um ano antes de grandes conflitos entre polícia e estudantes.

Por isso cuidado meu bem 
Há perigo na esquina 
Eles venceram e o sinal 
Está fechado para nós 
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão 
E beijar sua menina na rua 
É que se fez o seu braço, 
O seu lábio e a sua voz

Mesmo diante de um cenário tão difícil, porém, a música ainda consegue trazer certo ar de esperança. Acho que esse foi um dos principais motivos pelos quais a deixei repetindo sem parar em minha mente.

Você me pergunta 
Pela minha paixão 
Digo que estou encantada 
Como uma nova invenção 
Eu vou ficar nesta cidade 
Não vou voltar pro sertão 
Pois vejo vir vindo no vento 
Cheiro de nova estação 

E como já deu para notar em algumas passagens anteriores, a  música também fala de amor. Afinal, falar de juventude e não falar de amor é uma missão quase impossível, não?

Já faz tempo 
Eu vi você na rua 
Cabelo ao vento 
Gente jovem reunida 
Na parede da memória 
Essa lembrança 
É o quadro que dói mais

O que mais me impressiona em Como nossos pais é o fato de que ela é ainda tão atual, outro motivo pelo qual a repeti incessantemente durante o período das eleições. Ela me parece uma alerta, um pedido para que possamos abrir nossos olhos. E, novamente, ela nos dá vontade de ter fé que as coisas podem ser melhores. É isso que esperamos, não?

Minha dor é perceber 
Que apesar de termos 
Feito tudo o que fizemos 
Ainda somos os mesmos 
E vivemos 
Ainda somos os mesmos 
E vivemos 
Como os nossos pais

Nossos ídolos 
Ainda são os mesmos 
E as aparências 
Não enganam não 
Você diz que depois deles 
Não apareceu mais ninguém 
Você pode até dizer 
Que eu estou por fora 
Ou então 
Que eu estou inventando

Mas é você 
Que ama o passado 
E que não vê 
É você 
Que ama o passado 
E que não vê 
Que o novo sempre vem

Mas mesmo tendo trechos de esperança e de amor, Como nossos pais também fala sobre imobilidade, sobre impotência. Uma música que consegue englobar também aqueles que desistiram de lutar por um bem maior e passaram a lutar por um bem próprio: a segurança e o acúmulo de dinheiro.

Hoje eu sei 
Que quem me deu a ideia 
De uma nova consciência 
E juventude 
Tá em casa 
Guardado por Deus 
Contando vil metal

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